Califado de Córdova
O Califado de Córdova foi a forma de governo islâmico que dominou a maior parte da Península Ibérica e do Norte de África com capital em Córdova. O Califado sucedeu ao Emirado Independente instaurado por Abderramão I em 756. O título de califa foi reclamado por Abderramão III a 16 de janeiro de 929, que já era reconhecido como emir de Córdova. Todos os califas de Córdova foram membros da dinastia omíada, a mesma que detinha o título de emir de Córdova e governava praticamente o mesmo território desde 736.
A partir de 912, o novo emir Abderramão III empreendeu a tarefa de reduzir os múltiplos focos rebeldes que surgiram no Emirado desde meados do século IX. Em 913 iniciou a campanha de Monteleón, que conseguiu recuperar numerosos castelos e sufocar a rebelião na Andaluzia Oriental. Durante os anos seguintes recuperou Sevilha e efetuou as primeiras razias contra os reinos cristãos do norte. Derrotou um exército de Leão e Navarra na batalha do Val de Junqueira (920); saqueou Pamplona em 924 e submeteu os Banu Cassi esse mesmo ano. Finalmente, em 928 ocupou a fortificação de Bobastro através de uma série de campanhas iniciadas em 917, terminando assim com a rebelião iniciada por Omar ibne Hafeçune, o derradeiro foco de rebeldia no Alandalus. Em 929, tomou o título de califa com o apelido Nácer Lidim Alá, aquele que faz triunfar a religião de Deus. Durante os primeiros anos de seu governo, Abderramão III dedicou-se à tarefa de reconstruir o poder central omíada, enfraquecido por décadas de fragmentação territorial e rebeliões locais. Desde sua ascensão em 912, o emir enfrentou um mosaico de chefes provinciais, senhores de fortalezas e tribos berberes semi-independentes que haviam se aproveitado do enfraquecimento do emirado para exercer autoridade autônoma. Entre esses insurgentes, destacou-se Omar ibne Hafeçune (880-918), que durante mais de quarenta anos desafiou o poder de Córdova a partir de Bobastro, nas Serras de Málaga e Granada. Abderramão conduziu uma série de campanhas prolongadas contra os territórios rebeldes, combinando ação militar com diplomacia e alianças locais. A vitória final em 928, com a captura e destruição de Bobastro, marcou simbolicamente o fim da resistência interna e a reunificação efetiva do Alandalus sob o domínio omíada. Essa pacificação possibilitou o fortalecimento da administração central, o aumento da arrecadação tributária e o controle direto sobre as principais cidades e rotas comerciais. A política de nomeações passou a privilegiar funcionários profissionais e libertos de origem eslava, os ṣaqāliba, que, leais ao soberano, substituíram progressivamente a antiga nobreza árabe e hispano-muçulmana nas posições-chave da burocracia. A partir de então, o emir transformou o Alandalus de um território dividido em um Estado islâmico altamente centralizado, capaz de rivalizar com os grandes califados do Oriente.
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O Califado de Córdova combinava uma estrutura administrativa altamente racionalizada com uma elaborada cultura de legitimidade religiosa. O poder do califa era reforçado por uma corte cerimonial inspirada nos modelos imperiais orientais, na qual as audiências públicas, as procissões e o uso de insígnias reais visavam demonstrar a ligação direta entre o governante e Deus. Essa teatralização do poder tinha também função diplomática: as embaixadas bizantinas e cristãs que visitavam Córdova eram recebidas em Medina Azara sob rígido protocolo, testemunhando o esplendor e a ordem da administração omíada. A chancela califal e a correspondência oficial (o sigillum) tornaram-se instrumentos fundamentais de legitimação, circulando por todo o Alandalus e além-mar. Essa política de representação, associada à construção de palácios, mesquitas e jardins, expressava uma concepção de soberania baseada tanto na devoção religiosa quanto no controle administrativo, características que explicam a duradoura influência do modelo omíada no mundo islâmico ocidental.
O apogeu do Califado de Córdova, especialmente durante os reinados de Abderramão III (929–961) e de seu filho Aláqueme II (961–976), caracterizou-se por uma notável consolidação institucional e por uma administração fortemente centralizada. A figura do califa passou a concentrar tanto a autoridade religiosa quanto o comando político, apoiado por uma burocracia complexa que regulava desde os tributos até a nomeação de governadores provinciais. A administração foi organizada em departamentos especializados (divã), responsáveis por finanças, correios, obras públicas, relações exteriores e vigilância política. Essa estrutura garantiu ao governo um controle sem precedentes sobre a arrecadação fiscal, a segurança das fronteiras e o funcionamento da justiça. Abderramão III também reformou o exército, substituindo gradualmente as milícias tribais por forças permanentes compostas de berberes e mercenários europeus. A capital, Córdova, converteu-se no centro do poder político e simbólico do império, onde se expressava a majestade califal através do cerimonial de corte e da construção monumental de Medina Azara, concebida como cidade-palácio e sede do governo. Essa centralização deu ao Califado uma eficiência comparável à dos impérios abássida e bizantino, ao mesmo tempo que preservava uma identidade ibérica distinta.
Relações com os reinos cristãos
Durante os primeiros anos do califado, a aliança do rei Ramiro II de Leão com Navarra e o conde Fernão Gonçalves impôs o desastre do exército do califado na batalha de Simancas. Porém, à morte de Ramiro II, Córdova pôde desenvolver uma política de intervenção e arbitragem nas querelas internas de leoneses, castelhanos e navarros, enviando frequentemente contingentes armados para fustigar os reinos cristãos. A influência do Califado sobre os reinos cristãos do norte chegou a ser tal que, entre 951 e 961, os reinos de Leão, Navarra e Castela, e o Condado de Barcelona, lhe rendiam tributo. As relações diplomáticas foram intensas. A Córdova chegaram embaixadores do conde de Barcelona Borrell II, de Sancho Garcês II de Pamplona, de Elvira Ramírez de Leão, de Garcia Fernandes, conde de Castela e do conde Fernando Ansúrez, entre outros. Estas relações não excluíram confrontos bélicos, como o cerco de Gormaz, a grande fortaleza do Douro, em 975, onde um exército de cristãos enfrentou o general Galibe ibne Abderramão, a razia de Barcelona em 985 ou de Santiago de Compostela em 997.
Relações com o Magrebe
A política cordovesa no Magrebe foi igualmente intensa, particularmente durante o reinado de Aláqueme II. Na África, os omíadas enfrentaram o Califado Fatímida, que controlavam cidades como Tierte e Segelmeça, pontos fundamentais das rotas comerciais entre a África subsaariana e o Mediterrâneo, se bem que este confronto não foi direto: os omíadas apoiaram-se nos zenetas e nos idríssidas, e o Califado Fatímida nos zíridas e sanajas. Eventos importantes foram a ocupação de Melilha, Tânger e Ceuta, ponto donde se podia impedir o desembarque fatímida na Península. Após a tomada de Melilha em 927, em meados do século X, os omíadas controlaram o triângulo formado por Argel, Segelmeça e o oceano Atlântico, enquanto promoviam revoltas que chegaram a pôr em perigo a estabilidade do Califado Fatímida.
Política no Mediterrâneo
Um terceiro objetivo da atividade bélica e diplomática do califado esteve orientada para o Mediterrâneo. O Califado manteve relações com o Império Bizantino do imperador Constantino VII (r. 912–959), mantendo emissários cordoveses em Constantinopla. O poder do califado estendia-se também para norte, e ao redor do ano 950 o Sacro Império Romano-Germânico intercambiava embaixadores com Córdova, do qual fica registro dos protestos contra a pirataria muçulmana praticada desde Fraxineto e as ilhas orientais do Alandalus. Igualmente, alguns anos antes, Hugo de Arles solicitara salvo-condutos para que os seus barcos mercantes pudessem navegar pelo Mediterrâneo, dando ideia portanto do poder marítimo que Córdova detinha. A partir de 942 foram estabelecidas relações mercantis com a República amalfitana, e no mesmo ano foi recebida uma embaixada da Sardenha.
Política interior
O apogeu do califado cordovês manifestava-se na sua capacidade de centralização fiscal, que geria as contribuições e rendas do país: impostos territoriais, dízimos, arrendamentos, pedágios, impostos de capitação, taxas alfandegárias sobre mercadorias, bem como os direitos percebidos nos mercados sobre joias, aparelhos de navios, peças de ourivesaria, etc. Mesmo os cortesãos estavam sujeitos a contribuição. A opulência do califado durante estes anos fica refletida na palavras do geógrafo ibne Haucal: Para realçar a sua dignidade e seguindo o exemplo de outros califas anteriores, Abderramão III edificou a sua própria cidade palaciana, Medina Azara. Esta foi a etapa da presença islâmica na Península Ibérica de maior esplendor, embora de curta duração, pois na prática terminou em 1009 com a Guerra Civil do Alandalus pelo trono entre os partidários do último califa legítimo, Hixame II, e os sucessores do seu primeiro-ministro ou "hájibe" Almançor. Oficialmente, porém, o califado continuou até 1031, com Hixame III, ano em que foi abolido dando lugar à fragmentação do estado omíada em múltiplos reinos conhecidos como Taifas.
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A fitna começou em 1009 com um golpe de Estado que implicou o assassinato de Abderramão Sanchuelo, filho de Almançor, a deposição de Hixame II e a ascensão ao poder de Maomé II, bisneto de Abderramão III. No fundo os problemas também advinham da sufocante pressão fiscal necessária a custear os esforços bélicos. Ao longo deste conflito, os diversos contendores recorreram à ajuda dos reinos cristãos. Córdova e os seus arrabaldes foram saqueados repetidas vezes, e os seus monumentos, entre eles o Alcácer e a Medina Azara, destruídos. A capital chegou a mudar-se temporariamente para Málaga. Em pouco mais de vinte anos sucederam-se 10 califas diferentes (entre eles Hixame II restaurado), três deles pertencentes a uma dinastia diferente da Omíada, a hamúdida. No meio desta desordem foram-se tornando paulatinamente independentes as taifas de Almeria, Múrcia, Alpuente, Arcos, Badajoz, Carmona, Denia, Granada, Huelva, Morón, Silves, Toledo, Tortosa, Valência e Saragoça. O último califa, Hixame III, foi deposto em 1031, e proclamou-se em Córdova a república. Por essa altura todas as cora (províncias) do Alandalus que restavam tornaram-se independentes.
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A economia do Califado baseou-se numa considerável capacidade econômica -fundada num comércio muito importante-, uma indústria artesã muito desenvolvida, e técnicas agrícolas mais desenvolvidas que em qualquer outra parte da Europa. Baseava a sua economia na moeda, cuja cunhagem teve um papel fundamental no seu esplendor financeiro. A moeda de ouro cordovesa tornou-se das mais importantes à época, sendo provavelmente imitada pelo Império Carolíngio. À cabeça da rede de urbes estava a capital, Córdova, a cidade mais importante do Califado, que superava os 250 000 habitantes em 935 e aflorou os 500 000 em 1000 (alguns historiadores ainda falam de 1 000 000 de habitantes, baseando-se em recentes achados arqueológicos de dimensões superiores às acreditadas, confirmando muitas crônicas até então tidas por exageradas), sendo durante o século X uma das maiores cidades do Mundo e um centro financeiro, cultural, artístico e comercial de primeira ordem.
Abderramão III não somente fez de Córdova o centro nevrálgico de um novo império muçulmano no Ocidente, mas converteu-a na principal cidade da Europa Ocidental, rivalizando ao longo de um século com Bagdade e Constantinopla (capitais do Califado Abássida e do Império Bizantino, respectivamente) em poder, prestígio, esplendor e cultura. Segundo fontes árabes, sob o seu governo, a cidade alcançou o milhão de habitantes, que dispunham de mil seiscentas mesquitas, trezentas mil moradias, oitenta mil lojas e inúmeros banhos públicos. Este califa omíada foi também um grande impulsionador da cultura: dotou Córdova com cerca de setenta bibliotecas, fundou uma universidade, uma escola de medicina e outra de tradutores do grego e do hebraico para o árabe. Fez ampliar a Mesquita de Córdova, reconstruindo as ameias, e mandou construir a extraordinária cidade palaciana de Medina Azara, na qual residiu até à morte.


