Massacre do Charlie Hebdo
Massacre do Charlie Hebdo foi um atentado terrorista que atingiu o jornal satírico francês Charlie Hebdo em 7 de janeiro de 2015, em Paris, resultando em doze pessoas mortas e cinco feridas gravemente.
Sátiras do Charlie Hebdo
Charlie Hebdo é um jornal semanal satírico francês, com caricaturas, piadas mas também artigos de fundo. Com um tom irreverente e estridente, a publicação é fortemente antirreligiosa e de esquerda, sendo que costuma publicar artigos sobre extrema-direita, catolicismo, islamismo, judaísmo, política e cultura. O jornal foi publicado pela primeira vez de 1969 a 1981. Ele foi recriado em 1992. A publicação, que tem um histórico de polêmicas, foi alvo de um processo judicial sem sucesso aberto por entidades islâmicas em 2006 por conta de charges do Jyllands-Posten sobre Maomé. A capa de uma edição de 2011, apelidada de Charia Hebdo, mostrava uma caricatura do profeta islâmico Maomé. O escritório do jornal, na época no 20.º arrondissement, foi alvo de uma explosão causada por uma bomba e seu site foi hackeado.
Secularismo e blasfêmia
Na França, a lei da blasfêmia deixou de existir com a emancipação progressiva entre o Estado e a Igreja Católica a partir da Revolução Francesa. Na França, o princípio de laïcité — a separação da igreja e do estado — foi consagrado na legislação francesa em 1905, e em 1945 passou a fazer parte da Constituição. De acordo com seus termos, o governo e todas as administrações e serviços públicos devem ser cegos quanto à religião e seus representantes devem abster-se de mostrar qualquer sinal público de sua religião, mas os cidadãos e organizações privadas são livres para praticar e expressar a religião de sua escolha onde e como desejarem (embora a discriminação com base na religião seja proibida).
Em 7 de janeiro de 2015, cerca de 11h30min no horário local (10h30min UTC), dois homens vestidos de preto e mascarados, armados com fuzis Kalashnikov, uma espingarda e um lança-granadas-foguete invadiram a sede do Charlie Hebdo em Paris. Eles abriram fogo com armas automáticas enquanto gritavam "Allahu Akbar", como registrado em um vídeo. Eles mataram 12 pessoas e feriram outras 11 pessoas. Dois dos mortos eram policiais. Antes do tiroteio, os atiradores invadiram o número 6 da rua Nicolas-Appert, onde ficavam os arquivos do jornal. Os pistoleiros supostamente gritaram: "É aqui o Charlie Hebdo?", antes de perceberem que estavam no endereço errado e fugirem. Eles foram para a sede da revista, no número 10 da rua Nicolas-Appert. A cartunista Corinne Rey relatou que dois homens armados e encapuzados, que falavam um francês perfeito, ameaçaram a vida de sua filha a quem ela havia pego na creche e forçaram-na a digitar o código para abrir a porta do edifício. Os homens foram para um escritório no segundo andar, onde os funcionários estavam em uma reunião editorial com cerca de 15 membros presentes. O tiroteio durou de cinco a dez minutos. Testemunhas relataram que os atiradores procuravam os membros da equipe pelo nome antes de executá-los com tiros na cabeça. Outras testemunhas relataram que os atiradores se identificaram como pertencentes à Al-Qaeda no Iêmen.
Motivos
O ódio extremo pelas caricaturas do Charlie Hebdo, que fizeram piadas sobre líderes islâmicos, inclusive Maomé, é percebido como a principal razão para este massacre. O ex-vice-diretor do CIA, Michael J. Morell, propôs que a motivação dos atacantes era "absolutamente clara: tentar fechar uma organização de mídia que satirizava o profeta Maomé". Em 7 de janeiro, o último tweet do Charlie Hebdo mostrava uma caricatura do líder do grupo jihadista Estado Islâmico do Iraque e do Levante, Abu Bakr al-Baghdadi. No cartoon sarcástico oferece os melhores desejos a Al-Baghdadi, para os quais ele responde: "e, especialmente, uma boa saúde." O cartoon é assinado "HONORE", visto que foi desenhado por Philippe Honoré, que morreu no ataque mais tarde naquele dia. Foi seu último tweet antes da ocorrência do massacre.
Vítimas
Das doze vítimas, 11 morreram dentro da sede do editorial e uma do lado de fora. Dois eram agentes policiais responsáveis pela segurança do prédio em virtude das ameaças que o editorial vinha recebendo de extremistas. O policial Franck Brinsolaro foi morto dentro do prédio, e o policial Ahmed Merabet, do lado de fora. Das outras 10 vítimas, 8 eram membros da equipe editorial do jornal. Eram estes 8, os cartunistas Charb, Cabu, Tignous, Honoré e Georges Wolinski, o economista Bernard Maris, a colunista e psicanalista Elsa Cayat e o corrector Mustapha Ourrad. Os outros dois eram o editor Michel Renaud convidado por Cabu e Frédéric Boisseau, empregado da Sodexo que trabalhava no local.
Feridos
Uma mulher motorista também teve seu carro atingido por tiros enquanto os terroristas fugiam. Três pessoas na reunião (dois membros da equipe, Sigolène Vinson e Laurent Léger, e Gerard Gaillard, um convidado que acompanhava Michel Renaud) saíram ilesos. Um segundo funcionário que estava no lobby também saiu ileso.
Irmãos Kouachi
Saïd Kouachi (7 de setembro de 1980 – 9 de janeiro de 2015) e Chérif Kouachi (29 de novembro de 1982 – 9 de janeiro de 2015) foram identificados pela polícia francesa como os principais suspeitos de serem os homens armados e mascarados que provocaram o massacre. Os cidadãos franceses e muçulmanos são dois franco-argelinos, de Gennevilliers, com idades de 34 e 32 anos, respectivamente. Seus pais eram imigrantes argelinos que vieram para a França. Os dois foram abandonados quando eram jovens, sendo que Chérif Kouachi foi criado em um orfanato em Rennes antes de se juntar ao seu irmão em Paris. Chérif Kouachi foi preso em janeiro de 2005, aos 22 anos, quando ele e outro homem estavam prestes a partir para a Síria, em rota para o Iraque. Ele se tornou um estudante de Farid Benyettou, um pregador muçulmano radical na mesquita Addawa no 19.º arrondissement de Paris. Kouachi queria atacar alvos judeus na França, mas foi aconselhado por Benyettou de que a França, ao contrário do Iraque, não era "uma terra de jihad".
Outros suspeitos
Um jovem francês de 18 anos de idade, desempregado, muçulmano, de ascendência do Norte da África e de nacionalidade desconhecida foi identificado pela polícia como um terceiro suspeito no tiroteio, acusado de dirigir o carro de fuga usado pelos terroristas. Acredita-se ter vivido recentemente, em Charleville-Mézières, a cerca de 200 quilômetros a nordeste de Paris, perto da fronteira da França com a Bélgica. Em 8 de janeiro, foi relatado que ele havia se entregado em uma delegacia Charleville-Mézières. O homem disse que estava na sala de aula no momento do massacre. Seu envolvimento no ataque é questionável, visto que todos os seus colegas testemunharam que ele estava presente na escola durante o ataque. A polícia diz que ele não está a ser acusado.
França
Os sobreviventes da equipe do Charlie Hebdo anunciaram que a publicação vai continuar, sendo que a próxima edição semanal do jornal será publicada como de costume. Com oito páginas, teve metade do seu tamanho normal. A edição do Charlie Hebdo após o massacre teve uma tiragem de 7 milhões de cópias traduzidas para seis idiomas, em comparação com as habituais 60 mil cópias semanais. A capa mostra Maomé chorando e segurando um cartaz onde está escrito "Je suis Charlie" e é subtitulada com a frase "Tudo está perdoado" (em francês: Tout est pardonné). Essa edição especial do Charlie Hebdo foi também vendida fora da França. O Fundo para a Inovação Digital doou 250 mil euros para apoiar a revista neste momento. O Guardian Media Group anunciou uma doação separada de 100 mil libras esterlinas para a mesma causa.
Segurança
Após o ataque, a França aumentou o seu alerta de terrorismo ao seu mais alto nível e colocou soldados nas ruas de Paris, nos sistema de transportes públicos, em sedes de empresas de mídia, locais de culto e na Torre Eiffel. O Ministério do Exterior britânico alertou aos seus cidadãos sobre viagens a Paris. O Departamento de Polícia de Nova York ordenou medidas extras de segurança para os escritórios do Consulado Geral da França em Nova York, em Upper East Side, Manhattan. Na Dinamarca, que foi o centro de uma polêmica sobre caricaturas de Maomé em 2005, a segurança foi reforçada em todos os meios de comunicação. Horas depois do tiroteio, o Ministro do Interior da Espanha, Jorge Fernández Díaz, disse que o nível de segurança antiterrorista do país foi atualizado e que o país compartilhava informações com a França em relação aos ataques. A Espanha aumentou a segurança em torno de locais públicos, como estações ferroviárias e aumentou a presença da polícia nas ruas de todas as cidades do país.
Manifestações públicas
Várias manifestações foram realizadas contra o massacre na Place de la République, em Paris, bem como outras cidades da França, como Toulouse, de Nice, Lyon, Marselha e Rennes. Estes encontros levaram que o dia 8 de janeiro fosse declarado como um dia oficial de luto pelo presidente francês, François Hollande. Os defensores da liberdade de expressão usam o slogan "Je suis Charlie" (francês para "Eu sou Charlie") contra a chacina. A declaração identifica quem a pronuncia com aqueles que morreram no massacre do Charlie Hebdo, e por extensão, é um protesto pela liberdade de expressão e resistência às ameaças armadas. Foi usada a hashtag #jesuischarlie no Twitter, como impresso ou cartazes feitos à mão e exibido em celulares durante as vigílias e em muitos sites, especialmente sites de mídia, tais como o do Le Monde. Je suis Charlie rapidamente se tornou um dos trending topics do Twitter no mundo após o ataque. A embaixada dos Estados Unidos em Paris mudou sua foto de perfil no Twitter para uma imagem com a frase "Je suis Charlie".
Tiros em Montrouge
Em 8 de janeiro, um homem chamado Amedy Coulibaly, de 32 anos, atirou e matou a policial Clarissa Jean-Philippe no cruzamento das avenidas Pierre Brossolette e la Paix, em Montrouge, um subúrbio a sul de Paris. Um varredor de rua também foi gravemente ferido no ataque. Fontes da imprensa afirmaram que Coulibaly era do mesmo grupo jihadista dos atiradores que executaram o ataque ao Charlie Hebdo e a polícia francesa disse que há uma conexão entre os incidentes.
Cerco em Porte de Vincennes
No dia 9 de janeiro, Amedy Coulibaly atacou um supermercado kasher da rede Hypercacher, no bairro de Porte de Vincennes, no 12.º arrondissement de Paris. Ele fez várias pessoas reféns e matou quatro das vítimas. Ele tinha uma cúmplice, Hayat Boumeddiene, que acredita-se ser esposa de Coulibaly. Mais tarde, foi confirmado que Coulibaly era o atirador em Montrouge. Ele estava armado com dois rifles Kalashnikov quando entrou na loja. Uma testemunha afirmou: "As pessoas estavam comprando coisas quando um homem entrou com um rifle e começou a atirar em todas as direções. Eu corri para fora. O tiroteio continuou por alguns segundos". O The Guardian informou que entrevistou Coulibaly durante o cerco ao supermercado, sendo que ele alegou que "cometeu esses atos para defender os 'muçulmanos oprimidos", principalmente na Palestina, e que escolheu como alvo uma mercearia kosher porque ele queria atingir judeus".
Responsáveis
Amedy Coulibaly (1982 – 9 janeiro de 2015) foi identificado como o principal suspeito dos tiros de Montrouge e do cerco de Porte de Vincennes (veja abaixo). Ele nasceu em Juvisy-sur-Orge, um subúrbio de Paris. Aos 17 anos de idade, ele foi condenado várias vezes por roubo e pelo menos uma vez por tráfico de drogas. Um relatório de um perito psiquiatra preparado para um tribunal parisiense verificou que Coulibaly tinha uma "personalidade imatura e psicopata" e "pobres poderes de introspecção". Coulibaly conheceu Chérif Kouachi na prisão enquanto cumpria sua sentença por um assalto à mão armada que ocorreu em 2005. Acredita-se que tenha se convertido ao islamismo radical na mesma época que Chérif. Algum tempo depois de cumprir sua sentença de 2005, ele se casou com Hayat Boumeddiene em uma cerimônia religiosa, ao contrário de uma cerimônia civil, que é o único método de casamento legalmente aceito pela França. Em 15 de julho de 2009, ele esteve envolvido em uma campanha governamental pela promoção do emprego dos jovens, quando Coulibaly, juntamente com cerca de 500 outras pessoas, reuniram-se com o então presidente francês, Nicolas Sarkozy.
Islâmica
O Conselho Francês do Culto Muçulmano e o Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha manifestaram-se contra o ataque, ao classificar o acontecido como uma "brutalidade e selvageria." A União das Organizações Islâmicas da França divulgou um comunicado condenando o massacre, ao afirmar que aqueles que estão por trás do ataque "venderam sua alma para o inferno". O vice-presidente da comunidade amadita nos Estados Unidos também condenou o ataque, dizendo que "os culpados por trás esta atrocidade violaram toda a doutrina islâmica de compaixão, justiça e paz." A Liga dos Estados Árabes lançou uma condenação coletiva ao atentado. A Universidade Al-Azhar, também divulgou um comunicado de denúncia, que a violência nunca foi adequada, independentemente do "crime cometido contra sentimentos muçulmanos sagrados".
Em 2 de Setembro de 2020, começou o julgamento de catorze suspeitos de envolvimento no ataque ao Charlie Hebdo e ao supermercado kosher Hyper Cacher. Coincidindo com o início do julgamento o Charlie Hebdo voltou a publicar, na sua primeira página, as caricaturas de Maomé, com a frase: "Tout ça pour ça" ("Tudo isso por isto"). Em 16 de Dezembro de 2020, a justiça francesa condenou todos os catorze acusados do ataque ao Charlie Hebdo com penas que vão dos quatro anos de prisão até à prisão perpétua. Foram julgados 13 homens e uma mulher, acusados de serem cúmplices dos três terroristas que realizaram os ataques em Paris. Três réus (dois deles alvo das penas mais graves) foram julgados à revelia.


