Campanha do Rossilhão
A Guerra dos Pirenéus, também conhecida como Campanha do Rossilhão ou Guerra da Convenção, foi a frente pirenaica da guerra da Primeira Coligação contra a Primeira República Francesa. Opôs a França revolucionária aos reinos da Espanha e de Portugal, de 7 de março de 1793 a 22 de julho de 1795, durante as Guerras Revolucionárias Francesas.
Imagem: Celestino Manuel from Vendas Novas, Portugal · BY · Openverse
A Campanha foi na realidade a frente ao longo dos Pirenéus, com centro no Rossilhão, de um conflito bem mais vasto, a Guerra da Primeira Coligação, ele próprio o prelúdio das Guerras Revolucionárias Francesas. Naquele conflito, os reinos de Espanha e Portugal, com o apoio britânico, declaram guerra à França revolucionária. A causa imediata da guerra foi a execução de Luís XVI de França e da sua esposa, a rainha Maria Antonieta, pelos revolucionários franceses. Aquela execução levou a que a Espanha declarasse guerra à França a 17 de abril de 1793, já que os actos do governo revolucionário francês foram vistos como uma ameaça directa ao seu próprio sistema monárquico. Essa opinião, partilhada pelas potências europeias que se congregaram na Primeira Coligação, levou ao desencadear de um ataque generalizado à França, no qual a Campanha do Rossilhão se insere. Portugal decidiu não participar directamente, optando por apoiar a Espanha no seu esforço de guerra. Enviou então, com o apoio britânico, uma divisão reforçada, denominada Exército Auxiliar à Coroa de Espanha, composta por 5 400 homens sob o comando do tenente-general britânico Forbes Skellater. Entre os oficiais portugueses enviados destacaram-se Gomes Freire de Andrade, António Teixeira Rebelo, João Correia de Sá e Manuel Inácio Pamplona Corte Real.
Em 21 de janeiro de 1793, a Convenção Nacional da França executou Luís XVI na guilhotina, enfurecendo os outros monarcas da Europa. A França já estava em guerra com a Monarquia dos Habsburgos, o Reino da Prússia e o Reino da Sardenha. Após vencer a Batalha de Jemappes, o exército francês ocupou os Países Baixos Austríacos. Encorajado, o governo francês decretou a anexação do território (atual Bélgica), provocando uma ruptura diplomática com o Reino da Grã-Bretanha. Em 1º de fevereiro, a França declarou guerra à Grã-Bretanha e à República Holandesa. Em 7 de março, a França declarou guerra à sua antiga aliada, a Espanha.
O exército espanhol, ao qual o contingente português foi agregado, era comandado pelo general Antonio Ricardos Carrillo de Albornoz, mais conhecido por General Antonio Ricardos, invadiu a França e ocupou o Rossilhão em abril de 1793. Forças espanholas e portuguesas também participaram na tomada de Toulon em 1793. Depois de uma campanha fulgurante, Ricardos voltou a Madri para solicitar reforços, mas faleceu de pneumonia durante a sua permanência naquela cidade. Sem o seu comandante, as forças espanholas e portuguesas colapsaram frente ao avanço das forças francesa comandadas pelo general Jacques François Dugommier, que rapidamente recapturaram todo o território perdido e atravessaram os Pirenéus, invadindo território espanhol. As forças francesa ocuparam Saint Elmo, Collioure, Port-Vendres, Bellegarde e San Sebastian. O general Dugommier foi morto em combate durante o assalto a San Sebastián.
As forças espanholas participaram do Cerco de Toulon, que durou de 18 de setembro a 18 de dezembro de 1793. Os franceses eram liderados por Jacques François Dugommier, e os defensores anglo-espanhóis eram comandados pelos almirantes Juan de Lángara, Federico Carlos Gravina y Nápoli, Samuel Hood, 1.º Visconde Hood, e pelo General Charles O'Hara. Os Aliados abandonaram o porto depois que um jovem oficial de artilharia, Napoleão Bonaparte, alvejou a ancoragem da frota com fogo de canhão. A marinha francesa perdeu 14 navios de linha incendiados e outros 15 capturados. As baixas francesas somaram 2.000 militares, e as perdas aliadas foram o dobro. Posteriormente, os vencedores massacraram até 2.000 monarquistas franceses que haviam sido feitos prisioneiros.
A ação de 14 de fevereiro de 1795 no Golfo de Roses foi uma derrota para a marinha francesa.
No início da guerra, o Rei Carlos IV de Espanha nomeou o Capitão General Antonio Ricardos para comandar o Exército da Catalunha nos Pirenéus Orientais. Ricardos invadiu a Cerdanha e capturou Saint-Laurent-de-Cerdans, em 17 de abril de 1793. Três dias depois, derrotou uma força francesa em Céret, no rio Tech. Em desespero, o idoso comandante francês encarregado de Rossilhão, Mathieu Henri Marchant de La Houlière, cometeu suicídio. Em 30 de abril, o governo francês dividiu o Exército dos Pirenéus em Exército dos Pirenéus Orientais e Exército dos Pirenéus Ocidentais. Na Batalha de Mas Deu, em 19 de maio de 1793, Ricardos derrotou Louis-Charles de Flers, o que permitiu aos espanhóis cercar o Forte de Bellegarde em 23 de maio. O Cerco de Bellegarde terminou com a rendição da guarnição francesa em 24 de junho. Durante a Batalha de Perpignan, em 17 de julho, De Flers repeliu os espanhóis, embora as perdas francesas tenham sido maiores. Em 28 de agosto, Luc Siméon Auguste Dagobert derrotou uma força espanhola sob o comando de Manuel la Peña em Puigcerdà, na Cerdanha.
A Campanha do Rossilhão terminou com o Tratado de Basileia, assinado a 22 de julho de 1795 na cidade suíça de Basileia entre representantes da Espanha e da França. Naquele Tratado, parte da Paz de Basileia, não houve lugar à participação de representantes portugueses, pelo que a posição de Portugal não foi considerada. Em consequência, a França manteve-se de jure em estado de guerra contra Portugal até às invasões napoleónicas. A Campanha do Rossilhão traduziu-se numa vitória para os franceses, que recuperaram todo o seu território, viram a República Francesa reconhecida pela Espanha e ainda receberam da Espanha o território que aquele reino mantinha na ilha Hispaniola.


