Arroboboi, Dangbé
Arroboboi, Dangbé foi o enredo apresentado pela Unidos do Viradouro no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro do carnaval de 2024. O samba-enredo homônimo foi composto por Claudio Mattos, Cláudio Russo, Júlio Alves, Thiago Meiners, Manolo, Anderson Lemos, Vinicius Xavier, Celino Dias, Bertolo e Marco Moreno, sendo interpretado no desfile por Wander Pires. Com o desfile, a escola conquistou o seu terceiro título de campeã do carnaval carioca, quatro anos após a conquista anterior, em 2020.
Retrospecto
A Unidos do Viradouro conquistou seu primeiro título no carnaval do Rio de Janeiro em 1997, com "Trevas! Luz! A Explosão do Universo", desfile assinado pelo carnavalesco Joãosinho Trinta. A escola se manteve no Grupo Especial até o carnaval de 2010, quando foi rebaixada para a segunda divisão. A Viradouro chegou a retornar ao Grupo Especial em 2015, após vencer a Série A de 2014, mas foi rebaixada no mesmo ano. A situação da escola mudou após o carnaval de 2017, com a eleição de Marcelo Calil Petrus Filho (Marcelinho Calil). A nova diretoria sanou as dívidas da agremiação e contratou profissionais gabaritados, como o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Julinho Nascimento e Rute Alves. Com um enredo de Edson Pereira sobre personalidades e personagens considerados "geniais", a Viradouro venceu a Série A de 2018, garantindo seu retorno ao Grupo Especial. Para o carnaval de 2019, a escola contratou o carnavalesco Paulo Barros e o diretor de bateria Mestre Ciça. Ambos já tinham passagens pela escola na década de 2000. Com o enredo "Viraviradouro!", de Paulo Barros, sobre histórias encantadas e grandes transformações, tendo como fio condutor a ave fênix, figura da mitologia grega que tem o poder de se regenerar das cinzas, a Viradouro conquistou o vice-campeonato do Grupo Especial, com três décimos de diferença para a campeã, Mangueira. Em 2020, novamente sendo a segunda escola a se apresentar na primeira noite do Grupo Especial, a Viradouro conquistou seu segundo título de campeã do carnaval carioca, quebrando o jejum de 23 anos sem conquistas, com o enredo "Viradouro de Alma Lavada", assinado pelos carnavalescos Tarcisio Zanon e Marcus Ferreira. O desfile teve como destaques a Comissão de Frente, onde a atleta da seleção brasileira de nado sincronizado Anna Giulia Veloso, vestida de sereia, mergulhava em um aquário com sete mil litros de água mineral representando a Lagoa do Abaeté, e o samba-enredo, que fez sucesso nas arquibancadas da Sapucaí pelo refrão "Ó, mãe! Ensaboa, mãe! Ensaboa pra depois quarar".
Preparação para 2024
Depois do desfile de 2023, a Viradouro anunciou a saída do intérprete Zé Paulo Sierra, após nove carnavais defendendo a agremiação e três títulos conquistados - dois na segunda divisão, em 2014 e 2018, e o campeonato de 2020 no Grupo Especial. Para seu lugar, foi contratado Wander Pires, que estava no Paraíso do Tuiuti. O cantor retorna à escola de Niterói quatorze anos após sua primeira passagem, no carnaval de 2010. Foi a única alteração feita, já que a escola renovou os contratos com os demais membros de sua equipe, incluindo o carnavalesco Tarcisio Zanon, coreógrafos da comissão de frente (Priscilla Mota e Rodrigo Negri), casal de mestre-sala e porta-bandeira (Julinho Nascimento e Rute Alves), diretor de bateria (Mestre Ciça), diretores de carnaval (Dudu Falcão e Alex Fab) e harmonias. No dia 20 de abril de 2023, o tema do enredo da escola para o carnaval de 2024 foi divulgado através das redes sociais. A sinopse do enredo, assinada por Tarcisio Zanon e João Gustavo Melo, foi divulgada pela escola no dia 2 de maio de 2023.
O enredo do desfile, assinado pelo carnavalesco Tarcísio Zanon, com pesquisa de João Gustavo Melo, abordou a história do culto ao vodu Dangbé, representado por uma píton-real, desde a manifestação da energia na costa ocidental da África até a chegada ao Brasil, com a instalação de terreiros na Bahia, pela sacerdotisa Ludovina Pessoa, e a formação do Candomblé Jeje. A ideia do enredo surgiu durante os preparativos para o carnaval de 2023, quando Tarcísio Zanon conheceu o escritor mineiro Moacir Maia, que estava lançando o livro Sacerdotisas Voduns e Rainhas do Rosário: Mulheres Africanas e Inquisição em Minas Gerais (Século XVIII), junto com o escritor de Aldair Rodrigues. Maia foi convidado para participar do desfile sobre Rosa Maria Egipcíaca e, numa visita ao barracão da escola, contou a Zanon sobre seu livro, despertando no carnavalesco a vontade da fazer um enredo sobre os vodus. Mais tarde, Tarcísio ligou para uma amiga baiana que, por coincidência, namorava uma frequentadora da primeira casa de santo vodu da Bahia, onde conseguiu marcar uma reunião com as lideranças do terreiro.
Processo de escolha
A disputa de samba-enredo da Viradouro teve início em 3 de agosto de 2023 com a inscrição de 24 sambas concorrentes. O processo de escolha foi realizado em forma de classificatória, com os sambas sendo apresentados na quadra e avaliados pela direção da escola com eliminatórias semanais. Chegaram ao final da disputa três parcerias: O samba vencedor foi escolhido na madrugada de domingo, dia 1 de outubro de 2023. Venceu a composição da parceira formada por Claudio Mattos, Cláudio Russo, Julio Alves, Thiago Meiners, Manolo, Anderson Lemos, Vinicius Xavier, Celino Dias, Bertolo e Marco Moreno. "É uma emoção muito grande vencer novamente. A última vez em que eu havia ganho samba aqui foi no ano do ‘ensaboa’, onde a escola foi campeã e o samba foi um grande sucesso na avenida. Como o próprio presidente (Marcelinho Calil) falou, foi a disputa mais forte da escola. Fico muito feliz de ter vencido diante de outros dois sambas muito bons também. Eu gosto do samba por inteiro, mas acredito que o pré-refrão seja o ponto alto do samba, já que prepara o público muito bem para o refrão principal."
Letra e melodia
A letra do samba tem o eu lírico centrado no componente da Viradouro, fazendo uso de algumas palavras e expressões em idioma fon, língua oficial do antigo Reino do Daomé, onde se passa parte do enredo. A primeira parte da obra, em tom menor (Mi menor), é marcada por uma melodia crescente. A letra do samba começa contando como surgiu a adoração à serpente sagrada. Durante uma batalha entre os reinos de Aladá e Uidá, uma serpente atravessou o campo onde estava o exército de Aladá, passando para o lado de Uidá, que venceu a disputa. A serpente passou a ser cultuada pela população de Uidá como símbolo da vitória. Mais tarde, a adoração à serpente se uniu ao culto vodu ("Eis o poder que rasteja na terra / Luz pra vencer essa guerra, a força do vodun / Rastro que abençoa Agoye / Reza pra renascer, toque de adarrum"). O trecho seguinte faz referência ao exército das guerreiras Mino. Mulheres fons que formavam um dos regimentos militares do Reino do Daomé. O grupo tinha um status semi-sagrado, entrelaçado com a crença fon nos vodus. Ao serem recrutadas, as mulheres firmavam um pacto de lealdade em sangue e fogo para que nunca traíssem umas às outras ("Lealdade em brasa rubra, fogo em forma de mulher / Um levante à liberdade, divindade em Daomé"). A seguir, o samba lembra que o culto aos vodus chegou ao Brasil pelos escravizados chegados da África. Brasil e África, terras separadas que dividem o mesmo oceano, passam a dividir o mesmo sistema de magias ("Já sangrou um oceano pro seu rito incorporar / Num Brasil mais africano, outra areia, mesmo mar"). O refrão central do samba faz referência a Ludovina Pessoa, daomeana traficada ao Brasil, que era regida pela energia de Gu Rainha, uma qualificação específica do vodu Gu. Mãe (Ya) Ludovina teria recebido uma missão espiritual dos vodus para a criação de três templos, participando da fundação do Terreiro do Bogum e do Sejá Húnde, ambos na Bahia ("Ergue a casa de Bogum, atabaque na Bahia / Ya é Gu Rainha, herdeira do candomblé / Centenário fundamento da Costa da Mina / Semente de uma legião de fé").
Crítica especializada
Bernardo Araujo, em sua crítica para O Globo, apontou que "a intrincada lenda afro-baiana acaba resultando em um samba difícil, que dará trabalho à bateria de Mestre Ciça". Mauro Ferreira, do G1, escreveu que a Viradouro "se mantém em alta no quesito com samba, cujo enredo é o culto ao vodum Dambê, que migrou da África para o Brasil". Para o site Sambario, Bruno Malta escreveu que "o conjunto da obra é de um resultado que mantém o padrão estético de composições da escola [...] Além disso, os compositores também conseguiram várias saídas para se adequar ao estilo mais melódico do novo intérprete que brilhou em mais uma gravação de sucesso". Cláudio Carvalho apontou que "a melodia rica em agudos parece feita sob medida para Wander Pires, que fez o samba crescer enormemente na versão oficial". Para Carlos Fonseca, a Viradouro tem um "samba valente (e melodicamente desafiador) para o enredo".
A Unidos do Viradouro foi a sexta e última escola a desfilar na segunda noite do Grupo Especial, iniciando seu desfile na madrugada da terça-feira de carnaval, dia 13 de fevereiro de 2024. A apresentação contou com três mil componentes, divididos em 23 alas, seis carros alegóricos e dois tripés. Para contracenar com o novo sistema de iluminação cênica do sambódromo, a escola utilizou, em alegorias e fantasias, cores fosforescentes, tecidos brilhantes, e cerca de duzentos metros de "olhos de gato", material que reflete a luz, muito utilizado em placas de sinalização de trânsito.
A Viradouro foi apontada como favorita ao título de campeã. O desfile foi amplamente elogiado pela crítica especializada, recebendo adjetivos como "perfeito", "impecável", "irretocável" e "avassalador". Aydano André Motta, do jornal O Globo, classificou o desfile como "irretocável": "A serpente que rastejou veloz pela passarela, na comissão de frente de Priscila Mota e Rodrigo Negri levantou a plateia e serviu de sinal: começava um desfile invencível. Em seguida, começou um festival de beleza, em alegorias e fantasias ricas e criativas, trabalho que atesta a maturidade artística do carnavalesco Tarcísio Zanon. O enredo não repetiu os erros e limitações das concorrentes mais fortes. E o samba passou redondo na condução do estreante Wander Pires". Para Bernardo Araujo, do Extra, a escola "apresentou um desfile de forte impacto visual [...] Com a voz potente de Wander Pires e a bateria precisa de Ciça". Fabio Grellet, do Estadão, destacou que a Viradouro "fez um desfile de muito luxo e brilho e de fácil compreensão [...] O samba não chegou a empolgar a plateia, mas os integrantes da escola cantaram a plenos pulmões". Segundo os jurados do prêmio Estandarte de Ouro, "o desfile foi exuberante, com alegorias e fantasias de encher os olhos. A evolução foi muito boa, assim como a harmonia, o casal de mestre-sala e porta-bandeira e a comissão de frente. O samba-enredo, que inicialmente não foi apontado como um dos melhores do carnaval, foi crescendo durante o desfile, contagiando a escola aos poucos até chegar a um final empolgante".
A Viradouro foi campeã com sete décimos de vantagem para a vice-campeã, Imperatriz. Foi a maior diferença entre campeã e vice desde o carnaval de 2011, quando a Beija-Flor venceu a Unidos da Tijuca por 1,4 pontos. Com a vitória, a Viradouro conquistou seu terceiro título no carnaval. Antes da apuração das notas terminar, a quadra da escola, em Niterói, já estava lotada. Parte da Avenida do Contorno, importante ligação de São Gonçalo e zona norte de Niterói com o centro da cidade, foi fechada. Torcedores da Viradouro ocuparam a rua, porque a quadra ficou lotada e "fechada", pela dificuldade de entrar no espaço. Com distribuição de cerveja de graça, a festa do campeonato varou a madrugada, terminando na manhã da quinta-feira, dia 15 de fevereiro de 2024. Com a vitória, a escola foi classificada para encerrar o Desfile das Campeãs, que foi realizado entre a noite do sábado, dia 17 de fevereiro de 2024, e a madrugada do dia seguinte, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Durante o desfile, a última alegoria da vice-campeã, Imperatriz, quebrou na concentração e não conseguiu passar pela Marquês de Sapucaí. O incidente atrasou o desfile da Viradouro, que precisava manobrar suas alegorias para ficar na ordem correta de apresentação. Após uma hora tentando consertar a alegoria da Imperatriz, a LIESA decidiu iniciar o desfile da Viradouro com as alegorias fora de ordem. A escola de Niterói iniciou seu desfile com o dia claro, às 6 horas e 16 minutos da manhã de domingo, tendo o último carro desfilado primeiro, seguido do carro abre-alas e da comissão de frente. Enquanto a Viradouro esperava o início de sua apresentação, um arco-íris se formou no céu. O fenômeno da natureza é um dos símbolos do vodu Dangbé, tema do enredo da agremiação. No dia 17 de março de 2024, a Viradouro realizou um desfile na Avenida Amaral Peixoto, em Niterói, para comemorar o título de campeã junto com sua comunidade.
Notas
A apuração das notas foi realizada na tarde da quarta-feira de cinzas, dia 14 de fevereiro de 2024, na Cidade do Samba Joãosinho Trinta. De acordo com o regulamento do ano, as notas variam de nove a dez, podendo ser fracionadas em décimos. A menor nota de cada escola, em cada quesito, foi descartada. A ordem de leitura dos quesitos foi definida em sorteio realizado horas antes do início da apuração. A Viradouro começou a leitura das notas liderando empatada com outras escolas. Após a leitura do sexto quesito, Enredo, a escola assumiu a liderança isolada, onde permaneceu até o final da apuração. A Viradouro recebeu três notas abaixo da máxima, sendo todas descartadas seguindo o determinado pelo regulamento. Com isso, a escola foi campeã com pontuação máxima.
Justificativas
A Viradouro teve apenas três notas abaixo de dez, mas todas foram descartadas. Abaixo, as justificativas:
Pelo seu desfile, a Viradouro recebeu diversas premiações, com destaque para a comissão de frente, vencedora de sete premiações. A escola também recebeu quase todos os prêmios de melhor escola/desfile do ano. Foram oito no total. .mw-parser-output .col-begin{border-collapse:collapse;padding:0;color:inherit;width:100%;border:0;margin:0}.mw-parser-output .col-begin-small{font-size:90%}.mw-parser-output .col-break{vertical-align:top;text-align:left}.mw-parser-output .col-break-2{width:50%}.mw-parser-output .col-break-3{width:33.3%}.mw-parser-output .col-break-4{width:25%}.mw-parser-output .col-break-5{width:20%}@media(max-width:720px){.mw-parser-output .multicol,.mw-parser-output .multicol>tbody,.mw-parser-output .multicol>tbody>tr,.mw-parser-output .multicol>tbody>tr>td{display:block!important;width:100%!important}.mw-parser-output .col-break{padding-left:0!important}}
Ao final da apuração, o prefeito de Niterói, Axel Grael; o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes; e o presidente da Embratur, Marcelo Freixo, usaram suas redes sociais pra parabenizar a escola campeã. Pré-candidatos à prefeitura de Niterói, nas eleições municipais de 2024, Rodrigo Neves (do PDT) e Talíria Petrone (do PSOL) também parabenizaram a escola. Os dois desfilaram na Viradouro junto com Axel. Componentes da escola repercutiram o título conquistado. Diretor-executivo da Viradouro, Marcelinho Calil declarou que "a escola fez um carnaval lindo, irretocável, e as notas disseram isso". O carnavalesco Tarcísio Zanon disse que "a escola merece esse campeonato por essa comunidade, por essa gestão, e pelo trabalho incansável da equipe". A rainha de bateria Erika Januza definiu a vitória como "uma emoção muito grande" em sua vida. Especialistas também opinaram sobre o resultado. Para Aydano André Motta, d'O Globo, o título da Viradouro foi previsível ("uma goleada de carnaval, com acachapantes sete décimos de vantagem" [...] Restou a afirmação de que o carnaval vive tempos de domínio da Viradouro. Desde que voltou ao Grupo Especial, a poderosa e endinheirada vermelho e branco acumula um terceiro lugar (2022), dois vices (2019 e 2023), e dois títulos (2020 e 2024) Tem que respeitar Niterói!". Para Bernardo Araujo, do Extra, "amparada por um polpudo orçamento, que inclui verbas da Prefeitura de Niterói, a Vermelho e Branco chegou ao terceiro título com justiça". Para Tiaraju Pablo, do UOL, "a Viradouro fez um desfile emotivo e, ao mesmo tempo, linear e correto".
Entre 18 de dezembro de 2024 e 9 de março de 2025, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói recebeu a exposição "Arroboboi, Dangbé", sobre o desfile campeão da Viradouro. Com curadoria da fotógrafa Renata Xavier, produção do fotógrafo Leandro Lucas e textos do enredista João Gustavo Melo, a exposição reuniu duzentas fotografias e vinte fantasias do desfile, além da serpente mecanizada de nove metros de comprimento que fez sucesso na Comissão de Frente da escola. O efeito de luz cênica que reluziu as fantasias brilhosas no desfile também foi reproduzido na exposição.


