Bartolomeu de Gusmão
Bartolomeu Lourenço de Gusmão, cognominado o padre voador, foi um sacerdote secular, cientista e inventor nascido no Brasil, considerado o primeiro cientista do continente americano, onde foi autor da primeira patente de invenção. É conhecido como o pioneiro da aviação moderna, por ter inventado o primeiro aeróstato operacional. Poliglota e erudito, registrou várias outras invenções, atuou na diplomacia e na criptografia e destacou-se no estudo da história, matemática e mecânica. Camilo Castelo Branco o definiu como "o maior homem que deu o século XVIII a Portugal".
Possuidor de profundas raízes brasileiras, descendia, por linha de sua mãe Maria Álvares, de uma tetravó paulista, sendo também paulistas sua mãe, a avó, a bisavó e a trisavó. Sobrinho pela linha materna de três padres jesuítas e dois frades capuchinhos, Bartolomeu era o quarto filho de Maria com o cirurgião Francisco Lourenço Rodrigues, de família há duas gerações no Brasil. O casal teria ao todo doze filhos, seis mulheres e seis homens, entre os quais, além de Bartolomeu, estava Alexandre de Gusmão, que viria a se tornar importante diplomata no reinado de D. João V, sendo autor do Tratado de Madri. Já que o Brasil era uma província de Portugal, consta no seu epitáfio, no átrio da igreja de São Romão, em Toledo: "presbítero português nascido na cidade de Santos, Brasil". Foi batizado simplesmente com o nome de Bertolameu Lourenço, em 19 de dezembro de 1685, na Igreja Paroquial da vila de Santos pelo padre António Correia Peres. Eventualmente altera o prenome para "Bartolomeu", e mais tarde, em 1718, adota a si, tal como o irmão Alexandre, o apelido "de Gusmão", em homenagem ao preceptor e protetor, o jesuíta Alexandre de Gusmão.
Na capital portuguesa o padre Bartolomeu Lourenço pediu patente ou "petição de privilégio" para um “instrumento para se andar pelo ar” – que se revelaria ser, mais tarde, o que hoje se conhece por aeróstato ou balão –, a qual foi concedida no dia 19 de Abril de 1709. O fato causou celeuma na cidade e a notícia rapidamente se espalhou para alguns reinos europeus. O invento, divulgado por meia Europa em estampas fantasiosas que, em geral, o retratavam como uma barca com formato de pássaro, ficou conhecido como “Passarola”. As primeiras ilustrações da Passarola haviam sido na verdade elaboradas pelo filho primogênito do 3.º Marquês de Fontes, D. Joaquim Francisco de Sá Almeida e Meneses, com a conivência de Bartolomeu. O 8.º Conde de Penaguião e futuro 2.º Marquês de Abrantes contava 14 anos em 1709 e era, então, aluno de matemática do padre, sendo a única pessoa à qual ele permitia livre acesso ao recinto em que o engenho voador era guardado. Como o rapaz vivesse assediado por curiosos, que constantemente lhe faziam indagações acerca da invenção, resolveu ele, para deixar de ser importunado, elaborar o exótico desenho da Passarola, em que tudo era propositadamente falseado. E para preservar o verdadeiro princípio da invenção – o Princípio de Arquimedes –, atribuiu a ascensão da engenhoca ao magnetismo, que era então a resposta para quase todos os mistérios científicos. Esperava dessa maneira melhor proteger o segredo confiado à sua guarda e ludibriar os bisbilhoteiros. Comunicou o plano a Bartolomeu, que o aprovou, e fingiu deixar o desenho escapar por descuido. A Passarola, inspirada ao que parece na fauna fabulosa de algumas lendas do Brasil, acabou sendo rapidamente copiada, logo se espalhando pela Europa em várias versões, para grande riso dos dois embusteiros.
Epitáfio no átrio da Igreja de São Romão, em Toledo Dizia o Visconde de São Leopoldo que Gusmão nunca fez alarde dos seus profundos conhecimentos de humanidades, porém o seu saber era admirado por todos os seus contemporâneos. Memorizava longos trechos da Bíblia, sabendo fazer complexas relações entre elas. Além do português, era versado em latim, francês, italiano, holandês, inglês, grego e hebraico. Nos estudos da Matemática, em toda sua extensão, excedeu ao conhecimento dos estudiosos do seu tempo em Portugal. Seu irmão Alexandre veio morar com ele em Lisboa em 1710. Aos contatos de Bartolomeu na Corte lisboeta se deveu o apontamento de Alexandre para a diplomacia, poucos anos depois. Entre 1713 e 1716, Bartolomeu viajou pela Europa. Logo no primeiro ano, registrou na Holanda o invento de uma “máquina para a drenagem da água alagadora das embarcações de alto mar” (patente que só veio a público em 2004 graças a pesquisas realizadas pelo arquivista e escritor brasileiro Rodrigo Moura Visoni). Inventou ainda um sistema de espelhos e lentes convergentes para assar carne ao sol.
Embora Bartolomeu tenha criado o que Rodrigo Visoni e João Callane descrevem como "a mais espetacular máquina do mundo de então", sua invenção não levou a mais do que uma frívola curiosidade. Considera-se que, se as suas demonstrações tivessem alcançado repercussão no meio científico, poderiam ter antecipado em décadas o surgimento da teoria cinética dos gases, cujo primeiro esboço só seria publicado em 1738, por Daniel Bernoulli. A própria fama pela invenção do aeróstato seria levada pelos Irmãos Montgolfier, reinventando-o setenta e quatro anos após o seu experimento, em 1783, com um balão de linho que usava o mesmo princípio de Bartolomeu. Santos Dumont concluiria a obra de Bartolomeu em 1901, ao construir o primeiro balão dirigível. Os modernos balões de ar quente constituem versões modificadas do modelo de Bartolomeu, com desenvolvimentos de Paul Edward Yost.
Nas festas oficiais do centenário da Independência, em 7 de setembro de 1922, um monumento em mármore em sua homenagem foi inaugurado em sua cidade natal, Santos, na Praça Rui Barbosa. Ruas e avenidas foram batizadas com seu nome em São Paulo, Santo André, Santos, Aparecida, Petrópolis, Araruama, Lagoa Santa, Fortaleza, Vitória da Conquista e na cidade portuguesa de Amadora. Receberam o seu nome escolas em São Paulo, João Pessoa e Lauro de Freitas e, em Portugal, Lisboa. Desde 1935, o Aeroporto Estadual de Araraquara é chamado Aeroporto Bartolomeu de Gusmão. É patrono do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Em Toledo. Lá fora, a vida tumultua E canta. A multidão em festa se atropela... E o pobre, que o suor da agonia enregela, Cuida o seu nome ouvir na aclamação da rua. Agoniza o Voador. Piedosamente, a lua Vem velar-lhe a agonia através da janela. A Febre, o Sonho, a Glória enchem a escura cela, E entre as névoas da morte uma visão flutua: “Voar! varrer o céu com asas poderosas, Sobre as nuvens! correr o mar das nebulosas, Os continentes de ouro, o fogo da amplidão!...” E o pranto do luar cai sobre o catre imundo... E em farrapos, sozinho, arqueja moribundo Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão.


