Câmara Cascudo
Luís da Câmara Cascudo foi um historiador, sociólogo, musicólogo, antropólogo, etnógrafo, folclorista, poeta, cronista, professor, advogado, jornalista e escritor brasileiro. Passou toda a sua vida em Natal e dedicou-se ao estudo do folclore e da cultura brasileira. Foi professor da Faculdade de Direito de Natal, hoje Curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), cujo Instituto de Antropologia leva seu nome. Deixou obra volumosa e de grande relevância, em particular sobre história, folclore e cultura popular. Recebeu o Prêmio Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras, em 1956, pelo conjunto de sua obra.
Primeiros anos
Câmara Cascudo nasceu em Natal, capital do Rio Grande do Norte no ano de 1898. Era filho de Francisco Justino de Oliveira Cascudo e de Ana Maria da Câmara, e devido a uma saúde frágil iniciou o hábito da leitura muito cedo. Sua família era influente na região de Campo Grande, no interior do estado, e tinha uma tradicional ligação com a política. Seu avô materno, Manoel Fernandes Pimenta, foi um rico fazendeiro e senhor de escravos. O avô paterno, Antônio Justino de Oliveira, havia sido um devotado membro do Partido Conservador, que na época representava a aristocracia rural, e por tal associação recebera o apelido de "o Velho Cascudo", que na geração seguinte foi incorporado ao sobrenome familiar. O pai, Francisco Justino, foi tenente da Guarda Nacional e delegado de polícia em Caicó, e na década de 1890 fixou-se em Natal, onde elegeu-se deputado e por algum tempo foi o mais abastado comerciante da cidade, além de presidente da Associação dos Comerciantes. Sua casa era um ponto de encontro de personalidades da cultura, das artes e da política. A riqueza familiar possibilitou a Cascudo receber uma educação esmerada através de professores particulares, complementada por cursos no Externato Sagrado Coração de Jesus e no Colégio Diocesano Santo Antônio. O pai também era dono do jornal A Imprensa, onde Cascudo aos dezenove anos começou a trabalhar. Ali publicou em 1918 sua primeira crônica, "O Tempo e Eu", e manteve a coluna "Bric-à-Brac".
Folclore e pesquisas
No ano de 1941, fundou a Sociedade Brasileira de Folclore. Em 1943, a convite do jornalista Augusto Meyer começa a escrever o livro que seria considerado seu magnum opus, o Dicionário do Folclore Brasileiro, que seria publicado pela primeira vez em 1954. Cascudo tornou-se um dos principais folcloristas e pesquisadores das raízes étnicas do país, sendo autor de uma vasta literatura sobre o assunto. Compilou um copioso acervo de músicas e lendas folclóricas e populares. Em entrevista ao jornal "A Província", disse o seguinte acerca do seu interesse por história: "Queria saber a história de todas as cousas do campo e da cidade. Convivência dos humildes, sábios, analfabetos, sabedores dos segredos do Mar das Estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não têm preço."
Foi adepto de ideais monarquistas nas primeiras décadas do século XX e durante a década de 1930 combateu a crescente influência marxista no Brasil. Era membro da Ação Imperial Patrianovista Brasileira, sendo líder regional do Rio Grande do Norte. Em 1932, Cascudo aderiu ao Integralismo e foi membro destacado e Chefe Regional da Ação Integralista Brasileira (AIB), o movimento de orientação fascista encabeçado por Plínio Salgado. Permaneceu no movimento até novembro de 1937, quando dissolvido pelo Estado Novo. Seu filho relata tê-lo visto queimar os uniformes, insígnias e livros integralistas após o Levante Integralista de 1938. No entanto, Luiz Gonzaga Cortez, historiador e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, em publicação organizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, lançou dúvidas sobre a alegação do filho de Cascudo, afirmando que não possui qualquer precedente.
De certa forma, em sua busca por uma identidade brasílica, ele foi um mediador entre visões de mundo muito diferenciadas, embora sua relação com a modernidade seja frequentemente tingida pela tensão e pela nostalgia do passado, acusando o progresso de acabar com elementos importantes da cultura e da sociabilidade. Ao mesmo tempo, ele entendia que o progresso era inevitável, e atuou de várias formas no processo de modernização urbana de Natal, considerando que a preservação dos espaços tradicionais da cidade não era tão importante quanto preservar o registro da memória e da história, que ele próprio ajudaria a construir e a sedimentar. Sua figura foi erigida em um dos grandes ícones da cultura brasileira, mas recentemente alguns autores vêm levantando algumas críticas e questionamentos à aprovação monolítica que outrora gozou, apontando sua obra como um produto de uma cultura e de uma época específicas, e por isso, em alguns aspectos, irremediavelmente datada e condicionada por determinantes conceituais e ideológicos que se tornaram ultrapassados ou polêmicos.
Cascudo conheceu a fama ainda em vida. Suas muitas publicações o colocaram na posição de um destacado e respeitado pesquisador da história e do folclore, reconhecido internacionalmente. E ainda em vida foi monumentalizado. Em 1963 emprestou seu nome a uma rua e a uma medalha do Instituto de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; em 1964 deu nome a uma semana de conferências culturais promovidas pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte; na década de 1970 o IHGRN instalou uma placa na fachada de sua casa, onde se lia “Aqui, Luiz da Câmara Cascudo serve ao Rio Grande do Norte pelo trabalho intelectual mais nobre e mais constante que o Estado já conheceu". Uma outra placa foi instalada pelo governo do estado, dizendo "Aqui nesta casa, Luiz da Câmara Cascudo, com sabedoria e humanidade, completou 50 anos de vida intelectual". Recebeu uma grande quantidade de comendas, medalhas e outras honrarias, por exemplo, as comendas das ordens de Rio Branco, do Mérito Naval da Marinha do Brasil, do Mérito Militar do Exército do Brasil, de Cisneros da Espanha, de São Gregório Magno do Vaticano, cavaleiro da Ordem do Mérito Aeronáutico, grande oficial da Ordem Nacional do Mérito Educativo, oficial da Ordem da Coroa da Itália; as medalhas de Ana Néri, do Mérito Cultural do Estado de Pernambuco, de Alexandre Gusmão do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Pacificador do Exército do Brasil, do Mérito Tamandaré da Marinha do Brasil, do Mérito Alberto Maranhão do Estado do Rio Grande do Norte, de Sylvio Romero do Distrito Federal, da Ordem das Artes e Letras da França, do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, da Real Academia Espanhola, da Academia Paulista de Letras, do Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia; colares da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Academia Brasileira de História, o título de Cidadão Paulistano, o Prêmio Machado de Assis, o Prêmio Nacional de Cultura pelo conjunto da obra, entre muitas outras distinções.


