Bedtime Stories
Bedtime Stories é o sexto álbum de estúdio da artista musical estadunidense Madonna, lançado em 21 de outubro de 1994 através das gravadoras Maverick e Warner Bros. Para a sua produção, a cantora colaborou com Dallas Austin, Babyface, Dave "Jam" Hall e Nellee Hooper com o objetivo de alcançar um som mais convencional e atenuar sua imagem pública, após enfrentar reações negativas crítica e comercialmente por seus projetos sexualmente explícitos em 1992, notavelmente o álbum Erotica e o livro SEX. Essa transformação de imagem foi precedida pela balada "I'll Remember", para a trilha sonora do filme With Honors, e continuou com Bedtime Stories. Um álbum de música pop e de R&B, suas letras exploram temas como amor, tristeza e romance, mas com uma abordagem mais suave e reflexiva. Porém, em outras canções ela aborda a polêmica em relação às suas obras anteriores, que a crítica analisou como autobiográficas. Madonna também trabalhou com a cantora islandesa Björk na faixa "Bedtime Story", pois queria explorar a cena musical das boates do Reino Unido, onde gêneros como o dub estavam crescendo em popularidade.
Em 1992, Madonna lançou seu controverso livro Sex e seu quinto álbum de estúdio Erotica, ambos os quais continham temáticas sexuais explícitas e de fantasias voyeurísticas, estrelando também o filme de terror erótico Body of Evidence. No primeiro semestre de 1994, sua aparição no Late Show with David Letterman foi notada por seu polêmico comportamento; na ocasião, ela fez uso de palavras obscenas diversas vezes, que tiveram de ser censuradas na televisão, entregando a Letterman uma calcinha supostamente usada e pedindo para que ele a cheirasse. Este foi o episódio de um talk-show mais censurado da história televisiva estadunidense, rendendo também ao programa uma de suas maiores audiências. Os lançamentos do livro, álbum e filme sexualmente explícitos e o comportamento desrespeitoso no programa de Letterman fizeram com que a mídia considerasse Madonna como uma renegada sexual. Críticos e fãs reagiram negativamente a conduta da cantora, ao comentarem que "ela tinha ido longe demais" e que sua carreira estava em declínio. Nas palavras de Joe Lynch, da Billboard: "Pela primeira vez em uma década de estrelato, as pessoas não estavam mais chocadas com suas travessuras e, pior ainda, estavam cansadas". Em meio ao ápice das críticas do público e da mídia em relação à sua imagem sexual, Madonna decidiu mudar sua personalidade. A primeira tentativa foi o lançamento da balada "I'll Remember" para a trilha sonora do filme With Honors, que foi bem recebida criticamente e comercialmente.
Ao mesmo tempo em que expunha suas ideias, [Madonna] estava aberta a ideia dos outros. Você não chegava nela e logo de cara dizia: 'Bem, eu ouvi isso', porque ela era tão específica e articulada. Ela já tinha o som que queria na cabeça. Mas depois que ela falou, fizemos nossa misera contribuição. A vocalista de apoio Donna De Lory sobre o desenvolvimento do álbum. Madonna gravou Bedtime Stories com uma equipe formada por novos músicos e compositores, todos os quais ela ainda não havia trabalhado antes, em nove estúdios distintos: Axis Studios, The Hit Factory e Soundworks, localizados em Nova Iorque; Chappel Studios em Los Angeles; DARP Studios e Tea Room em Atlanta; The Enterprise em Burbank; The Music Grinder em Hollywood e Wild Bunch Studios em Londres. Inicialmente, a artista começou a trabalhar com Shep Pettibone, que co-produziu Erotica. No entanto, ela percebeu que ele estava tomando a mesma direção musical do anterior, o que a desagradou, então o retirou do projeto. Quando Bedtime Stories foi lançado, ela o agradeceu nos créditos por ter sido "compreensivo" com sua decisão. Na época, Madonna estava demasiadamente ouvindo "When Can I See You", de Babyface, e como queria "baladas pesadas" para seu disco, interessou em trabalhar com ele, cujas colaborações anteriores com artistas como Whitney Houston, Boyz II Men e Toni Braxton resultaram em canções de R&B suaves e bem sucedidas. Os dois trabalharam em três faixas em seu estúdio em Beverly Hills, das quais "Forbidden Love" e "Take a Bow" acabariam no álbum. Sobre o desenvolvimento dessa última, ele lembrou que tocou a base de alguns acordes e a cantora aprovou, então começaram a compor. Segundo o produtor, "era só um compasso e os acordes. A partir daí, colaboramos e construímos [...] eu não estava pensando tanto nas paradas musicais. Acho que fiquei mais impressionado com o fato de estar trabalhando com Madonna. No começo foi surreal, mas depois você conhece um pouco a pessoa, recupera o controle e é só trabalhar". Ela também expressou que para "Forbidden Love" ouviu o esboço e "tudo começou a sair", reconhecendo que foi um processo "muito mais fácil" do que pensava.
No âmbito musical, Bedtime Stories apresentou uma mudança notável em relação à Erotica. De forma majoritária, compreende faixas predominadas pelos gêneros pop e R&B fundindo elementos de new jack swing, estilo híbrido que mescla samples e técnicas oriundas da música urbana contemporânea, em especial, o hip hop. Da mesma forma, Joe Lynch, da Billboard, observou que a sua sonoridade e a suas letras eram "mais suaves" e que aqui ela se concentrava em explorar temas autobiográficos, uma visão compartilhada por outros críticos. A cantora deu atenção especial à sequência das músicas, com o objetivo de criar um "álbum realmente coeso", afirmando que todas elas refletiam algo em sua vida, "seja uma experiência que vivi ou estou vivendo. São reflexos do meu estado de espírito atual", acrescentando: "Liricamente e tematicamente, eu descreveria a maioria das canções como românticas e reflexivas. Resultado do meu estado de espírito durante os últimos anos. Quando eu estava fazendo Erotica e ao mesmo tempo estava trabalhando em meu livro de sexo. Naquela época eu estava interessada em explorar o erotismo e minhas fantasias sexuais. Agora estou explorando o romance. Musicalmente, Erotica era mais club e house e tinha uma vibração meio industrial. Este é o outro lado do amor. Acho que o amor deve ser erótico e romântico". Neste ponto, as letras da obra são mais sobre romance, perda de um amor não correspondido, depressão, solidão e luto, embora temas religiosos e espirituais também sejam explorados, especialmente em "Secret" e "Sanctuary".
O álbum leva o nome da música "Bedtime Story", escrita por Björk. Madonna o escolheu como título, pois ela sentiu que tocava na ideia de "contos sendo contados, de palavras que você ensina às crianças". O acadêmico Georges Claude Guilbert, autor de Madonna As Postmodern Myth, opinou que era um trocadilho e que a cantora estava se referindo a "[possíveis histórias eróticas] contadas na [na cama] durante a hora de dormir. De certa forma [o disco] é realmente um livro de histórias que você pode contar para seus filhos na hora de dormir [...] sexualidade explicada para crianças". Temendo uma reação negativa, a cantora hesitou e pensou em mudar, pois o público poderia "vê insinuações e malícias que em nenhuma hipótese eram intencionais, imaginassem que significava canções para ouvir antes de fazer sexo". Eventualmente, ela desistiu da ideia e pensou "foda-se, é um título lindo". A arte de Bedtime Stories foi fotografada pelo fotógrafo de moda francês Patrick Demarchelier, no Eden Roc Miami Beach Hotel nos Estados Unidos em agosto de 1994. A artista também trabalhou com o cabeleireiro Sam McKnight para as fotos, que foram dirigidas por Fabien Baron. McKnight lembrou que foi uma sessão de fotos "discreta" com menos de 50 pessoas, e foi realizada no aniversário de Madonna, portanto, foi encerrada rapidamente, já que a ela tinha que ir para sua festa. A capa foi lançada online e a mostrava de cabeça para baixo, olhando para cima com maquiagem pesada, piercing no nariz, cabelo loiro e fontes simples em tons pastéis. Inspirada na atriz Jean Harlow, a cantora exibiu sobrancelhas bem contornadas para as fotos que foram desenhadas pelo maquiador François Nars.
Crítica profissional
De um modo geral, Bedtime Stories recebeu avaliações positivas de críticos, acadêmicos e jornalistas musicais, que elogiaram a voz, produção e composição de Madonna. Jim Farber, da revista Entertainment Weekly, o condecorou com uma nota B e notou que enquanto em seu último trabalho a artista concentrava-se em explorar os ritmo dance da cultura underground LGBT, aqui ela "substituía essas formulas por sua apreciação pela cultura negra". J. Randy Taraborrelli, autor de Madonna: An Intimate Biography of an Icon at Sixty (2018), elogiou-o por ser "consideravelmente mais suave em estilo do que a sonoridade etérea e o conteúdo sexualmente explícito" de Erotica, atribuído isso ao "instinto aguçado" da intérprete sobre para onde a música pop estava indo. Greg Kot, do Chicago Tribune, classificou o álbum com uma nota 3 de 4. Na análise, o editor o avaliou como uma "mudança bem-vinda" dos "escândalos estridentes" do antecessor e que, nele, Madonna soava "mais calma e sedutora". Barry Walters, do jornal San Francisco Examiner, prezou-a por abandonar as provocações do passado e se voltar a aspectos muito mais sutis como o amor, em um "registro mais simples", "agradável" e "corajoso" do que o que o precedeu. Francesco Falconi, escritor de Mad for Madonna: La Regina del Pop (2017), considerou que a sonoridade R&B era "perfeita para esfriar o tom de Erotica e inclinar-se para uma sonoridade diferente e uma imagem menos provocativa". Além disso, constatou que havia maior atenção às letras e à produção e que a atmosfera do material era "refinada e glamorosa". Já Eduardo Viñuela expressa, em Bitch She's Madonna: La reina del pop en la cultura Contemporary (2018), que aqui a intérprete refugiou-se "na ligação com a arte para tentar deixar para trás as polêmicas" sexuais de seu último álbum.
Reconhecimento
"Ver Bedtime Stories como algo mais do que uma extensão do que ela [Madonna] vinha fazendo o tempo todo seria negligente. E ao invés de simplesmente seguir as tendências americanas da época, Madge injetou o álbum com os sons do trip hop que estavam em voga do outro lado da lagoa. Mas foi seu gosto literário refinado, de Proust a Whitman, bem como a rejeição pública e da mídia de sua politicagem sexual, que realmente trouxe o álbum para a velocidade". —Sal Cinquemani, editor da Slant, na matéria "Os 100 melhores álbuns da década de 1990", onde Bedtime Stories ficou em 63º lugar. Após seu lançamento, Bedtime Stories entrou em diversas listas compilando os melhores álbuns de 1994 realizadas por diferentes publicações, como Billboard (posições 2 e 10), The Village Voice (26), NME (30) e Slant, nesta última recebeu menções honrosas. Além disso, esteve nas contagens dos melhores álbuns de Madonna, cujas avaliações retrospectivas foram positivas. Por exemplo, Jason Lipshutz, da Billboard, o classificou como o sexto entre os treze melhores da artista, reconhecendo que, embora não tenha sido tão explícito quanto Erotica, também "não foi um mea culpa por seu polarizado projeto anterior". Em vez disso, capturou a cantora "em transição, afastando-a da sexualidade explícita e contando com R&B e baladas, antes de mergulhar de cabeça na dance music quatro anos depois". Ele concluiu que "Human Nature", "Secret" e "I'd Rather Be Your Lover" eram mais "interessantes do que a maioria das novas músicas lançadas em meados dos anos 90" e "Take a Bow" adicionou uma "balada clássica" ao catálogo de Madonna. Steven E. Flemming, Jr., do Albumism, afirmou que era o "mais comovente" em seu catálogo e que "Madonna aqui é um pouco menos dura e muito mais honesta, um contraste necessário com os anos voláteis da era Sex". Em uma classificação de todos os seus álbuns de estúdio, Samuel Murrian, do Instinct, o colocou no número cinco, concluindo que era o seu material "mais suave", mas que mostrava algumas de suas habilidades "mais atraentes" como compositora. Em 2013, Chris Gerard, do Metro Weekly, considerou-o seu sétimo melhor trabalho: ele elogiou sua produção, singles e a voz de Madonna, chamando-o de "uma coleção primorosamente polida de canções pop/R&B".
Para começar a divulgar Bedtime Stories, anúncios foram veiculados em canais de televisão proclamando que não haveria "absolutamente nenhuma referência sexual no álbum", ao que Madonna comentou: "Não porque eu esteja envergonhada. Não porque mudei. Não porque eu tenha uma nova visão da vida. Eu abdiquei desses assuntos [...] por assim dizer. É um novo eu! Eu serei uma boa garota, eu prometo". Após seu lançamento, ela deu algumas entrevistas para publicações internacionais visando promovê-lo. Uma de suas primeiras aparições foi em Paris, onde a atriz Ruby Wax a entrevistou e tratou sobre o álbum. No entanto, Wax posteriormente criticou o encontro por se sentir intimidada pela equipe de Madonna e que "a tensão tomou conta" dela, forçando-a a fazer perguntas que, em suas palavras, não faziam sentido ou pareciam incomodar a cantora. Acompanhada por Babyface e uma orquestra completa, Madonna interpretou "Take a Bow" pela primeira vez nos American Music Awards em 30 de janeiro de 1995. Ela expressou que "nunca esteve tão nervosa antes", e Babyface reagiu dizendo: "Isso foi uma loucura para mim. Eu fiquei tipo, "Você é a Madonna! Você está no palco o tempo todo!". Anos mais tarde, Erin Strecker, da Billboard, elegeu a apresentação como uma das doze melhores da história da premiação.
O primeiro single retirado de Bedtime Stories foi "Secret", liberado em em 27 de setembro de 1994. Recebeu análises geralmente positivas de críticos musicais, que elogiaram a mudança de rumo musical em direção ao R&B, sua rica produção e a ênfase na voz de Madonna. A obra também obteve um desempenho comercialmente positivo, atingindo o topo das tabelas no Canadá, Finlândia e Suíça, enquanto no Reino Unido tornou-se o seu 35.º single consecutivo a listar-se entre os dez primeiros. Nos Estados Unidos, estreou na 30ª posição da parada Billboard Hot 100 e, posteriormente, obteve a terceira colocação como melhor. O vídeo musical acompanhante, filmado em preto-e-branco, foi dirigido pela fotógrafa Melodie McDaniel em setembro de 1994 em Nova Iorque; McDaniel foi selecionada pela própria cantora devido aos seus trabalhos anteriores. A produção retrata Madonna como uma cantora em uma boate do Harlem, sendo intercalado com cenas da vida diária na vizinhança e terminando com a artista unindo-se com seu parceiro e sua criança.
Na opinião de Stan Hawkins, da Universidade de Leeds, Bedtime Stories foi visto pela crítica como um "importante ponto de chegada da artista à maturidade, ao introduzi-la em novos campos da produção, composição e interpretação de canções. Isso significa que, de certa forma, sua continuidade [na indústria] está assegurada dentro de um ambiente heterogêneo que faz parte de uma memória social coletiva mais ampla. O autor afirmou que "a metamorfose contínua de sua identidade constrói um pluralismo que se encaixa na agenda do pós-modernismo". Carmine Sarracino e Kevin M. Scott, autores de The Porning of America: The Rise of Porn Culture, what it Means, and where We Go from Here (2008), apontaram que todas aquelas críticas negativas que ela enfrentou no início dos anos 1990 provocaram nela uma reação "acalorada", razão pela qual em Bedtime Stories expressa a "aparente surpresa de que seu trabalho, tão obviamente calculado para escandalizar, na verdade escandalizou". Fermín Zabalegui, da versão espanhola da GQ, elogiou a sua capacidade de se reinventar em discos "tão lendários" como este. Segundo Eduardo Viñuela, o material apresentava uma "imagem adocicada da artista, uma viagem interior, surreal, misteriosa, romântica e aberta a outras culturas". Jamieson Cox, periodista da Time, considerou-o "subestimado", opinião que foi compartilhada por Graham Gremore, do Queerty, que acrescentou que até hoje continua como um dos mais subestimados e menosprezados de sua carreira e merece mais atenção do que "já recebeu". Nesse sentido, Troy L. Smith, do The Plain Dealer, explica que foi esquecido porque foi lançado "entre sua obra mais polêmica (Erotica) e, possivelmente, sua melhor (Ray of Light)". Borja Prieto e Natalia Flores acrescentaram que "apesar de não ter sido um sucesso e imediato, como seus trabalhos anteriores, [...] o passar do tempo o transformou em uma obra marcante em sua discografia".
Todo o processo de elaboração de Bedtime Stories atribui os seguintes créditos:


