Cuenca (Espanha)
Cuenca é uma cidade e município da Espanha, capital da província de homónima, na comunidade autónoma de Castela-Mancha. Tem 911,1 km² de área e em 2021 tinha 53 988 habitantes. Situa-se na parte norte da província, a uma altitude média de 948 metros e é um dos municípios mais extensos de Espanha.
O topónimo 'Cuenca' procede da forma latina tardia conca (latim clássico: concha, -ae), com o significado metonímico de "vale profundo entre montes", que tem paralelos noutros topónimos espanhóis. Se bem que a primeira forma documentada do lugar (e também a sua primeira menção histórica) data do século IX na sua forma árabe قونكة (Qūnkatu), esta palavra é inexplicável e morfologicamente impossível da língua árabe, pelo que é claramente a adaptação de um topónimo anterior, o qual não está documentado, mas que provavelmente é o indicado antes. Esse nome foi originalmente aplicado apenas à alcáçova, que se situava onde hoje se encontram as ruínas do castelo, tendo-se posteriormente estendido a toda a cidade.
Cuenca ostenta a categoria histórica de "cidade", com os títulos de "Muito Nobre, Muito Leal, Fidelíssima e Heroica". O título de cidade foi-lhe atribuído por Afonso X em 1257 e os de "Muito Nobre e Muito Leal" em 1465 por Henrique IV. Após a Guerra da Sucessão Espanhola (1701–1714), na qual Cuenca lutou a favor de Filipe V, este outorgou-lhe os títulos de "Fidelíssima e Heroica". O escudo de Cuenca é descrito heraldicamente da seguinte forma: num campo de gules (vermelho), um cálice de or encimado por uma estrela de oito pontas de argento (prata). No timbre tem uma coroa real antiga, composto por um círculo de ouro cravejado de pedras preciosas que suporta oito rosetas, cinco visíveis, interpoladas com pérolas. Tradicionalmente esta composição é explicada supondo que essas foram as armas oferecidas à cidade por Afonso VIII, significando o vermelho o sangue derramado na conquista da cidade, a estrela o cerco ter começado no dia da Epifania e o cálice por o cerco ter terminado no dia de São Mateus. No entanto, a investigação heráldica constatou que, numa primeira etapa, em vez do cálice existia uma tigela (cuenco em castelhano), uma arma falante de Cuenca pelo menos desde Afonso X. Durante o reinado dos Reis Católicos (1474–1504) expande-se o costume de modificar os emblemas tradicionais por outros mais ornamentados, pelo que o cuenco foi substituído pelo cálice. A estrela poderá ter origem no emblema do Reino de Toledo [es], tendo o número das suas pontas variado entre seis e oito ao longo dos séculos. Há também uma lenda segundo a qual em 6 de janeiro de 1177, quando o rei Afonso VIII assediava a cidade para a conquistar aos muçulmanos, a Virgem Maria apareceu em forma de luminária celeste. As suas frequentes aparições no acampamento de Afonso VIII converteram-na na padroeira da cidade como Nossa Senhora da Luz e no novo escudo de Cuenca figuraria uma estrela flutuando sobre um cálice.[carece de fontes?]
Pré-historia e Antiguidade
Os vestígios humanos mais antigos na província de Cuenca datam do Paleolítico Superior, de há cerca de 90 000 anos. As principais tribos da zona foram aparentemente os beribraces (ou bebrices), que se dedicavam à pastorícia, e os arévacos, que eram agricultores. Depois chegaram os olcades [es], um povo guerreiro de carácter indómito, que tomaram o controlo da maior parte do que é atualmente a província, e os lobetanos [es], pastores e agricultores, que tinham a sua capital em Lobetum. No início época romana, a serrania conquense esteve envolvida em várias das guerras celtiberas (séculos III–II a.C.). Apesar de que na província terem existido três cidade romanas importantes — Segóbriga, Ercávica [es] e Valéria [es] — nessa época a zona da cidade de Cuenca era muito pouco povoada, apenas existindo vestígios de um pequeno assentamento perto da ponte do Castellar.
Idade Média
O esquema populacional romano manteve-se após as invasões bárbaras (séculos IV e V), apesar de ter havido um declínio dos centros urbanos romanos. É durante a posterior invasão muçulmana (século VIII) que se inicia o povoamento de carácter mais urbano no local da cidade atual. Apesar de não ser clara a data da fundação, em 784 já existia a cidade de Qūnka ou Kūnka, integrada na cora (província) de Santaver [es] e favorecida pela base estabelecida pelos Banu Di-l-Nun [es].. A praça foi ganhando importância e população, até ter-se tornado a capital da cora, substituindo nessa função Ercávica.[carece de fontes?] Quando o Califado de Córdova colapsou em 1031, a cidade foi integrada na Taifa de Toledo, tendo servido de ponte para a conquista dos reinos de Valência e Córdova. Na sequência da derrota de Afonso VI de Leão na Batalha de Zalaca (1086), o rei sevilhano Almutâmide aproveitou para tomar Cuenca, mas em 1091 os almorávidas atacaram Sevilha e Almutâmide viu-se obrigado a pedir ajuda ao rei leonês. Em 1108 Cuenca passou para as mãos dos almorávidas após a Batalha de Uclés.
Idade Moderna
Cuenca tornou-se um centro económico importante sobretudo devido à sua indústria têxtil e à pecuária. Os têxteis de Cuenca eram especialmente famosos nos séculos XV e XVI e o comércio de tecidos e de tapetes potenciou o desenvolvimento da indústria de transformação de lãs, o que contribuiu para um grande crescimento da população, a qual se estima em cerca de 15 000 habitantes no século XVI, e para uma intensa atividade de construção. A cidade passou também a ser a sede do sistema judicial local e foi-lhe concedido voto nas cortes. A epidemia de peste de 1588 foi o prelúdio do declínio que se acentuou ao longo de todo o século XVII. À epidemia seguiu-se uma seca prolongada e várias pragas de gafanhotos que provocaram uma diminuição drástica da população, que decresceu até aos 1 500 habitantes. A par disso, a subida do preço da lã levou à decadência da transumância e da indústria têxtil locais. Pouco a pouco, no século XVIII houve alguma recuperação económica, mas nesse mesmo século começou uma crise que afetou especialmente a atividade têxtil e levou ao encerramento da Casa da Moeda e dos moinhos de papel. Durante a Guerra da Sucessão Espanhola (1701–1714) Cuenca foi apoiante de Filipe V, que recompensou a cidade juntando os títulos de "Fidelíssima e Heroica" aos títulos de "Muito Nobre e Muito Leal" que já ostentava.
Idade Contemporânea
Ao longo do século XIX a cidade foi tomando a configuração que tem atualmente, com a conversão da Rua Afonso VIII na principal via que comunicava com a Plaza Mayor. No entanto, as agitações sociais e políticas da época fizeram com que a cidade ficasse num estado precário até ao início do século XX. Durante a Guerra da Independência Espanhola (Guerra Peninsular; 1807–1808), a cidade foi saqueada mais de nove vezes e a população foi dizimada. Em 1833 tornou-se a capital da nova província de Cuenca, na altura do início da Primeira Guerra Carlista, durante a qual houve várias tentativas de ataque. A Segunda Guerra Carlista (1846–1849) não teve qualquer repercussão na cidade, mas na terceira (1872–1876) ocorreram dois saques. O segundo ataque, ocorrido em 1874, foi o mais violento de todos: grande parte da cidade ardeu e os combates provocaram 300 mortos, 40 deles civis, e 700 feridos. Em 1833 foi aberta a ligação ferroviária com Aranjuez, o que juntamente com instalação de várias serrações ajudou a recuperação económica. A população da cidade ultrapassou os 10 000 habitantes em 1900.
Localização
A cidade de Cuenca divide-se em duas zonas bem diferenciadas: a cidade antiga e a cidade nova. A primeira situa-se sobre um cerro rochoso bordejado pelo rio Júcar a norte e pelo seu afluente Huécar a sul. Este último rio desagua no Júcar na parte baixa da cidade antiga, pouco antes da ponte de Santo Antão. A cidade nova estende-se na direção N-S a oeste e sul da cidade antiga, da qual está separado pelo rio Huécar; o seu centro nevrálgico é a rua da Carretería. O centro da cidade situa-se a uma altitude de 997 metros acima do nível do mar. A altitude da zona urbana varia entre 920 m na cidade nova e pouco mais de 1 020 m na cidade antiga. No município, a altitude vai dos 869 m no último trecho do rio Júcar no município até aos 1 864 m no cerro de la Mogorrita, que é também o ponto mais alto da província de Cuenca, situado na parte norte, na serrania de Cuenca [es], a cerca de 43 km da cidade.
Clima
De acordo com a classificação climática de Köppen-Geiger, o clima de Cuenca é do tipo mediterrânico (Csa) ou, segundo outras fontes, mediterrânico continentalizado [es], por ter uma amplitude térmica notavelmente maior do que na costa. As temperaturas são frias no inverno e amenas no verão, com grande variação térmica diária durante todo o ano, mais acentuada nos meses quentes, em especial os de verão. A precipitação é mais abundante do que nas áreas vizinhas devido à orografia montanhosa da serrania de Cuenca.[carece de fontes?] situando-se em torno de 500 mm anuais. Os recordes de temperatura registados estação meteorológica de Cuenca são 39,7 °C em 10 de agosto de 2012 e -17,8 °C em 3 de janeiro de 1971.[carece de fontes?]
Vegetação
A árvore mais comum nas imediações da cidade é o pinheiro (bravo, manso e larício), embora no passado fosse a azinheira. Nos desfiladeiros do Júcar e do Huécar encontra-se outro tipo de vegetação, nomeadamente grandes bosques de álamos, ulmeiros e salgueiros.
Demografia
Em 2009 o município tinha 55 866 habitantes, 27 006 (48,3%) do sexo masculino e 28 860 (51,7%) do sexo feminino, a esmagadora maioria deles a residir na cidade.
O município é administrado por um órgão de governo local (ayuntamiento) formado por vereadores eleitos a cada quatro anos por sufrágio universal, que por sua vez elegem um alcaide, que preside ao executivo municipal. Têm direito de voto todos os residentes registados no município com 18 anos ou mais anos de idade que tenham nacionalidade espanhola ou de países da União Europeia. Conforme o disposto na lei eleitoral, que determina o número de vereadores em função do número de residentes, em 2019 foram eleitos 24 vereadores, 11 do PSOE, 6 do grupo de independentes "Cuenca nos une", 6 do PP, 1 do C's; foi eleito alcaide Dario Francisco Dolz Fernandez, do PSOE.
Cidades gémeas
Cuenca tem acordos de geminação com as seguintes cidades: Paju (Coreia do Sul) [carece de fontes?] Cerreto Sannita (Itália) [carece de fontes?]
Tradicionalmente a economia local baseava-se na agricultura de sequeiro (cereais, vinha, etc.) e na exploração florestal. Nos últimos anos, o turismo revitalizou consideravelmente o panorama económico, que se tinha degradado devido à emigração constante a que se assistiu desde a década de 1950.[carece de fontes?] Não obstante, a dívida do ayuntamiento ascendia a mais de 70 milhões de euros em dezembro de 2009.
Educação superior
A principal instituição universitária da cidade é o campus da Universidade de Castela-Mancha, onde são ministrados cursos de graduação e pós-graduação em ciências humanas, sociais, da saúde, artes e engenharias.[carece de fontes?]
Rodovias
Desde tempos remotos que Cuenca, situada nos limites da sua serrania, é um local estratégico de passagem e um nó de comunicações para uma grande parte da sua província. As principais estradas que servem a cidade são as seguintes:
Ferrovias
A Estação de Cuenca foi inaugurada em 1883, quando foi completado o troço do que é hoje a Linha Aranjuez-Valência [es], que liga Cuenca a Aranjuez e dali com Madrid. A ligação até Valência, via Utiel e Requena só foi completada em 1947. Esta linha, de via única e não eletrificada, que é operada pela Renfe, foi objeto de estudo do Ministério do Fomento para ser encerrada em 2010, devido à chegada da alta velocidade ferroviária a Cuenca, o que não chegou a concretizar-se, tendo sido incluída como linha 310 da Rede Ferroviária de Interesse Geral [es] em 2015. Essa inclusão deve-se ao facto da linha ser o único meio de transporte coletivo para muitas localidades da província, como Carboneras de Guadazaón e Chillarón. Poucos dias antes da data prevista para o encerramento houve uma grande manifestação em Cuenca a favor da manutenção da linha antiga e o ayuntamiento e a deputação provincial solicitaram em numerosas ocasiões ao governo que se estude a possibilidade de explorar a linha com comboios de mercadorias.[carece de fontes?]
Património e urbanismo
A cidade teve origem, c. século VIII em volta da alcáçova do andalusina de Qūnka, que ocupava aproximadamente o espaço do atual castelo. Esta fortaleza situava-se no ponto mais alto da zona, onde os desfiladeiros do rios Júcar e Huécar estão mais próximos, formando um pequeno promontório onde se foi desenvolvendo o núcleo urbano. A almedina andalusina formou-se no espaço compreendido entre a alcáçova e o alcázar (palácio), que ocupava a área do que é hoje a Praça de Mangana, o Convento das Mercês, o seminário e parte da Rua Alfonso VIII. A muralha encerrava a sul ao longo do rio Huécar (no que é hoje a Rua dos Tintes) e o espaço entre este trecho de muralha e o alcázar era usado para apascentar gado em tempo de guerra. A parte mais vulnerável da praça-forte era no local da confluência Huécar e do Júcar, na área da atual Ponte da Trindade. Nesse local, foi criada um açude (em árabe: buhayra), mediante a construção de comportas, que além de ser usado para irrigação, tinha funções defensivas, por dificultar de sobremaneira o acesso por esse lado. A mesquita principal deve ter-se situado no local da atual catedral, enquanto que o soco ocorria na entrada da cidade, possivelmente nas vizinhanças do atual bairro de San Martín. Ao longo do rio Júcar havia vários moinhos.
Gastronomia
Na cozinha da província de Cuenca destacam-se principalmente os pratos que era confecionados por pastores, arrieiros e caçadores, que necessitavam de comida energética para fazer frente a um clima duro, que rapidamente passa do calor ao frio, numa região em que abundam os ingredientes para cozinhar. A carne de caça, encabeçada pela Perdiz, está presente numa multitude de pratos, como o morteruelo [es] (um guisado), embora por vezes se use galinha em vez de aves de caça. Outras carnes, como o borrego, presentes na gastronomia de quase toda a Mancha, também encontram lugar em terras conquenses. Receitas como o zarajo [es] ou as chuletas de lechal al rescoldo de la sierra ("costeletas de borrego de leite nas brasas da serra"), são muito interessantes, saborosas e ideiais para degustar o sabor dessa carne. Entre outros pratos tradicionais cabe mencionar o ajoarriero, feito com bacalhau e alho (o de Las Pedroñeras é considerado um dos melhores), os gaspachos galianos [es] sobre pão ázimo, feitos com diversos tipos de carne de caça, as migas e as calderetas.
Desporto
O clube de futebol da cidade com mais relevância a nível nacional é o Unión Balompédica Conquense, fundado em 1946, que disputa os seus jogos no Complexo Desportivo La Fuensanta; em 2020-2021 estava na 4.ª divisão espanhola. Outros clubes da cidade são o Club Deportivo Cuenca, fundado em 1943, e a Agrupación Deportiva San José Obrero. O BM Ciudad Encantada é um clube de andebol que na temporada 2021–2022 jogava na Liga Asobal, a 1.ª divisão nacional espanhola. Os atletas do Club Atletismo Cuenca disputam os campeonatos de atletismo espanhóis.[carece de fontes?]


