Bancada ruralista
Na política do Brasil, a bancada ruralista constitui uma frente parlamentar que atua em defesa dos interesses dos proprietários rurais. Embora esse termo refira-se normalmente à frente parlamentar do Congresso Nacional do Brasil — a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) —, ele também pode referir-se a uma bancada específica de uma das Assembleias Legislativas dos estados ou das Câmaras dos municípios, ou a conjuntos desses grupos.
Assim como no caso de outras bancadas temáticas existentes no Congresso Nacional, a bancada ruralista caracteriza-se como uma estrutura transversal à organização dos partidos políticos, e representa o interesse de um setor específico da sociedade, no caso os produtores rurais brasileiros. Trata-se de estruturas que são organizadas para a disputa pela hegemonia sobre as políticas do Estado. Embora as raízes da bancada ruralista brasileira remontem ao Período Colonial, seu surgimento é resultado do advento do Parlamento, instituição responsável por legislar e portanto determinante na ação do Estado. Nesse novo contexto, sua apropriação constitui elemento preponderante para a permanência e a reprodução das classes dominantes no poder, além de ilustrar como o espaço do Estado pode ser utilizados por grupos engajados em perpetuarem-se no poder. As reformulações da política brasileira longo do século XX tiveram grande impacto sobre a composição e a organização de grupos de interesse na política. A bancada ruralista contemporaneamente presente no Congresso Nacional tem suas origens mais especificamente na atuação da União Democrática Ruralista (UDR) durante a a Assembleia Nacional Constituinte de 1987, com vistas a barrar a realização de uma reforma agrária no Brasil.
Espectro ideológico
Dados recentes sobre a afiliação ideológica dos membros da bancada ruralista são inconclusivos, mas ela tende a ser de direita e centro-direita. Ao menos um estudo identificou que sua composição inclui membros de doze partidos com representação na Câmara e seis no Senado. Segundo esse levantamento, 19% desses parlamentares eram oriundos de partidos de centro-esquerda, outros 19% eram filiados ao PMDB (e portanto aderentes de ideologias variadas) e 62% deles eram filiados a partidos da direita e centro-direita.
Dentre as atividades da bancada, segundo seus críticos, destacam-se sua atuação para impedir o efetivo o combate ao trabalho escravo nas fazendas, e sua feroz oposição a quaisquer medidas voltadas ao meio ambiente e à conservação da natureza, incluindo o patrocínio de projetos de lei em tramitação no Congresso que aumentam os limites legais para desmatamentos e anistiam fazendeiros que já desmataram ilegalmente suas propriedades. Uma tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo (USP) pelo cientista político Leonardo Sakamoto estabelece uma relação entre a morosidade na apreciação de projetos antiescravagistas e as doações de campanha eleitoral. Segundo ele, empresas agropecuárias acusadas de utilizar trabalho escravo, seus donos e parentes fizeram doações nas eleições de 2002 e 2004 que ajudaram a eleger dois governadores, cinco deputados federais, três deputados estaduais, três prefeitos e um vereador. Esse trabalho aponto ainda que à época três deputados federais, um estadual e três prefeitos eram proprietários ou parentes de proprietários autuados por utilização de trabalho escravo.
A composição da bancada ruralista no Congresso Nacional brasileiro caracteriza-se por grupos com diferentes motivações e níveis de adesão. Na 51ª legislatura (1999-2003), por exemplo, 89 deputados se declaravam ruralistas nos seus currículos publicados no sítio da Câmara dos Deputados. Outros membros, embora de fato tenham aderência à pauta ruralista, preferem se identificar por outras pautas, pela profissão ou pelo título que lhes confere seu diploma universitário. Esses, incluem principalmente parlamentares que têm interesses familiares na agricultura e na pecuária, ou que são patrocinados por grupos ligados a essas atividades.
Número de votos no Congresso Nacional
Devido às diferentes espécies de vínculos de seus membros com a pauta ruralista, o número de votos de essa bancada dispõe no Congresso Nacional é relativo, variando em função da casa do Congresso Nacional (Senado e Câmara dos Deputados), da legislatura e de pautas específicas que são votadas. Por essa razão, as estimativas quanto ao poder desta bancada variam entre 120 e 200 votos. Dificulta a contagem o fato de os ruralistas só votarem em bloco quando a matéria é de seu específico interesse.


