Natalie Clifford Barney
Natalie Clifford Barney foi uma dramaturga, poetisa e romancista estadunidense que viveu em Paris.
Natalie Barney nasceu em 1879 em Dayton, Ohio; seus pais eram Albert Clifford Barney e Alice Pike Barney. Seu pai tinha ascendência inglesa e era filho de um rico fabricante de vagões de trem; sua mãe tinha ascendência francesa, holandesa e alemã. Quando Natalie tinha seis anos de idade, sua família passou o verão no Long Beach Hotel, em Nova York, mesmo local onde Oscar Wilde estava dando uma palestra. Enquanto ela passava por ele, correndo com um grupo de meninos, Wilde pegou-a pelo braço, sentou-a em seu colo e começou a contar-lhe uma história. No dia seguinte, ele se juntou a Barney e a sua mãe na praia, sendo que a conversa deles mudou o curso da vida de Alice, que ficou inspirada em se tornar uma artista, apesar da desaprovação de seu marido. Ela seria aluna de Carolus-Duran e James McNeill Whistler. Muitas das pinturas de Alice Pike Barney se encontram atualmente no Museu Smithsonian de Arte, em Washington.
Em novembro de 1899, Barney conheceu a poetisa Pauline Tarn, mais conhecida pelo pseudônimo de Renée Vivien. Esta sentiu amor à primeira vista por Barney, enquanto Barney ficou fascinada com Vivien depois de ouvi-la recitar um de seus poemas, que ela descreveu como "assombrado pelo desejo de morte". O relacionamento romântico era também um intercâmbio criativo que serviu de inspiração para ambas. Barney forneceu um quadro teórico feminista que Vivien exploraria em sua poesia. Elas adaptaram o imaginário dos poetas simbolistas, assim como as convenções do amor, para descrever o amor entre mulheres, buscando também exemplos de mulheres heróicas da história e da mitologia. Safo foi uma influência muito importante, e elas estudaram grego para poderem ler os fragmentos que restaram de sua poesia no original. Ambas escreveram peças sobre a vida dela. Vivien via Barney como uma musa inspiradora e, conforme Barney descreveu, "ela havia encontrado uma nova inspiração através de mim, quase sem me conhecer". Barney sentia que Vivien tinha eleito-a uma femme fatale, querendo que ela "se perdesse por completo no sofrimento" pelo bem de sua arte. Vivien também acreditava na fidelidade, algo com o qual Barney não concordava. Enquanto Barney visitava sua família em Washington, D.C. em 1901, Vivien parou de responder às cartas dela. Barney tentou reconquistá-la durante anos, tendo, a determinada altura, persuadido uma amiga, a cantora de ópera Emma Calvé, a cantar sob a janela de Vivien para que ela pudesse jogar um poema (enrolado num buquê de flores) na sacada de Vivien. Tanto as flores quanto o poema foram interceptados e devolvidos por uma governanta.
Em 1900, Barney publicou seu primeiro livro, uma coleção de poemas chamado Quelques Portraits-Sonnets de Femmes (Alguns Retratos-Sonetos de Mulheres). Os poemas foram escritos na forma tradicional da poesia francesa, já que Barney não se importava com o estilo de versos livres. Os poemas foram descritos como "um trabalho de aprendiz", mas através da publicação deles, Barney se tornou a primeira poetisa a escrever abertamente sobre o lesbianismo desde Safo. A mãe de Barney contribuiu com as ilustrações dos poemas, sem saber que três das quatro mulheres que posaram para ela eram amantes de sua filha. As resenhas foram majoritariamente positivas, e o tema lésbico dos poemas foi encoberto pelos críticos, com alguns até deturpando-o. O jornal Washington Mirror disse que que Barney "escreve odes aos lábios e olhos dos homens; tampouco como uma novata". No entanto, uma manchete num jornal de fofocas da alta sociedade denunciou que "Safo canta em Washington", o que chamou a atenção do pai da autora, que comprou e destruiu todo o estoque e as chapas de impressão da editora.
Por mais de 60 anos, Barney organizou um salão literário, uma reunião semanal onde as pessoas se reuniam para socializar e discutir literatura, arte, música e qualquer outro assunto de interesse. Barney se esforçou para trazer mulheres para o grupo, enquanto reunia também alguns dos escritores homens mais proeminentes de seu tempo. Ela reuniu modernistas expatriados com os membros da Academia Francesa. Joan Schenkar descreveu o salão de Barney como "um lugar onde designações lésbicas e compromissos com os acadêmicos coexistiam numa espécie de dissonância cognitiva alegre, de polinização cruzada". Na década de 1900, Barney realizou reuniões no salão de sua casa em Neuilly. O divertimento dos convidados incluía leituras de poesia e representações teatrais (onde Colette, por vezes, atuava). Mata Hari realizou uma dança certa vez, galopando pelo jardim como Lady Godiva num cavalo branco enfeitado com turquesa cloisonné.
Éparpillements (Espalhamentos, 1910) foi a primeira coleção de pensées—literalmente, pensamentos—de Barney. Esta forma literária estava associada com a cultura dos salões literários na França desde o século XVII, quando o gênero foi aperfeiçoado no salão de Madame de Sablé. Os pensamentos de Barney, assim como os de Sablé, eram epigramas curtos, muitas vezes, de uma única linha, ou frases de efeito como "Há mais ouvidos malignos do que bocas sujas" e "Estar casado é não estar nem sozinho nem juntos." Sua carreira literária teve um impulso depois que ela enviou uma cópia de Éparpillements a Remy de Gourmont, um poeta, crítico literário e filósofo francês que se tornou um recluso após contrair lupus vulgaris aos trinta anos de idade. Ele ficou impressionado o suficiente para convidá-la para um dos encontros de domingo em sua casa, onde ele normalmente recebia um pequeno grupo de velhos amigos. Ela foi uma influência de rejuvenescimento na vida dele, persuadindo-o a passear à noite de carro, a jantar na Rue Jacob, a ir a um baile de máscaras, e até mesmo fazer um pequeno cruzeiro no Sena. Ele transformou algumas das conversas de ambos numa série de cartas publicadas na revista literária Mercure de France, referindo-se a ela como l'Amazon (a amazona); as cartas foram posteriormente transformadas num livro. Ele morreu em 1915, mas o apelido que ele deu a ela ficaria com Barney pelo resto de sua vida—até mesmo a lápide dela identifica-a como "a Amazônia de Remy de Gourmont"—e suas Cartas à Amazona deixou seus leitores curiosos sobre a mulher que havia lhe inspirado.
Barney praticava e defendia o que hoje se chama de poliamor. Já em 1901, em Cinq Petits Dialogues Grec, ela argumentou em favor de relações múltiplas e contra o ciúme; em Éparpillements, ela escreveu: "Um indivíduo é infiel com aqueles que ama a fim de que seu charme não se torne mero hábito". Enquanto ela mesma tinha crises de ciúme, Barney incentivava pelo menos algumas de suas amantes a serem não-monogâmicas também. Devido, em parte, à biografia que Jean Chalon escreveu sobre ela, publicada em inglês sob o título de Portrait of a Seductress (Retrato de uma Sedutora), Barney se tornou mais conhecida por seus muitos relacionamentos do que por sua escrita ou do que por seu salão literário. Certa vez, ela escreveu uma lista, dividida em três categorias: ligações, semi-ligações, e aventuras. Colette era uma semi-ligação, enquanto a artista e designer de móveis Eyre de Lanux, com quem ela teve um caso ininterrupto por anos, foi listada como uma aventura. Entre as ligações—relações que ela considerava mais importantes—estavam Olive Custance, Renée Vivien, Elisabeth de Gramont, Romaine Brooks e Dolly Wilde. Destes, os três relacionamentos mais longos foram com Gramont, Brooks, e Wilde; a partir de 1927, ela esteve envolvida com todas as três simultaneamente, uma situação que só terminaria com a morte de Wilde. Seus casos mais curtos, como aqueles com Colette e Lucie Delarue-Mardrus, muitas vezes evoluíram para amizades duradouras.
Elisabeth de Gramont
Elisabeth de Gramont, a duquesa de Clermont-Tonnerre, foi uma escritora famosa por suas memórias. Descendente de Henrique IV de França, ela cresceu entre a aristocracia; quando ela era criança, de acordo com Janet Flanner, "os camponeses em sua fazenda... imploravam-lhe para não limpar os sapatos antes de entrar nas casas deles". Ela olhava para o seu passado nesse mundo de riqueza e privilégio com certo pesar, tendo ficado conhecida como "a duquesa vermelha" por seu apoio ao socialismo. Quando conheceu Natalie Barney, em 1910, ela era casada e tinha duas filhas; seu marido era descrito como violento e tirânico. Eles acabaram se separando e, em 1918, ela e Barney escreveram um contrato de casamento afirmando que "nenhuma união deve ser tão forte como essa união, nem outra parceria tão carinhoso—tampouco nenhum relacionamento tão duradouro".
Romaine Brooks
O relacionamento mais longo de Barney foi com a pintora americana Romaine Brooks, que ela conheceu em meados de 1914. Brooks tinha como especialidade os retratos, e se destacou por sua paleta sombria de cinza, preto e branco. Durante a década de 1920 ela fez retratos de vários membros do círculo social Barney, incluindo Gramont e a própria Barney. Brooks tolerava os casos de Barney bem o suficiente para fazer piadas sobre eles, tendo seus próprios casos ao longo dos anos, mas podia tornar-se extremamente ciumenta quando um novo amor de Barney tornava-se sério. Normalmente, ela simplesmente deixava Paris quando isso acontecia, mas a determinada altura ela deu um ultimato a Barney, para que escolhesse entre ela e Dolly Wilde—retornando assim que Barney cedeu. Ao mesmo tempo em que era dedicada a Barney, Brooks não queria viver com ela como um casal; ela não gostava de Paris, desdenhava os amigos de Barney, odiava a socialização constante que Barney desenvolvia e sentia que só era ela mesma quando estava sozinha. Para acomodar a necessidade de Brooks pela solidão, elas construíram uma casa de verão composta de duas alas separadas, unidas por uma sala de jantar, a que chamavam Villa Trait d'Union (Vila Hifenizada). Brooks também passou boa parte de seus anos na Itália ou viajando pelo resto da Europa, longe de Barney. Eles permaneceram dedicadas uma à outra por mais de 50 anos.
Dolly Wilde
Dolly Wilde foi a sobrinha de Oscar Wilde e a última pessoa da família dele a carregar o sobrenome "Wilde". Ela era conhecida por sua inteligência epigramática, mas, ao contrário de seu tio famoso, nunca conseguiu aplicar seus dons em nenhuma publicação; suas cartas são a sua única herança. Ela fez alguns trabalhos como tradutora e foi muitas vezes apoiada por outros, incluindo Natalie Barney, a quem ela conheceu em 1927. Assim como Vivien, Wilde parecia inclinada à auto-destruição. Ela bebia muito, era viciada em heroína, e tentou o suicídio várias vezes. Barney financiava desintoxicações, que nunca foram eficazes; ela saiu de uma estadia numa clínica de repouso com um novo vício em sonífero à base de paraldeído, então disponível em qualquer farmácia.
As atitudes de Barney durante a Segunda Guerra Mundial foram controversas. Em 1937, Una, a Lady Troubridge, se queixou de que Barney havia dito "um monte de frases meia-boca sem sentido sobre a tirania do fascismo". Barney era um oitavo judia e, ao se refugiar na Itália com Brooks, correu o risco de ser deportada para um campo de concentração, um destino que só foi evitado após ter obtido com sua irmã Laura um documento registrado em cartório atestando sua crisma. No entanto, não tendo outra fonte de informação sobre a guerra, ela acreditava na propaganda nazista, que retratava os Aliados como os agressores, logo o fascismo lhe parecia ser uma conseqüência lógica de seu pacifismo. Um livro de memórias não-publicado que ela escreveu durante os anos da Guerra é claramente pró-fascista e antissemita, citando os discursos de Hitler, aparentemente aprovando-os. É possível que as passagens antissemitas em seu livro de memórias teriam o objetivo de serem utilizadas como prova de que ela não era judia; alternativamente, ela pode ter sido influenciada pelas transmissões antissemitas de Ezra Pound no rádio. Seja qual for o caso, ela ajudou um casal judeu a fugir da Itália, proporcionando-lhes uma passagem de navio para os Estados Unidos. Até o final da Guerra, sua visão mudou de lado e ela via os Aliados como libertadores da Europa.
Até o final de sua vida, a obra de Barney já havia sido esquecida. Em 1979, Nathalie Barney foi homenageada na instalação The Dinner Party, da artista feminista Judy Chicago. Na década de 1980, Barney começou a ser reconhecida por aquilo que Karla Jay chama de "antecipação quase sobrenatural" das preocupações das autoras feministas posteriores. Traduções em inglês de algumas de suas memórias, ensaios e epigramas surgiram em 1992, mas a maioria de suas peças e poemas permanecem sem tradução. Sua influência indireta sobre a literatura, através de seu salão e de suas amizades, pode ser percebida pelo grande número de escritores que abordaram-na ou retrataram-na em suas obras. Claudine S'en Va (1903), de Colette, contém uma breve aparição de Barney como "Miss Flossie", ecoando o apelido que ela havia recebido anteriormente no romance Idylle Saphiquede de Liane de Pougy. Renée Vivien escreveu muitos poemas sobre ela, assim como um romance simbolista, Une Femme M'Apparut (Uma Mulher me Apareceu, 1904), no qual Barney é descrita como tendo "olhos tão nítidos e azuis como uma lâmina (...) O encanto de perigo emanava dela e chamou-me inexoravelmente". Remy de Gourmont se dirigiu a ela em suas Cartas à Amazona e Truman Capote a mencionou em Answered Prayers, seu romance inacabado. Ela também apareceu em dois romances posteriores de escritores que nunca a conheceram: Un Soir chez l'Amazone (Uma Tarde com a Amazona, 2004) de Francesco Rapazzini, um romance histórico sobre seu salão literário, e Minimax (1991) de Anna Livia, que retrata Barney e Brooks como vampiras que ainda não morreram.


