Arte hispano-muçulmana
A arte hispano-muçulmana ou arte mourisca é a arte islâmica desenvolvida no Alandalus entre os séculos VIII e XV. Tem como principais expoentes a Mesquita de Córdova e a Alhambra de Granada. Outra expressão notável da arte hispano-muçulmana é o Palácio da Aljafería de Saragoça.
Do ponto de vista artístico, o Emirado de Córdova empregou um estilo que não difere muito do restante do Califado Omíada. Ou seja, a adequação de fórmulas e elementos das culturas que os precederam, neste caso do mundo romano e visigodo. Em nenhum momento se produziu uma repetição literal de motivos e formas; ao contrário, sua incorporação e assimilação traduziu-se numa verdadeira eclosão criadora, dando origem ao momento fundamental da arte do Califado. Nele fundiram-se elementos da tradição local hispano-romano-visigótica com elementos orientais, tanto bizantinos quanto omíadas ou abássidas. Os edifícios artísticos centram-se, desde o primeiro momento, em torno da capital, Córdova, na qual foi construída uma mesquita congregacional destinada a se tornar no monumento mais importante do ocidente islâmico. Durante o reinado de Abderramão II, em cuja corte foram acolhidos numerosos artistas, modas e costumes orientais, destacam-se, entre outras, diversas construções entre as quais, a do Alcázar de Mérida, bem como a do minarete da igreja de São João em Córdova, além de bras de melhoria das suas muralhas e das de Sevilha. O califa Abderramão III, seguindo a tradição oriental, segundo a qual cada monarca, como signo de prestígio, devia possuir sua própria residência palaciana, decidiu fundar a cidade áulica de Medina Azahara (Medina al-Zahra).
A destruição da unidade política levou a abolição do califado cordovês em 1031 e à criação de um mosaico de reinos independentes que foram denominados taifas (de tawaifs, partidos, facções). As rivalidades entre eles, reivindicando a herança do prestígio e da autoridade do Califado, constituíram a tônica dominante do período. Esta situação traduziu-se no terreno artístico na emulação de modelos cordoveses. Neste contexto insere-se a arquitetura palatina patrocinada por cada um dos monarcas. Um dos melhores testemunhos é, sem dúvida, La Aljafería de Saragoça, aparentada tipologicamente com o palácio omíada de Msatta (Jordânia). Conta com organização tripartita onde cada um dos setores era dedicado a funções diferenciadas. O setor central, de uso protocolar, é dominado por um pátio retangular cujos lados menores eram ocupados por albercas, pórticos e estâncias alongadas demarcadas nos extremos por alcobas. Este esquema deriva, sem dúvida, dos modelos palatinos cordoveses. A esta mesma tradição responde o repertório de arcos despregado no edifício, entre os que encontramos desde arcos lobulados, mistilíneos, de ferradura semicircular e apontada, a complexas organizações de arcos entrecruzados, superpostos e contrapostos. Todos eles estão realizados com materiais pobres, mas revestidos de gessarias com motivos vegetais, geométricos e epigráficos, buscando um efeito de fastuosidade e aparente riqueza.
As obras realizadas durante o reinado do monarca Iúçufe ibne Taxufine, evidenciavam, ainda, a austeridade e falta de ornamentação impostas pelo seu fervor religioso. Rigor formal que não manteve o seu filho Ali ibne Iúçufe, que patrocinou a construção de vários edifícios decorados com os mais belos elementos. O suporte preferido é o pilar, em substituição da coluna. Adoptam o arco de ferradura e lobulado, aos que acrescentam arcos de ferradura ou túmidos, lobulados em forma de trevo, mistilíneos e lambrequins formados, estes últimos, por pequenas curvas, ângulos retos e chaves pingentes. Em relação ao desenvolvimento dos arcos aplicam, desde o saimel, um motivo em "S" denominado serpentiforme, já utilizado anteriormente na Aljafería de Saragoça. O sistema de telhados preferido é às duas águas, constroem tetos de madeira e atingem um grande desenvolvimento na arte mudéjar, ao mesmo tempo que realizam extraordinárias cobertas cupuladas. Umas, representadas pela cúpula do mirabe da mesquita de Tremecém, seguirão o modelo cordovês: arcos entrecruzados que, neste caso, arrancam de trompas angulares de mucarnas e utilizam uns complementos de estuque calado decorados com exuberantes motivos florais. A partir desta obra, na que se documenta a introdução no zagrebe da mucarna, aparecem outros tipos de cúpulas denominadas de mucarnas, como a que pode ser visto na mesquita de Qarawiyin em Fez.
O retorno à austeridade mais extrema conduziu, mais rapidamente do que no caso dos seus predecessores, os Almorávidas, a um dos momentos artísticos de maior esplendor, particularmente na arquitetura. A arte almóada continuou a estela almorávida, consolidando e aprofundando nas suas tipologias e motivos ornamentais. Construíam com os mesmos materiais: azulejos, gesso, argamassa e madeira. Também mantiveram, como suporte, os pilares e os arcos utilizados no período anterior. As suas mesquitas seguiram o modelo da mesquita de Tremecém, com naves perpendiculares ao muro da gibla. Nelas foi potenciado um esquema em "I" mediante a utilização de cúpulas que são de mucarnas na mesquita de Tinmal e na de Qutubiyya de Marrocos. Caracterizam-se pela sua planta quadrada e a sua altura composta por duas torres, uma delas abriga outra e, entre ambas, discorre uma escada ou rampa, como no caso da Giralda de Sevilha. A torre interior é formada por estâncias abobadadas e superpostas que terão a sua repercussão posterior nas construções de outras torres-campanário mudéjares, especialmente nas edificadas em Aragão.
A arte nacérida é um estilo surgido na época tardia do Alandalus no reino nacérida de Granada. Os dois paradigmas do mesmo constituem-no os palácios da Alhambra e o Generalife. A arquitetura militar desenvolve os mesmos sistemas gerados na época anterior, dotando-a de uma maior complexidade. A arquitetura palaciana emprega dois tipos de organização de pátios: um o pátio monoaxial, pátio dos Arrayanes ou da Alberca, e outro, o pátio cruzado, pátio dos Leões. As estância vinculadas a eles respondem, novamente, a duas tipologias: uma alongada em cujos extremos estão as alcobas, e outra quadrada rodeada pelas Salas, por exemplo, a Sala de la Barca e a Sala de las Dos Hermanas. Os escassos vestígios de arquitetura religiosa permitem pensar em mesquitas que seguem o modelo almóada, com naves perpendiculares ao muro da quibla. Talvez a única novidade destacável provenha do fato da utilização de colunas de mármore quando o edifício é de certa relevância.
A arte mudéjar aconteceu entre o século XII e o XVI, e foi um fenômeno autóctone e exclusivamente hispânico, realizado pelos mudéjares e mouriscos. Basicamente, foi um estilo para cristãos, ainda que incorporava influências, elementos ou materiais em estilo hispano-muçulmano. Nesta arte influiu a situação fronteiriça em contínuo movimento. O estilo gótico estava assentado ao norte da península e, à medida que avançava a reconquista, ia progressivamente condicionando o mudéjar. A posterior conquista do Alandalus implicou um mudéjar mais novo e com influências diretas da arquitetura tradicional. O alarife ou operário, utilizava materiais simples como azulejos, gesso, escaiola, alvenaria, madeira etc., como matéria prima básica para criar uma obra carregue de imaginação. Pela sua situação de vencido, o alarife, passa a tornar-se mão-de-obra barata e vê-se obrigado a construir igrejas, sinagogas, fortificações, palácios…


