Arquitetura de Porto Alegre
Com uma história de mais de dois séculos, a arquitetura de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, no Brasil, é um mosaico de estilos antigos e modernos. Essa característica se mostra mais visível no centro da cidade, o núcleo urbano histórico, onde sobrevivem exemplares de arquitetura do século XVIII em meio a construções oitocentistas e contemporâneas.
Porto Alegre nasceu em virtude da ocupação do Rio Grande do Sul por estancieiros e sesmeiros portugueses no século XVIII, quando este território ainda pertencia legalmente à Coroa Espanhola. A povoação cresceria debruçada em torno de um ancoradouro natural no lago Guaíba, um vasto espelho d'água resultado da desembocadura de quatro grandes rios, protegida a leste e sul por uma suave cadeia de colinas, o que define muito da geografia do local e definiria igualmente muitas soluções arquitetônicas e urbanísticas da povoação. O lago, poucos quilômetros ao sul, se abre para a lagoa dos Patos, que tem comunicação com o mar em Rio Grande, dificultosa para os navios, mas bastante procurada, por ser o único porto e acesso marítimo para o interior em uma grande extensão litorânea que vai de Santa Catarina até o Rio da Prata. Com esta conformação hidrográfica e esta importância estratégica, em breve se tornaria sede administrativa de grande relevo na geopolítica do sul do continente. Transformou-se num florescente entreposto comercial e movimentado porto fluvial para navios de calado pequeno e médio vindos do mar através da Lagoa dos Patos, recebendo mercadorias, pessoas e até milícias e colonos que depois se distribuiriam por vasta região no entorno, tanto por terra como subindo pelos vários rios que ali desembocam. A partir dessa região, esses povos estabeleciam contato com povos da região das Missões, do Paraguai, da Argentina e do Uruguai, além de paulistas, fluminenses, espanhóis, e portugueses. Era um ponto de encontro de muitas culturas, e sua geografia permanece como parte importante de sua identidade cultural até a contemporaneidade.
Em meados do século o Neoclassicismo já se tornara uma influência importante, e mesclado ao antigo colonial, deu origem a uma variedade de soluções ecléticas, tendência que iria dominar o panorama até a década de 1930. De perfil neoclássico o mais importante remanescente é o prédio da Cúria Metropolitana, construído a partir de 1865 com projeto de Jules Villain (ou Villiers), alterado em detalhes por Johann Grünewald, compondo um majestoso conjunto de dimensões palacianas que foi saudado por Athos Damasceno como sendo o único monumento da cidade digno desse nome: Segue-lhe em imponência, mas sobrepujando-o largamente em fama, o Theatro São Pedro, cujo projeto foi elaborado no Rio de Janeiro e executado por Phillip von Normann. Inaugurado em 27 de junho de 1858, com capacidade para 700 espectadores e decoração em veludo e ouro, numa época em que Porto Alegre tinha pouco mais de vinte mil habitantes, é o mais antigo teatro da cidade. Sofreu uma degradação acentuada e quase foi demolido nos anos 1970, mas felizmente está recuperado. O Theatro foi concebido com um edifício gêmeo, que se levantou do outro lado da rua, o antigo Tribunal de Justiça, mas este foi consumido pelo fogo nos anos 1950. O neoclassicismo mais puro deixou escassos remanescentes, entre eles a Casa Torelly e a Capela do Bonfim.
A "fase áurea" da arquitetura monumental
De um Ecletismo mais ornamentado é o Paço Municipal, projetado por Giovanni Colfosco, um italiano, e iniciado em 1898. Seria um dos primeiros exemplos arquitetônicos a exibir a influência do Positivismo, percebida na complexa rede de alegorias representadas na estatuária decorativa da fachada. Também seria um dos primeiros edifícios públicos monumentais do que se chamou de "fase áurea" da arquitetura portoalegrense. Segundo Beatriz Thiesen, Esse desejo de renovação trouxe diversas novidades para a arquitetura da cidade. Uma rica burguesia formada principalmente por descendentes de imigrantes alemães, junto com as esferas oficiais, deram o impulso mais decisivo, encomendando obras suntuosas, num momento em que o estado experimentava uma fase de prosperidade, tendo se tornado a terceira economia do Brasil. As influências mais importantes que definiram o perfil dos principais edifícios erguidos nessa fase foram a arquitetura pompier francesa, com seu decorativismo exuberante e caráter ostentatório, e a filosofia positivista adotada pelo governo, criando uma iconografia idealista que espelhava visões de progresso, civilização, higiene e ordem. As técnicas de construção acompanhavam o desenvolvimento da tecnologia e da indústria: faz-se uso estrutural mais extensivo do concreto armado, do aço e do cimento, os edifícios alçam-se a maiores alturas, a estatuária de fachada se multiplica e encontra soluções barateadoras para sua confecção, como os moldes de cimento. Também mudam os materiais de decoração, se tornando comuns os vitrais, os adornos em serralheria, as pinturas parietais com paisagens e ornatos nos interiores, e os mármores para colunas, pisos e outros elementos. Também importante foi a formulação em 1914 pela Intendência Municipal do Plano Geral de Melhoramentos, concebido possivelmente por João Moreira Maciel, e considerado por Helton Bello o maior legado da administração positivista em termos urbanísticos, por ser um instrumento fundamental para as transformações modernizadoras que iriam se consolidar logo adiante, suplantando a estrutura e a imagem urbana de herança colonial.
De acordo com Davit Eskinazi, foi só a partir de meados da década de 1930, mais precisamente por ocasião da Exposição do Centenário da Farroupilha em 1935, que começaram a surgir no cenário urbano de Porto Alegre os primeiros exemplares de uma arquitetura claramente moderna: Nos anos 1930 o antigo Plano Geral de Melhoramentos já estava obsoleto, e a cidade exigia uma nova organização. Edvaldo Paiva e Ubatuba de Faria, funcionários do município, e Arnaldo Gladosch, contratado no Rio, esboçaram alguns ensaios de reorganização da malha urbana central de acordo com os princípios modernos, mas nenhum se implantou em plenitude. Paralelamente foi ideado outro modelo para a expansão periférica e horizontal da cidade. Vários bairros ou loteamentos residenciais surgidos principalmente nos anos 1930 e 1940 propuseram uma interpretação local do protótipo da "cidade-jardim", com um traçado orgânico, construções isoladas em baixa escala e densa vegetação, cujos melhores exemplos são a Vila Jardim, a Vila Assunção e a Vila Conceição.
O Plano de 1979 não foi inteiramente bem-sucedido em sua aplicação. Estabelecendo novos índices construtivos, as mudanças deram origem a uma série de atritos entre moradores das zonas residenciais e deles com o poder público e com agentes imobiliários, pela autorização de espigões em áreas de predominância térrea, rompendo o tecido residencial de alguns bairros tradicionais por edifícios de até 20 pavimentos. A polêmica levou a uma nova reformulação da legislação nos anos 1980. Foi então que se entendeu definitivamente que seria necessária uma aliança mutuamente compreensiva não só entre arquitetura e urbanismo para um crescimento geral harmonioso, sendo preciso atrair outras áreas do saber para a discussão e imaginar soluções mais dinâmicas, realistas e adaptáveis ao perfil cada vez mais fluente da sociedade, desenvolvendo-se planos estratégicos fundamentados nos eixos de estruturação e mobilidade urbana, nas formas de uso do solo privado, na qualificação ambiental, na promoção econômica e em uma série de critérios mais atualizados de planejamento, e levando em conta aspectos de memória coletiva, identidade cultural e convívio humano. O êxito das propostas nesse sentido, que se sucederam à medida que os anos passavam, incluindo novas revisões do Plano Diretor, tem-se revelado muito controverso, com avanços e recuos. Ainda existem zonas de ocupação polêmica, a especulação imobiliária continua a pressionar o poder público e influenciar decisões, e permanecem sérios problemas de habitação popular a serem resolvidos.


