Luise Rainer
Luise Rainer foi uma atriz teuto-américo-britânica, vencedora de dois prêmios Oscar, na categoria Melhor atriz, por suas performances em Ziegfeld, o criador de estrelas e Terra dos deuses. Em 1999 ela foi nomeada uma das 500 grandes lendas do cinema pelo American Film Institute.
Luise Rainer nasceu em Düsseldorf, Alemanha, e foi criada em Hamburg, ainda na Alemanha, e depois em Viena, na Áustria. Várias fontes afirmavam que ela nascera em Viena, talvez pelo fato de ter sido o lugar onde Luise passara boa parte de sua infância e juventude. Certa vez, ela comentou com um repórter: "Nasci num mundo de destruição. A Viena de minha infância era uma Viena de fome, pobreza e revolução". Seus pais eram Heinrich e Emilie (nascida Königsberger) Rainer, familiarmente conhecidos como "Heinz" e "Emmy" (ambos, respectivamente, falecidos em 1956 e 1961). Heinz era um negociante bem-sucedido estabelecido na Europa que havia passado boa parte da infância no Texas, EUA, para onde fora enviado aos seis anos como órfão (Luise uma vez afirmou que, graças ao seu pai, ela é uma cidadã americana "de nascimento"). A família Rainer pertencia à alta sociedade e era judia. Nos anos 40, Rainer chegou a perder parte de seus familiares no holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial.
Início na Europa
Aos 16 anos, Rainer passou a seguir o grande sonho de se tornar atriz. Com o pretexto de visitar sua mãe, ela regressou à sua cidade-natal, Düsseldorf, e se registrou no Dumont Theater, tendo conseguido um teste para o mesmo dia. Rainer, mais tarde, começou a ter aulas de interpretação com Max Reinhardt, e, aos 18 anos, já possuía uma legião de críticos que achavam que ela tinha um talento extraordinário para uma jovem atriz - talento esse que a permitiu se tornar uma distinta intérprete dos palcos de Berlim, na Companhia Teatral de Max Reinhardt. Sua estreia nos palcos se deu no Dumont Theater em 1928, aparecendo mais tarde em vários teatros como estrela das peças "Mademoiselle", de Jacques Deval, "Men in White", de Sidney Kingsley, "Saint Joan", de George Bernard Shaw, "Measure for Measure", de William Shakespeare, e "Six Characters in Search of an Author", de Luigi Pirandello.
Chegada a Hollywood
Ao chegar aos Estados Unidos, a MGM propôs a Rainer um contrato de três anos, o que a fez se mudar para Hollywood, passando a ser vista como uma promissora estrela mediante às grandes da produtora, como Greta Garbo, Norma Shearer e Joan Crawford. Segundo o biógrafo Charles Higham, tanto o chefe da MGM, Louis B. Mayer, quanto o produtor Samuel Marx tinham visto fotografias de Rainer antes de sua chegada à Hollywood, e ambos sentiam que ela tinha o charme e especialmente a delicadeza que Mayer admirava em suas estrelas. O inglês de Rainer precisava ser melhorado, e, para tanto, Mayer contratou a atriz Constance Collier para treiná-la e ensiná-la modulação dramática; Rainer rapidamente apresentou bons resultados.
Ziegfeld, o criador de estrelas (1936)
O próximo papel que Rainer interpretaria em Hollywood seria o de Anna Held na cinebiografia musical Ziegfeld, o criador de estrelas ("The Great Ziegfeld", 1936), papel que ela obteve em agosto de 1935. O filme a reuniu novamente com William Powell, com quem havia contracenado em seu último filme, Flerte. Powell ficou tão impressionado com Rainer que já previa que ela fosse ser igualmente aclamada como já o fora antes, no filme anterior. “A Srta. Rainer é uma das pessoas mais naturais que eu já conheci. Mais que isso, ela é deslumbrante, paciente e possui um magnífico senso de humor. Ela é um ser extremamente sensível e possui uma grande compreensão da natureza humana. Ela tem um bom senso e uma compreensão que a tornam capaz de retratar a emoção humana de forma comovente e verdadeira. É uma artista definitivamente criativa, que compreende a vida e o seu significado. Tudo o que ela faz é submetido a uma análise minuciosa. Ela pensa em cada tom de emoção para fazê-lo soar verdadeiro. Na Europa ela é uma grande estrela do teatro. Ela merece ser uma estrela. Inquestionavelmente, ela possui todas essas qualidades.”
Terra dos deuses (1937)
Seu próximo filme seria Terra dos deuses ("The Good Earth", 1937), estrelado por ela e Paul Muni. Ela fora classificada em primeiro lugar para o papel principal nesta adaptação cinematográfica em setembro de 1935, tendo sido escalada dois meses mais tarde, em novembro. O papel era completamente o oposto da Anna Held que ela havia interpretado em seu filme anterior, sendo ela agora a chinesa O-Lan, esposa de um humilde camponês cuja família enfrenta todos os percalços causados durante a época da chamada Revolução Chinesa. Para o papel, ela atuou quase que sem dialogar durante todo o filme, sendo totalmente subserviente ao personagem de Paul Muni, que vivia o marido da personagem de Rainer.
Filmes subsequentes e problemas na carreira
Luise Rainer havia chegado a ser considerada para o papel principal em A dama das camélias (que, como se sabe, foi interpretado por Garbo). A MGM tinha, no final de 1936, um script chamado "Maiden Voyage" concebido especialmente para ela. O projeto foi arquivado e, eventualmente, lançado como Não se ama por encomenda ("Bridal Suite", 1939), estrelando a atriz Annabella como "Luise". Outro projeto de 1936 nunca realizado em que Rainer esteve envolvida fora "Adventure for Three", que a reuniria mais uma vez com o colega William Powell. Mais tarde, ela estrelaria a bem-sucedida produção musical da MGM vencedora do Oscar A grande valsa ("The Great Waltz", 1938), seu último grande sucesso. Os outros quatro filmes que Rainer estrelou na MGM, Os castiçais do imperador ("The Emperor's Candlesticks", 1937, também com William Powell), Labirintos do destino ("Big City", 1937, com Spencer Tracy), Mademoiselle Frou-Frou ("The Toy Wife", 1938, com Melvyn Douglas) e Escola dramática ("Dramatic School", 1938, com Paulette Goddard), não correspondiam ao perfil de uma atriz do nível dela, tendo ela os aceitado apenas por pressão do estúdio, e porque o seu marido na época, o dramaturgo Clifford Odets, teria achado melhor que ela não contrariasse a vontade de seus chefes - o que fora um péssimo conselho, uma vez que esse foi um dos agravantes que terminariam por contribuir para o rápido declínio da atriz. Quando lançados, os filmes acabaram não sendo bem recebidos pela crítica, embora Rainer continuasse a receber elogios. Os castiçais do imperador, para o qual fora escalada em novembro de 1936, a reuniu com William Powell pela última vez. Para o filme, ela usava uma peruca vermelha e figurinos feitos pelo figurinista Adrian (que fora o segundo marido de Janet Gaynor), que alegava que Rainer, até o final de 1937, se tornaria uma das mais influentes personalidades na moda de Hollywood. No set ela recebia tratamento de estrela, tendo o seu próprio camarim, professor de dicção, secretária, guarda-roupa, cabeleireiro e maquiador.
O adeus à Hollywood
Rainer quis interpretar Madame Curie no filme homônimo, papel que esteve reservado para Greta Garbo, mas que acabou sendo feito só em 1943, por Greer Garson. Também foi uma das atrizes consideradas para interpretar Scarlett O'Hara em E o vento levou ("Gone with the Wind", 1939), mas a ideia não foi bem-recebida e a ela não foi concedida a chance de ser testada para o papel, que acabou sendo interpretado por Vivien Leigh. Após o lançamento de Escola dramática, seu último filme para a MGM, em 1938, ela decidiu abandonar a indústria do cinema. Numa entrevista em 1983, a atriz contou que havia ido ao escritório de Louis B. Mayer e o disse: "Sr. Mayer, eu devo parar de fazer filmes. Minha fonte de inspiração secou. Eu trabalho de dentro para fora, e não há nada de dentro para dar". Mayer esteve relutante, mas a atriz acabou sendo liberada de seu contrato, tendo dito a ele: "Você está agora com 60 anos e eu ainda na casa dos 20. Quando eu estiver com 40, a idade de uma atriz de sucesso, você vai estar morto e eu continuarei vivendo".
Rainer retornou aos palcos numa estreia no Palace Theatre, em Manchester (EUA), em de maio de 1939 na peça "Behold the Bride", de Jacques Deval, indo em seguida para Londres estrear no Shaftesbury Theatre com a mesma peça. Quando de seu retorno à Europa, onde ajudaria crianças vítimas da Guerra Civil Espanhola, Rainer estudou medicina e disse ter amado ser aceita mais como uma outra estudante do que como a famosa atriz. De volta à América, ela fez sua estreia no Music Box Theatre, em Nova York, em maio de 1942 na peça "A Kiss for Cinderella", de J. M. Barrie. Ela ainda voltaria a fazer mais uma aparição no cinema americano, desta vez no filme Reféns ("Hostages", 1943), explicando a razão de retorno: "Após meu breve retorno ao palco, comecei a perceber que todas as portas que tinham sido abertas para mim na Europa, e todo o trabalho que eu tinha sido capaz de realizar para ajudar as crianças refugiadas, deveu-se ao fato de as pessoas me conhecerem do meu trabalho no cinema. Comecei a sentir um senso de responsabilidade com um trabalho que eu tinha começado e nunca terminei. Quando me dei conta de que tinha potencial para tanto, e que o meu repentino estrelato não fora simplesmente um feliz incidente, eu decidi voltar".
Às 5h40 da madrugada do dia 30 de dezembro de 2014, a apenas duas semanas de seu aniversário de 105 anos, Luise Rainer faleceu vitimada por uma pneumonia. Ela viveu, até o dia de sua morte, em Eaton Square, na cidade de Londres, num apartamento onde uma vez residiu Vivien Leigh, outra bicampeã do Oscar. Das atrizes premiadas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas durante a década de 30 ela foi a única a ter vivido até a década de 2010, sendo também a atriz que mais viveu após ganhar um Oscar - 77 anos após sua primeira vitória e 76 após a segunda -, seguida por Olivia de Havilland, que fora premiada em 1947 e 1950, tendo vivido 73 anos após sua primeira vitória sobre o prêmio e 70 anos após a segunda (De Havilland faleceu em 2020, também aos 104 anos). "Ela era maior que a vida e poderia encantar os pássaros das árvores. Se você a visse, nunca iria esquecê-la". Rainer deixou a sua única filha, Francesca Knittel-Bowyer, mais duas netas, Luisa e Nicole, e dois bisnetos, Luca e Hunter.


