Augusto
Augusto foi o fundador do Império Romano e seu primeiro imperador, governando de 27 a.C. até sua morte em 14 d.C. Nascido Caio Otávio, pertenceu a um rico e antigo ramo equestre da família plebeia dos Otávios. Depois do assassinato de seu tio-avô Júlio César em 44 a.C., o testamento de César nomeou Otávio como seu filho adotivo e herdeiro. Junto com Marco Antônio e Lépido, formou o Segundo Triunvirato e derrotou os assassinos de César. Após a vitória na Batalha de Filipos, os três dividiram a República Romana entre si, passando a governar como ditadores militares. O triunvirato foi posteriormente posto de lado sob as ambições conflitantes de seus membros: Lépido foi exilado e despojado de sua posição e Marco Antônio cometeu suicídio após sua derrota na Batalha de Áccio em 31 a.C.
Ao longo de sua vida, Augusto foi conhecido por muitos nomes:
A doença de Augusto em 23 a.C. trouxe o problema de sucessão para o primeiro plano dos assuntos políticos e o público. Para assegurar estabilidade, ele precisava designar um herdeiro para sua posição única na sociedade e governo romanos. Isto deveria ser alcançado em passos pequenos, não dramáticos e incrementais, que não provocassem os temores senatoriais de monarquia. Se alguém fosse sucedê-lo em sua posição não oficial de poder, teria que fazê-lo pelos seus próprios méritos, comprovados publicamente. Alguns historiadores augustanos argumentam que as indicações apontavam para Marcelo, filho de sua irmã, que rapidamente se casou com a filha de Augusto, Júlia, a Velha. Outros historiadores contestam isso porque o testamento de Augusto lido em voz alta para o senado, enquanto estava seriamente doente em 23 a.C., indicava uma preferência por Marco Agripa, que era o segundo em comando e indiscutivelmente o único de seus associados que poderia ter controle das legiões e manter o Império unido.
Primeiros anos
Enquanto sua família paterna provinha da cidade de Velitras, a aproximadamente 40 km de Roma, Otávio nasceu na capital em 23 de setembro de 63 a.C., na Cabeça do Touro, uma pequena propriedade no Palatino, muito próxima ao Fórum Romano. A ele foi dado o nome "Caio Otávio Turino", sendo seu cognome uma possível alusão à vitória de seu pai em Túrio contra um bando de escravos rebeldes. Devido à lotação de Roma à época, Otávio foi levado por seu pai para ser criado em Velitras. Ele menciona somente brevemente a família equestre de seu pai em suas memórias. Seu tataravô foi um equestre, seu bisavô paterno foi um tribuno militar da província romana da Sicília durante a Segunda Guerra Púnica, seu avô serviu em várias funções políticas locais e seu pai foi governador da Macedônia.[nt 5] Sua mãe, Ácia, era sobrinha de Júlio César.
Ascensão ao poder
Otaviano estava estudando e passando por treinamento militar em Apolônia, na província romana da Ilíria, quando César foi morto nos Idos de Março, em 15 de março de 44 a.C.. Rejeitando o conselho de alguns oficiais do exército para refugiar-se com as tropas na Macedônia, navegou à Itália para verificar se tinha potenciais fortunas política ou financeira. César não tinha filhos vivos legítimos sob as leis de Roma,[nt 6] e por isso havia adotado Otávio como seu herdeiro. Marco Antônio, mais tarde, acusou Otaviano de ter obtido sua adoção por César por meio de favores sexuais, embora Suetônio, em sua obra Vida dos Doze Césares, descreva a acusação como calúnia política. Após desembarcar em Lúpias, próximo de Brundísio (atual Brindisi), Otávio soube do conteúdo do testamento de César e só então decidiu tornar-se seu herdeiro político, bem como de dois terços de seu patrimônio.
Segundo Triunvirato
Em uma reunião próximo a Bonônia (atual Bolonha) em outubro de 43 a.C., Otaviano, Marco Antônio e Lépido formaram uma junta chamada Segundo Triunvirato. Esta atribuição explícita de poderes especiais por cinco anos foi suportada por lei aprovada pelas plebes, diferentemente do não oficial Primeiro Triunvirato de Pompeu, Júlio César e Marco Licínio Crasso. Os triúnviros então colocaram em prática proscrições, nas quais 300 (segundo Apiano) ou 130 (segundo Tito Lívio) senadores e 2 000 equestres foram estigmatizados como criminosos e privados de suas propriedades, bem como, para os que não conseguiram escapar, de suas vidas. Este decreto emitido pelo triunvirato foi motivado em parte pela necessidade de levantar fundos para pagar os salários das tropas para o conflito próximo com os assassinos de César, Marco Júnio Bruto e Caio Cássio Longino. Recompensas pela prisão deles deu incentivo aos romanos para capturar os proscritos, enquanto seus bens móveis e imóveis foram apreendidos pelos triúnviros.
Otaviano torna-se Augusto
Após Áccio e a derrota de Antônio e Cleópatra, Otaviano estava em posição de governar a República inteira sob um Principado não oficial, porém teria que chegar a isto através de aumentos gradativos de poder. Ele fez isso cortejando o senado e o povo e confirmando as tradições republicanas de Roma, para parecer que não estava aspirando a ditadura ou a monarquia. Anos de guerra civil tinham deixado Roma em um estado próximo ao da ilegalidade, mas a República não estava preparada para aceitar o controle de Otaviano como um déspota. Ao mesmo tempo, Otaviano não poderia simplesmente desistir de sua autoridade sem arriscar mais guerras civis entre os generais romanos, e mesmo que não desejasse qualquer posição de autoridade, sua posição exigia que olhasse para o bem-estar da cidade de Roma e das províncias. Os objetivos de Otaviano deste ponto em diante foram retornar Roma ao estado de estabilidade, legalidade tradicional e civilidade, levantando a pressão política ostensiva imposta sobre os tribunais e assegurando eleições livres – ao menos nominalmente.
Segundo pacto
Até 23 a.C., algumas das implicações não republicanas do pacto de 27 a.C. foram se tornando evidentes. A manutenção do consulado anual por Augusto desde 31 a.C. tornava muito óbvia sua dominância sobre o sistema político romano, e ao mesmo tempo reduzia pela metade as oportunidades para alcançar o que aparentava ser o chefe do Estado romano. Além disso, ele estava causando problemas políticos com o desejo de que seu sobrinho Marco Cláudio Marcelo seguisse seus passos e posteriormente assumisse o Principado,[nt 8] alienando seus três maiores apoiadores – Agripa, Mecenas e Lívia. Sentindo a pressão de seu grupo central de apoiadores, Augusto voltou-se para o Senado em busca de ajuda. Numa tentativa de reforçar seu apoio lá, especialmente com os republicanos, ele indicou o eminente republicano Cneu Calpúrnio Pisão para co-cônsul em 23 a.C., após seu escolhido Aulo Terêncio Varrão Murena ter sido executado como parte do caso Marco Primo. Murena havia lutado contra Júlio César e apoiado Cássio e Bruto.
Guerra e expansão
Imperador César, Filho do Divino, Augusto escolheu Imperador ("comandante vitorioso") para ser seu primeiro nome, uma vez que queria tornar enfaticamente clara a noção de vitória associada a ele. Até o ano 13, ostentou 21 ocasiões em que suas tropas proclamaram "imperador" como seu título após uma batalha bem-sucedida. Quase todo o quarto capítulo de suas memórias de realizações lançadas publicamente, conhecidas como o Os Feitos do Divino Augusto (Res Gestae Divi Augusti), foi devotado às suas vitórias e honras militares. Augusto também promoveu a ideia de uma civilização romana superior com um objetivo de governar o mundo, um sentimento embebido em palavras que o poeta contemporâneo Virgílio atribuiu a um lendário ancestral de Augusto: "Romano, lembre, por sua força, de governar os povos da Terra!"[nt 10] O impulso para o expansionismo, aparentemente proeminente entre todas as classes de Roma, é concedido por sanção divina pelo Júpiter de Virgílio, que no Livro I da Eneida promete "soberania sem fim".[nt 11]
O reinado de Augusto lançou as fundações de um regime que durou, no Ocidente, até o declínio final do Império Romano do Ocidente em 476, e no Oriente, até a Queda de Constantinopla em 1453. Tanto seu sobrenome César como seu título Augusto tornaram-se títulos permanentes dos governantes do Império Romano pelos 14 séculos seguintes à sua morte. Em muitas línguas, César tornou-se a palavra para imperador, como no alemão cáiser e no búlgaro e subsequentemente no russo czar. O culto do "Divino Augusto" (Divus Augustus) continuou até a religião do Estado ser mudada para o cristianismo em 391 por Teodósio I (r. 378–395). Consequentemente, há muitas estátuas e bustos excelentes do primeiro imperador. Muitos o consideram como o maior imperador romano. Suas políticas certamente estenderam o tempo de duração do império e iniciaram a Pax Romana ("Paz Romana") ou Pax Augusta ("Paz de Augusto"). O senado romano desejou que os imperadores subsequentes fossem "mais afortunados que Augusto e melhores que Trajano". Ele foi inteligente, decidido e um político astuto, mas talvez não foi tão carismático quanto Júlio César, e foi influenciado por sua terceira esposa Lívia (às vezes para o pior). No entanto, seu legado foi mais duradouro.
Reformas na receita
As reformas de Augusto na receita pública tiveram um grande impacto sobre o sucesso subsequente do Império. Ele levou para uma parcela muito maior da base territorial expandida do Império uma taxação direta e consistente de Roma, em vez dos tributos variáveis, intermitentes e de certa forma arbitrários para cada província, como seus antecessores tinham feito. Esta reforma aumentou grandemente a receita líquida romana por suas aquisições territoriais, estabilizou seu fluxo e regularizou a relação financeira entre Roma e as províncias, em vez de provocar novos ressentimentos com cada nova cobrança arbitrária de tributo. As medidas de taxação de seu reinado foram determinadas por censos populacionais, com cotas fixas para cada província. Os cidadãos de Roma e da Itália pagavam tributos indiretos, enquanto das províncias eram cobrados tributos diretos. Dentre os tributos indiretos havia uma taxa de 4% sobre o preço de escravos, uma de 1% sobre bens vendidos em leilão e uma de 5% sobre a herança de propriedades avaliadas acima de 100 000 sestércios por pessoas que não os parentes mais próximos.
Mês de agosto
O mês de agosto (em latim: Augustus) foi nomeado em honra a Augusto. Até seu tempo era chamado sextil (sextilis em latim) devido ao fato de ter sido o sexto mês do calendário romano original. Uma história comumente repetida diz que agosto tinha 31 dias porque Augusto quis que seu mês coincidisse em tamanho com o julho de Júlio César, mas isso foi uma invenção do estudioso do século XIII João de Sacrobosco. Sextil tinha 31 dias antes de ser renomeado, e não foi escolhido por seu comprimento (ver calendário juliano). De acordo com o senatus consultum citado por Macróbio, sextil foi renomeado em honra a Augusto porque vários dos eventos significativos de sua ascensão ao poder, culminando com a queda de Alexandria, ocorreram naquele mês.
Forças armadas
Com o fim das guerras civis, Augusto também foi capaz de criar um exército permanente para o Império Romano, fixado em 28 legiões com cerca de 170 000 soldados, que eram apoiados por numerosas unidades auxiliares de 500 soldados cada, frequentemente recrutadas nos territórios recém-conquistados. Além disso, com suas finanças assegurando a manutenção das estradas através da Itália, ele também implantou um sistema oficial de mensageiros com estações de conexão supervisionadas por um oficial militar conhecido como prefeito dos veículos (praefectus vehiculorum). Ademais do advento de uma comunicação mais rápida entre os políticos italianos, a extensiva construção de estradas também permitiu que os exércitos romanos marchassem rapidamente e num ritmo sem precedentes através do país. No ano 6, Augusto estabeleceu o erário militar, doando 170 milhões de sestércios para o novo tesouro militar que suportava soldados ativos e aposentados.
Projetos de construção
Na esfera da arquitetura, Augusto promoveu um extenso programa de construção que incluiu construções, restaurações e decorações, financiadas com seus recursos privados. Tal programa torna-se expresso na célebre frase proferida em seu leito de morte: "Encontrei uma Roma de tijolos; dei uma de mármore para vocês". Embora haja alguma verdade no significado literal disso, Dião Cássio afirma que foi uma metáfora à força do império. Mármore pode ser encontrado em edifícios de Roma anteriores a Augusto, mas não era extensivamente usado como um material de construção até seu reinado. Embora isso não se aplique às favelas de Subura, que ainda eram tão frágeis e propensas a incêndios como sempre, ele deixou uma marca sobre a topografia monumental do centro e do Campo de Marte.
Previdência
Augusto assegurou sua posição cortando os vínculos de dependência e lealdade pessoal entre os exércitos e seus comandantes individuais, em grande parte graças a criação do primeiro programa de previdência pública do mundo. Augusto estabeleceu termos e condições uniformes para o serviço no Exército, fixando para os legionários um prazo-padrão de dezesseis anos (logo aumentado para vinte) e garantindo-lhes na aposentadoria um pagamento, com dinheiro público, no valor de cerca de vinte vezes o pagamento anual, ou o equivalente disso em terras. Essas medidas acabaram de vez com a dependência que os soldados tinham de seus generais, que eram os provedores de suas aposentadorias — o que, no último século da República, havia feito com que a lealdade particular dos soldados aos seus comandante superasse muitas vezes sua lealdade a Roma. Em outras palavras, após centenas de anos de uma milícia entre o público e o privado, Augusto nacionalizou totalmente as legiões romanas e excluiu-as da política.
Literatura
No período augustano, a literatura prosperou enormemente no mundo romano. Muito da literatura produzida nesta época provém de homens que construíram suas carreiras durante os anos do Segundo Triunvirato, por meio do patrocínio de particulares, alguns deles associados com Augusto. O patrocínio de círculos literários era comum, mas desde o século II a.C. foi praticamente abandonado. Em torno de Caio Cílnio Mecenas, um dos mais próximos associados do príncipe, formou-se um círculo que promoveu Virgílio e Horácio, enquanto outro formou-se em torno de Marco Valério Messala Corvino e promoveu Ovídio e Tibulo. Além deles, autores como Marco Vérrio Flaco, Propércio, Tito Lívio e Higino também estiveram ativos.
Seu biógrafo Suetônio, escrevendo cerca de um século após sua morte, descreve sua aparência como: Suas imagens oficiais eram muito firmemente controladas e idealizadas, extraídas de uma tradição do retrato real helenístico em vez do tradicional realismo do retrato romano. Ele aparece pela primeira vez em moedas aos 19 anos, e de ca. 29 a.C., "a explosão em número de retratos augustanos atestam uma combinada campanha de propaganda destinada a dominar todos os aspectos da vida civil, religiosa, econômica e militar com a pessoa de Augusto". As primeiras imagens de fato descreveram um homem jovem, mas embora tenha havido mudanças graduais, suas imagens mantiveram-no juvenil até sua morte aos 70, altura em que tinha "um distanciado ar de majestade sempre jovem". Dentre os melhores dos muitos retratos conhecidos estão o Augusto da Prima Porta, a imagem sobre o Altar da Paz e o Augusto da Via Labicana, que o mostra como um sacerdote. Vários camafeus retratísticos incluem o Camafeu Blacas e a Gema Augusta.


