Naufrágio do RMS Titanic
O naufrágio do RMS Titanic ocorreu entre a noite de 14 de abril e a madrugada de 15 de abril de 1912, no Atlântico Norte, quatro dias após o início de sua viagem inaugural, iniciada em Southampton, na Inglaterra, com destino à cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. O Titanic, que era o maior navio de passageiros em serviço à época, tinha 2208 pessoas a bordo quando atingiu um iceberg por volta de 23h40 no domingo, 14 de abril de 1912. O naufrágio aconteceu duas horas e quarenta minutos depois, às 02h20 na segunda-feira, 15 de abril, resultando na morte de 1.517 pessoas, transformando-o em um dos piores desastres da história da navegação.
Na época de sua entrada em serviço em 2 de abril de 1912, o Royal Mail Ship (RMS) Titanic era o segundo de três[b] navios irmãos de Classe Olympic, e era o maior navio do mundo. Ele e seu irmão, o RMS Olympic, eram quase uma vez e meia a tonelagem bruta dos navios da Cunard RMS Lusitania e do RMS Mauretania, os prévios detentores do recorde e era quase 30 metros mais longo. O Titanic poderia transportar 3 547 pessoas com velocidade e conforto, e foi construído em uma escala até então sem precedentes. Seus motores de pistão eram os maiores já construídos, atingindo 12 metros de altura e com cilindros de 2,70 metros de diâmetro exigindo a queima de 610 toneladas de carvão por dia. Suas acomodações de passageiros, especialmente aquelas da seção da Primeira Classe do navio, foram classificadas "de extensão e magnificência incomparáveis", sugerido pelas tarifas que as acomodações da Primeira Classe exigiam. As Suites Parlor (as suítes mais caras e mais luxuosas do navio) com deck de passeio privado custavam 4 350 dólares (equivalente a 107 955 dólares em 2016) para uma passagem transatlântica só de ida. Mesmo a Terceira Classe, embora consideravelmente menos luxuosa que a Segunda e Primeira Classes, era excepcionalmente confortável para os padrões contemporâneos e era suprido com quantidades abundantes de boa comida, proporcionando aos passageiros melhores condições do que muitos experimentavam em suas casas.
Avisos de icebergs (09h00–23h39)
Durante 14 de abril de 1912, os operadores de rádio do Titanic[c] receberam seis mensagens de outros navios avisando sobre gelo à deriva, os quais os passageiros no Titanic começaram a notar durante a tarde. A condição do gelo no Atlântico Norte era a pior em qualquer mês de abril nos 50 anos anteriores (razão pela qual os vigias desconheciam que estavam prestes a entrar em uma área de gelo à deriva com vários quilômetros de largura e de comprimento). O primeiro aviso chegou às 09h00 vindo do RMS Caronia relatando "bergs, growlers[d] e campo de gelo". O capitão Smith confirmou o recebimento da mensagem. Às 13h42, o RMS Baltic transmitiu relato do navio grego 'Athenia' 'que estava "passando por icebergs e grandes quantidades de campos de gelo". Estes dois também foram confirmados por Smith, que mostrou o relato à Joseph Bruce Ismay, o executivo da White Star Line a bordo do Titanic em sua viagem inaugural. Smith ordenou que uma nova rota fosse preparada, para levar o navio mais ao Sul.
"Iceberg logo à frente!" (23h39)
Enquanto o Titanic se aproximava de sua colisão fatal, a maioria dos passageiros tinha ido para a cama e o comando da ponte tinha passado do Segundo Oficial Charles Lightoller para o Primeiro Oficial William Murdoch. Os vigias Frederick Fleet e Reginald Lee estavam ocupando o cesto da gávea, 29 metros acima do convés. A temperatura do ar tinha caído quase ao congelamento e o oceano estava completamente calmo. O Coronel Archibald Gracie, um dos sobreviventes do desastre, posteriormente escreveu que "o mar parecia vidro, tão suave que as estrelas estavam claramente refletidas". É agora sabido que águas extremamente calmas são um sinal de campo de gelo próximo.
Preparando para abandonar o navio (00h05–00h45)
Às 00h05 de 15 de abril, o Capitão Smith ordenou que os botes salva vidas fossem descobertos e os passageiros reunidos e se preparassem. Também ordenou aos operadores de rádio que começassem a enviar pedidos de socorro, que colocaram o navio no lado oeste do cinturão de gelo e direcionaram os barcos que vieram em socorro para uma posição que resultou ser imprecisa em cerca de 13,5 milhas náuticas (15,5 mi / 25 km). Abaixo dos decks, a água estava entrando nos níveis mais baixos do navio. À medida que a sala de correio inundava, os classificadores do correio fizeram uma última e inútil tentativa de salvar os 400 mil itens carregados a bordo do Titanic. Em outros lugares, conseguia se ouvir o ar sendo forçado para fora pela água que entrava. Acima deles, os camareiros foram de porta em porta, despertando passageiros e tripulação – o Titanic não tinha um sistema de aviso por alto-falantes – e pedindo que se dirigissem ao Convés dos Botes.
Partida dos botes salva-vidas (00h45–02h05)
Às 00h45, o bote nº 7 partiu com 28 passageiros a bordo, apesar de ter capacidade para 65. O bote nº 6, à bombordo, foi o próximo a ser baixado às 00h55. Também com 28 pessoas a bordo, entre elas a "inafundável" Margaret "Molly" Brown. Lightoller percebeu que havia somente um marinheiro a bordo (Quartel-mestre Robert Hichens) e chamou por voluntários. O Major Arthur Godfrey Peuchen do Royal Canadian Yacht Club foi à frente e desceu por uma corda até o bote salva-vidas; ele foi o único passageiro masculino que Lightoller permitiu embarcar no lado bombordo durante a evacuação. O papel de Peuchen destacou um problema-chave durante a evacuação: quase não havia marinheiros para assumir os barcos. Alguns foram enviados para baixo para abrir portas de passarela permitindo que mais passageiros fossem evacuados, mas nunca retornaram. Eles presumivelmente ficaram presos e morreram afogados pela água subindo nos decks inferiores.
Últimos minutos do naufrágio (02:15–02:20)
Por volta de 02:15, o ângulo do Titanic dentro d'água começou a aumentar rapidamente enquanto a água começou a inundar as partes anteriormente não atingidas do navio através dos escotilhas dos conveses. Seu ângulo repentinamente crescente causou o que um sobrevivente chamou de "onda gigante" que foi correndo ao longo do navio do começo até o fim do convés dos botes, varrendo muitas pessoas para o mar. As pessoas que estavam tentando baixar os barcos desmontáveis A e B, incluindo o imediato Henry Wilde, o Primeiro Oficial Murdoch, o Segundo Oficial Charles Lightoller e o Coronel Archibald Gracie, foram varridos para longe junto com dois botes (o bote B flutuou de cabeça para baixo com Harold Bride preso debaixo dele, e o bote A acabou parcialmente inundado e com sua lona não levantada). Bride, Gracie e Lightoller conseguiram subir no bote B, mas Murdoch e Wilde pereceram na água.
Passageiros e tripulação na água (02h20–04h10)
Logo após o afundamento, centenas de passageiros e tripulação foram deixados à morte no mar gelado, cercado pelos detritos do navio. A desintegração do Titanic durante sua descida ao leito marinho deixou detritos – vigas de madeira, portas de madeira, móveis, painéis e pedaços de cortiça das anteparas – que subiam direto à superfície. Isto lesionou e possivelmente matou alguns dos nadadores; outros usaram os detritos para tentar se manter flutuando. Com a temperatura em −2°C (30°F), a água estava mortalmente fria. O Segundo Oficial Lightoller descreve a sensação de "mil facas" sendo cravadas em seu corpo quando entrou no mar. Alguns destes na água morreriam quase instantaneamente de ataque cardíaco causado pela rápida tensão de seus sistemas cardiovasculares. Outros progrediram pelos clássicos sintomas da hipotermia: tremores extremos no início, seguido por uma diminuição e enfraquecimento da pulsação à medida que a temperatura corporal caía, antes de perder a consciência e morrer.
Resgate e partida (04h10–09h15)
Os sobreviventes do Titanic foram resgatados por volta de 04h00 de 15 de abril pelo RMS Carpathia, que tinha navegado durante a noite em alta velocidade e correndo sérios riscos, pois o navio teve que se esquivar de inúmeros icebergs no caminho. As luzes do Carpathia foram vistas pela primeira vez por volta de 03h30, o que animou grandemente os sobreviventes, embora ainda se levaria várias horas para todos serem trazidos a bordo. Os 30 ou mais homens no desmontável B finalmente conseguiram embarcar em dois outros botes, mas um sobrevivente morreu logo antes da transferência ser feita. O bote desmontável A também estava com problemas e agora estava quase inundado; muitos daqueles a bordo (talvez mais da metade) morreram durante a noite. Os sobreviventes restantes – um número não sabido de homens, estimados entre 10-11 e mais de 20 e uma mulher – foram transferidos do bote A para outro bote salva-vidas, deixando para trás três corpos dentro do bote, que foi deixado à deriva. Foi recuperado um mês depois pelo navio da White Star Oceanic, com os corpos ainda a bordo.
Dor e indignação
Quando o Carpathia chegou ao Pier 54, em Nova Iorque, na manhã de 18 de abril, após uma difícil viagem por campos de gelo, neblina, tempestades e mares agitados, cerca de 40 mil pessoas estavam de pé no cais, alertados sobre o desastre por mensagens de rádio do Carpathia e outros navios. Foi apenas quando o Carpathia ancorou – três dias depois do naufrágio do Titanic – que a dimensão total do desastre se tornou publicamente conhecida. Mesmo antes do Carpathia chegar a Nova Iorque, já estavam em curso operações de salvamento para recuperar os mortos. Quatro navios fretados pela White Star Line conseguiram recuperar 328 corpos; 119 foram sepultados no mar, enquanto os 209 restantes foram trazidos para a costa até ao porto canadense de Halifax, Nova Escócia, onde 150 destes foram enterrados. Memoriais foram erguidos em vários lugares – Nova Iorque, Washington, Southampton, Liverpool, Belfast e Lichfield, entre outros – e foram realizadas cerimônias em ambos os lados do Atlântico para homenagear os mortos e arrecadar fundos para ajudar os sobreviventes. Os corpos da maioria das vítimas do Titanic nunca foram recuperados e a única evidência de suas mortes foi achada 73 anos depois, entre os detritos no leito marinho: pares de sapatos repousados lado a lado, onde os corpos estavam antes de se decomporem.
Inquéritos públicos e legislação
Após o naufrágio, foram feitas consultas públicas na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. O inquérito americano começou em 19 de abril sob a presidência do Senador William Alden Smith, enquanto o inquérito britânico começou em Londres sob a presidência de Lord Mersey em 2 de maio de 1912. Eles chegaram a conclusões amplamente semelhantes: os regulamentos sobre o número de botes salva-vidas que os navios tinham de transportar estavam desatualizados e inadequados; o Capitão Smith falhou em não ter a atenção adequada apesar dos avisos de gelo; os botes salva-vidas não haviam sido devidamente preenchidos ou tripulados; e a colisão foi resultado direto de navegar em uma área perigosa em alta velocidade. O Capitão Lord do Californian foi duramente criticado em ambos inquéritos por não prestar assistência ao Titanic.
Impacto cultural e destroços
O naufrágio do Titanic se tornou um fenômeno cultural, celebrado por artistas, cineastas, escritores, compositores, músicos e dançarinos imediatamente após o desastre até os dias de hoje. Em 1º de setembro de 1985 uma expedição conjunta franco-americana liderada por Robert Ballard encontrou os destroços do Titanic, e a redescoberta do navio levou a uma explosão de interesse na história do Titanic. Inúmeras expedições foram feitas para filmar os destroços e, de maneira controversa, resgatar objetos do campo de detritos. A primeira grande exibição de objetos recuperados aconteceu no Museu Marítimo Nacional de Londres em 1994–95. Em 1997, o filme homônimo de James Cameron se tornou o primeiro filme a ganhar 1 bilhão de dólares de bilheteria, e a trilha-sonora do filme se tornou a trilha-sonora mais vendida de todos os tempos.
O número exato de mortos no naufrágio é incerto devido a vários fatores, como confusão sobre a lista de passageiros, que incluía nomes de pessoas que cancelaram a viagem no último momento e o fato de alguns passageiros terem embarcado sob pseudônimos por várias razões e foram contados em duas listas de vítimas. O número total de mortos já foi colocado, hoje em dia, como 1517 pessoas. Os números abaixo são do relatório do inquérito britânico sobre o desastre. Menos de um terço daqueles que estavam a bordo do Titanic sobreviveram. Alguns sobreviventes morreram pouco tempo depois; ferimentos e os efeitos da exposição causaram a morte de muitos daqueles resgatados pelo Carpathia. 49% das crianças, 26% das mulheres passageiras, 82% dos homens passageiros e 78% da tripulação morreram. Os números mostram enormes diferenças nos índices de sobrevivência das diferentes classes a bordo do navio, especialmente entre as mulheres e crianças. Apesar de menos de 10% das mulheres da primeira e segunda classe juntas terem morrido, 54% daquelas na terceira pereceram. Similarmente, cinco das seis crianças na primeira classe e todas da segunda classe sobreviveram, porém 52 das 79 na terceira morreram. A única criança da primeira classe a morrer foi Loraine Allison, de dois anos de idade. Proporcionalmente, as maiores perdas foram sofridas por homens da segunda classe, dos quais 92% morreram. Além disso, três animais de estimação que estavam a bordo sobreviveram.


