Antigo Egito
Antigo Egito foi uma civilização do Antigo Oriente Próximo do Norte de África, concentrada ao longo ao curso inferior do rio Nilo, no que é hoje o país moderno do Egito. Era parte de um complexo de civilizações, as civilizações do vale do Nilo, do qual também faziam parte as regiões ao sul do Egito, atualmente no Sudão, Eritreia, Etiópia e Somália. Tinha como fronteiras o mar Mediterrâneo, a norte, o Deserto da Líbia, a oeste, o Deserto Oriental Africano a leste e a primeira catarata do Nilo a sul. Foi umas das primeiras grandes civilizações da Antiguidade e manteve durante sua existência uma continuidade nas suas formas políticas, artísticas, literárias e religiosas, explicável em parte devido aos condicionalismos geográficos, embora as influências culturais e contactos com o estrangeiro tenham sido também uma realidade.
Os egípcios usaram vários nomes para se referirem à sua terra. O mais comum era Quemete (Kṃt), "Terra Negra" ou "Terra Fértil", que se aplicava especificamente ao território nas margens do Nilo e que aludia à terra negra trazida pelo rio todo ano. Dexerete (dšṛt), "Terra Vermelha", referia-se aos desertos que circundavam o Nilo, onde os egípcios só iam para enterrar os seus mortos ou para explorarem pedras e metais preciosos. Também chamavam-no Taui ("as Duas Terras", ou seja, Alto e Baixo Egito), Tameri ("Terra Amada") ou Ta Netjeru ("Terra dos Deuses"). Na Bíblia, é designado Misraim (em hebraico: מִצְרַיִם; romaniz.: Mizraim, literalmente "os dois estreitos" [Alto e Baixo Egito]). A atual palavra Egito deriva do grego Aigyptos (pronunciado Aiguptos), que se acredita derivar por sua vez do egípcio Het-Ka-Ptah, "a mansão da alma de Ptá". Os habitantes atuais do Egito dão o nome Misr ao país, uma palavra que em árabe pode também significar "país", "fortaleza" ou "acastelado". Segundo a tradição, Misr é o nome usado no Alcorão para designar o Egito, e o termo pode evocar as defesas naturais de que o país sempre dispôs. Outra teoria é que Misr deriva da antiga palavra Mizraim, que por sua vez deriva de md-r ou mdr, usada pelos locais para designar o seu país.
No final do Paleolítico, o clima árido do Norte da África tornou-se cada vez mais quente e seco, forçando as populações da área a se concentrarem junto ao vale do Nilo, cuja fertilidade assegura sustento ao Egito desde o tempo dos caçadores e coletores nômades do Pleistoceno Médio (c. 780-120 mil anos atrás) até hoje. Sua planície fértil deu aos homens a oportunidade de desenvolver uma economia agrícola sedentária e sociedade mais sofisticada e centralizada que tornar-se-ia marco na história da civilização humana. Os faraós do Império Novo estabeleceram um período de prosperidade sem precedentes, ao assegurar as fronteiras e reforçar os laços diplomáticos com seus vizinhos. Campanhas militares levadas a cabo sob o comando de Tutemés I e seu neto Tutemés III, alargaram a influência dos faraós para o maior império que o Egito já havia visto. Quando Tutemés morreu em 1 425 a.C., o Egito prolongava-se desde Nia no norte da Síria até à quarta catarata do Nilo, na Núbia, cimentando fidelidades e abrindo caminho para importações essenciais como bronze e madeira. Os faraós do Império Novo iniciaram uma campanha de construção em grande escala para promover o deus Amom, com culto assente em Carnaque. Também construíram monumentos para glorificar suas próprias realizações, tanto reais como imaginárias. A faraó Hatexepsute usou tais meios como propaganda para legitimar sua pretensão ao trono. Seu reinado bem sucedido foi marcado por expedições comerciais a Punte, um elegante templo mortuário, um par de obeliscos colossais e uma Capela em Carnaque. Apesar de suas realizações, o sobrinho e enteado de Hatexepsute, Tutemés III tentou fazer desaparecer o seu legado perto do fim de seu reinado, possivelmente em represália pela usurpação do seu trono.
Período pré-dinástico (5500–3100 a.C.)
Nos períodos pré-dinástico e dinástico, o clima do Egito, e do Saara como um todo, sofreu repentinas variações que causaram períodos de extrema seca e desertificação e períodos de clima favorável e úmido: em fases úmidas o Saara era dominado por savana rica em fauna (aves e mamíferos) e flora. A caça era muito importante entre os egípcios, pois fornecia carne. Os primeiros sinais de domesticação animal são do Deserto Ocidental e datam de 8 800–6 800 a.C.: eram criados com base no modelo de pastoreio africano, no qual fornecem leite e sangue, mas não carne. Cerca de 5 500 a.C., pequenos grupos que viviam no vale evoluíram para aglomerados culturais complexos caracterizados por amplo domínio da agricultura (os vestígios mais antigos desta foram achados em Faium), pecuária, manufatura de objetos e cerâmica e um primitivo comércio: Faium (5400–4400 a.C.) desenvolveu pleno domínio em tecelagem; Merinde (5000–4100 a.C.) construiu os primeiros túmulos egípcios conhecidos, situados no interior do sítio, e talvez desenvolveu práticas rituais; Omari (4600–4400 a.C.) fez os mais antigos artefatos em cobre do Egito; e Badari (4400–4000 a.C.) produziu os primeiros exemplos de faiança e vidro à base de esteatita.
Época Tinita (3100–2686 a.C.)
No século III a.C., o sacerdote Manetão estabeleceu uma cronologia dos faraós desde Menés aos seus contemporâneos, agrupando-os em 30 dinastias, um sistema ainda em uso atualmente. Escolheu para começar a sua história oficial Menés, que se acredita ter unificado os reinos do Alto e Baixo Egito (c. 3 100 a.C.). Na realidade, a transição para um Estado unificado ocorreu de forma mais gradual do que os escritores egípcios relatam, e não há registro coetâneo de Menés. Alguns académicos acreditam que Menés pode ter sido Narmer, que aparece vestindo trajes reais na cerimonial Paleta de Narmer em ato simbólico de unificação, ou Atótis, cujo nome de Nebti (Mem) pode ter inspirado o nome grego. Seja como for, por ainda não ser totalmente compreendido, o episódio de unificação e formação do Egito foi explicado de várias formas: a formação de Mênfis (que adquiriu importância como centro comercial, administrativo e cultural); dominação gradual (mesopotâmica, núbia, deltaica ou alto egípcia); integração regional (alianças, guerras e trocas culturais); comércio (explicaria o abandono de alguns sítios deltaicos em detrimento de outros ); pressão populacional (do sul ao norte); uniformidade religiosa.
Império Antigo (2686–2160 a.C.)
No Império Antigo ocorreram diversas expedições para exploração mineral nas minas do Sinai e mar Vermelho assim como campanhas militares contra núbios e líbios. Concomitantemente, o comércio com o Oriente Próximo (Líbano, Palestina, Mesopotâmia) e o Punte intensificou-se e, juntamente com os sucessos militares, possibilitou ao Egito fundar acampamentos estratégicos e uma frota marítima, assim como adquirir ouro, cobre, turquesa, madeira de cedro, mirra, malaquita e eletro. Durante o Império Antigo, uma administração central bastante desenvolvida tornou possível o aumento da produtividade agrícola, o que serviria de motor para impressionantes avanços nos campos da arquitetura, arte e tecnologia. Sob a direção do tjati (vizir), funcionários do Estado arrecadavam impostos, coordenavam projetos de irrigação para melhorar o rendimento das culturas, recrutavam camponeses para trabalhar em projetos de construção e estabeleceram um sistema de justiça que assegurava a manutenção da ordem e da paz. Com os excedentes dos recursos disponibilizados por uma economia produtiva e estável, o Estado foi capaz de patrocinar a construção de monumentos colossais e a excepcional comissão de obras de arte às oficinas reais.
Primeiro Período Intermédio (2160–2055 a.C.)
Depois do colapso do governo central do Egito no final do Império Antigo, o governo não conseguiu sustentar ou estabilizar a economia do país. Os governadores regionais não podiam contar com o faraó para apoio em épocas de crise, e a consequente escassez de bens e disputas políticas agravaram-se para situações de fome e guerras civis de pequena escala. No entanto, apesar dos problemas, os líderes locais que já não deviam o tributo ao faraó, usaram esta independência para estabelecer uma cultura próspera nas províncias. Uma vez que dominavam os seus próprios recursos, as províncias desenvolveram-se economicamente, fato demonstrado por maiores e melhores atos fúnebres entre todas as classes sociais. Verificaram-se surtos de criatividade, com os artesãos das províncias a adotarem e adaptarem motivos culturais antes restritos à realeza do Império Antigo, e os escribas desenvolveram estilos literários que expressam o otimismo e a originalidade do período.
Império Médio (2055–1650 a.C.)
Os faraós do Império Médio restituíram a prosperidade e estabilidade do país, situação que estimulou um renascimento da arte, literatura e projetos de construção monumental. Mentuotepe II e seus sucessores da XI dinastia governaram a partir de Tebas, mas o vizir Amenemés I, ao assumir o trono que deu início início à XII dinastia por volta de 1 985 a.C., mudou a capital do país à cidade de Iti-Taui, localizada em Faium. De Iti-Taui, os faraós da XII dinastia comprometeram-se a realizar uma recuperação de áreas degradadas e melhorar o sistema de irrigação para aumentar a produção agrícola no país. Além disso, deu-se a conquista militar de toda a Núbia, rica em pedreiras e minas de ouro, enquanto trabalhadores construíram uma estrutura defensiva no Delta Oriental, chamada "Muros-do-Rei", para defesa do Egito contra ataques exteriores.
Segundo Período Intermédio (1650–1550 a.C.)
Por volta de 1 785 a.C., com o poder dos faraós do Império Médio enfraquecido, os imigrantes asiáticos residentes na cidade de Ávaris assumiram o controle da região e forçaram o governo central a se retirar para Tebas, onde o faraó era tratado como um vassalo e era obrigado a pagar tributo. Os hicsos (Heka-khasut, governantes estrangeiros) imitaram o modelo de governo egípcio e se apresentaram como faraós, integrando elementos egípcios na sua cultura da Idade do Bronze Médio. Introduziram também elementos novos como o cavalo, os carros de guerra, novos métodos de fiação e tecelagem e novos instrumentos musicais. Depois da retirada, os reis de Tebas se viram presos entre os hicsos no norte e os aliados núbios dos hicsos, os cuxitas, no sul. Após anos de inatividade, Tebas reuniu força suficiente para desafiar os hicsos em um conflito que duraria mais de 30 anos, até 1 555 a.C. Os faraós Taá II e Camés acabaram por derrotar os núbios, mas foi o sucessor de Camés, Amósis I, que empreendeu com sucesso uma série de campanhas que permanentemente erradicaram os hicsos no Egito. No Império Novo que se seguiu, o poder militar se tornou uma prioridade central para os faraós, que procuraram expandir as fronteiras do Egito e garantir o domínio completo do Oriente Próximo.
Esta civilização se desenvolveu na região situada entre a primeira catarata do Nilo (Assuão) e o Delta do Nilo. O Sinai, que só pertenceu ao Egito após sua conquista no Império Novo, foi utilizado como rota de comunicação para o corredor sírio-palestino, que a rigor seria a faixa de terra litorânea que liga o Egito à Mesopotâmia. A leste do Nilo encontra-se o Deserto Oriental Africano (comumente conhecido como Deserto Oriental) que se estende até ao mar Vermelho e a oeste fica o Deserto da Líbia (comumente conhecido como Deserto Ocidental) onde existem vários oásis dos quais se destacam os de Siuá, Carga, Farafra, Dacla e Baareia. O atual território do Egito não pode ser comparada ao do Antigo Egito, pois, atualmente, o Sinai, e partes dos desertos Oriental e Ocidental estão dentro dos limites do Egito. Ao sul da primeira catarata se localizava a Núbia. O Nilo é formado por dois afluentes principais, o Nilo Branco (que nasce no Lago Vitória) e o Nilo Azul (que nasce no Lago Tana). Ambos os afluentes unem-se em Cartum. O Nilo corre de sul para norte, desaguando no mar Mediterrâneo e sua extensão é de aproximadamente 6 740 km.
Vale do rio Nilo
O historiador grego Heródoto (ca. 484?–420 a.C.)), chamou ao Egito "a dádiva do Nilo". Para os egípcios, o Nilo era uma verdadeira bênção dos deuses, sendo considerado sagrado e adorado como um deus, ao qual dedicavam hinos e orações. As chuvas sazonais causavam enchentes que depositavam húmus nas margens favorecendo a agricultura e pecuária; também fornecia água fresca, peixes, aves aquáticas além de servir para o transporte e comércio. Como o nível do rio era inconstante os egípcios desenvolveram diques, barragens e canais de água para melhor aproveitarem as águas do rio, assim como o "nilômetro", uma construção usada para medir as enchentes. Durante o período das enchentes os cidadãos eram deslocados às cidades para trabalharem em outras tarefas.
Os antigos egípcios foram o resultado de uma mistura das várias populações que se fixaram no Egito ao longo dos tempos, oriundas do nordeste africano, da África Negra e da área semítica. A questão relativa à etnia dos antigos egípcios é por vezes geradora de controvérsia, embora à luz dos últimos conhecimentos da ciência falar de raças humanas revela-se um anacronismo. Até meados do século XX, por influência de uma visão eurocêntrica, os antigos egípcios eram considerados praticamente como brancos; a partir dos anos 1950, as teorias do "afrocentrismo", segundo as quais os egípcios eram negros, afirmaram-se em alguns círculos. Importa também referir que as reproduções artísticas são frequentemente idealizações que não permitem retirar conclusões neste domínio. Os egípcios tinham consciência da sua alteridade: nas representações artísticas dos túmulos os habitantes do Vale do Nilo surgem com roupas de linho branco, enquanto que os seus vizinhos líbios e semitas se apresentam com roupas de lã. A língua dos egípcios (hoje uma língua morta) é um ramo da família das línguas afro-asiáticas (camito-semíticas). Esta língua é conhecida graças à descoberta e decifração da Pedra de Roseta, onde se encontra inscrito um decreto de Ptolomeu V Epifânio (205-180 a.C.) em duas línguas (egípcio e grego clássico) e em três escritas (caracteres hieroglíficos, escrita demótica e alfabeto grego).
Administração
O faraó era o monarca absoluto do país e, pelo menos em teoria, exercia o controle total da terra e seus recursos. Era o comandante militar supremo e chefe do governo, que contava com uma burocracia de funcionários para administrar os seus negócios. O encarregado da administração, o vizir (tjati), era o segundo no comando, e atuava como conselheiro e representante do faraó, coordenava os levantamentos fundiários, tesouraria, projetos de construção, sistema legal e depósito de documentos. A nível regional, o país estava dividido em 42 regiões administrativas chamadas nomos, cada uma governada por um nomarca, que era responsável pela jurisdição do vizir. Os templos formavam a espinha dorsal da economia. Eles não só eram edifícios de culto, mas também eram responsáveis por coletar e armazenar a riqueza da nação em um sistema de celeiros e tesourarias administradas por superintendentes, que redistribuíam os cereais e os bens. Como não era possível para o faraó estar em todos os templos para realizar as cerimônias, delegava o seu poder religioso aos sacerdotes, que conduziam as cerimônias em seu nome.
Sistema jurídico
A cabeça do sistema jurídico era oficialmente o faraó, que era responsável pela promulgação de leis, aplicação da justiça e manutenção da lei e da ordem, um conceito que os egípcios antigos denominavam Maat. Apesar de não terem chegado aos nossos dias quaisquer códigos legais do Antigo Egito, documentos da corte mostram que as leis foram baseadas em uma visão de senso comum de certo e errado, que enfatizou a celebração de acordos e resoluções de conflitos ao invés de cumprir rigorosamente um conjunto complicado de estatutos. Conselhos locais de anciãos, conhecidos como Quembete (Knbt) no Império Novo, eram responsáveis pela decisão em casos judiciais de pequenas causas e disputas menores. Os casos mais graves envolvendo assassinato, grandes transações de terrenos e roubo de túmulos eram encaminhados para o Grande Kenbet, presidido pelo vizir ou pelo faraó. Os demandantes e demandados retratavam-se e eram obrigados a jurar que diziam a verdade. Em alguns casos, o Estado assumiu tanto o papel de acusador como o de juiz, e tinha poder para torturar os acusados com espancamento para obter uma confissão e os nomes dos co-conspiradores. Se as acusações fossem sérias, escribas da corte documentavam a denúncia, testemunhavam, e o veredicto do caso era guardado para referência futura.
Força militar
O exército egípcio antigo foi responsável pela defesa do Egito contra invasões estrangeiras e a manutenção da dominação egípcia no Antigo Oriente Próximo. No deserto havia patrulheiros que vigiavam as fronteiras e defendiam o império de expedições de nômades. No Delta e no Vale do Nilo havia guardas rurais que defendiam os cobradores de impostos. No Império Novo surgiram os medjai, de origem núbia, que exerciam a função de patrulheiros do deserto, policiais das cidades e necrópoles, além de aplicadores das decisões da justiça. O exército e a marinha eram complementares, onde os navios transportavam as tropas e os oficiais exerciam funções militares e navais. Os soldados eram recrutados entre a população em geral, mas durante e principalmente depois do Império Novo, foram contratados mercenários da Núbia e Líbia para lutar pelo Egito. Prisioneiros de guerra também foram incorporados ao exército egípcio. Por volta do Império Novo os exércitos eram divididos em unidades táticas autônomas de 5 a 6 000 homens.
Agricultura
Uma combinação de características geográficas favoráveis contribuiu para o sucesso da cultura, a mais importante das quais era o solo fértil resultante de enchentes anuais do Nilo. Os antigos egípcios foram, assim, capazes de produzir alimentos em abundância, permitindo que a população dedicasse mais tempo e recursos a atividades culturais, tecnológicas e artísticas. A gestão da terra foi crucial no Antigo Egito, porque os impostos foram avaliados com base na quantidade de terras em posse de uma pessoa. Em teoria todas as terras pertenciam ao rei, mas a propriedade privada foi uma realidade. A agricultura no Egito foi dependente dos ciclos de cheias do Rio Nilo. Os egípcios reconheceram três estações: Akhet (inundação), Peret (plantio) e Shemu (colheita). A estação das cheias dura de julho a outubro, depositando nas margens do Nilo uma camada de lodo rico em minerais para o cultivo. Após a redução do nível do rio, a estação de plantio ia de novembro a fevereiro. Agricultores aravam a terra com arados puxados por bois e plantavam as sementes, que eram irrigadas por intermédio de sistemas de diques e canais. O Egito recebia pouca chuva, pelo que os agricultores usavam a água do Nilo para regar as culturas. De março a junho, os agricultores usavam foices para suas colheitas, que eram depois debulhadas com um mangual ou com as patas dos bois para separar a palha do grão. Os grãos eram usados para fabricar cerveja ou armazenados em sacas nos celeiros reais para posterior distribuição.
Criação animal
Os egípcios acreditavam que uma relação equilibrada entre pessoas e animais era um elemento essencial da ordem cósmica e que por conseguinte os animais e plantas eram membros de um todo. Animais, tanto domésticos como selvagens, foram, portanto, uma fonte essencial de espiritualidade, companheirismo, e sustento. Os bovinos foram os animais mais importantes; a administração coletava impostos sobre o gado nos censos regulares, e o tamanho de um rebanho refletia o prestígio e a importância da propriedade ou do templo que o possuía. Além do gado, os antigos egípcios apascentavam caprinos, ovinos e suínos. Aves como patos, gansos e pombos eram capturados em redes e criados em fazendas, onde eram alimentados à força com massa para engordá-los. As abelhas também foram domesticadas, pelo menos desde o Império Antigo, e forneciam tanto mel como cera. Também foram domesticados hienas e guepardos à caça.
Mineração
O Egito é rico em pedras de decoração e construção, cobre e minérios de chumbo, ouro e pedras semipreciosas. Estes recursos minerais permitiram aos egípcios construir monumentos, esculpir estátuas, fazer ferramentas e joias. Os embalsamadores utilizavam sais de Uádi Natrum (natrão) para mumificação, que também proporcionou a gipsita necessária para fazer gesso. Formações rochosas de minérios foram encontradas em barrancos inóspitos e distantes do Deserto Oriental e no Sinai, exigindo grandes expedições controladas pelo Estado para obter os recursos naturais ali localizados. Havia extensas minas de ouro na Núbia, e um dos primeiros mapas conhecidos é de uma mina de ouro na região. Uádi Hamamate foi uma importante fonte de granito, grauvaque e ouro. O sílex foi o primeiro mineral coletado e usado para fazer ferramentas e machadinhas líticas. Nódulos do mineral eram cuidadosamente lascados para fazer lâminas e pontas de flechas, mesmo depois do cobre passar a ser usado para essa finalidade.
Comércio
Grande parte da economia estava organizada a nível central e era estritamente controlada. Embora os antigos egípcios não utilizassem moedas até à Época Baixa, fizeram uso de um sistema de troca monetária, com sacas de grãos como valor padrão e o deben, um peso de cerca de 91 gramas de cobre ou prata, formando um denominador comum. Os trabalhadores eram pagos com grãos; um simples operário podia ganhar 5 ½ sacas (250 quilos) de grãos por mês, enquanto um capataz podia ganhar 7 ½ sacas (340 quilos). Os preços eram fixados em todo o país e registrados em listas para facilitar a negociação. Por exemplo, uma camisa custava cinco deben de cobre, enquanto uma vaca custava 140 deben. Grãos podiam ser trocados por outras mercadorias, de acordo com a lista de preço fixo. Durante o século V a.C. o dinheiro foi introduzido no Egito por estrangeiros. As primeiras moedas eram usadas como peças padronizadas de metais preciosos e não como dinheiro propriamente dito, mas nos séculos seguintes as trocas internacionais passaram a depender das moedas.
A sociedade apresentava uma estrutura fortemente hierarquizada. Era patriarcal, com o homem administrando o lar, com participação da mulher, e decidindo os herdeiros através de seu testamento. Os anciãos eram consultados e honrados após a morte. O casamento no mundo egípcio era monogâmico (embora haja casos de bigamia e poligamia na corte faraônica) e não era sancionado pela religião. Não existia uma cerimônia de casamento, nem um registro deste. Aparentemente bastava um casal afirmar que queria coabitar para que a união fosse aceite. Os homens casavam entre os dezesseis e os dezoito anos e as mulheres por volta dos doze, catorze anos. Por serem as mulheres as transmissoras do sangue real, como forma de legitimação do poder, houve casamentos entre irmãos. Também houve casamentos entre faraós e uma de suas filhas. Os homens com uma posição econômica mais elevada poderiam ter, para além da esposa legítima (nebet-per, "a senhora da casa"), várias concubinas, o que era visto como um sinal de riqueza. No entanto, as mulheres que tivessem mais de um homem eram mortas.
Educação
As crianças (meninos e meninas) iniciavam sua educação básica no seio familiar; os meninos aprendiam com seus pais princípios éticos, visões da vida, conduta social, ritos populares, etc; as meninas aprendiam com suas mães economia doméstica, culinária, preparação e confecção de roupas; as meninas ricas podiam aprender a tocar instrumentos, cantar, dançar assim como a ler, escrever e trabalhar com operações aritméticas. No processo educacional das classes mais abastadas utilizava-se os chamados "Livros de Instrução", que continham regras para se viver ordenadamente em sociedade assim como elementos morais tais como justiça, sabedoria, obediência, bondade e moderação.
Hierarquia social
No topo da hierarquia social estava o faraó, que possuía poderes absolutos, tomando decisões militares, religiosas, econômicas e judiciais, além de ser o dono nominal de todas as terras. Nos períodos de cheia o faraó ordenava que a população exercesse outras funções como, por exemplo, a construção de obras públicas. Enquanto vivo, o faraó era encarado como uma personificação do deus Hórus, enquanto que seu antecessor falecido era associado a Osíris, pai de Hórus, houvesse ou não relação de consanguinidade entre os soberanos. A partir da V dinastia os reis apresentam-se também como filhos de Rá, o deus solar. Os faraós possuíam muitas mulheres e filhos. Sua mulher principal, denominada hemet nesut, "esposa do rei", podia ser sua irmã ou uma de suas filhas. Os faraós possuíam diversas insígnias: o pschent (a união das coroas do Alto e Baixo Egito), os cetros crossa e chicote, o nemés (ornamento para cabeça decorado com uma cobra e um abutre que simbolizavam, respetivamente, o Baixo e Alto Egito) e a barba postiça. Podia ser simbolicamente traduzido como esfinge, e era associado a animais como a pantera, o leão e o boi. A palavra faraó, vinda do egípcio per aâ, significa "Casa Grande". Tornou-se o nome oficial dos líderes do Egito apenas durante a XVIII dinastia, pois até então habitualmente os líderes referiam-se a si mesmos como nesu (rei) ou neb (senhor). A partir da V dinastia a titulatura dos reis incluía cinco nomes reais: nome de Hórus, nome das Duas Mestras, nome de Hórus de Ouro, prenome e nome.
Vida cotidiana
A maioria da população era constituída por agricultores ligados à terra. Suas habitações eram restritas aos membros imediatos da família, e foram construídas com tijolos de barro destinadas a manter o frescor no calor do dia. Cada casa tinha uma cozinha com teto aberto, o qual continha uma pedra de moinho para moagem de farinha e um pequeno forno para cozer pão. As paredes eram pintadas de branco e podiam ser cobertas com tapetes de linho tingido. Os pavimentos eram cobertos com esteiras de palha, enquanto que a mobília era composta de bancos de madeira, camas levantadas a partir do piso e mesas individuais. As mães eram responsáveis por cuidar dos filhos, enquanto o pai fornecia a renda da família.
Desenvolvimento histórico
A língua é uma língua afro-asiática setentrional intimamente relacionada com o berbere e as línguas semíticas. Tem a história mais antiga a seguir ao sumério, tendo sido escrita desde 3 200 a.C. até à Idade Média, permanecendo como uma língua falada por mais tempo. Distinguem-se as fases do egípcio arcaico, antigo, médio (clássico), tardio, demótico e copta. Os escritos egípcios não apresentam diferenças antes do dialeto copta, no entanto, provavelmente existiam dialetos orais regionais nas regiões de Mênfis e, posteriormente, de Tebas. O egípcio antigo foi uma língua sintética, tornando-se posteriormente em uma língua mais analítica. O egípcio tardio desenvolveu artigos prefixais definidos e indefinidos, que substituíram os sufixos flexionais anteriores. Há uma mudança da velha ordem Verbo Sujeito Objeto para Sujeito Verbo Objeto. Os hieróglifos egípcios, a escrita hierática e o demótico acabaram por ser substituídos pelo alfabeto copta, mais fonético. O copta ainda é usado na liturgia da Igreja Ortodoxa do Egito, e vestígios dela são encontrados no árabe egípcio moderno.
Som e gramática
O egípcio antigo tinha 25 consoantes similares aos de outras línguas afro-asiáticas. Estas incluíam consoantes faríngeas e enfáticas, oclusivas sonoras e surdas, fricativas surdas e africadas surdas e sonoras. Havia inicialmente três vogais longas e três vogais curtas, que se expandiram no egípcio tardio para cerca de nove. Uma palavra básica em egípcio, semelhante ao berber e semita, tem consoantes e semiconsoantes de raiz triliteral e biliteral. Sufixos são adicionados para formar palavras. A conjugação verbal corresponde à pessoa. Por exemplo, o esqueleto triconsonantal S-Ḏ-M é o núcleo semântico da palavra "ouvir"; sua base conjugal é sḏm ("ele ouve"). Se o sujeito é um substantivo, sufixos não são adicionados ao verbo; por exemplo: sḏm ḥmt ("a mulher ouve").
Escrita
A escrita hieroglífica datada de 3 200 a.C. (túmulo U-j da necrópole de Umel Caabe de Abidos) é composta de cerca de 500 símbolos, que podiam ser reproduções de animais, plantas, pessoas ou partes do corpo e utensílios utilizados pelos egípcios. Um hieróglifo pode ser uma palavra, um som ou um determinante mudo; e o mesmo símbolo pode servir a diferentes propósitos em contextos diferentes. Os hieróglifos foram uma escrita formal, usados em papiros, monumentos líticos e nos túmulos, que podem ser tão detalhados como obras de arte. No dia-a-dia, os escribas usavam uma forma de escrita cursiva, chamada hierática, que era mais simples e rápida de escrever, escrita em pedras, papiros e placas de madeira. Enquanto os hieróglifos formais podem ser lidos em linhas ou colunas em qualquer direção (embora, geralmente, escritos da direita à esquerda), a hierática era sempre escrita da direita à esquerda, geralmente em linhas horizontais. Para se saber a direção a qual se devia ler os hieróglifos, era preciso olhar à direção a qual as figuras humanas ou de pássaros estavam olhando, pois são estes que mostram o início do texto. Uma nova forma de escrita surgida no século VII a.C., a demótica, tornou-se predominante, substituindo a hierática.
Literatura
A literatura do Antigo Egito inclui textos de caráter religioso (como os hinos às divindades), mas igualmente obras de natureza mais secular, como textos sapienciais, contos e poesia amorosa. A literatura apareceu pela primeira vez em associação com a realeza em rótulos e etiquetas para os itens encontrados em tumbas reais. Foi principalmente uma ocupação dos escribas, que trabalhavam à instituição Per Ankh ou a Casa de Vida, para os escritórios, bibliotecas (chamadas Casas dos Livros), laboratórios e observatórios. Algumas das peças mais conhecidas da literatura, como os Textos das Pirâmides e dos Textos dos Sarcófagos, foram escritos em egípcio clássico, que continuou a ser a língua da escrita até 1 300 a.C. Durante este período, a tradição da escrita evoluiu às autobiografias em túmulos, como os de Harcufe e Uni.
O Antigo Egito fundamentou-se por sua plena relação com o divino e na vida após a morte de tal modo que o reinado faraônico foi baseado no direito divino dos reis; considerava-se o faraó filho do deus Rá (depois conhecido como Amom-Rá ao ser fundido com Amom). A religião teve influência tanto em âmbito ideológico (a história foi explicada em viés divinos) como em carácter prático (a sociedade assim como a economia moldaram-se por influência de tal instituição); durante a história a economia local esteve intimamente relacionada com os templos. Na religiosidade, o culto às divindades sobressaía as crenças gerais, o que faz da religião mais ortoprática do que ortodoxa. Os egípcios antigos eram politeístas e seus deuses representavam diversos elementos naturais que eram vinculados com elementos cotidianos. Cada cidade possuía seu deus padroeiro assim como um específico animal sagrado que a ele era consagrado; caso uma cidade se tornasse capital do reino (p. ex. Tebas) o deus local, da mesma forma que o animal a ele dedicado, eram elevados ao âmbito nacional e, consequentemente, começavam a ser cultuados por todo o império (p. ex. Amom). Os deuses egípcios tinham características antropomórficas, zoomórficas ou mistas; conquanto, embora idealizassem seus deuses com certas características animais, pode-se considerar que postulavam que tal deus possuísse as habilidades daquele animal e não necessariamente sua forma.
Práticas funerárias
Os antigos egípcios mantiveram um elaborado conjunto de costumes de sepultamentos que acreditavam serem necessários para garantir a imortalidade após a morte. Estes costumes envolviam preservar o corpo por mumificação, realizando cerimônias fúnebres, e enterrando, junto com o corpo, o espólio que seria utilizado pelo falecido quando ressuscitasse; antes do Império Antigo os corpos eram enterrados em covas no deserto e, naturalmente, eram preservados por dessecação. Após a V dinastia, a mumificação, privilégio exclusivo às classes abastadas do Egito, tornou-se acessível para toda a população, mesmo que de forma variada. Durante o Império Novo tornaram-se comuns os sarcófagos antropomórficos e, durante a XX dinastia a prática de decoração das tumbas foi alterada pela prática da decoração dos sarcófagos. Múmias da Época Baixa também foram colocadas em sarcófagos com cartonagem pintada. As práticas de preservação real diminuíram durante as eras ptolomaica e romana, quando passou a dar-se mais atenção à aparência exterior das múmias, que passaram a ser decoradas.
Mumificação animal
Outra prática muito comum foi a mumificação animal. Os animais mumificados podiam ser bichos de estimação, pedaços de carne às múmias ou então animais sagrados, divinizados por sua relação com os deuses. Eram, no geral, objetos votivos destinados aos templos de culto a animais. A partir da XXVI dinastia, as múmias votivas tornaram-se populares, o que gerou um intenso comércio que empregou legiões de trabalhadores especializados. Entre os animais embalsamados podem se citar gatos, cães, vacas, touros, burros, cavalos, carneiros, peixes, crocodilos, elefantes, gazelas, íbis, leões, lagartos, macacos, aves, escaravelhos, musaranhos e serpentes. Os animais eram preparados como as múmias humanas: seus órgãos poderiam ser retirados ou então dissolvidos, depois eram lavados interiormente com vinho e depois banhados em natrão para ressecamento e posteriormente eram envoltos com resinas para fixação das bandagens de linho.
Os antigos egípcios produziram arte para servir propósitos funcionais. Por mais de 3 500 anos, os artistas aderiram a formas artísticas e a iconografias que foram desenvolvidas durante o Império Antigo, na sequência de um rigoroso conjunto de princípios que resistiu à influência estrangeira e à mudança interna. Estes padrões artísticos – linhas simples, formas e áreas planas de cores combinadas com características projeções planas das figuras sem indicação de profundidade espacial - criou um senso de ordem e equilíbrio dentro de uma composição. Imagens e textos foram intimamente entrelaçados nas tumbas e paredes dos templos, caixões, estelas e até estátuas. A Paleta de Narmer, por exemplo, exibe figuras que também podem ser lidos como hieróglifos. Por causa das regras rígidas que presidiram à sua aparência altamente estilizada e simbólica, a arte serviu a seus propósitos políticos e religiosos com precisão e clareza. A hierarquia social e religiosa influenciava no tamanho dos personagens.
Arquitetura
A arquitetura do Antigo Egito inclui algumas das estruturas mais famosas do mundo: as Grandes Pirâmides de Gizé e os templos em Tebas. Vários projetos foram organizados, construídos e financiados pelo Estado para fins religiosos e comemorativos, mas também para reforçar o poder do faraó. Os antigos egípcios eram construtores qualificados, usando ferramentas simples mas eficazes e instrumentos de observação, podendo os arquitetos egípcios construir grandes estruturas líticas com exatidão e precisão. As habitações da elite e dos egípcios comuns foram construídas de materiais perecíveis tais como lama, tijolos de adobe e madeira. Os camponeses viviam em casas simples, enquanto os palácios da elite foram estruturas mais elaboradas. As cidades possuíam bairros diferenciados e eram protegidas por muralhas. Uns poucos palácios sobreviventes do Império Novo, tais como os de Malcata e Amarna, mostram paredes ricamente decoradas e chão com cenas de pessoas, pássaros, piscinas de água, divindades e design geométrico.


