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Descoberta da tumba de Tutancâmon

A descoberta da tumba de Tutancâmon ocorreu em novembro de 1922 no Vale dos Reis por escavadores liderados pelo egiptólogo Howard Carter, mais de 3,3 mil anos depois da morte e enterro de Tutancâmon. As tumbas da maioria dos faraós tinham sido saqueadas por ladrões de túmulos na antiguidade, porém a tumba de Tutancâmon foi escondida por entulhos durante a maior parte de sua existência e assim não foi muito saqueada. Desta forma se tornou o primeiro enterro real do Antigo Egito em sua maior parte intacto.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 19/07/2026
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Antecedentes

Enterros antigos e roubos

O faraó Tutancâmon pertencia à Décima Oitava Dinastia, no Império Novo. Ele morreu por volta de 1323 a.C. e foi sepultado no Vale dos Reis, próximo de Tebas, assim como a maioria dos governantes do Império Novo. Em vez de ser sepultado em uma tumba completa escavada nas encostas do vale, ele foi colocado em uma pequena tumba escavada no chão do vale, provavelmente uma tumba particular modificada para acomodar as grandes quantidades de objetos que acompanhavam um sepultamento real. A tumba foi roubada duas vezes após sua construção. Oficiais a restauraram e a selaram novamente, preenchendo a passagem de entrada com lascas de calcário para dissuadir mais invasões. A tumba foi coberta de entulho da construção da tumba KV9 durante os reinados de Ramsés V e Ramsés VI,[nota 1] dois séculos depois. A tumba de Tutancâmon desta forma ficou escondida das ondas posteriores de roubos, consequentemente mantendo a maioria dos seus artefatos, diferente das outras tumbas no vale.

Exploração do Vale dos Reis

O Egito era na prática uma colônia do Reino Unido no início do século XX, oficialmente governado pelos monarcas da Dinastia de Maomé Ali, mas na realidade administrado pelo cônsul geral britânico, que supervisionava um governo composto de egípcios mas dominado por britânicos. A egiptologia, o estudo do Antigo Egito, era supervisionada pelo Serviço de Antiguidades, um departamento do governo egípcio. Novas escavações de sítios antigos eram muito dependentes de um sistema conhecido como "partida" ou "divisão de descobertas": museus ou colecionares particulares financiariam uma escavação egiptológica em troca de uma parte dos artefatos, normalmente metade, com o restante ficando com o Serviço de Antiguidades e seu museu, o Museu Egípcio no Cairo.

Limpeza do vale

Carter deixou o Serviço de Antiguidades em 1905 depois de um grupo de turistas franceses ter entrado à força em um sítio arqueológico fechado em Sacará e ele ter ordenado que os guardas egípcios os expulsassem. O uso de força por egípcios contra europeus criou um escândalo que o fez se demitir. Depois disso trabalhou como escavador para lorde George Herbert, 5.º Conde de Carnarvon, um colecionador de antiguidades egípcias. Carnarvon comprou em 1914 a concessão para o Vale dos Reis depois de Davis ter aberto mão dela. A Primeira Guerra Mundial dificultou trabalhos de campo, mas Carter começou em 1917 a limpar o vale até a base rochosa. Isto exigia vasculhar os montes de entulho produzidos por décadas de escavações anteriores, além do alúvio natural do vale. Carter e Carnarvon não afirmaram na época que estavam procurando pela tumba de Tutancâmon, mas existia motivos para que os dois acreditassem que ela ainda não tinha sido encontrada. Os objetos da KV54 e KV58 indicavam que o faraó tinha sido enterrado em algum lugar do vale, mas era improvável que restos tão escassos fossem um enterro real.

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Descoberta e liberação

Primeira temporada

Carter e sua força de trabalho egípcia começaram as escavações em 1º de novembro de 1922, mais cedo na temporada do que o usual com o objetivo de minimizar as interrupções para os turistas. Um trabalhador descobriu um degrau na rocha no dia 4. Segundo o relato publicado por Carter, o trabalhador descobriu o degrau enquanto escavava embaixo dos restos dos barracos, já outros relatos atribuem a descoberta a um menino que estava escavando fora da área designada.[nota 2] O degrau mostrou-se ser o início da escadaria de entrada de uma tumba. Ao final ficava uma soleira selada com calcário e gesso, na qual Carter perfurou um pequeno buraco para ver que a passagem além estava cheia de entulhos. Carter enviou um telegrama a Carnarvon na Inglaterra e fez com que todos os trabalhadores preenchessem de novo o fosso a fim de assegurarem a tumba até a chegada de Carnarvon. Enquanto esperava, Carter pediu que seu amigo e colega Arthur Callender o ajudasse na escavação.

Segunda temporada

Carter e Mace escreveram entre as temporadas de escavação o primeiro volume de The Tomb of Tut.ankh.Amen, seu relato sobre a descoberta e o trabalho que tinha sido feito até então. Foi publicado em outubro de 1923 enquanto Carter retornava ao Egito a fim de retomar o trabalho. Com a morte de Carnarvon, o financiamento da liberação da tumba ficou com sua viúva, Almina Herbert, Condessa de Carnarvon, porém com Carter agora atuando como porta-voz para o governo egípcio e para a imprensa. A temporada começou com a remoção de duas estátuas em tamanho real de Tutancâmon que ficavam na antecâmara em cada lado da soleira. Em seguida os escavadores começaram a remover os santuários do sarcófago, que ocupavam a maior parte da câmara mortuária e deixavam pouco espaço para os escavadores se moverem. A parede que dividia a antecâmara da câmara mortuária, em que ficava parte da parede pintada com decorações da câmara mortuária, precisou ser parcialmente demolida para dar espaço aos trabalhadores, com um andaime precisando ser erguido para que os santuários pudessem ser desmontados de cima para baixo.

Outras temporadas

A terceira temporada foi curta e tranquila, com os escavadores nada removendo e em vez disso se focando na conservação dos objetos que já estavam no laboratório da KV15. Desta forma o interesse da imprensa rapidamente diminuiu. A cobertura estourou novamente quando a múmia de Tutancâmon foi desenrolada, porém o restante da liberação ocorreu sem o foco da mídia. Callender, que era contra a perda de renda oriunda de uma temporada encurtada, se desentendeu com Carter e se demitiu. Burton, Lucas e os capatazes foram desta forma os únicos colaboradores consistentes de Carter durante o restante do processo. A quarta temporada começou no final de 1925 e se focou no próprio enterro de Tutancâmon. Sua múmia estava dentro de uma série de três caixões aninhados, com o mais interno sendo composto principalmente de 110,4 quilogramas de ouro maciço. Sobre seu corpo e entre suas bandagens estavam várias joias e outros objetos, incluindo uma máscara mortuária de ouro. O caixão mais interno e a múmia tinham sido cobertos por unguentos no sepultamento. Estes unguentos solidificaram em uma resina dura, colando a múmia e suas bandagens em uma massa única presa ao fundo do caixão interno, que por sua vez ficou preso ao fundo do caixão do meio. Os unguentos tinham passado por uma reação química que tinha carbonizado o linho das bandagens da múmia, além de alguns tecidos da própria múmia, deixando a pele de Tutancâmon em um estado extremamente frágil. Os escavadores primeiro tentaram derreter a resina ao levarem os caixões para fora da tumba a fim de serem aquecidos pelo sol, mas isto falhou. Consequentemente, os restos de Tutancâmon ainda estavam dentro dos caixões quando os anatomistas Douglas Derry e Saleh Bey Hamdi chegaram e começaram a examina-lo em 11 de novembro. A múmia foi desmembrada no decorrer de oito dias e as partes cinzeladas individualmente para remover a massa de resina, também removendo os artefatos mortuários a medida que isso era feito, com as partes sendo em seguida examinadas.

Disposição dos artefatos

Os artefatos da tumba foram numerados em 5 398 objetos diferentes. Carter estimou que aproximadamente um quarto de um por cento destes objetos estavam danificados além de qualquer reparo. A maior parte dos restantes foram enviados para o Museu Egípcio no Cairo, compondo hoje por volta de um sexto das exibições permanentes do museu. O sarcófago, caixão externo e múmia permaneceram na câmara mortuária, bem como um solidéu e um grande colar semelhante a um babador, ambos feitos de miçangas delicadas que Carter aparentemente achou que eram muito frágeis para serem removidos da múmia.[nota 7] Discussões retrospectivas sobre a liberação tendem a enfatizar o quanto o processo foi escrupuloso e metódico. O historiador Jason Thompson considerou Carter como um dos três arqueólogos mais habilidosos no Egito na época e afirmou que caso a tumba tivesse sido descoberta por Davis em 1914 a liberação "teria sido na melhor das hipóteses abaixo do padrão e os conteúdos da tumba provavelmente teriam sido dispersados". Carter mesmo assim deu pequenos objetos para visitantes ou colegas que provavelmente foram parar em museus. Por exemplo, Gardiner teve um desentendimento com Carter em 1934 depois de perceber que um amuleto que Carter tinha lhe presenteado havia sido roubado da tumba. O egiptólogo Bob Brier afirmou que "Carter achava que tinha o direito de fazer o que quisesse com [esses artefatos]".

Documentação

O terceiro e último volume de The Tomb of Tut.ankh.Amen, cobrindo a tesouraria e anexo, foi publicado em 1933. Os três volumes tinham como alvo o público geral e não constituem um descrição arqueológica completa da tumba e seus conteúdos. O processo de liberação tinha produzido grandes volumes de documentação. Quase todos os objetos foram catalogados e a maioria foram fotografados por Burton, porém vários pequenos objetos, aproximadamente entre quinze e vinte por cento do total, não foram fotografados. Vários especialistas produziram contribuições especializadas, como os exames anatômicos Derry e Hamd e os estudos botânicos de Newberry. Carter tinha esperanças de reunir todo esse material em um relatório egiptológico formal. Ele tinha apenas delineado um plano geral de seis volumes quando morreu, não tendo iniciado o projeto. O Conselho de Ministros egípcio se mexeu em 1951 para financiar uma publicação completa, mas este esforço foi abandonado depois da Revolução Egípcia de 1952.

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Legado

Egiptólogos tinham esperanças que a tumba contivesse documentos que clarificassem a história do período em que Tutancâmon viveu. Documento algum foi encontrado, mas os artefatos proporcionaram pistas. Datas em jarras de vinho da tumba estabeleceram que Tutancâmon não tinha reinado muito mais do que nove anos. Egiptólogos tinham anteriormente presumido que sua única reivindicação ao trono era seu casamento com Anquesenamon e que ele talvez tivesse sido um cortesão mais idoso. Entretanto, o exame de sua múmia revelou que ele tinha entre dezessete e 22 anos de idade e com um crânio de formato incomum que lembrava o da múmia real não identificada da tumba KV55, sugerindo que eram parentes e consequentemente que Tutancâmon pertencia à linhagem real. Algumas artes na tumba eram no estilo do Período de Amarna e algumas até fazem referência a Áton, a divindade venerada naquele período, indicando que o retorno à ortodoxia durante o reinado de Tutancâmon foi gradual.

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Fontes consultadas

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