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António Botto

António Tomás Botto, poeta, contista e dramaturgo português. A sua obra mais popular, Canções, foi um marco na lírica portuguesa pela sua novidade e ousadia, ao abordar de modo subtil mas explícito o amor homossexual, causando grande escândalo e ultraje entre os meios reaccionários da época.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 11/07/2026
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Biografia

Em 29 de Outubro de 1965 os seus restos mortais foram trasladados para Lisboa, por via aérea, mas só em 11 de Novembro de 1966 foram depositados num gavetão no Cemitério do Alto de São João, tendo assistido ao acto José Régio, Ferreira de Castro, David Mourão-Ferreira, Luís Amaro, Natália Correia, entre outros. O seu espólio seria enviado do Brasil pela sua viúva Carminda Rodrigues a um parente, João José de Silveira Barros, que o doará, em 1989, à Biblioteca Nacional, onde pode ser consultado. Esse arquivo reúne documentos pessoais, o seu processo clínico, manuscritos inéditos e um valioso (e algo deteriorado) acervo sonoro, constituído por vários discos e fitas magnéticas registados no Brasil, onde ficou gravada a voz de Botto, dizendo alguns dos seus poemas.

Juventude

António Botto nasceu a 17 de agosto de 1897 em Concavada, que então pertencia à freguesia de Alvega, no concelho de Abrantes, Portugal. A 23 de janeiro de 1898, foi batizado na igreja paroquial de Alvega como segundo filho de Francisco Thomaz Botto e primeiro de Maria Pires Agudo (o casal terá ainda mais dois filhos), ambos naturais de Alvega. O pai trabalhava como "marítimo" nas fragatas do Tejo. Em 1902 a família mudou-se para Lisboa, indo residir no n.º 22 da Rua da Adiça, Alfama, bairro popular e típico, que muito influenciaria a sua obra. O pai trabalhava como arrais de fragata e a mãe como mulher-a-dias. Num apontamento autobiográfico (e, talvez, parcialmente fantasista), Botto alude a esses tempos:

Primeiros escritos e as Canções

Em 1919 escreve Flor do Mal, texto dramatúrgico, e em 1920 publicou Canções do Sul (que alguns consideram ser um prelúdio das Canções), passando a residir na Rua da Madalena, 151-2º esq. onde viverá até 1937. Em 1921, é publicada a 1.ª edição de Canções, com prefácio (não-autorizado) de Teixeira de Pascoaes e António Ferro dedica-lhe uma crítica elogiosa no Diário de amor. No entanto, na primeira página de A Capital, de 18 de Abril de 1921, estampava-se um artigo com esta manchete jocosa-moralista: «O Livro da D. Antonia: "Canções"… A Elle! – Ancia de réclame ou descalabro moral?», onde o autor, escandalizado, reclamava a apreensão do livro. Em 1922 sai a 2.ª edição de Canções, sob a chancela da Editora Olisipo de Fernando Pessoa. Este publica na revista Contemporânea o ensaio «António Botto e o Ideal Estético em Portugal». Em 1923, sai Motivos de Beleza.

Personalidade

António Botto tinha uma personalidade marcada. Descrevem-no como magro, de estatura média, um dandy, sempre bem vestido, de rosto oval, um ar lânguido, uma boca muito pequena de lábios finos, os olhos amendoados, estranhos, inquisitivos e irónicos (de onde por vezes irrompia uma expressão perturbadoramente maliciosa) que ele frequentemente ocultava sob a aba do chapéu inclinado sobre o rosto. Altivo, jamais falava sobre as suas origens modestas, nem sobre os pais ou os dois irmãos. Mentia sobre a idade, dizendo que tinha nascido em 1900. Tinha muitos conhecidos, alguns amigos, mas muitos acabavam por se afastar dele, agastados com a sua língua viperina. Almada Negreiros, que o conhecia bem e o retratou num desenho, chegou a dizer que Botto era «uma serpente». L.P. Moitinho de Almeida escreveu que «António Botto era bom amigo quando era amigo, mas era um inimigo terrível dos seus inimigos».

Demitido e partida para o Brasil

A 9 de Novembro de 1942, contava António Botto 45 anos de idade, foi demitido do seu modesto emprego na função pública (escriturário de primeira-classe do Arquivo Geral de Identificação) por: Ao ler o humilhante anúncio, Botto ficou profundamente desolado, mas teria comentado com ironia: «Sou o único homossexual reconhecido no País.» Caído numa situação financeira aflitiva, para se sustentar, passou a escrever artigos, colunas e crítica literária em jornais, entre os quais a revista Contemporânea (1915-1926) e a Revista municipal(1939-1973), e publicou vários livros, entre os quais Os Contos de António Botto e O Livro das Crianças, uma colecção de sucesso de contos para crianças (que seria oficialmente aprovada como leitura escolar na Irlanda, sob o título The Children’s Book, traduzido por Alice Lawrence Oram).

Últimos anos no Brasil

O navio aportou no cais de Guanabara, pela noite de 17 de Agosto de 1947, dia do 50º aniversário do poeta. Num manuscrito anotaria mais tarde, já desiludido: «Quando o barco em que eu viajava se aproximou do cais o aspecto do Rio de Janeiro era, rialmente [sic], espetacular [sic] nessa noite fresca de Agosto pelas vinte e tres horas. Desci, assim, um pouco esperançado em vêr se, com efeito, a terra que Pedro Alvares Cabral descobrira era esse tão viçoso sonho em que a natureza com o mar, rochedos, vegetação, interminaveis caminhos, selvas, arvoredos, o sertão, caberiam no meu louvor de pessoa inteligente e farto de ver mundo e viajar. Afinal…, o Rio, é uma fachada pretenciosa de grande capital, mas, as barracas dos pretos feitas de latas e de papeis aparecem a cada momento. E a miséria? E a outra, a miseria moral na falta de palavra e de caracter? Essa, então, é geral. Miseria de varios aspectos: fome, roubo, prostituição, mentira…»

Morte brutal

Na noite de 4 de Março de 1959, quando ia visitar o seu advogado Paulo Rabello, ao atravessar a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, junto ao Lido, no Rio de Janeiro, foi atropelado por um camião da Aeronáutica (que fugiu), sofrendo uma fractura do crânio e ficando em coma. Às 17h00 de 16 de Março de 1959, no Hospital Sousa Aguiar, Botto, expira, abraçado pela sua inconsolável companheira, que o chora perdidamente. Contava ele 61 anos. Em Dezembro desse ano, o governo brasileiro atribuiu uma pensão mensal Cr$ 10 000,00 à viúva do poeta, que lhe sobreviveria doze anos.

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A obra poética

"Literatura de Sodoma"

A tempestade desencadeada por "Canções" e por "Sodoma Divinizada", de Raul Leal, bem como por outras obras e artigos que apareciam nas livrarias e jornais da época de que importa destacar "Decadência" de Judite Teixeira, foi tremenda, e a Federação Académica de Lisboa, tendo como porta-voz Pedro Teotónio Pereira, denuncia no jornal "A Época", em fevereiro de 1923, a "vergonhosíssima desmoralização, que sob os mais repugnantes aspectos, alastra constantemente". A Federação Académica de Lisboa estaria com grande probabilidade apenas a servir de face pública das vontades do poder instituído da época porque pouco depois, em Março, é ordenada pelo Governo Civil de Lisboa a apreensão dos já mencionados livros de Botto, Raul Leal e Judite Teixeira.

Um reconhecimento que tarda

"A vasta obra poética de Botto, em parte ainda dispersa ou não-recoligida, apesar de e também pelo muito que ele publicou, republicou, reorganizou em volumes dispersos ou suprimia de volumes anteriores, etc., poderá repartir-se em quatro fases: a juvenil, em que continua o tom da quadra dita popular, conjugando-o com aspectos da dicção simbolista que poetas como Correia de Oliveira, Augusto Gil, e sobretudo Lopes Vieira haviam introduzido nela; a simbolistico-esteticista, em que a juvenilidade tradicionalizante se literaliza dos requebros esteticísticos que marcaram, nos anos 1920, muita poesia simultâneamente da tradição saudosista e modernista (é a das primeiras edições das Canções e breves plaquetes seguintes, em que todavia a personalidade do poeta já figura inteira em diversos poemas); a fase pessoal e original, nos anos 1930, desde as edições de 1930-32 das Canções (em que ele ia incorporando selecções de colectâneas anteriores) até a Vida Que Te Dei e Os Sonetos (fase que é também a dos seus excepcionais contos infantis que tiveram realmente as edições estrangeiras que se julgava ser uma das mentiras megalomaníacas do poeta, da «novela dramática» António, e da peça Alfama); e a última fase, nos anos 1940 e 50, até à morte que é a de uma longa e triste decadência, com poemas desvairadamente oportunistas, revisões desastrosas afectando nas reedições alguns dos melhores poemas anteriores […]" em Líricas Portuguesas, de Jorge de Sena.

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Obras

Esgotada há muitos anos, a obra completa de António Botto começaria a ser republicada em 2008, pelas Quasi Edições (Lisboa), edição a cargo do poeta, escritor e crítico literário Eduardo Pitta.

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Prémio António Botto

Prémio atribuído pela Câmara Municipal de Abrantes a autores de literatura infantil. Foram atribuídos os prémios aos seguintes autores e respectivas obras:

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Fontes consultadas

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