Benjamin Abrahão Botto
Benjamin Abrahão Botto foi um fotógrafo libanês-brasileiro, responsável pelo registro iconográfico do cangaço e de seu líder, Virgulino Ferreira da Silva — o Lampião. Abrahão morreu aos 48 anos, durante o Estado Novo.
Origem
A fim de fugir à convocação obrigatória do Império Otomano para lutar durante a Primeira Guerra Mundial, migrou para o Brasil em 1915.[carece de fontes?]
Carreira profissional
Foi comerciante (mascate) de tecidos e miudezas, além de produtos típicos nordestinos, primeiro em Recife, depois para Juazeiro do Norte, com dois burros (Assanhado e Buril) e um cavalo (de nome Sultão), atraído pela grande frequência de romeiros. Abrahão foi secretário do Padre Cícero e conheceu o cangaceiro Lampião, em 1926, quando este foi até Juazeiro do Norte a fim de receber a bênção do célebre vigário e a patente de capitão, para auxiliar na perseguição da Coluna Prestes. Ambos estiveram na cidade em 1924, mas não se encontraram. A nomeação foi feita a mando do padre pelo funcionário federal Pedro de Albuquerque Uchoa, segundo uma autorização dada ao deputado Floro Bartolomeu pelo próprio presidente Artur Bernardes — ordem que em nada adiantou, pois não foi respeitada nos demais estados, resultando que Lampião e seu bando jamais efetuaram perseguição a Prestes. Em 1929, Abrahão fotografou o líder cangaceiro ao lado do padre.
Morte
Morreu após ser agredido com quarenta e duas facadas, crime que pouco foi esclarecido, donde se especula ter sido mais uma das mortes arquitetadas pelo sistema, como outras ocorridas em situação análoga, a exemplo de Horácio de Matos, embora exista a versão de que o fotógrafo sírio-libanês teria sido alvo de roubo, apesar de com este nada de valor haver. Outra versão alega que o assassino, chamado Zé da Rita, o matou por conflitos amorosos com uma mulher. Em 2024, após 86 anos de imprecisão do local específico de sua sepultura, o programa "O Cangaço na Literatura" rastreou, por meio de relatos memorialísticos, a localização da sepultura de Benjamin no Cemitério municipal de Itaíba, em Pernambuco.
Incursões à caatinga
O trabalho de fotografia e filmagem de Lampião e seu bando, empreendido por Abrahão, envolveu também a ABA-Film, produtora situada no Ceará, que cedeu treinamento e parte do equipamento necessário ao projeto.[carece de fontes?] Para a realização das filmagens, Abrahão contou com verdadeiro trabalho de aproximação junto ao bando, que fugia do encalço das forças volantes do Estado. O primeiro encontro veio finalmente a ocorrer em um lugar chamado Bom Nome, onde o cangaceiro, desconfiado, primeiro realizou ele mesmo a filmagem do ex-mascate, em trecho que se perdeu, e só então consentiu ser filmado.[carece de fontes?] O próprio Lampião assegurou o testemunho, em um bilhete, de que todas as suas imagens eram produto do trabalho de Abrahão.
Abandono e resgate
Os trabalhos de Abrahão Botto permaneceram esquecidos até serem redescobertos nos anos 1950, quando a Fundação Getúlio Vargas incorporou o acervo do Departamento de Imprensa e Propaganda - DIP. Em notícia do Correio do Ceará, de 7 de abril de 1937, transcrevia a ordem emanada de Lourival Fontes, diretor do DIP, que por telegrama determinava a apreensão do filme Lampião, que se exibia em Fortaleza, com o seguinte teor: Em 1996, a atribulada vida do fotógrafo foi o tema do filme Baile Perfumado, dirigido por Paulo Caldas e Lírio Ferreira, sobre roteiro de ambos e Hilton Lacerda. No ano 2000, foi objeto de várias exposições, em Paris, São Paulo e Rio de Janeiro.
Crítica histórica
A historiadora francesa Élise Jasmin (n. 1966), que realizou uma mostra na França das imagens do Cangaço por Abrahão Botto, fruto de seus trabalhos de pesquisa, declarou em entrevista que "Estas imagens dos bandidos no auge de sua glória e poder, ao lado das fotos com o jogo cênico de suas mortes, fazem parte desta espetacularização da violência que encontramos nas sociedades modernas (…)" — e aludindo que havia por trás do trabalho de Abrahão uma intenção por parte do cangaceiro em "…desafiar seus adversários, impor seu poder e mostrar que seu sistema de valores, a vida que levavam, tinha um sentido para eles." — fato refutado por Urariano Mota, para quem "As lentes de Benjamin Abrahão, que os filmou, é que fazem o espetacular".


