Charqueada
Charqueada é a área da propriedade rural onde se produz o charque, uma carne salgada e seca ao sol. Inclui um matadouro, onde os animais eram abatidos, e o saladeiro, onde o sal era aplicado à carne fresca. A área inclui ainda galpões cobertos onde a carne salgada é exposta para o processo de desidratação. A indústria saladeiril e o ciclo do charque, deixaram suas marcas no extremo sul do Brasil, tornando Pelotas referência histórica e cultural.
A consolidação das charqueadas, grandes propriedades rurais de caráter industrial, só se dá no século XIX, às margens dos arroios Pelotas, Santa Bárbara, Moreira e canal São Gonçalo. O gado, matéria-prima, era proveniente de toda a região da campanha rio-grandense, era fruto da multiplicação de exemplares trazidos pelos espanhóis para a Banda Oriental no início do século XVII. As reses eram introduzidas em Pelotas , entrando através do Passo do Fragata e vendido na Tablada, grande local dos remates na região das Três Vendas. A safra era sazonal e durava de novembro a abril. As charqueadas tinham em média 80 escravos, ocupados nos intervalos da safra em olarias nas próprias charqueadas, derrubadas de mato e plantações de milho, feijão e abóbora nas pequenas chácaras que cada charqueador possuía na Serra dos Tapes, onde ficam hoje a Cascata e as colônias de Pelotas. Os navios que levavam o charque não voltavam vazios. Traziam mantimentos, livros, revistas de moda, móveis, louças da Europa - e açúcar do Nordeste, consolidando a tradição do doce em Pelotas. "Embora aqui não se plantasse cana-de-açúcar, os doces de Pelotas chegaram a ser rivais dos do Nordeste, região açucareira por excelência."
Início do ciclo
De acordo com Daniel Balhego, após extensa pesquisa bibliográfica, até 1777 a produção da carne conservada através do sal e do sol era exclusividade do nordeste. É nesse referido ano que ocorre o Tratado de Santo Ildefonso (1777), trazendo estabilidade bélica e política à região, campo de disputas entre as coroas rivais da ´Península Ibérica, e a trágica "Seca dos três Setes" que irá dizimar grande parte dos rebanhos bovinos daquela região. Outro fator trágico foi o extermínio dos índios Guaranis pertencentes aos Sete Povos das Missões e a expulsão dos padres jesuítas que conjuntamente criavam um número significativo de bovinos que, abandonados, foram se multiplicando de forma considerável, o chamado gado chucro, ou gado cimarrón, a ponto de chamar a atenção dos bandeirantes que se dirigiam até o território Rio Grandense não para escravizar indígenas ou procurar pedras ou metais preciosos, mas sim para capturar mulas e bovinos para a posterior venda nas feiras paulistas, principalmente Sorocaba.
Fim do ciclo
Uma das causas foi a abolição da escravatura: houve o desaparecimento dos compradores que com o charque alimentavam seus escravos nas mineração do ouro de Minas Gerais e plantações de cana-de-açúcar na América Central e América do Sul, principalmente. Outra, foi o advento dos frigoríficos, na década de 1910. Em 1918, restavam apenas cinco charqueadas em Pelotas. "O coronel Pedro Osório, que começou como charqueador, passou a plantar arroz em 1905, transformando-se no maior industrial do setor no mundo e conhecido como Rei do Arroz".
Imagem: Eduardo Amorim · BY-NC-SA · Openverse
O trabalho nas charqueadas por muito tempo foi feito basicamente por escravos, era pesado e degradante, e o ambiente era altamente insalubre. Segundo Ester Gutierrez, "além de toda a rudeza do trabalho e do tratamento dado à população servil, do mau cheiro continuamente reinante, da sujeira e da presença de feras e animais peçonhentos e pestilentos, o espaço interno da produção do charque acompanhava o quadro macabro, tétrico, fétido e pestífero que dominava o seu meio ambiente". O escritor pelotense Vítor Valpírio (1853-1939) deixou um relato no conto Pai Felipe: "Vai a safra a todo o rigor e a negrada estrompada pelo cruel serviço da charqueada geme e resmunga sobre o boi que a perita faca acaba de sangrar. [...] Pelos regos sujos da charqueada que conduzem ao rio, o sangue em ondas negras corria velozmente em borbotões". À noite, enquanto os donos do negócio dormiam tranquilos em seus palacetes, "arrebentados de cansaço e de frio sofrem a dureza da sorte os desvalidos filhos da escravidão". Comentando o texto, o professor da Ufpel Mauro Póvoas disse que ele "ilumina algo às vezes esquecido: as charqueadas trouxeram riqueza e progresso a Pelotas, mas é preciso ressaltar sempre que elas se assentaram na servidão, na opressão e no derramamento de sangue escravo".


