Pesquisa · Mapa mental

Celtas

Celtas é a designação dada a um conjunto de povos, organizados em múltiplas tribos e pertencentes à família linguística indo-europeia que se espalhou pela maior parte do Oeste da Europa a partir do II milénio a.C.. A primeira referência literária aos celtas foi feita pelo historiador grego Hecateu de Mileto no século VI a.C. Boa parte da população da Europa Ocidental pertencia às etnias celtas até à conquista daqueles territórios pelo Império Romano; organizavam-se em tribos, que ocupavam o território desde a Península Ibérica até à Anatólia. A maioria dos povos celtas foi conquistada, e mais tarde integrada pelos Romanos, embora o modo de vida celta tenha, sob muitas formas e com muitas alterações resultantes da aculturação devida aos invasores e à posterior cristianização, sobrevivido em grande parte do território por eles ocupado.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 16/07/2026
01

Nomes e terminologia

Na Antiguidade os celtas foram conhecidos por três designações diferentes, pelos autores greco-romanos: celtas (em latim: Celtae; Κελτοί); gálatas (em latim: galatae; em grego clássico: Γαλάται; romaniz.: Galátai); e galos ou gauleses (em latim: gallai, galli; em grego clássico: Γάλλοί; romaniz.: Galloí). Os romanos se referiam apenas aos celtas continentais como celtae; os povos da Irlanda e das ilhas Britânicas, nunca foram designados por celtas, nem pelos romanos nem por si próprios, eram chamados hibérnios (Hiberni) e bretões (Britanni), respectivamente, e só começaram a ser chamados celtas no século XVI. No De Bello Gallico, Júlio César comentou que o nome "celta" era a maneira pela qual os gauleses se chamavam a si próprios na "língua celta" (lingua Celtae). Pausânias comentou ainda que os gauleses não só se chamavam a si mesmos celtas como era também por este nome que os outros povos os conheciam. A atestar este facto temos evidência na epigrafia funerária na qual se confirma que havia povos chamados celtas que se identificavam como tal, nomeadamente os Supertamarici. Plínio, o Velho, registou que os habitantes de Miróbriga usavam o sobrenome de Céltico: "Mirobrigenses qui Celtici cognominantur". No santuário de Miróbriga um habitante deixa gravado a sua origem celta:

02

A localização dos Celtas segundo os autores da Antiguidade

O mais antigo documento, que nos dá notícia de celtas, é um roteiro fenício do século VI a.C., utilizado por Avieno na sua Ora marítima. Neste roteiro, que compreende a viagem entre a ilha de Tartesso, na foz do Bætis, e as ilhas britânicas, são mencionados os povos que ocupavam então o sudoeste e poente da Espanha, a Inglaterra e a Irlanda. No sul da Inglaterra conhece o nosso documento uns lígures, que haviam primitivamente habitado nas regiões geladas da Ursa, sendo daí expulsos pelos celtas, depois de tentarem debalde resistir aos invasores. A invasão céltica tinha sido feita por mar, pois que, já refugiados na Inglaterra, os lígures viveram muito tempo embrenhados pelos montes, sem ousar chegar-se à praia, “porque o seu antigo desastre os fazia olhar o mar com susto”. Receavam portanto uma nova invasão marítima, que desta vez só lhes podia vir da Morínia. A antiga pátria dos lígures, nas regiões geladas da Ursa, e numa posição sujeita a uma agressão por mar, não pode ser colocada senão nas margens do Báltico, em frente da Escandinávia, sendo da Escandinávia — a vagina nationum, de Jornandes — que, segundo este velho documento descem os emigrantes célticos, que fazem a sua aparição no mundo conhecido dos antigos.

03

Demografia

As origens dos povos celtas são motivo de controvérsia, especulando-se que entre 1900 e 1500 a.C. tenham surgido da fusão de descendentes dos agricultores danubianos neolíticos e de povos de pastores oriundos das estepes. Esta incerteza deriva da complexidade e diversidade dos povos celtas, que além de englobarem grupos distintos, parecem ser a resultante da fusão sucessiva de culturas e etnias. Na Península Ibérica, por exemplo, parte da população celta se misturou aos iberos, o que resultou no surgimento dos celtiberos. Todavia, estudos genéticos realizados em 2004 por Daniel Bradley, do Trinity College de Dublin, demonstraram que os laços genéticos entre os habitantes de áreas célticas como Gales, Escócia, Irlanda, Bretanha e Cornualha são muito fortes e trouxeram uma novidade: a de que, de entre todos os demais povos da Europa, os traços genéticos mais próximos destes eram encontrados na Península Ibérica.

04

História

As origens

Arqueólogos e linguistas concordam, por uma grande maioria, em identificar os celtas com os povos que trouxeram a cultura La Tène, que se desenvolveu durante a Idade do Ferro a partir da anterior Cultura de Hallstatt. Esta identificação permite-nos identificar a pátria original dos celtas numa área entre o alto Reno (de Renos, palavra de origem celta cujo significado é "maré") e as fontes do Danúbio (do celta Danuvius, cujo significado é "fluxo rápido"), entre o atual sul da Alemanha, leste da França e norte da Suíça: aqui os Protoceltas são consolidados como um povo, com a sua própria língua , evolução linear de um vasto continuum de povos indo-europeus estendido pela Europa Central desde o início do III milénio a.C.

Expansão para a Europa

A identificação dos celtas com a cultura Hallstatt-La Tène permite, com base em achados arqueológicos, traçar um retrato do seu processo de expansão a partir da estreita área do centro-oeste da Europa em que se cristalizaram como povo. A penetração na Península Ibérica e ao longo das costas atlânticas da actual França remonta, portanto, ao VIII-século VII a.C., ainda na era Hallstattiana. Mais tarde, quando já haviam desenvolvido a Cultura La Tène, chegaram ao Canal da Mancha, à foz do Reno, onde hoje é o noroeste da Alemanha e as Ilhas Britânicas; posteriormente ocorreu a expansão para as atuais Boêmia, Hungria e Áustria. Contemporâneos destes últimos movimentos foram os assentamentos, já registados por fontes históricas, no norte da Itália e, em parte da Itália central (início do século IV a.C.) e na Península Balcânica. No século III o grupo dos Gálatas passou da Trácia para a Anatólia, onde se estabeleceram definitivamente. O avanço foi favorecido principalmente pela superioridade técnica das armas possuídas pela belicosa aristocracia guerreira, que orientou esses povos durante as suas migrações.

Teoria centro-europeia

A área verde na imagem sugere a possível extensão da área (proto-)céltica por volta de 1000 a.C. A área laranja indica a região de nascimento da cultura de La Tène e a área vermelha indica a possível região sob influência céltica por volta de 400 a.C. Vestígios associados à cultura celta remontam a pelo menos 800 a.C., no Sul da Alemanha e no Oeste dos Alpes. Todavia, é muito provável que o grupo étnico celta já estivesse presente na Europa Central há centenas ou milhares de anos antes desse período. Durante a primeira fase da Idade do Ferro céltica (do século VIII ao V a.C.), as sepulturas encontradas pelos arqueólogos indicam o surgimento de uma nova aristocracia e de uma crescente estratificação social. Essa estratificação aprofundou-se a partir do século VI a.C., quando grupos do Norte da Europa e da região oeste dos Alpes entraram em contato comercial com as colónias gregas fundadas no Mediterrâneo Ocidental.

Críticas

Críticos afirmam que não há qualquer evidência linguística, arqueológica ou genética que comprove que as regiões onde se originaram as culturas Hallstatt ou La Tène sejam o local de origem dos povos celtas. Indicam que este conceito deriva de um erro feito pelo historiador Heródoto há 2500 anos, num comentário sobre os celtas, onde os localizava na nascente do rio Danúbio, a qual ele julgava ser perto dos Pirenéus. Este erro foi depois mais tarde, em fins do século XIX, aproveitado pelo historiador francês Marie Henri d'Arbois de Jubainville para basear a sua teoria de que Heródoto queria dizer que a terra original dos celtas era no sul da Alemanha.

Teoria da idade do bronze atlântica

Segundo esta teoria, os celtas teriam origem no norte e ocidente da Península Ibérica. Baseia-se na evidência histórica, de que Heródoto localizava os celtas na Ibéria e dizia que eram vizinhos dos cónios localizados na atual região do Algarve; na hipótese da língua tartéssia ser uma língua celta, o que indicaria que as línguas celtas se teriam originado na zona atlântica durante a Idade do Bronze; e em evidências genéticas.

05

Língua e cultura

Língua

As línguas célticas derivam de dois ramos indo-europeus do grupo denominado centum: o celta-Q (goidélico), mais antigo, do qual derivam o irlandês, o gaélico da Escócia e a língua manx da Ilha de Man, e o celta-P (galo-britânico), falado pelos gauleses e pelos habitantes da Bretanha, cujos descendentes modernos são o galês (do País de Gales) e o bretão (na Bretanha). Os registos mais antigos escritos numa língua celta datam do século VI a.C.. As informações actualmente disponíveis sobre os celtas foram obtidas principalmente através do testemunho dos autores greco-romanos. Isto não permite traçar um quadro completo e imparcial do que foi a realidade quotidiana desses povos.

Arte

As manifestações artísticas celtas possuem marcante originalidade, embora denotem influências asiáticas e das civilizações do Mediterrâneo (grega, etrusca e romana). Há uma nítida tendência abstrata na decoração de peças, com figuras em espiral, volutas e desenhos geométricos. Entre os objectos inumados, destacam-se peças ricamente adornadas em bronze, prata e ouro, com incisões, relevos e motivos entalhados. A influência da arte celta está ainda presente nas iluminuras medievais irlandesas e em muitas manifestações do folclore do noroeste europeu, na música e arquitectura de boa parte da Europa ocidental. Também muitos dos contos e mitos populares do ocidente europeu têm origem na cultura dos celtas.

06

Organização social

A unidade básica da sua organização social era o clã, composto por famílias aparentadas que partilhavam um núcleo de terras agrícolas, mas que mantinham a posse individual do gado que apascentavam. Com base em estudos efectuados na Irlanda, determinou-se que a sua organização política era dividida em três classes: o rei e os nobres, os homens livres e os servos, artesãos, refugiados e escravos. Este último grupo não possuía direitos políticos. A esta estrutura secular, agregavam-se os sacerdotes (druidas), bardos e ovados, todos com grande influência sobre a sociedade. Mais recentemente foram apresentadas novas perspectivas sobre a celtização do Noroeste de Portugal e a identidade étnica dos galaicos brácaros . No país, os povoados castrejos do tipo citaniense apresentavam características similares às dos povoados celtas. A citânia de Briteiros é exemplo de um povoado com características celtas, sendo, porém, necessário tomar esta designação no seu sentido lato: isto é — seria o local de habitação das numerosas tribos celtizadas (celtici). Tongóbriga é um sítio arqueológico situado na freguesia de Freixo, também antigo povoado dos galaicos brácaros.

Religião

Os celtas exaltavam as forças telúricas expressas nos ritos propiciatórios. A natureza era a expressão máxima da Deusa-Mãe. A divindade máxima era feminina, a Deusa-Mãe, cuja manifestação era a própria natureza e por isso a sociedade celta, embora não fosse matriarcal, mesmo assim a mulher era soberana no domínio das forças da natureza. A religião celta era politeísta com características animistas, sendo os ritos quase sempre realizados ao ar livre. Suspeita-se que algumas das suas cerimônias envolviam sacrifícios humanos. O calendário anual possuía várias festas místicas, como o Imbolc e o Belthane, assim como celebrações dos equinócios e solstícios.

07

Mitologia

Consideram-se três as fontes principais sobre a mitologia celta, os autores greco-romanos, a arqueologia, e os documentos britânicos e irlandeses. São riquíssimas as narrativas mitológicas celtas, principalmente as transmitidas oralmente em forma de poema, como "O Roubo de Gado em Cooley". Nesta, o herói irlandês Cú Chulainn enfrenta as forças da rainha Maeve para defender o seu condado. Outra narrativa, do Livro das Invasões (Lebor Gabala Erren), conta a lenda dos filhos de Míle Espáine e o seu trajecto até chegarem à Irlanda. Outros legados dos celtas são as histórias do Ciclo do Rei Artur da Inglaterra e relatos míticos dos quais se originaram os contos de fadas, como, por exemplo, Chapeuzinho Vermelho (onde a menina representa o Sol devorado pela noite do Inverno, ou seja, o lobo).

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando