Chavismo
Chavismo é uma ideologia política surgida na Venezuela em torno do culto à figura do ex‑presidente desse país, Hugo Chávez, que governou entre 1999 e 2013. O próprio chavismo identifica‑se como um movimento cívico‑militar de orientação socialista e bolivariano. Suas políticas governamentais foram denominadas como «Revolução bolivariana», inseridas no fenômeno político da «maré rosa». Atualmente, o chavismo é a ideologia oficial da República Bolivariana da Venezuela, sob o mandato de Nicolás Maduro.
De acordo com Elías Jaua, inicialmente os seguidores de Hugo Chávez autodenominavam‑se «bolivarianos» até o ano 2001. O termo «chavista» surgiu originalmente como uma palavra pejorativa, que posteriormente foi reivindicada pelos setores que apoiam a figura de Hugo Chávez.
Segundo artigo de opinião publicado no New York Sun em 2006, a vitória de candidatos "anti-Chávez" no Peru, na Colômbia e no México seria uma demonstração da baixa popularidade de Chávez na América Latina. No mesmo ano, segundo o jornal El Universal, de Caracas, o então presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, distanciava-se do chavismo, tendo declarado que ele próprio não era Chávez, que o Brasil não era a Venezuela, e que as instituições brasileiras são "tradicionais". Em abril de 2018, a principal revista de esquerda da França, Les Temps Modernes, fundada por Sartre e Simone de Beauvoir em 1945, apontou seu rompimento com o regime chavista venezuelano ao denunciar que a revolução bolivariana havia se revelado um grande fracasso. Em uma série de ensaios e entrevistas, a revista aborda os aspectos políticos, econômicos e sociais que levaram ao fracasso do modelo. Os críticos acusaram Hugo Chávez de populista desde o início e apontaram que parte de sua política era uma nova forma de assistencialismo não religioso. A economia estava controlada por meio de decretos presidenciais na época de Chávez, que tinha pouca experiência. Embora a intenção fosse reduzir a dependência do petróleo, as poucas empresas rentáveis quebraram. Além disso, a petroeconomia era saqueada pelos funcionários instalados pelo regime: na Suíça, aproximadamente $100 milhões em possíveis subornos haviam sido bloqueados em 2014 por um caso que envolvia um bilhão de dólares. Os procedimentos contra a PDVSA estão pendentes nos tribunais americanos e no regulador bancário suíço. Segundo um relatório do Parlamento venezuelano, foram desviados no mínimo $11 bilhões entre 2004 e 2014. Nervis Villalobos, vice-ministro de Energia Elétrica de 2004-2006, foi preso com outros três funcionários da PDVSA na Espanha em outubro de 2017.
Fontes ideológicas
Hugo Chávez governou a República Bolivariana da Venezuela de 1999 até sua morte em 2013. Seu pensamento fundamental está inserido no conceito denominado «Árvore das Três Raízes», que se inspira em três “raízes”: a raiz bolivariana (por Simón Bolívar), a raiz zamorana (por Ezequiel Zamora) e a raiz robinsoniana (por Samuel Robinson, pseudônimo de Simón Rodríguez). Por sua vez, o chavismo incorpora ideias de outros líderes da esquerda, como Karl Marx, Vladímir Lenin, Che Guevara, Antonio Gramsci, Gamal Abdel Nasser, Fidel Castro e León Trotski. Igualmente, Chávez afirmava que se inspirava no cristianismo, chegando a chamar de «socialista» a Jesus de Nazaré.
Política externa
O chavismo caracteriza‑se por sua oposição à política externa dos Estados Unidos e de governos de direita, declarando a Revolução bolivariana como «anti‑imperialista». O chavismo busca construir acordos políticos, militares e comerciais com países contrários aos interesses dos Estados Unidos (República Popular da China, Coreia do Norte, Irã, Rússia e os BRICS, etc.) O Senado dos Estados Unidos afirmou que Jorge Verstrynge influenciou a aliança da Venezuela com Irã e Hezbolá. Por outro lado, Hugo Chávez condenou Israel, apoiando a causa palestina.
Política econômica
Chávez foi crítico do dinheiro fiduciário e, em seu lugar, defensor do dinheiro lastreado, como o padrão ouro ou, em sua proposta, o petro lastreado em petróleo. Como parte da construção do socialismo, Chávez buscava fortalecer o planejamento centralizado. Ao mesmo tempo, o socialismo chavista apoiou a formação de mecanismos próprios de planejamento econômico. Igualmente, Chávez defendeu a intervenção do Estado na economia com políticas como o controle de preços, mas advertia que a construção do socialismo deveria ser realizada pelo Estado junto ao povo: «Nós não vamos rumo ao estatismo, vamos rumo ao socialismo». Por outro lado, afirmou que o estatismo conduz ao fracasso. Em defesa da intervenção estatal na economia, Chávez rejeitou o livre mercado por considerá‑lo como a lei da selva. Contudo, reconheceu que o mercado não pode ser ignorado e propôs, seguindo István Mészáros, um «mercado socialista» regulado por um Estado revolucionário e socialista.
Origens
Em 17 de dezembro de 1982, Hugo Chávez realizou o juramento do Samán de Güere no estado Aragua. Nesse juramento, ele esteve acompanhado por Felipe Antonio Acosta Carlés, Yoel Acosta Chirinos, Francisco Arias Cárdenas, Jesús Urdaneta Hernández e Raúl Isaías Baduel, todos com o objetivo de reformar o exército venezuelano e iniciar uma luta para construir uma nova república. Nesse mesmo dezembro, nasceu o Exército Bolivariano Revolucionário, renomeado em 24 de junho de 1983 como Movimiento Bolivariano Revolucionario - 200, que seguia os pensamentos de Simón Bolívar, Simón Rodríguez e Ezequiel Zamora, os quais se unem na «árvore das três raízes». Mais tarde, em 1989, ocorreu o Caracazo, reivindicado pelo próprio chavismo como uma revolta popular que faz parte de seu processo histórico.
Presidência de Chávez
Durante sua presidência, Hugo Chávez transformaria profundamente a política venezuelana, bem como a dinâmica das relações latino-americanas e caribenhas. Da mesma forma, nenhum presidente venezuelano recente teve um perfil internacional tão elevado quanto o de Hugo Chávez. Para Jesús Azcargorta, o governo de Hugo Chávez caracterizou‑se por ter se formado durante um período de altos preços do petróleo – principal fonte de renda da Venezuela – e um boom da esquerda na América Latina, o que lhe garantiu «apoios duradouros». De fato, a BBC Mundo ressalta que Hugo Chávez foi «responsável por receber a liderança da esquerda latino‑americana e renová‑la» em seu tempo.
Era pós‑Chávez: Presidência de Nicolás Maduro
Após o falecimento de Chávez, Nicolás Maduro comprometeu‑se a dar continuidade ao projeto chavista como presidente. Inclusive, o próprio Maduro afirma que não existe o «Madurismo». Por outro lado, também surgiu o termo «chavomadurismo», indicando simplesmente uma versão do mesmo chavismo. A Venezuela, durante o governo de Maduro, tem sido caracterizada por uma crise econômica, política e social, mas o oficialismo defende a tese de que há uma «guerra econômica» contra o país. Contudo, mesmo setores de esquerda – tanto chavistas quanto não chavistas – rejeitam a existência dessa «guerra econômica», responsabilizando o governo e as elites "ligadas" pela crise.
Os críticos acusaram Hugo Chávez de ser populista desde seus primórdios e apontaram que parte de sua política constituía uma nova forma de assistencialismo não religioso. A economia era controlada por meio de decretos presidenciais na época de Chávez, com pouca experiência. Embora a intenção fosse reduzir a dependência do petróleo, as poucas empresas lucrativas quebraram. Além disso, a petroeconomia foi saqueada por funcionários instalados pelo regime: na Suíça, aproximadamente $ 100 milhões em possíveis subornos foram bloqueados em 2014 por um caso envolvendo um bilhão de dólares. Os processos contra a PDVSA encontram‑se pendentes nos tribunais dos Estados Unidos e no órgão regulador bancário suíço. Segundo um relatório do Parlamento venezuelano, foram desviados não menos de $ 11 bilhões entre 2004 e 2014. Nervis Villalobos, vice‑ministro de Energia Elétrica (2004–2006) – do Ministério do Poder Popular para a Energia Elétrica – foi preso, juntamente com outros três funcionários da PDVSA, na Espanha em outubro de 2017.
A pesquisa acadêmica sobre o chavismo mostra um consenso considerável ao reconhecer sua virada precoce para a esquerda e seu forte componente populista. Contudo, além desses dois pontos, existe um desacordo significativo na literatura. Segundo Kirk A. Hawkins, os acadêmicos geralmente se dividem em dois campos: um «liberal democrático», que vê o chavismo como uma instância de retrocesso democrático, e um «democrático radical», que defende o chavismo como o cumprimento das aspirações de uma democracia participativa. Hawkins argumenta que a divisão mais importante entre esses dois grupos não é metodológica nem teórica, mas ideológica – trata‑se de uma divisão nos pressupostos normativos básicos da democracia: liberalismo versus radicalismo.
Maduro e Chávez foram apontados como autoritários, e diversas fontes também os consideram ditadores, sobretudo após a suspensão do movimento para revogar o mandato de Maduro no final de 2016, • Brodzinsky, Sibylla (21 de outubro de 2016). «Venezuelans warn of 'dictatorship' after officials block bid to recall Maduro». The Guardian. Consultado em 10 de dezembro de 2016 • «Almagro: Maduro becomes a dictator by denying Venezuelans the right to decide their future». CNN en Español. 24 de agosto de 2016. Consultado em 10 de dezembro de 2016. Cópia arquivada em 8 de março de 2026 </ref> e ocorreu uma posterior crise institucional na Venezuela em 29 de março de 2017, na qual o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela se autoconferiu as funções da Assembleia Nacional da Venezuela, medida considerada pela própria Assembleia e pela Promotoria Geral como uma "ruptura do fio constitucional" e/ou até mesmo um autogolpe de Estado. • «Attorney General: "TSJ rulings represent a rupture of the constitutional thread"» (em inglês). Consultado em 24 de junho de 2017. Cópia arquivada em 8 de junho de 2017 </ref> Sob condições eleitorais consideradas irregulares, incluindo o uso das máquinas de votação da Smartmatic. • Charner, Flora and Euan McKirdy and Steve Almasy (3 de agosto de 2017). «Controversial Venezuela vote to be investigated, attorney general says». CNN. Consultado em 4 de março de 2019. Cópia arquivada em 11 de abril de 2026 • Casey, Nicholas (2 de agosto de 2017). «Venezuela Reported False Election Turnout, Voting Company Says». The New York Times. Consultado em 4 de março de 2019. Cópia arquivada em 3 de janeiro de 2026 • Brodzinsky, Sibylla and Daniel Boffey (2 de agosto de 2019). «40 countries protest Venezuela's new assembly amid fraud accusations». The Guardian. Consultado em 4 de março de 2019 • Phippen, J. Weston (31 de julho de 2017). «Violence and Claims of Fraud in Venezuela's Controversial Vote». Consultado em 4 de março de 2019. Cópia arquivada em 10 de março de 2026 </ref> Em 20 de maio de 2018, as eleições presidenciais foram convocadas prematuramente e Maduro foi reeleito para um período adicional de seis anos. Os líderes opositores foram presos, exilados ou inabilitados para concorrer; não houve observação internacional; e foram empregadas táticas que sugeriam aos eleitores que poderiam perder seus empregos ou benefícios sociais se não votassem no chavismo. A Oposição ao chavismo, cerca de 51 países, a Organização dos Estados Americanos, a União Europeia (UE), o Grupo de Lima e o G‑7 não reconheceram sua reeleição, afirmando que tais comícios foram ilegais, careciam de garantias mínimas e não atendiam às normas internacionais para processos eleitorais. • «OEA approves resolution that does not recognize Nicolás Maduro's re‑election in Venezuela». El Universo (em espanhol). 5 de junho de 2018. Consultado em 8 de junho de 2018. Cópia arquivada em 6 de março de 2026 • «G7 countries and the European Union do not recognize Maduro's re‑election». Sandy Aveledo – Venezuelan news portal (em espanhol). 23 de maio de 2018. Consultado em 8 de junho de 2018. Cópia arquivada em 12 de junho de 2018 • «The Lima Group does not recognize Maduro's re‑election and reduces diplomatic relations». EFE. Consultado em 8 de junho de 2018. Cópia arquivada em 13 de agosto de 2022


