Agronegócio brasileiro no Paraguai
O agronegócio brasileiro possui uma presença ampla, influente e controversa no Paraguai, especialmente nos territórios que fazem fronteira com os estados do Mato Grosso do Sul e Paraná. Os latinfundiários brasileiros alteraram profundamente o panorama da agricultura e da distribuição de terras no país. Nos departamentos de Canindeyú e Alto Paraná, brasileiros são donos de 60,1% e 55,2% das terras, respectivamente. No país como um todo, a proporção de terras sob propriedade de brasileiro é de 14,2%. Foram responsáveis pela introdução da soja na década de 1970, e da soja geneticamente modificada na década de 1990, da qual controlam, segundo estimativas, 80% da produção. Além de outras commodities típicas do agronegócio brasileiro, como o milho, o trigo e os produtos da pecuária. Essa população brasileira no Paraguai divide-se geralmente em dois grupos - os brasiguaios, que habitam o país e são, na maior parte, donos de pequenas propriedades; e os empresários brasileiros, que vivem no Brasil e acumulam terras no país vizinho como extensão do agronegócio no centro-oeste e sul.
As relações entre o Brasil e o Paraguai são historicamente limitadas, em razão da hegemonia argentina na região do Rio da Prata. Com o golpe militar em 1954, e a ascensão do ditador Alfredo Stroessner, o Paraguai inicia um processo de mudança da sua inserção geopolítica no continente, adotando uma política conhecida como diplomacia pendular para balancear sua relação com as potências vizinhas, Argentina e Brasil. Nesse sentido, a aproximação com o Brasil representava uma medida chave para remover o Paraguai da rígida esfera de influência argentina, na qual o regime militar sentia-se ameaçado, e abrir um novo corredor para o comércio ao leste. Enquanto que o Tratado de Itaipu constitui o primeiro passo significativo dessa aproximação, a nova política territorial e agricultural promovida por Stroessner produziu tendências duradouras e gradativamente mais intensas no interior do país, conectando-se com as transformações inerentes à chamada modernização conservadora instaurada no Brasil.
A consolidação do agronegócio no Paraguai produz uma série de conflitos socio-ambientais análogos aos que permeiam o território brasileiro, exacerbados pela distância que os brasileiros mantém com a população local, com ocorrências frequentes de racismo, violência, inclusive através de forças de segurança privada, e abuso de poder político. A introdução da soja, e especialmente da soja transgênica, afetou os cultivos alimentares locais, enfraquecendo a soberania alimentar da população. A contaminação por agrotóxicos, resultando do uso por vezes indiscriminado das substâncias químicas, também tem se difundido em regiões antes saudáveis, causando problemas de saúde em populações camponesas e indígenas. Diversas formas de organização e contestação se difundiram em resposta ao poder do agronegócio brasileiros, com movimentos indígenas, campesinos e sindicais tomando atitudes críticas à política governamental considerada subserviente.


