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Antônio Houaiss

Antônio Houaiss foi um filólogo, lexicógrafo, diplomata, tradutor, enciclopedista e crítico literário brasileiro. Filho de imigrantes libaneses, foi uma das figuras intelectuais mais influentes do Brasil no século XX, com atuação que atravessou a linguística, a diplomacia, a política cultural e a vida editorial do país.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 08/07/2026
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Primeiros anos e formação

Antônio Houaiss nasceu em 15 de outubro de 1915 no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, quinto dos sete filhos do casal de imigrantes libaneses Habib Assad Houaiss e Malvina Farjalla Houaiss. Cursou o primário e o ginasial no Colégio Pedro II e formou-se perito-contador pela Escola de Comércio Amaro Cavalcanti em 1933. Dois anos depois, concluiu o curso secundário de madureza. Ingressou na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), onde se bacharelou em letras clássicas em 1940 e obteve a licenciatura em 1942. Ainda durante a formação, com apenas dezesseis anos, começou a lecionar português, atividade que exerceria por toda a vida.

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Magistério e primeiros trabalhos

Durante doze anos (1934–1946), Houaiss dedicou-se ao ensino de português, latim e literatura em escolas secundárias públicas do Distrito Federal. Além da sala de aula, envolveu-se com a administração pública: entre 1941 e 1943, participou de bancas examinadoras de língua portuguesa organizadas pelo Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), órgão encarregado de modernizar o funcionalismo durante o Estado Novo, e nos três anos seguintes (1942–1945) prestou assessoria contínua ao mesmo departamento na preparação de provas do idioma. Em 1943, o Ministério das Relações Exteriores enviou-o a Montevidéu para atuar no Instituto de Cultura Uruguaio-Brasileiro, ministrando aulas de português e palestras sobre a vida cultural do país. Ali permaneceu até 1945, quando obteve aprovação em concurso para o serviço diplomático. Dois anos depois, ao optar pela carreira exterior, deixou o magistério por força da legislação que proibia o acúmulo de cargos públicos.

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Carreira diplomática

A partir de 1947, Houaiss passou a atuar na diplomacia, sendo designado para Genebra, onde exerceu simultaneamente as funções de vice-cônsul e de secretário junto à representação brasileira na ONU. Depois disso, trabalhou nas embaixadas do Brasil na República Dominicana (1949–1951) e na Grécia (1951–1953), além de participar de delegações brasileiras em assembleias gerais de organismos internacionais como a OIT, a OMS e a Organização Internacional para os Refugiados. Entre 1957 e 1960, sem abandonar a diplomacia, exerceu função paralela na Presidência da República, prestando assessoria documental ao governo de Juscelino Kubitschek (1956–1961). Nesse intervalo, a administração Kubitschek produziu 83 volumes de registros oficiais do mandato. A partir de 1960, passou a servir na representação permanente do Brasil junto à ONU em Nova Iorque, primeiro como primeiro-secretário e depois como ministro de segunda classe, postos que ocupou até o golpe de 1964. Em 1962, participou de uma missão das Nações Unidas em Ruanda-Urundi, território sob tutela internacional às vésperas da independência de Ruanda e do Burundi: a comissão, reunida em Usumbura, analisou a situação de 1.220 prisioneiros políticos, cuja anistia foi posteriormente ratificada pela Assembleia Geral das Nações Unidas. No ano seguinte, atuou como relator da IV Comissão da Assembleia Geral, responsável por questões de descolonização e tutela.

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Cassação política e trabalho editorial

Com o golpe militar de 31 de março de 1964, Houaiss teve seus direitos políticos suspensos por dez anos com base no Ato Institucional. O Itamaraty o desligou de seus quadros, alegando que ele não mais dispunha de título de eleitor — situação que decorria da própria cassação. Impedido de exercer a diplomacia e o magistério público, reinventou-se profissionalmente no mundo editorial. Entre 1964 e 1965, trabalhou como redator do Correio da Manhã. A partir de 1965, assumiu a direção da Editora Delta S.A., no Rio de Janeiro, onde permaneceu cinco anos e conduziu a edição da Enciclopédia Mirador Internacional, um dos mais ambiciosos projetos enciclopédicos já realizados no Brasil. Anteriormente, já havia organizado a Grande Enciclopédia Delta Larousse. Após a promulgação da Lei da Anistia em agosto de 1979, no governo João Figueiredo, Houaiss recuperou seus direitos políticos, mas decidiu não voltar à carreira diplomática.

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Trabalho filológico e acadêmico

Imagem: NASA Goddard Space Flight Center from Greenbelt, MD, USA ; edição de Eugenio Hansen, OFS · BY-SA · Openverse

A atuação de Houaiss como filólogo e pesquisador da língua portuguesa desenvolveu-se em paralelo às carreiras diplomática e editorial. De 1956 a 1958, trabalhou junto à Casa de Rui Barbosa em projetos de pesquisa linguística. Em 1956, coordenou como secretário-geral o Primeiro Congresso Brasileiro de Língua Falada no Teatro, ocorrido em Salvador, onde apresentou tese que serviu de base para as normas da pronúncia culta brasileira aprovadas no evento. Dois anos depois, desempenhou função análoga no Primeiro Congresso Brasileiro de Dialectologia e Etnografia, em Porto Alegre, ficando encarregado de redigir os anais. Nesse mesmo ano de 1958, passou a integrar a Comissão Machado de Assis. Em 1960, foi eleito membro da Academia Brasileira de Filologia. Ao longo da carreira, publicou trabalhos que abrangiam desde a bibliologia e a crítica literária até estudos sobre a pronúncia e a ortografia do português, com destaque para Tentativa de descrição do sistema vocálico do português culto na área carioca (1959), Elementos de bibliologia (1967) e A crise de nossa língua de cultura (1983).

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Atuação pública e política

Imagem: Mário NET · BY-SA · Openverse

Após a restauração de seus direitos políticos em 1979, Houaiss engajou-se em diversas frentes da vida pública brasileira durante o período de abertura política e redemocratização. Entre 1978 e 1981, presidiu o Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro. De 1983 a 1986, foi presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Em 1984, durante o governo Figueiredo, participou de um grupo de trabalho convocado pelo Ministério da Justiça com o objetivo de avaliar os mecanismos de censura vigentes e propor sua superação. No ano seguinte, compôs a comissão criada pelo Decreto nº 91.372, de 26 de junho de 1985, voltada a formular diretrizes para a melhoria do ensino de língua portuguesa no país; o documento final foi apresentado em dezembro daquele ano. Filiado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), concorreu nas eleições de novembro de 1986 como suplente de senador pelo Rio de Janeiro, ao lado do jurista Evandro Lins e Silva, que encabeçava a chapa. Foram eleitos, porém, Nélson Carneiro e Afonso Arinos.

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Acordo Ortográfico

Imagem: Mário NET · BY-SA · Openverse

Em maio de 1986, Houaiss chefiou, como secretário-geral e porta-voz da delegação brasileira, o Encontro para a Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, sediado no Rio de Janeiro. A conferência reuniu representantes de todos os países de língua portuguesa e constituiu um dos marcos do processo que levaria, quatro anos depois, à assinatura do Acordo Ortográfico de 1990 em Lisboa. Na mesma época, participou em Brasília de um grupo de estudos organizado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) sobre política linguística. A atuação de Houaiss no processo de unificação ortográfica combinava suas duas carreiras — a de diplomata e a de linguista — e foi reconhecida como decisiva para a viabilização política do acordo.

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Ministério da Cultura

Imagem: Mário NET · BY-SA · Openverse

Em 29 de setembro de 1992, a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Com a assunção interina do vice-presidente Itamar Franco em 2 de outubro, Houaiss recebeu a indicação para chefiar o Ministério da Cultura, que o governo Collor havia transformado em secretaria. Ao suceder Sérgio Paulo Rouanet, tomou posse em 19 de outubro de 1992, contando com expressivo respaldo da comunidade artística e acadêmica. Na gestão, Houaiss elegeu três eixos de atuação: a salvaguarda do patrimônio histórico e artístico nacional, o relançamento do cinema brasileiro — que se encontrava virtualmente estagnado desde o fim da Embrafilme em 1990 — e o fortalecimento dos laços culturais e linguísticos com Portugal e os países lusófonos da África. O maior obstáculo de sua administração foi a escassez de verbas: o orçamento do ministério representava 0,04% do total da União, forçando Houaiss a recorrer ao patrocínio de empresas privadas.

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Academia Brasileira de Letras

Imagem: Mário NET · BY-SA · Openverse

Houaiss foi eleito para a cadeira nº 17 da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1 de abril de 1971, na sucessão de Álvaro Lins. Foi recebido pelo acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco em 27 de agosto do mesmo ano, e posteriormente recebeu os acadêmicos Antonio Callado e Sérgio Paulo Rouanet. Em 1994, passou a integrar o Conselho Nacional de Política Cultural na condição de vice-presidente, cargo do qual se afastou no ano seguinte, já sob o governo de Fernando Henrique Cardoso. Em dezembro de 1995, foi eleito presidente da ABL em substituição a Josué Montello. Identificado com a ala progressista da casa, recebeu apoio de nomes como os ficcionistas Antonio Callado e Lygia Fagundes Telles, o jurista Evaristo de Morais Filho e o jornalista Barbosa Lima Sobrinho. Seu único concorrente, o poeta Ledo Ivo, retirou a candidatura na véspera do pleito. Ao tomar posse, Houaiss indicou como meta principal revisar e atualizar o dicionário da Academia, cuja edição mais recente, de autoria de Antenor Nascentes, remontava a 1954; o prazo almejado era 1997, quando a ABL completaria cem anos. Mencionou ainda a promoção de simpósios e de um congresso dedicado ao ensino no país. Permaneceu na presidência durante 1996, passando o cargo à escritora Nélida Piñon.

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O Grande Dicionário Houaiss

Em 1986, Houaiss iniciou na Academia Brasileira de Letras o empreendimento ao qual dedicaria o restante da vida: um dicionário abrangente da língua portuguesa que ambicionava superar, em número de verbetes, o Aurélio de Buarque de Holanda, principal obra do gênero no país naquela época. O projeto enfrentou uma interrupção de cinco anos, de 1992 a 1997, por falta de recursos financeiros. Em março de 1997, Houaiss fundou, com Francisco Manoel de Mello Franco e Mauro de Salles Villar, o Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa, com sede no Rio de Janeiro, para dar continuidade ao trabalho. Houaiss faleceu em 7 de março de 1999, sem ver a obra concluída. Os trabalhos lexicográficos foram finalizados pelo Instituto em dezembro de 2000, e o Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa veio a lume em 2001, pela editora Objetiva. A obra consolidou-se como uma das referências fundamentais da lexicografia de língua portuguesa, ao lado do Aurélio e dos dicionários da Academia das Ciências de Lisboa.

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