Cerco de Malta
O Cerco de Malta, também conhecido como o Grande Cerco de Malta, aconteceu em 1565, quando o Império Otomano quis conquistar a ilha estratégica, sede da Ordem de Malta.
A Ordem dos Cavaleiros Hospitalários de São João de Jerusalém trocou de nome em 1530 para Ordem de Malta - apelidada "A Religião"-, desde que em 26 de outubro desse ano, Philippe Villiers de l’Isle-Adam, Grão-Mestre da Ordem, chegou junto com seus cavaleiros ao Grão-Porto de Malta, para tomar posse da ilha, cedida pelo imperador Carlos V. Sete anos antes, no fim de 1522, os Cavaleiros haviam sido expulsos de sua base em Rodes pelo Sultão otomano, Solimão, o Magnífico, depois de um cerco de seis meses. Entre 1523 e 1530 os Cavaleiros não tiveram assentamento algum, até que o Imperador Habsburgo lhes ofereceu as ilhas de Malta e Gozo em troca de um pagamento simbólico anual, consistido em um falcão, que seria enviado ao Vice-rei da Sicília e uma missa a celebrar no Dia de Todos os Santos. Também lhes entregou Trípoli, cidade localizada em um território hostil, mas que o imperador pretendia utilizar para manter livre dos corsários de Berbéria, tributários dos otomanos.
Depois do episódio de Djerba, a possibilidade de que os otomanos organizassem um ataque iminente contra Malta aumentou em grande escala; consciente disso, em agosto de 1560 Jean de la Valette enviou uma ordem a todos os priores da Ordem instando aos cavaleiros a estar preparados para apresentarem-se em Malta tão pronto como se publicasse uma citazione (citação). Assim, os turcos cometeram um grave erro estratégico deixando passar a oportunidade de atacar a ilha nesse mesmo momento, com a frota mediterrânea espanhola acabada e não cinco anos depois, nos quais a Espanha teve tempo de refazer sua armada. Apesar do qual, "a Religião" continuou com grande êxito praticando o corso com as embarcações comerciais turcas. Em meados de 1564, Romegas, um dos marinheiros mais notáveis da Ordem, capturou certo número de naves de importância, entre as quais se incluía uma pertencente ao Eunuco Maior do Harém, fazendo prisioneiros vários personagens de importância, como o governador do Cairo, o de Alexandria e a antiga tutora da irmã de Solimão. Os êxitos dos corsários de Romegas deram aos turcos um casus belli plausível e, no fim de 1564, a Sublime Porta decidiu tomar medidas para repetir o êxito de 1522, mas desta vez, mais longe da Anatólia, e muito mais perto dos portos espanhóis e das Repúblicas marítimas italianas.
O Grão-Turco, no cume de seu poderio, havia reunido para a tomada de Malta uma das maiores frotas vistas até então. Segundo o registro de Giacomo Bosio, historiador oficial da Ordem, numa das crônicas mais precoces e detalhadas do cerco, a frota se compunha de 193 navios, entre os quais havia 131 galeras, sete galeotas (pequenas galeras) e seis galeaças (grandes galeras, menos ágeis mas com mais potência de fogo), 8 mahonas (grandes galeras de transporte), 11 veleiros com provisões e 3 mais para os cavalos. Algumas cartas do Vice-rei de Sicília, das datas em que houve o assédio proporcionam números similares. As naves transportavam um grande conjunto de instrumentos para o assédio, consistia em 64 peças, entre elas 4 enormes canhões que disparavam balas de 130 libras e um grande pedreiro que arremessava projéteis de 7 pés de circunferência. O diário do Cerco do mercenário italiano, Francisco Balbi di Correggio, é outra fonte contemporânea e fiável sobre as forças em pugna:
A imponente esquadra turca, que partiu de Constantinopla em março, avistou Malta no amanhecer da sexta-feira 18 de maio, no entanto, não desembarcou imediatamente, mas sim costeou a ilha até o sul e finalmente ancorou no porto de Marsaxlokk (Marsa Sirocco), a cerca de 10 quilômetros do Gran Puerto. De acordo com a maioria dos relatos, em particular com o de Balbi, ao desembarcarem os turcos, houve discrepâncias entre o chefe das forças de terra, o vizir Quizil Amedli Mustafá Paxá e o almirante, Piale Paxá. Piale queria, antes de mais nada, tomar o forte de São Elmo, para dominar, assim, o Gran Puerto e dispor de um ancoradouro a salvo de siroco. Por outro lado, Mustafá pretendia atacar a desprotegida capital velha, Mdina, que estava no centro da ilha, e lançar-se diretamente sobre os fortes de Santo Ângelo e São Miguel por terra, já que, ante a queda destes, pouco resistiriam as fortalezas menores. Se impôs o critério de Piale, convencidos de que São Elmo apenas resistiria alguns dias. Assim, no dia 24 de maio, começaram a entrincheirar-se em torno do pequeno forte, instalando 21 canhões de combate e começando imediatamente o bombardeio.
Combates pelo forte de São Elmo
O forte de São Elmo estava sendo defendido por aproximadamente 100 cavaleiros e 500 soldados, os que La Valette havia ordenado lutarem até o fim, tentando aguentar até que chegassem os reforços prometidos pelo Marquês de Villafranca, Vice-rei da Sicília. O contínuo bombardeio reduziu o forte a escombros em menos de uma semana, mas La Valette evacuava os feridos e reabastecia o forte durante a noite pelo porto. Apesar disso, no dia 8 de junho, os cavaleiros se encontravam na margem do motim e enviaram uma mensagem ao Grão-Mestre pedindo licença para fazer uma saída e poder morrer com a espada na mão. A resposta de La Valette foi pagar aos soldados e enviar uma comissão através do porto para conhecer o estado da defesa. Quando os comissionados, deram uma opinião contraposta, o Grão-Mestre disse que poderia absolvê-los se os cavaleiros tivessem medo de morrer do modo que lhes havia ordenado.
Segundo grande assalto
Enquanto os turcos haviam cercado Birgu e Senglea com sua tropa de assédio de 64 peças, a cidade era objeto do que, provavelmente, foi o bombardeio contínuo mais duro que se havia produzido na história até esse momento (Balbi assegura que se dispararam 130 000 balas de canhão no curso do assédio). Havendo destruído suficientemente um dos bastiões chaves da cidade, Mustafá ordenou outros dois assaltos massivos simultâneos em 7 de agosto, um contra o Forte de São Miguel e outro contra a mesma Birgu. Nesta ocasião, os turcos conseguiram atravessar as muralhas da cidade e apesar de o Grão-Mestre ter combatido em primeira linha, sua derrota parecia segura. Mas no último momento, inesperadamente os invasores retrocederam. A razão foi que o capitão de cavalaria Vincenzo Anastagi, em sua saída diária de Mdina, no interior da ilha, havia atacado o desprotegido hospital de campo turco, massacrando os doentes e feridos e desorganizando a retaguarda turca. Os turcos, pensando que haviam chegado os reforços cristãos de Sicília, interromperam o ataque. Unido aos esforços para a tomada de São Elmo, que, no fim, resultaram excessivos - outro erro estratégico do comando turco - visto a posteriori, pode ser não se encarregar dos cavaleiros dispersos pelo resto da ilha.
Último grande assalto
Depois do ataque de 7 de agosto, os turcos retomaram os bombardeios a São Miguel e Birgu, dando início a um último assalto massivo contra a cidade entre 19 e 21 de agosto. O que aconteceu durante esses dias de intensa luta está muito claro. Bradford (no momento fundamental para o assédio) fala de uma mina turca perfurada até as muralhas da cidade e que o Grão-Mestre salvou a situação correndo até a brecha. Balbi, no início de suas anotações diárias, do dia 20 de agosto, disse somente que La Valetta foi advertido de que os turcos haviam se internado nas muralhas; o Grão-Mestre correu até "o posto ameaçado, onde sua presença surpreendeu os trabalhadores. Espada à mão, permaneceu no ponto mais perigoso até que os turcos se retiraram". Bosio não faz nenhuma menção a que os turcos tivessem detonado uma mina; contudo escreve que o pânico se difundiu quando os estandartes turcos surgiram por trás das muralhas, mas que ao se dirigir até esse lugar, o Grão-Mestre encontrou inimigos. Entretanto, um canhoneiro no alto do Forte de Santo Ângelo, tomado pelo mesmo pânico, matou grande número de habitantes por "fogo amigo".
Últimas tentativas e retirada turca
Ainda que tivessem continuado o bombardeio e os assaltos menores, os invasores se consumiam de desespero. O socorro de 9 000 homens enviado da Sicília foi disperso por uma ventania muito forte e fria, e teve que voltar ao porto para reparar. Em 30 de agosto, aproveitando as chuvas que deixaram fora de jogo os arcabuzes e a artilharia cristã, os turcos tentaram seus assaltos contra o Forte de São Miguel. Primeiro os turcos tentaram com a ajuda de uma manta, pequena máquina de assédio coberta por escudos, depois com o uso de uma autêntica torre de cerco. Em ambos os casos, os engenheiros malteses construíram um túnel através das ruínas e destruíram as construções com precisas salvas de balas encadeadas, e os assaltantes foram repelidos com pedras, bestas e com armas brancas.
Ainda que algumas das baixas turcas, sem dúvida, tenham sido demolidoras, seu número concreto é tão controverso quanto o de invasores. Balbi dispõe um valor de 30 000, e outras fontes cerca de 25 000. Em todo caso, muitos dos mortos eram janízaros e cipayos, tropas seletas de difícil substituição. Por sua parte, Malta havia perdido um terço de seus cavaleiros e um terço de seus habitantes. Birgu e Senglea haviam ficado totalmente arrasadas, e seriam incapazes de resistir a um novo ataque turco. La Valette, esgotado, sugeriu inclusive a derrotista ideia de abandonar Malta e arrasá-la por completo, e que os cavaleiros se instalassem em um porto siciliano, possivelmente em Siracusa. Os espanhóis, em especial o vice-rei García de Toledo, dissuadiram o Grão-Mestre de tal ideia. Porém, o envelhecido La Valette era um homem já sem forças e arrasado pelos rigores do assédio, e depois de uma breve doença, morreu ao cabo de três anos, em 21 de agosto de 1568.


