Cândido Aragonez de Faria
Cândido Aragonez de Faria foi um jornalista, caricaturista, ilustrador e professor brasileiro, considerado um dos principais artistas gráficos do humor e da publicidade em sua geração.
Era filho do ilustre médico laranjeirense José Cândido Faria e da espanhola Josefa Aragonez, crescendo em circunstâncias confortáveis. Teve os irmãos Adolfo, Júlio e Henrique. Em 1855, morto o pai, a família se muda para o Rio de Janeiro com seus oito escravos. A mãe falece em 1860, deixando os filhos sob a tutela de seu irmão Antônio Amálio Aragonez e amparados por uma pensão concedida pelo Império. Depois de passar pela guarda de dois outros tutores, em 1869 Cândido foi emancipado. Estudou na Academia Imperial de Belas Artes e talvez no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Cândido concluiu seus estudos em 1866 e no mesmo ano já aparece profissionalmente como caricaturista do jornal A Pacotilha, e pouco depois é redator e ilustrador de A Folha Fluminense. Em 1869 fundou com seu irmão Adolfo o semanário O Mosquito, e em 1871 comprou O Lobisomem de Antônio Alves do Vale, passando a fazer alguns trabalhos em parceria com este ilustrador.
Com as gravuras d'O Mosquito ele começa a firmar seu nome como um dos mais solicitados caricaturistas da capital do Império. Por certo tempo assinou todas as ilustrações do periódico, que prometia "ferroadas políticas, teatrais e literárias". No início as caricaturas tratavam de temas prosaicos, especialmente os costumes, as modas, os pequenos vícios e as insuficiências humanos. Depois incorpora temas políticos e em 1871 se lança na discussão de assuntos internacionais. Nesta altura Faria deixa O Mosquito, para o qual contribuiria a partir de então apenas esporadicamente, e vai ilustrar A Vida Fluminense. Em O Mosquito Faria já dera provas de saber articular histórias e situações curtas em quadrinhos, e provavelmente por isso em 1872 deu continuidade às As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte, a primeira história em quadrinhos brasileira, lançada por Angelo Agostini em 1869, ilustrando os cinco últimos dos 14 capítulos da obra. Em 1874 fundou O Mephistópheles, que lançou e ilustrou inteiramente por dois anos, e com ele sua atuação é considerada uma das mais virulentas do período, especialmente pelo ataque ao clero por ocasião da Questão Religiosa, destacando-se também pela qualidade gráfica; na opinião de Herman Lima, autor de uma biografia fundamental, ali deixaria "algumas de suas mais belas composições, não somente pelo alcance político das legendas, como pelo vigor do desenho".
Chega enfim a Buenos Aires em meados de 1879. Não são claros os motivos que o levaram a sair do Brasil. Talvez Buenos Aires, um dos principais centros culturais da América, lhe parecesse um mercado mais promissor, mas encontrou um contexto tumultuado por guerras contra os índios, uma guerra civil e outros problemas. Apesar disso, sua estreia foi auspiciosa. Não demorou para lançar La Cotorra, em outubro de 1879 estava circulando, apresentando ao público a primeira revista colorida da América do Sul, avanço conseguido através da técnica da cromolitografia. Faria fez praticamente todas as ilustrações dos 43 números. Colaborou com El Mosquito, jornal que provavelmente foi a inspiração para O Mosquito brasileiro, e para o qual criou várias peças, e ilustrou com exclusividade 91 edições do diário El Gráfico, que versava sobre política, moda, comércio e notícias diversas. Faria havia desde o início contado com a colaboração do ilustrador argentino Carlos Clérice, mas com a ascensão ao poder de Julio Argentino Roca foi imposta a censura à imprensa, e então os parceiros se voltaram para a impressão e ilustração de partituras musicais para as editoras Hartmann, Guión e Rolon. Roca determinou o fechamento da Cotorra em agosto de 1880; El Mosquito sobreviveu, porque havia se mostrado crítico dos governos anteriores e aderiu ao programa do novo governo. Mas o contexto se tornara pouco favorável. Clérice partiu para a França em 1882 com irmãos e toda a família, fundando em Paris a importante gráfica Clérice Fréres, publicando principalmente cartazes.
Cândido Aragonez de Faria é tido hoje como um dos maiores caricaturistas e ilustradores do Brasil e um dos maiores do seu tempo, além de ter sido um grande professor. Para Lima, "sua arte se impõe como a de um chargista de imensos recursos. O traço é de uma firmeza sem vacilações, ao mesmo tempo vigoroso e elegante, seja no recorte de cenas de interior, seja nos flagrantes de rua. Suas damas retratam maravilhosamente a vida social do Segundo Império, com suas pequenas comédias, as suas intrigas de salão e alcova, as miúdas misérias da vida conjugal". Falando sobre suas sátiras de políticos, Lima disse que o artista os apanha "em situações da maior comicidade, e de um vigor de interpretação satírica em que nenhum contemporâneo o ultrapassava, nem mesmo mestre Agostini, de uma arte aliás inteiramente diversa, pois suas caricaturas foram sempre mais no sentido moderno da caracterização do que de deformação". Segundo Gaudêncio Junior, no geral, em suas obras manteve constante e ferrenha oposição ao governo, "dedicou-se a retratar as profundas transformações dos costumes de então, tais como os tipos cariocas, os diálogos amorosos, a moda e as cocotes, os espetáculos, os salões de pintura, a música e a dança, o carnaval, a emergente popularização da prática esportiva, dentre outras", e foi um "cronista das questões mais importantes de seu tempo".


