Aleister Crowley
Aleister Crowley, foi um membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada e influente ocultista britânico, responsável pela fundação de uma doutrina que batizou de Thelema. Ele foi o co-fundador da A∴A∴ e, mais tarde, um líder da O.T.O. Atualmente, é mais conhecido como autor de obras sobre magia e misticismo, dentre eles o Livro da Lei, que tornou-se a escritura sagrada principal dos thelemistas, e doutros tratados sobre diversos assuntos esotéricos como a cabala e o tarô.
Imagem: arthur.strathearn · PDM · Openverse
"Os Livros Sagrados de Thelema" são uma compilação dos mais importantes livros escritos por Aleister Crowley entre 1907 e 1911, que resultaram na fundação de uma nova religião, ou filosofia, em nova esfera, distante do eixo principal em torno do qual revolve-se a vida espiritual judaico-cristã. Nesse sentido, Thelema pode ser caracterizada não apenas como uma religião secular, mas também como uma ética filosófica. A obra se subdivide em 14 livros sagrados. Os textos Classe A, segundo Crowley, não são de sua autoria, pois foram apenas redigidos através dele em hierofanias ou epifanias. Portanto, são considerados obras inspiradas, ou reveladas, que apresentam características em comum com outras escrituras sagradas: estão acima das necessidades e dos valores imanentes; encarnam uma tradição religiosa com práticas rituais; empregam alegorias temporais para representar o mistério que transcende o tempo; fazem referência ao transcendente e a lugares de pertença, de tradição e de experiência. E o mais importante: seguem o princípio da imutabilidade do cânone religioso, em que mínimas variações de uma só letra são capazes de invalidar, de maneira irreversível, todo o sentido dos escritos sagrados.
Primeiros anos, 1875-1894
Edward Alexander Crowley nasceu na Rua Clarendon Square, n. 30, em Royal Leamington Spa, no condado de Warwickshire, Inglaterra, entre as 11h00 da noite e meia-noite do dia 12 de outubro de 1875. Seu pai Edward Crowley era engenheiro de formação mas segundo Crowley nunca trabalhou como um, pois era um abastado dono de uma cervejaria, que o permitiu se aposentar antes mesmo que Crowley nascesse. Através da cervejaria do pai Crowley conheceu o ilustrador Aubrey Beardsley. A mãe de Crowley, Emily Bertha Bishop, vinha de uma família com raízes em Devon e Somerset. Ambos pais de Crowley pertenciam a uma seita de nome Irmandade Reservada, uma vertente ainda mais conservadora de uma comunidade cristã fundamentalista conhecida como Irmãos de Plymouth, na qual seu pai costumava ser missionário. Deste modo, desde tenra idade o jovem Crowley foi criado para ser um Irmão de Plymouth e obrigado todo dia a ler um capítulo da Bíblia.
Universidade, 1895-1897
Em 1895 Crowley entrou num curso de três anos do Trinity College, Cambridge, para estudar filosofia. Porém, com permissão do tutor, trocou o curso para literatura inglesa, que até então não era parte do currículo oferecido. Foi aqui que passou a ter uma visão mais severa contra o cristianismo. Conforme confessou: A Igreja Anglicana […] me parecia com uma estreita tirania, tão detestável quanto a dos Irmãos de Plymouth; ainda menos lógica e mais hipócrita… Quando descobri que comparecer à capela era obrigatório, imediatamente recusei. O vice-reitor me repreendeu por não estar comparecendo à capela, e não estava mesmo, pois tinha que acordar cedo para isso. Dei a desculpa de que tinha sido criado entre os Irmãos de Plymouth. O reitor pediu para que eu viesse vê-lo de vez em quando para contar mais do assunto, ao que tive a surpreendente ousadia de escrever-lhe: "A semente plantada pelo meu pai, regada com as lágrimas de minha mãe, arraigaram-se demais para serem arrancadas, até mesmo por alguém de sua eloquência e erudição".
A Aurora Dourada
Em 1898 Crowley passeava em Zermatt, Suíça, quando conheceu o químico Julian L. Baker, com quem começou trocar interesses em comum sobre alquimia. No retorno à Inglaterra Baker apresentou Crowley a George Cecil Jones, seu cunhado e membro da irmandade ocultista conhecida como Ordem Hermética da Aurora Dourada. Mais tarde o próprio Crowley foi iniciado na outer order ("ordem exterior") da Aurora Dourada, no dia 18 de novembro de 1898, pelo grão-mestre da irmandade, S. L. MacGregor Mathers. A cerimônia foi realizada no Mark Mason's Hall de Londres e foi nela que Crowley se apôs o lema e nome mágico de Fráter Perdurabo, que quer dizer "Perdurarei até o fim". Richard Spence e Tobias Churton, ambos biógrafos de Crowley, sugeriram que Crowley juntara-se à Aurora Dourada sob comando do serviço secreto britânico para espionar Mathers, que suspeitavam que era carlista.
Viagens pelo mundo
Enquanto isso em 1900, numa veneta aleatória, Crowley tinha viajado ao México através dos Estados Unidos, onde arranjou uma mulher local como amante e junto com o amigo Oscar Eckenstein resolveram escalar diversas montes, incluindo o Ixtaccihuatl, o Popocatepetl e até o Colima, do qual tiveram que abandonar de última hora graças a uma erupção. Durante esse período Eckenstein revelou as próprias tendências místicas. Crowley tinha continuado sozinho com experimentos mágicos após renegar Mathers e seus diários indicam que foi durante nessa época que ele descobriu o significado da palavra mágica Abrahadabra. Eckenstein lhe disse que precisava melhorar o controle de própria mente e lhe recomendou a prática de raja ioga.
O Liber T., ou Livro de Tóte
O Book of Thoth consiste em 78 ilustrações que compõem o Tarô de Tóte, que antecipam a cultura psicodélica dos anos 60. Essas ilustrações foram pintados pela artista inglesa Frieda Harris entre os anos de 1938 e 1943, sob a direção de Aleister Crowley. As aquarelas foram compradas pelo Instituto Warburg em Londres, onde são mantidas até hoje. O baralho foi impresso pela primeira vez em Dallas, em 1969, por Grady McMurtry, mas apenas na cor vermelha. Por esta razão foi apelidado de Sangreal One-Color Tarot. Só em 1977 o tarô foi impresso com as cores originais, por US Games Systems e Samuel Weiser.
A Revelação do Livro da Lei
O ano de 1904 foi divisor de águas para Crowley, o ano em que o mistério que viria persegui-lo por toda a vida estava por se revelar, como bênção e maldição. À época Crowley já era um magista (mago cerimonial) competente e um iniciado veterano na Aurora Dourada, uma das mais importantes ordens mágicas de todos os tempos. Naquele tempo Crowley estava viajando o mundo. Em março e abril de 1904 estava no Cairo, Egito, em lua-de-mel com a esposa Rose Kelly. Mesmo entre as alegrias da viagem de núpcias Crowley e Kelly não largavam os afazeres esotéricos. Durante um trabalho de invocação de elementais do ar para a esposa, ao invés dos sílfides Kelly começa a canalizar e a balbuciar que o deus egípcio Hórus falava através dela. O deus prescreve então uma série de detalhes para um ritual de invocação e o resultado deste ritual se dá nos dias 8, 9 e 10 de abril, nos quais Crowley recebe o Liber Al vel Legis (Livro da Lei), uma suposta escritura sagrada e grimório contendo a Lei e as liturgias mágicas do "Novo Aeon" (a Era de Aquário). Crowley ficou perplexo com o conteúdo mas a força das revelações lá contidas, que segundo ele influenciaram eventos históricos de magnitude global (Primeira e Segunda Guerras Mundiais, por exemplo), deixou para ele fora de dúvida a veracidade, beleza e poder do Livro da Lei.
Imagem: Abode of Chaos · BY · Openverse
Rock
Socialmente, Crowley se tornou conhecido devido as referências feitas a ele no rock n' roll dos anos de 1960 e 1970, pelas bandas Led Zeppelin, Rolling Stones, Iron Maiden, The Beatles e Black Sabbath, e pelos cantores Bruce Dickinson, Ozzy Osbourne, David Bowie, Raul Seixas e John Frusciante. Os primeiros a citar Crowley em sua obra foram os Beatles. Por serem britânicos, os quatro membros da banda acreditaram que Crowley era uma personalidade influente o bastante para ser colocado na capa do disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Isso possibilitou que os próximos artistas tivessem conhecimento da obra de Crowley, que fazia uma boa combinação com a rebeldia e o anarquismo promovidos pelo rock n' roll.
TV
Seu nome é citado na série Supernatural, exibida pela Warner Channel. Na cronologia atual da série, o Rei do Inferno se chama Crowley, além de um demônio torturador chamado Aleister. Ambos os nomes fazendo menção ao escritor. Ele inicialmente é um dos antagonistas do anime e mangá D.Gray Man, mas logo se torna um membro da Ordem Negra, instituição responsável pelo combate ao Conde do Milênio - Principal antagonista das séries. Seu personagem é um vampiro. No anime e mangá Toaru Majutsu no Index, Aleister Crowley é um mago que renegou a religião e recorre a ciência para seus fins, sendo o cérebro por trás da Cidade-Escola e o 'criador' do Imagine Breaker, a habilidade do braço direito de Kamijou Touma.
Cinema
Em 2003, Carlos Atanes dirigiu "Perdurabo (Where is Aleister Crowley?)", um filme que tem lugar na Abadia de Thelema durante 1923. Em 2008, John Doyle dirigiu "Chemical Wedding", com roteiro e trilha sonora de Bruce Dickinson. O filme de terror, que leva o mesmo nome do álbum solo do cantor Bruce Dickinson de 1998, The Chemical Wedding, cuja tradução seria “Casamento alquímico”, tem como enredo a reencarnação de Crowley no corpo de um professor universitário.
Histórias em quadrinhos
Nos quadrinhos, Crowley começou a aparecer como personagem secundário em alguns gibis de terror, a partir dos anos 1970. Mas a chamada Invasão Britânica dos quadrinhos, que, nos anos 1980, apresentou ao mundo uma nova geração de quadrinistas do Reino Unido, quase pode ser chamada também de Invasão Crowleyana. O Sonho (Sandman) de Neil Gaiman surge nos quadrinhos ao ser capturado por engano em um ritual desastroso do mago Roderick Burgess, criado à imagem de Crowley (de quem, na HQ, é um rival). No caso do roteirista britânico Grant Morrison, quase toda a sua obra tem alguma influência de Crowley: “ele é o Picasso da Magia”, diz o quadrinista, que se autointitula também um mago. Na graphic novel Batman: Asilo Arkham, que é até hoje sua HQ de maior sucesso tanto de vendas como de crítica, Morrison menciona explicitamente Crowley ao recriar a biografia fictícia do fundador do manicômio de Gotham City. Amadeus Arkham conta que, quando jovem, viajou à Inglaterra e foi “apresentado ao ‘homem mais perverso do mundo’... Aleister Crowley”. “Pareceu-me um homem encantador e muito educado”, diz Amadeus, “discutimos o simbolismo do Tarot egípcio e ele me venceu no xadrez... duas vezes”. Além disso, um dos personagens da graphic novel aparece diversas vezes lendo o Thoth Tarot, de Crowley. Morrison também escreveu uma peça de teatro sobre o mago: Depravity, de 1990.
Literatura
Aleister Crowley protagoniza o romance Perplejidad (Aleister Crowley en la Boca del Infierno), escrito por Carlos Atanes e publicado pela editora Dilatando Mentes em 2024.


