Kitsune
Kitsune japonês: 狐; é a palavra japonesa para raposa. Raposas são um tema recorrente no folclore japonês; kitsune refere-se geralmente a isso neste contexto. As histórias as descrevem como seres inteligentes e dotados de capacidades mágicas que aumentam com a sua idade e sabedoria. Entre esses poderes mágicos, destaca-se a habilidade de assumir a forma humana — geralmente a de uma bela mulher, de uma jovem ou de uma anciã. Embora algumas histórias afirmem que as kitsune utilizam essa habilidade apenas para enganar as pessoas — como frequentemente ocorre nos folclores — outras as retratam como guardiãs fiéis, amigas, amantes e esposas. Além da habilidade de assumir a forma humana, as kitsune possuem poderes de possessão, conseguem gerar fogo de suas caudas e de sua boca, têm a capacidade de aparecer nos sonhos alheios e de criar ilusões.
A etimologia completa é desconhecida. O mais antigo uso conhecido da palavra kitsune encontra-se no texto de 794 Shin'yaku Kegonkyō Ongi Shiki. Outras fontes antigas incluem Nihon Ryōiki (810–824) e Wamyō Ruijushō (c. 934). As fontes mais antigas estão escritas em man'yōgana e identificam claramente a ortografia histórica como kitune. Na sequência de diversas mudanças fonológicas diacrônicas, a palavra passou a ser pronunciada kitsune. Muitas sugestões etimológicas foram propostas, embora não haja consenso geral: Kitsune é uma palavra arcaica; no japonês moderno, o som emitido por uma raposa é transcrito como kon kon ou gon gon. Um dos mais antigos contos remanescentes sobre kitsune fornece uma conhecida etimologia popular da palavra. Diferentemente da maioria dos contos de kitsune em que estas se tornam humanas e se casam com um homem, este não termina tragicamente. Nesta lenda, a raposa sempre retorna ao marido a cada noite na forma de uma mulher e, como parte a cada manhã, passa a ser chamada de kitsune. No clássico japonês, kitsu-ne significa "vir e dormir" e ki-tsune significa "sempre".
Muitos dos mitos de raposas do Japão podem ser encontrados no folclore da China, da Coreia ou da Índia. Esses mitos populares contam histórias de raposas capazes de ter até nove caudas. Várias dessas histórias foram registradas no Konjaku Monogatari, uma coleção do século XI de narrativas chinesas, indianas e japonesas. Há um debate sobre a origem dos mitos das kitsune: não há consenso sobre se teriam surgido inteiramente de fontes estrangeiras ou se fazem parte do folclore japonês, com raízes que remontam ao século V. O folclorista japonês Kiyoshi Nozaki argumenta que os japoneses veem positivamente as kitsune desde o século IV d.C., e que os únicos elementos importados da China ou da Coreia foram os atributos negativos associados a elas. Ele afirma que, de acordo com um livro de registros do século XVI chamado Nihon Ryakki, as raposas e os seres humanos viveram em grande proximidade no Japão antigo, e que as lendas indígenas sobre as criaturas se formaram como consequência desse convívio. A estudiosa Karen Smyers aponta que a ideia da raposa como sedutora e a conexão dos mitos de raposas ao budismo foram introduzidas no folclore japonês por meio de histórias chinesas similares, mas observa que algumas histórias de kitsune contêm elementos exclusivamente japoneses.
Acredita-se que as kitsune possuam inteligência superior, vida longa e poderes mágicos. Elas são um tipo de yōkai, ou entidade espiritual; a palavra kitsune é muitas vezes traduzida como espírito da raposa. No entanto, isso não significa que sejam fantasmas ou que sejam diferentes de raposas comuns, pois a palavra "espírito" é usada para refletir um estado de conhecimento ou iluminação. Existem duas classificações comuns de kitsune. As zenko (善狐; literalmente, raposas do bem), que são raposas benevolentes e celestiais, associadas ao deus Inari; são chamadas às vezes simplesmente de raposas de Inari. Por outro lado, as yako (野狐; literalmente, raposas maldosas) tendem a ser mais maliciosas. Tradições locais costumam acrescentar outros tipos. Por exemplo, ninko é um espírito de raposa invisível que os seres humanos só conseguem perceber quando são possuídos por ele. Outra classificação tradicional consiste em enquadrar a kitsune em um dos treze tipos existentes, com base nas habilidades sobrenaturais que possui.
Mudar de forma
Uma kitsune pode assumir a forma humana, habilidade que aprende ao atingir uma certa idade — normalmente 100 anos, embora alguns digam serem necessários apenas 50.[carece de fontes?] As formas mais comumente assumidas por uma kitsune incluem: belas mulheres, jovens, idosos e homens. Essas formas não são limitadas pelo sexo ou pela idade da raposa,[carece de fontes?] e uma kitsune pode reproduzir a aparência de uma pessoa específica.[carece de fontes?] As raposas são frequentemente representadas com a aparência de uma bela mulher. Uma crença comum no Japão medieval era a de que uma bela mulher encontrada sozinha à noite ou ao entardecer poderia ser uma kitsune.[carece de fontes?] Kitsune-gao, ou "rosto de raposa", refere-se a seres humanos — geralmente mulheres — com rosto muito estreito, olhos e sobrancelhas finas e maçãs do rosto muito salientes. Tradicionalmente, essa estrutura facial é considerada muito atraente, e em alguns contos é associada à raposa em forma humana.[carece de fontes?] Variantes desses mitos mostram kitsune com outras características reveladoras, como pelos finos e sombras em forma de raposa mesmo na forma humana, pois o reflexo da luz pode revelar sua verdadeira aparência.[carece de fontes?] Em algumas histórias, as kitsune têm dificuldades em esconder a cauda quando estão na forma humana; observá-la enquanto a raposa estava ébria ou descuidada era um método comum de revelar sua verdadeira identidade em algumas lendas.[carece de fontes?] Algumas pessoas podem enxergar através do disfarce da kitsune simplesmente olhando com atenção, embora isso seja praticamente impossível. Algumas kitsune também podiam revelar sua verdadeira forma em razão do medo e do ódio que sentem por cães, fugindo às pressas na forma de raposa.
Kitsunetsuki
Kitsunetsuki (em japonês: 狐憑き, 狐付き?), também escrito kitsune-tsuki, significa, literalmente, "o estado de ser possuído por uma raposa". A vítima geralmente é uma jovem mulher, em quem a raposa adentra por meio de seus seios. Em alguns casos, o rosto da vítima pode se transformar de tal modo que se assemelhe ao de uma raposa. Embora as raposas no folclore possuam suas vítimas por livre e espontânea vontade, também podem fazê-lo em decorrência de encantamentos lançados contra a vítima. O folclorista Lafcadio Hearn descreve os aspectos de uma vítima: Ele observa que, uma vez liberada da possessão, a vítima nunca mais poderá comer tofu ou qualquer alimento dedicado às raposas. No Japão, o kitsunetsuki foi visto como uma doença desde o período Heian e permaneceu como diagnóstico para doenças mentais até o início do século XX.[carece de fontes?] A possessão era a explicação para o comportamento de indivíduos aflitos. No final do século XIX, o Dr. Shunichi Shimamura observou que doenças físicas que causavam febre eram frequentemente associadas a casos de kitsunetsuki.[carece de fontes?] Essa crença foi perdendo seu valor ao longo do tempo, embora ainda existam casos popularmente atribuídos a ela.
Hoshi no tama
Representações de kitsune ou de suas vítimas possuídas podem incluir esferas brancas conhecidas como hoshi no tama (ほしのたま?, "estrelas" ou "bolas"). Os contos as descrevem como brilhantes, semelhantes às kitsunebishi.[carece de fontes?] Algumas histórias as identificam como joias e pérolas mágicas.[carece de fontes?] Quando não estão na forma humana ou em posse de um ser humano, uma kitsune mantém a esfera em sua boca ou a carrega na cauda. As joias são um símbolo comum de Inari, e representações de Inari ou das kitsune sem elas são raras.[carece de fontes?] Acredita-se que, quando uma kitsune se transforma, uma porção de seu poder fica armazenada nas hoshi no tamas. Segundo a crença, a esfera representa a alma da kitsune, e ela morreria caso ficassem separadas por muito tempo. Aqueles que obtiverem a esfera podem ser capazes de arrancar uma promessa de ajuda da kitsune, em troca da devolução da hoshi no tama.[carece de fontes?] Por exemplo, um conto do século XII descreve um homem que usa uma hoshi no tama para garantir um favor; a raposa mais tarde lhe salva a vida, fazendo-o passar por entre um bando de assaltantes armados.[carece de fontes?]
Servos de Inari
As kitsune são associadas a Inari, o deus xintoísta da fertilidade e da prosperidade.[carece de fontes?] Essa associação intensifica o significado sobrenatural das raposas.[carece de fontes?] O papel original das kitsune era o de mensageiras de Inari; contudo, a distinção entre os dois tornou-se tênue, e o próprio deus Inari às vezes é representado como uma raposa. Da mesma forma, santuários inteiros são dedicados às kitsune, onde os devotos vão deixar ofertas ao espírito da raposa. Afirma-se que as kitsune apreciam o tofu frito cortado, chamado aburage, ingrediente semelhante ao utilizado nos pratos kitsune udon e kitsune soba, feitos com macarrão. Da mesma forma, Inari é o nome de um tipo de sushi que consiste em bolinhos de arroz envoltos em tofu frito.[carece de fontes?] Especialistas especulam se teria existido, no passado, uma divindade raposa distinta.[carece de fontes?]
Malandras
As kitsune são frequentemente retratadas como malandras, com motivações que variam da simples travessura à pura maldade. As histórias falam de kitsune que zombam do orgulho de samurais arrogantes, comerciantes gananciosos e plebeus. Suas vítimas são geralmente homens; as mulheres são possuídas em vez de enganadas. Por exemplo, imagina-se que as kitsune usem suas kitsunebi na forma de fogo-fátuo para desviar viajantes do caminho.[carece de fontes?] Outra tática consiste em confundir o alvo com ilusões ou visões.[carece de fontes?] Outros objetivos comuns das kitsune malandras incluem sedução, roubo de comida, humilhação do orgulho alheio ou vingança contra quem as percebe rapidamente.
Esposas e amantes
As kitsune são comumente retratadas como amantes, geralmente em histórias que envolvem um jovem humano e uma kitsune que toma a forma de mulher. A kitsune pode ser sedutora, mas essas histórias são em sua maioria de natureza romântica. Normalmente, o jovem se apaixona pela raposa sem o saber, e ela se revela uma esposa dedicada. O homem descobre a verdadeira natureza de sua esposa, e a mulher-raposa é forçada a deixá-lo. Em alguns casos, o marido acorda como se saísse de um sonho, sujo, desorientado e longe de casa. Em seguida, retorna para casa e, envergonhado, confronta-se com a família que acredita ter abandonado. Muitas histórias relatam mulheres-raposas que têm filhos. Quando essas crianças são humanas, possuem habilidades físicas especiais ou sobrenaturais, qualidades que muitas vezes são transmitidas a seus próprios filhos. O astrólogo e mágico Abe no Seimei tinha fama de ter herdado tais poderes extraordinários de sua mãe, que teria sido uma kitsune.
Profundamente incorporadas ao folclore japonês, as kitsune aparecem em inúmeras obras japonesas. Noh, kyogen, bunraku e kabuki são estilos clássicos que tiveram obras criadas a partir de contos populares.[carece de fontes?] As kitsune também aparecem em obras contemporâneas, como anime, mangá e jogos de videogame. Alguns ídolos de bandas musicais japonesas utilizam mitos sobre as kitsune em suas letras e incluem o uso de máscaras de raposa, sinais de mão e interlúdios de animação durante os shows ao vivo. Autores de ficção ocidentais também fazem uso das lendas da kitsune.


