História econômica do Brasil
A história econômica do Brasil é marcada pelas grandes divisões presentes na história do Brasil. No entanto, muitos autores identificam continuidades, uma permanência das marcas deixadas pela colonização portuguesa, formulando teorias como a da dependência e ressaltando as diferenças entre as "colônias de povoamento" e as "colônias de exploração". A economia do Brasil viveu vários ciclos ao longo da história do país. Em cada ciclo, um setor foi privilegiado em detrimento de outros, provocando sucessivas mudanças sociais, populacionais, políticas e culturais dentro da sociedade brasileira.
Ao contrário das fartas riquezas metálicas encontradas pelos espanhóis nas terras recém-descobertas por eles na América, nada havia de muito interessante para os portugueses na "Terra de Santa Cruz", além de papagaios, macacos e uma "madeira de tingir", que já era conhecida no Oriente e que podia alcançar altos preços na Europa.< Logo depois da descoberta do Brasil pelos europeus, expedições portuguesas se seguiram para explorar o território e extrair toras da planta nativa. No entanto, os portugueses não estavam sozinhos nos mares, e corsários das nações não contempladas no Tratado de Tordesilhas — ingleses, holandeses e principalmente franceses (ver: Invasões francesas no Brasil) — também passaram a frequentar a costa brasileira. A extração do pau-brasil era feita com o auxílio da mão de obra nativa, na base do escambo, em que os europeus forneciam objetos de pouco valor na Europa mas que, no início, exerciam um grande fascínio sobre os nativos, pois estes viviam numa sociedade de caça e coleta: manufaturados relativamente comuns dos europeus alcançavam cotações altas no escambo. Por vezes, foram construídas feitorias para proteção contra navios inimigos e para armazenar as toras até o transporte, mas o saldo foi de grande devastação das matas costeiras e nenhum núcleo de povoamento europeu permanente.
Na década de 1530, estava claro para dom João III que a soberania do Papa e os guarda-costas itinerantes não seriam suficientes para afugentar os franceses que, cada vez mais, fincavam o pé nas suas possessões americanas. Foi, então, a ameaça da possível fixação francesa nas terras brasileiras que o induziu a defendê-las por um processo mais amplo e seguro: promover a ocupação efetiva através do povoamento e colonização. Mas, para isso, ocorria uma dificuldade: ninguém se interessava pelo Brasil. A não ser os traficantes de madeira - e estes mesmos já começavam a abandonar uma empresa cujos proveitos iam em declínio -, ninguém se interessara seriamente, até então, pelas novas terras; menos ainda para habitá-las. Todas as atenções de Portugal estavam voltadas para o Oriente, cujo comércio chegara neste momento ao apogeu. Nem o Reino contava com população suficiente para sofrer novas sangrias; os seus parcos habitantes, que não chegavam a dois milhões, já suportavam com grande sacrifício as expedições orientais.
Ciclo do açúcar
Os donatários, em geral, não dispunham de grandes recursos para a empresa colonizadora e levantaram fundos tanto em Portugal quanto na Holanda, principalmente junto a comerciantes calvinistas,[carece de fontes?] que viam boas perspectivas para a cultura da cana-de-açúcar no Brasil, a partir da experiência das Ilhas Atlânticas. O açúcar de cana alcançava altos preços na Europa e a oferta era pequena, limitada à produção da Sicília, Ilha da Madeira, Cabo Verde, e o que chegava dos árabes otomanos, pelo comércio mediterrâneo dominado pelas cidades italianas. "O volume desse fornecimento era contudo tão reduzido que o açúcar se vendia em boticas, pesado aos gramas."
Escravatura e tráfico negreiro (séculos XVI–XIX)
A agricultura da cana nas grandes propriedades monocultoras introduziu o modo de produção escravista, baseado na importação e escravização de africanos. Esta atividade gerou todo um setor paralelo chamado de tráfico negreiro. O tráfico negreiro só é interrompido em 1850, com a Lei Eusébio de Queirós.
Ciclo do gado
A pecuária extensiva ajudou a expandir a ocupação do Brasil pelos portugueses, levando o povoamento do litoral para o interior. O ciclo do açúcar entrava em decadência depois que a Insurreição Pernambucana expulsou os holandeses do Nordeste e do seu deslocamento para as Antilhas. Lá, instalaram grandes engenhos, que passaram a concorrer com os brasileiros. Nessas ilhas da América Central, alcançara-se enorme produção, e o açúcar era vendido por um preço inferior ao produzido no Brasil. A saída para o declínio da cana de açúcar e de outros produtos da terra ocorreu com o povoamento do sertão nordestino, região até então muito pouco conhecida e explorada. Começava assim o ciclo do gado, ou ciclo do couro. Por fim, quase todo o território brasileiro, nos séculos XVII e XVIII, desenvolveu atividades pastoris, havendo grande comércio de carne e couro. O couro, especialmente, esteve muito presente na vida dos homens do sertão, conforme explica o historiador Capistrano de Abreu:
Ciclo da mineração (1709–1789)
Durante todo o século XVIII, expedições chamadas entradas e bandeiras vasculharam o interior do território em busca de metais valiosos (ouro, prata, cobre e pedras preciosas como diamantes e esmeraldas). Afinal, já no início do século XVIII (entre 1709 e 1720), estas foram achadas no interior da Capitania de São Paulo (Planalto Central e Montanhas Alterosas), nas áreas que, depois, foram desmembradas como Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. A descoberta de ouro e diamante nessa região provocou um afluxo populacional vindo de Portugal e de outras áreas povoadas da colônia, como São Paulo, São Vicente e o litoral nordestino. Já de início, o choque na corrida pelas minas levou a um conflito entre os paulistas e os outros exploradores (Guerra dos Emboabas).
Ao tornar-se independente em 1822, o Brasil possuía uma economia voltada para a exportação de matérias-primas. O mercado interno era pequeno, devido à falta de créditos e a quase completa subsistência das cidades, vilas e fazendas do país que se dedicavam à produção de alimentos e a criação de animais. Durante a primeira metade do século XIX, o Estado imperial investiu pesadamente na melhoria das estradas terrestres e detinha por sua vez, um memorável sistema de portos que possibilitava uma melhor troca comercial e comunicação entre as regiões do país. A economia do Brasil era extremamente diversificada no período pós-Independência, mas foi necessário um grande esforço por parte do governo monárquico para realizar a transmutação de sistema econômico puramente escravocrata e colonial para uma economia moderna e capitalista. Contudo, a monarquia fora capaz de manter, até o fim de sua existência, o notável crescimento econômico iniciado com a vinda do então Príncipe-Regente dom João ao Brasil. Isto foi possível, em parte, graças ao liberalismo económico adotado pelo regime monárquico, que favorecia a iniciativa privada.
Agricultura
A agricultura no Brasil tinha um papel extremamente importante: 80% das pessoas em atividade dedicavam-se ao setor agrícola, 13% ao de serviços e 7% ao industrial. No interior do país havia uma agricultura realizada pelos próprios produtores (sem a utilização de escravos), abastecendo o mercado local. Nas regiões norte e nordeste ocorria o cultivo de algodão em conjunto com culturas de alimentos (para a própria subsistência e venda nos mercados locais), que eram produzidos por pequenos e médios lavradores. As grandes distâncias encareciam o custo do transporte e os impostos interprovinciais para o trânsito de mercadorias, o que acabou por restringir consideravelmente a capacidade de distribuição por parte dos produtores destes setores voltados ao mercado interno.
Indústria
A indústria brasileira tem sua origem remota nas oficinas artesanais datadas do início do século XIX. A maior parte dos estabelecimentos industriais surgiram no Sudeste brasileiro (principalmente nas províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e, mais tarde, São Paulo), e de acordo com a Junta de Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação, 77 estabelecimentos foram registrados entre 1808 e 1840 e receberam a classificação de "fábricas" ou "manufaturas". Contudo, a maior parte, cerca de 56 estabelecimentos, na realidade se encaixavam na categoria de "oficinas artesanais" e estavam voltados para os ramos de sabão e velas de sebo, rapé, fiação e tecelagem, alimentos, fundição de ferro e metais, lã e seda, dentre outros. Utilizavam como mão de obra tanto elementos livres como também escravos.
Ciclo do café (1850–1930)
Após o fim do ciclo do ouro, com o esgotamento das jazidas, faltava ao Brasil um grande produto para preencher a lacuna deixada pelos metais preciosos. Essa decadência gerou uma crise econômica, durante a qual o poder de compra da população era bem menor do que na fase áurea da mineração. Foi uma crise longa, que só terminaria no século seguinte, durante o período regencial (1831-1840), com a ascensão do café. Introduzido no Brasil no início do século XVIII por Francisco de Melo Palheta, a partir de sementes contrabandeadas da Guiana Francesa, o café foi o produto que impulsionou a economia brasileira entre as décadas de 1850 e 1930. A produção de café se desenvolveu rapidamente ao longo do século XIX, de modo que na década de 1850 já era responsável por quase metade das exportações brasileiras. A região centro-sul foi escolhida para o plantio por oferecer as condições climáticas mais apropriadas e por ter solo mais adequado, conforme as necessidades do cafeeiro. A primeira grande região cultivada foi o Vale do Rio Paraíba (entre São Paulo e Rio de Janeiro).
Ciclo da erva-mate (século XIX–início do século XX)
No século XIX, o isolacionismo do Paraguai levou Argentina e Uruguai a trocarem a erva-mate importada do Paraguai pela erva-mate importada do Brasil, o que impulsionou o ciclo da erva-mate na região dos atuais estados de Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul, quando era conhecida como "ouro verde". O próprio Paraná só se emancipou da província de São Paulo em 1853 em função do desenvolvimento trazido pelo ciclo da erva-mate, sendo que em meados dos século XIX a erva-mate chegou a representar 85% da economia paranaense. Graças a esse desenvolvimento econômico, a navegação fluvial nos rios Iguaçu e Paraná floresceu e Estrada da Graciosa e a Ferrovia Paranaguá/Curitiba facilitaram a ligação entre Curitiba e o litoral. Além disso, o ciclo promoveu o início do processo de industrialização no Paraná, focado na manufatura da erva-mate, situação que permaneceu até a década de 1930 (ver: Engenho de erva-mate). Entre as primeiras indústrias do estado está a Moinhos Unidos Brasil Mate Sociedade Anônima, fundada em 1834, que viria a se tornar a Mate Real.
Ciclo da borracha (1866–1913)
No início do século XVIII, o naturalista Charles Marie de La Condamine viajou à região amazônica e estudou as propriedades da Hevea brasiliensis, árvore nativa da Amazônia, conhecida como seringueira, constatando várias utilizações dessa planta para o homem. Posteriormente, Charles Goodyear descobriria o processo de vulcanização desse líquido conhecido como látex, se tornando, então, possível a fabricação de pneumáticos para a indústria automobilística - até então, os carros utilizavam rodas de madeira. Porém, apenas mais de um século depois, cerca do ano de 1870, começou a tornar-se sensação na Europa e nos Estados Unidos: a demanda crescia vorazmente e a oferta crescia timidamente, gerando um rápido aumento na cotação internacional do produto.
Nacional-desenvolvimentismo é o nome que se dá à ideologia vigente no Brasil entre 1930 e 1980. Foi a fase do fortalecimento da industrialização brasileira, na qual a renda por habitante cresceu em média 2,8% ao ano. O período começou com a Era Vargas, governo autoritário que durou entre 1937 e 1945, tornou-se democrático entre 1945 e 1964, passou por uma crise entre 1961 e 1964 e voltou a ser autoritário, agora sob o Regime Militar, experimentou o "milagre econômico" entre 1969 e 1973 e entrou em crise — a grande crise da dívida externa — a partir de 1980. Nesse período, que teve figuras de destaque como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, o Estado desempenhou um papel ativo na tentativa de industrialização do país, adotando um regime de substituição de importações. Iniciou-se, a partir de 1968, um processo de exportação de produtos manufaturados, mas o endividamento externo ocorrido entre 1974 e 1978 levou o país à crise em 1980.
Milagre econômico (1969–1973)
Entre 1969 e 1973, o Brasil viveu o chamado Milagre Econômico, período em que houve crescimento acelerado da indústria, geração de empregos e aumento da renda de muitos trabalhadores. Houve, porém, ampliação da concentração de renda. Um dos principais motivos para tal foi a política de arrocho salarial. O salário-mínimo real (ajustado pelos efeitos da inflação), por exemplo, sofreu uma redução de mais 15% entre 1967 e 1973. Com o objetivo de desenvolver a Região Norte do Brasil, o governo planejou a construção da Rodovia Transamazônica, que nunca foi concluída.
Recessão e crise monetária (1973–1990)
Da Crise do Petróleo até o início dos anos 1990, o Brasil viveu um período prolongado de instabilidade monetária e recessão, com altíssimos índices de inflação (hiperinflação) combinados com arrocho salarial, aumento da dívida externa e crescimento pífio. Na década de 1980, o governo brasileiro desenvolveu vários planos econômicos que visavam ao controle da inflação, sem nenhum sucesso. O resultado foi o não pagamento de dívidas com credores internacionais (moratória), o que resultou em graves problemas econômicos que perdurariam por anos. Não foi por acaso que os anos 1980, na economia brasileira, ganharam o apelido de "Década Perdida".
O governo Fernando Collor teve, como principal lema, a falência do projeto desenvolvimentista como motor de crescimento. Em particular, a baixa qualidade dos automóveis e computadores nacionais, protegidos por altas barreiras alfandegárias, foi utilizada como exemplo da incapacidade do governo como grande empresário. A partir de então, observou-se uma crescente abertura comercial e uma série de privatizações. Diversas empresas de baixa eficiência, principalmente do setor de informática, foram à falência, enquanto a qualidade dos produtos disponíveis teve uma melhora substancial. A estabilidade monetária só foi alcançada com a implantação do Plano Real, em 1994, já no governo Itamar Franco. Como consequência do fim da inflação e do fim do regressivo imposto inflacionário, houve uma melhora da renda sem precedentes para as classes mais baixas. O ministro da fazenda, Fernando Henrique Cardoso, foi eleito presidente com ampla margem. Sua presidência foi caracterizada por avanços nos processos de modernização e redistribuição de renda.
A política econômica do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, baseada no câmbio flutuante e numa política monetária austera visando ao controle da inflação, foi mantida no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Do ponto de vista fiscal, o controle do superavit se deu através de um aumento substancial de arrecadação que contrabalançou a significativa elevação nos gastos públicos. A unificação dos programas redistributivos sob o nome de Bolsa Família foi uma das principais bandeiras do Governo Lula. O Banco Central do Brasil pagou o empréstimo do FMI em 2005, embora pudesse pagar a dívida até 2006. Uma das questões que o Banco Central do Brasil tratou foi um excesso de fluxos especulativos de capital de curto prazo para o país, o que pode ter contribuído para uma queda no valor do Dólar frente ao Real durante esse período. No entanto, o investimento estrangeiro direto (IED), relacionado a longo prazo, menos investimento especulativo em produção, estimava-se ser de US$ 193,8 bilhões para 2007. O monitoramento e controle da inflação desempenhou um papel importante nas funções do Banco Central de fixar as taxas de juro de curto prazo como uma medida de política monetária.
Em meados de 2014, teve início uma forte crise econômica. Uma de suas consequências foi a forte recessão econômica, levando a um recuo no Produto interno bruto (PIB) por dois anos consecutivos. A economia contraiu-se em cerca de 3,8% em 2015 e 3,6% em 2016. A crise também gerou desemprego, que atingiu seu auge em março de 2017 com uma taxa de 13,7%, o que representava mais de 14 milhões de brasileiros desempregados. A crise foi acompanhada e intensificada por uma crise política, que resultou em protestos contra o governo por todo o país. Dilma Rousseff, presidente na época, que tinha sido reeleita para seu segundo mandato, foi afastada do cargo definitivamente em agosto de 2016, com a conclusão de um processo de impeachment, assumindo seu vice Michel Temer, que também foi alvo de protestos. Após três anos de crescimento baixo, a economia teve uma recessão de -4,1% em 2020 devido à Pandemia de COVID-19.


