Adriano
Públio Élio Adriano, também designado como Hadriano, foi imperador romano de 117 a 138. Pertence à dinastia dos Antoninos, sendo considerado um dos "cinco bons imperadores".
Durante muito tempo se considerou para Adriano um nascimento em Roma, a partir de uma menção na História Augusta, que antigamente tinha muito prestígio, mas hoje se sabe que esta fonte é repleta de erros e se tornou pouco confiável. Mais de dez autores romanos e proto-medievais, e inclusive seu horóscopo, calculado pouco depois de sua morte, colocam-no como natural de Itálica, próximo à atual Santiponce, na Hispânia (Espanha). Ao nascer foi-lhe dado o nome de Públio Élio Trajano Adriano. Era filho de Públio Élio Adriano Afer, um senador romano primo do futuro imperador Trajano. Sua família provinha de Piceno, e havia se estabelecido em Itálica pouco depois da sua fundação por Cipião Africano. Sua mãe foi Domícia Paulina, de uma ilustre família senatorial romana radicada em Gades (Cádiz). Teve uma irmã, Domícia Paulina, a Jovem. Seus pais faleceram quando tinha dez anos de idade, sendo confiado à guarda de Trajano e de Públio Acílio Aciano. É incerto onde passou sua adolescência e como teve contato com a cultura grega, da qual seria um grande admirador. Foi cogitado que teria sido enviado a Roma quando tinha treze anos, quando Trajano teve de deixar a Hispânia e dirigir-se à Germânia, e em Roma teria sido educado por algum mestre helenista, e também se considerou que teria vivido alguns anos na Grécia, mas isso é difícil de conciliar com os registros de sua presença em Itálica no ano 90 e do seu primeiro discurso diante do Senado, no ano de 101, quando já tinha 25 anos, quando era candidato a questor. Na ocasião, seu forte sotaque provinciano provocou o riso dos senadores, indicando que teria passado a maior parte de sua vida anterior longe de Roma.
As relações de Adriano com Trajano não parecem ter sido simples, e podem ter sido algo tensas. Questiona-se, por exemplo, o motivo de Trajano não ter demonstrado um apoio mais efetivo à carreira de Adriano, e por quê não o elevou ao patriciado, o que lhe teria aberto muitas possibilidades de progresso. Sua ligação com Plotina e Sura, e suas tentativas de aproximação aos favoritos de Trajano, podem, num contexto de permanentes disputas por influência, colocado Adriano um pouco sob suspeita. A maneira como veio a herdar o trono é também controversa. Quando Trajano morreu, em 9 de agosto de 117, Plotina alegou que o marido havia adotado Adriano e nomeado seu sucessor. O documento de adoção que foi apresentado, contudo, era assinado por Plotina e datado um dia depois da morte de Trajano. Correram na época muitos rumores de que tudo não passava de uma trama armada pela imperatriz-viúva. Uma vez que sua ligação com o protegido era notória, Plotina e sua família seriam beneficiadas com Adriano no poder.
Adriano passaria mais de metade do tempo de seu reinado em viagens pelas províncias. Salvo quando saíam em campanhas militares, os imperadores anteriores preferiam obter notícias das províncias a partir de relatórios dos seus delegados, permanecendo em Roma. A atitude de Adriano pode ter sido um movimento deliberado de romper com essa tradição, que produzia uma hegemonia cultural romana sobre todo o Império, e fazia parte de seu desejo de criar uma comunidade internacionalista, ecumênica, fundamentada sobre a cultura helenista. Tertuliano disse que ele tinha uma curiosidade insaciável sobre tudo o que pudesse ser interessante, impulsionado por um espírito inquieto e um intelecto aguçado. Ele apoiou a criação de municípios semi-independentes governados por costumes locais, em vez de impor o modelo romano de civilização e justiça. Essas inovações não foram muito bem vistas em Roma e desencadearam a resistência dos tradicionalistas.
Primeira viagem
Sua primeira viagem iniciou em 121, visitando a Gália, a Germânia e a Britânia, uma província agitada por rebeliões, onde iniciou a construção da Muralha de Adriano, destinada a conter as invasões e migrações de bárbaros. Em 122 foi à Hispânia, passando o inverno em Tarraco, onde supervisionou a restauração do Templo de Augusto. Em 123 estava na Mauritânia, suprimindo uma pequena rebelião. Sua estada foi interrompida por notícias de uma revolta na Pártia, para onde rumou, conseguindo estabelecer acordos com os partas. Visitou Cirene e ali promoveu a educação militar de jovens de boas famílias. Providenciou a reconstrução de Nicomédia, destruída por um terremoto, sendo aclamado como um salvador. Em Cízico ordenou o término do Templo de Zeus, que foi adornado com uma estátua colossal do imperador. Cízico, Pérgamo, Esmirna, Éfeso e Sardes se tornaram centros do culto imperial. No outono de 124 chegou à Grécia e foi iniciado nos Mistérios de Elêusis. Revisou a constituição de Atenas e criou uma nova tribo, que recebeu seu nome. Concedeu subsídios para a produção de grãos, criou fundações para o patrocínio dos jogos, festivais e competições públicos, e incentivou a criação de serviços públicos permanentes, como fontes e aquedutos. Em Epidauro construiu um templo, onde foi instalada uma estátua sua em nudez heroica, restaurou o Templo de Posídon Hípio em Mantineia, os santuários de Abas e Mégara e o Hereu de Argos. Persuadiu duas importantes lideranças gregas, Herodes Ático de Atenas e Euricles Herculano de Esparta, a entrarem no Senado, sendo os primeiros senadores gregos de Roma. Em 125 presidiu o festival das Dionísias em Atenas, onde providenciou a finalização do grande Templo de Zeus Olímpico e a construção de um aqueduto. Antes de voltar a Roma passou pela Sicília, onde moedas o descrevem como o restaurador da ilha.
Segunda viagem
Em Roma supervisionou a reconstrução do Panteão e terminou sua villa de repouso em Tivoli. Em março de 127 iniciou um périplo pela Itália. Restaurou o santuário de Cupra Marítima, mandou drenar o Lago Fucino, e dividiu o território italiano em quatro províncias governadas por legados imperiais, mas a medida não foi muito bem aceita por ser considerada uma desprestigiosa equiparação dos italianos às outras províncias. Em 128 já estava na África, inspecionando as tropas. Voltou à Itália apenas para partir em seguida em direção a Atenas, onde participou novamente das celebrações dos Mistérios. Iniciou os preparativos para a formação de uma liga grega, o Pan-Helênio, passou por Éfeso e rumou para o Egito. Ali restaurou a tumba de Pompeu em Pelúsio, oferecendo-lhe sacrifícios como herói e compondo um epigrama comemorativo. Caçou leões no deserto da Líbia e em sua excursão pelo Nilo perdeu seu amante Antínoo, afogado nas águas do rio, evento que causou-lhe grande dor. Como parte do extenso processo de celebração da memória do jovem, que incluiria sua divinização, fundou uma cidade em sua honra, Antinoópolis, em 130. Pode ter voltado à Itália por um curto período, mas logo estava em Atenas para levar adiante a organização do Pan-Helênio. O projeto não parece ter atraído o interesse das principais cidades gregas da Ásia Menor, e tampouco parece ter tido um caráter definidamente político, devendo sendo antes uma congregação cultural. Ficou em Atenas até meados de 132, a tempo de inaugurar o Templo de Zeus Olímpico, e depois voltou a Roma.
Terceira viagem
Em 134 partiu para a Judeia, onde estourara a Revolta de Barcoquebas. As origens do confronto são obscuras. A região vivia em um estado de tensão há décadas, resultado da maciça presença romana e da sua interferência nos costumes, administração e religião locais. A maior resistência à aculturação helenizante proposta por Adriano vinha dos judeus. As causas imediatas parecem estar ligadas ao projeto de construção de uma cidade romana, Élia Capitolina, sobre as ruínas de Jerusalém, que havia sido arrasada no assédio de 70, e de um templo para Júpiter no Monte do Templo. A revolta assumiu graves proporções e exigiu a convocação do general Sexto Júlio Severo, que estava na Britânia e reuniu diversas tropas dispersas para atender ao chamado. A revolta estava controlada em 135. Roma perdeu toda uma legião, cerca de 4 mil soldados, mas as baixas entre os judeus foram vastas. Segundo Dião Cássio, cerca de 580 mil pessoas morreram, 50 fortalezas foram abatidas e 985 vilas foram arrasadas. Muitos judeus foram escravizados, e outras medidas punitivas foram tomadas.
Sabina e Antínoo
Adriano casou-se com Víbia Sabina provavelmente mais por interesse político do que por vontade própria. Diz a História Augusta que ela manteve um relacionamento com Suetônio, secretário do imperador, que teria sido demitido por isso. Também é referido que ela tinha um temperamento difícil e mau humor, e após sua morte, ocorrida em torno de 136, teriam corrido rumores de que teria sido envenenada pelo marido, mas a História Augusta é uma fonte pouco confiável. De fato, pouco se sabe sobre ela. O que é certo é que recebeu o prestigioso título de augusta em 128, sua efígie apareceu em moedas, estátuas lhe foram dedicadas e, de acordo com o costume, foi deificada pouco depois de falecer. O casamento parece ter sido infeliz e não produziu descendência.
Adriano morreu em 10 de julho de 138, em Roma, depois de uma longa doença. Seu corpo foi depositado num mausoléu, que veio a ser transformado no atual Castelo de Santo Ângelo, em Roma. A sucessão de Adriano foi complicada: a princípio ele havia pensado em adotar como filho e sucessor um dos seus muitos antigos favoritos (tal como o adolescente grego Antínoo), Lúcio Élio — e efetivamente o fez, mas tendo Élio falecido prematuramente, Adriano acabou por adotar o senador T. Aurélio Fúlvio Boiônio Antonino — que tornou-se depois o imperador Antonino Pio — sob a condição, no entanto, de que este adotasse como seu filho e sucessor o parente distante de Adriano, o jovem Marco Ânio Vero, o futuro imperador Marco Aurélio, assim como o filho do falecido Lúcio Ceiônio, Lúcio Vero, que viria a ser co-imperador junto com Marco Aurélio. Entrementes, Adriano acabou por ordenar o suicídio de outro dos seus parentes, o nonagenário senador Lúcio Júlio Urso Serviano, desconfiando que ele buscaria a sucessão imperial para seu neto, que também foi obrigado a suicidar-se. Tal decisão fez muito para confirmar a alienação mútua entre Adriano e o Senado, que levaria, após sua morte, a uma tentativa do Senado de invalidar seus atos, o que foi impedido por Antonino Pio. A hostilidade duradoura entre o Senado e Adriano seria reconhecida pelo seu contemporâneo mais jovem, o senador, orador e correspondente de Marco Aurélio, Frontão, que comparava Adriano ao deus da guerra Marte e ao deus dos mortos Dis Pater — ambos deuses que se deve tentar apaziguar, mas sem poder realmente amá-los.
As atividades militares de Adriano se conformaram à sua política antiexpansionista, procurando antes consolidar o que havia sido conquistado, eventualmente empregando a força para repelir ataques e reprimir revoltas, do que ampliar os territórios. Algumas províncias recentes foram mesmo abandonadas, e cedeu parte da Dácia aos sármatas. É provável que mesmo se o desejasse, uma expansão não seria viável, em vista da carência de recrutas em sua época. Adriano sistematicamente incorporou ao Exército guerreiros bárbaros com suas armas tradicionais, que eram menos custosos de manter, preferia intervenções rápidas e ágeis, e enfatizava a disciplina e o bom treinamento dos legionários. Construiu uma extensa série de bastiões, fortalezas, muralhas, torres, paliçadas e postos de vigia ao longo das fronteiras, o que contribuía para manter as tropas ocupadas em tempo de paz e melhorava as possibilidades de defesa em caso de guerra. Credita-se a ele a criação de um corpo de polícia política, os frumentários, cujos agentes foram destacados do corpo de funcionários imperiais dedicados à supervisão do abastecimento de trigo (frumentum) da cidade de Roma, daí seu nome em latim.
Adriano ocupava também a função de pontífice máximo, responsável pela organização da religião de todo o Império. Com uma origem hispânica e um interesse pelo pan-helenismo, transferiu para as províncias o foco do culto imperial oficial. Embora as moedas que cunhou em geral trouxessem sua efígie na qualidade de Gênio do Povo Romano, algumas emissões enfatizam sua qualidade de protetor da cultura grega ou o identificam com o Hércules Gaditano, padroeiro de Gades, cidade de sua mãe. Fundou vários centros novos para o culto imperial, especialmente na Grécia. Cidades que apoiavam o culto imperial recebiam patrocínio do imperador, e atraíam turismo, comércio e investimentos privados. Sacerdotes e patronos do culto eram incentivados a divulgar sua posição e a fomentar a reverência pela autoridade imperial. Também construiu ou restaurou muitos templos e santuários dos cultos tradicionais. Durante seus últimos anos o culto do imperador como um deus parece ser sofrido uma significativa intensificação e popularização, especialmente o Oriente, sendo venerado com estátuas e templos.
A figura de Adriano tem fascinado o público por séculos, especialmente por uma personalidade que foi vista como enigmática, intrigante e contraditória. Escritores antigos como Dião Cássio, Frontão e Pausânias louvaram seus programas construtivos, os festivais que instituiu e seu papel como benfeitor de numerosas cidades, e de fato talvez somente Augusto possa lhe ser comparado a atenção que deu às cidades em programas de renovação urbanística, fomento econômico e preservação de sua história e tradições específicas, mas na sua descrição como político e governante são mais reticentes e evasivos. Na História Augusta ele aparece ao mesmo tempo como discreto e genial, dignificado e brincalhão, procrastinador e apressado, avarento e liberal, dissimulado e veraz, cruel e generoso, sendo indulgente para com seus amigos e sempre disposto a conhecer novas pessoas, mas seu alegado pedantismo e competitividade o teriam tornado solitário.
Exceto se explicitado de outra forma, as notas abaixo indicam que o parentesco de um indivíduo em particular é exatamente o que foi indicado na árvore genealógica acima.


