Irineu Evangelista de Sousa
Irineu Evangelista de Sousa, Visconde de Mauá, também conhecido como Barão de Mauá, foi um industrial, comerciante, armador, fazendeiro, e banqueiro brasileiro. Ao longo de sua vida foi merecedor, por contribuição à industrialização do Brasil no período do Império (1822-1889), dos títulos nobiliárquicos primeiro de barão (1854) e depois de Visconde de Mauá (1874).
A infância e a juventude
Natural da vila de Nossa Senhora da Conceição do Arroio Grande, à época distrito de Jaguarão, na então Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul, atual Rio Grande do Sul, era filho de João Evangelista de Ávila e Sousa e de Mariana de Jesus Batista de Carvalho, sendo neto paterno do fundador da freguesia, Manuel Jerônimo de Sousa. Aos cinco anos de idade, em 1818, Irineu ficou órfão de pai, assassinado por ladrões de gado. Em 1821, sua mãe, Mariana de Jesus Batista de Carvalho, casou se com João Jesus. Todavia, como o novo esposo não desejava conviver com os filhos do primeiro casamento da viúva, a filha mais velha, Guilhermina, foi obrigada a casar com apenas doze anos de idade. E Irineu, aos oito anos, foi entregue para a guarda de um tio — Manuel José de Carvalho (Arroio Grande, 1802 – Rio Claro, 1 de novembro de 1875).
A família e descendentes
Em 1839, mandou buscar sua mãe, Mariana de Jesus Batista de Carvalho, já viúva, e sua única irmã, Guilhermina de Sousa Machado, que residiam no Rio Grande do Sul. Junto com elas, chegou ao Rio de Janeiro a sua sobrinha, Maria Joaquina de Sousa Machado, a May, apelido dado em referência ao seu mês de aniversário, "maio" em inglês, (1825-1904), por quem Irineu se apaixonou e desposou em 1841. Do casamento com sua sobrinha Maria Joaquina de Sousa Machado, Irineu teve ao todo dezoito filhos, sendo que onze nasceram com vida: Lísia (1842-1855), Irineu (1843-1849), Irineu Evangelista (1851-1915), Henrique (1852-1929), Artur (1853-1874), Maria Carolina (1854-1941), Ricardo (1856-1884), Lísia Ricardina (1860-1890), Hermínia (1862-1868), Irene (1865-1895) e Alice (1867-1869). Dos onze filhos nascidos vivos, sete atingiram a maioridade e apenas cinco sobreviveram após a morte do pai, em 1889. A morte prematura da maioria dos filhos, devido a doenças, é atribuída à proximidade do grau de parentesco entre Irineu e sua esposa, e dos problemas genéticos decorrentes desse fato.
O industrial
Uma viagem de negócios que fez à Inglaterra, em busca de recursos (1840), permitiu a Sousa conhecer fábricas, fundições de ferro e o mundo dos empreendimentos capitalistas, convencendo-o de que o Brasil deveria trilhar o caminho da industrialização. A Inglaterra fora o cerne da Revolução Industrial, e o Brasil ainda era um país de produção rural. Ao retornar, diante da decretação da chamada tarifa Alves Branco (1844) e da alta dos preços do café no mercado internacional no período, decidiu tornar-se um industrial. Tendo obtido junto ao governo imperial brasileiro a concessão do fornecimento de tubos de ferro para a canalização do rio Maracanã, na cidade do Rio de Janeiro (1845), liquidou os interesses da Casa Carruthers e, no ano seguinte, adquiriu uma pequena fundição situada na Ponta da Areia, em Niterói, na então Província do Rio de Janeiro. Imprimindo-lhe nova dinâmica empresarial, transformou-a em um estaleiro de construções navais, dando início à indústria naval brasileira.
O banqueiro
Com a extinção do tráfico negreiro, a partir da Lei Eusébio de Queirós (1850), os capitais até então empregados no comércio de escravos passaram a ser investidos na industrialização. Aproveitando essa oportunidade, Mauá passou a se dividir entre as atividades de industrial e banqueiro, tendo acumulado fortuna aos quarenta anos de idade. Entre os investimentos que realizou, além do estaleiro e fundição na Ponta da Areia, destacam-se: Em 1855, o visconde fundou o Banco Mauá, MacGregor & Cia, com filiais em várias capitais brasileiras e em Londres, Paris e Nova Iorque. No Uruguai, fundou em 1857 o Banco Mauá e Cia., sendo o primeiro estabelecimento bancário daquele país, inclusive com autorização de emitir papel-moeda, sendo que tal banco abriu filial em Buenos Aires, tendo sido citado por Jules Verne como um dos principais bancos da América do Sul.
Política e decadência
De ideias políticas de caráter liberal e defensor do abolicionismo, forneceu os recursos financeiros necessários à defesa de Montevidéu quando o governo imperial decidiu intervir nas questões platinas (1850). Contrário à Guerra do Paraguai, foi deputado pela Província do Rio Grande do Sul em diversas legislaturas (1856, 1859-1860, 1861-1864, 1864-1866 e 1872-1875), tendo renunciado ao mandato em 1873 para melhor cuidar de seus negócios, ameaçados desde a crise bancária que se iniciara em 1864. Teve influência política no Uruguai desde 1850, quando a pedido do amigo Paulino José Soares de Sousa, visconde do Uruguai e então Ministro dos Estrangeiros, ajuda financeiramente os liberais sitiados em Montevidéu. Lá suas ações passaram a receber favores ou revezes, de acordo com o domínio de blancos ou colorados.
Revelações de suposta carta da Princesa Isabel em 1889
Carta do acervo do Arquivo Nacional, escrita pela Princesa Isabel em 11 de agosto de 1889, endereçada ao Visconde de Santa Vitória revela algo ainda pouco explorado pela historiografia brasileira. No documento a filha do imperador Pedro II revela planos para ajudar na inclusão social dos escravos libertos pela Lei Áurea: “Com os fundos doados teremos oportunidade de colocar estes ex-escravos, agora livres, em terras suas próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e delas tirando seus próprios proventos" e também fundamenta que o imperador havia lhe inteirado que derrocada dos empreendimentos do Barão de Mauá: No entanto, ainda existe grande debate a respeito da autenticidade desta carta, cujo exemplar original atualmente não está disponível para consulta. Opinando pela falsidade da carta, Roderick Barman, autor de uma biografia da princesa, pôs em dúvida do conteúdo e os termos do documento – sobretudo o trecho em que a princesa se declara a favor do sufrágio feminino –, e aponta que, durante o período que a carta teria sido escrita, Isabel estaria residindo em local diverso do endereço contido na carta. Outro biógrafo de Isabel, Bruno Antunes de Cerqueira, também aponta indícios de fraude encontrados ao longo do documento, tais como a assinatura, os francesismos e outras expressões da carta que sugerem uma intimidade inexistente entre ela e o Visconde. O escritor Paulo Rezzutti, autor de livros sobre o período monárquico, compartilha, igualmente, da opinião que a carta seria falsa.
Convivendo em uma sociedade rural e escravocrata, o contato com a mentalidade empresarial britânica que, nos meados do século XIX, gestava a segunda fase da Revolução Industrial, foi determinante para a formação do pensamento de Mauá. O seu estilo liberal de administrar era personalíssimo para o Brasil, país acostumado à forte centralização monárquica que o Poder Moderador, expresso na Constituição de 1824, havia reafirmado. Sua característica principal, em qualquer setor econômico que atuou, foi o pioneirismo. Com menos de trinta anos, já possuía fortuna que, segundo ele próprio, "assegurava [a ele] a mais completa independência". Os seus primeiros passos como empresário foram marcados pela ousadia de projeto, apostando no emprego à tecnologia de ponta. Em toda a sua carreira preocupou-se com a correta gestão de recursos, marcada por uma administração descentralizada, onde a responsabilidade de cada indivíduo na cadeia de comando era valorizada.
No dia 1 de maio de 1910 a prefeitura do então Distrito Federal inaugurou um monumento público em homenagem a Mauá. Uma estátua em bronze do visconde em tamanho natural sobre uma coluna de granito de cerca de oito metros de altura, de autoria do escultor Rodolfo Bernardelli, foi colocada no centro da Praça Mauá, próximo ao cais do porto carioca. No dia 1 de junho 1914 foi fundada a Escola Técnica Estadual Visconde de Mauá no bairro de Marechal Hermes, Rio de Janeiro (Hoje faz parte da rede FAETEC). Em 1926 foi inaugurado o prédio da Estação Barão de Mauá, início da Estrada de Ferro Leopoldina (hoje abandonada). Em 1935, foi inaugurada a Estação Evangelista de Souza (com Z) no extremo sul da cidade de São Paulo, na Linha Mairinque-Santos da Estrada de Ferro Sorocabana. Entre 1957 e 1997, serviu de entroncamento entre a Mairinque-Santos e o Ramal de Jurubatuba. Em 1936, a Casa da Moeda do Brasil lançou uma moeda de cuproníquel comemorativa de 200 réis (série "Brasileiros Ilustres") com a efígie de Mauá no verso e da locomotiva "Baronesa" no anverso, com reedições em 1937 e 1938.
Em 1995, Jorge Caldeira escreveu uma obra sobre Irineu Evangelista de Sousa publicada pela Companhia das Letras. Irineu Evangelista de Sousa já foi retratado como personagem no cinema e na televisão brasileiras, interpretado por Paulo Betti e Jorge Neves no filme "Mauá - O Imperador e o Rei" (1999), por Gracindo Júnior na minissérie "Chiquinha Gonzaga" (1999) e por Danilo Grangheia no docudrama Mauá - O Primeiro Gigante (2019). Na novela Nos Tempos do Imperador (2021) é interpretado por Charles Fricks.


