Anacronismo
Anacronismo é qualquer parecer, leitura ou julgamento sobre um acontecimento ou elemento histórico de maneira a situá-lo numa temporalidade distinta da sua época original.
Idade Média
Ao menos desde o século XII europeu, há indícios escritos e imagéticos da percepção humana sobre a diferença qualitativa entre passado e presente, que os tornaram tempos únicos e singulares. Esse distanciamento histórico entre as dimensões temporais é observado, por exemplo, no debate entre antigos e modernos ou mesmo nos conceitos de translatio imperii e translatio studii. Essa percepção da diferença temporal continuou no século XIII europeu. O artista italiano Nicola Pisano, por exemplo, realizou as roupas de suas esculturas, que representavam pessoas da Roma Antiga, de forma a parecerem com o padrão utilizado pelos romanos ao invés de parecerem com vestimentas comuns à época em que ele vivia. Isso marca uma consciência da diferença temporal e uma intenção de distingui-las em sua singularidade histórica.
Renascimento
A interpretação de que o Renascimento é um momento de tomada de consciência da singularidade das compreensões de mundo formuladas pelos sujeitos históricos em diferentes épocas se difundiu no livro A cultura do Renascimento na Itália (1860) de Jacob Burckhardt. Nos séculos XV e XVI, um pequeno grupo de humanistas e artistas expressou em suas obras a noção de distância entre o presente e o passado, pressuposto básico para a possibilidade de existência de um anacronismo. O exemplo mais famoso produzido no Renascimento da percepção de distância temporal foi a argumentação de Lorenzo Valla a favor do entendimento da Doação de Constantino como uma falsificação. Através de uma análise filológica, Valla contestou a autenticidade do documento já que a palavra sátrapa não existia na língua latina na época de Constantino, constituindo um anacronismo textual revelador de sua falsidade.
Século XVII
Há, no século XVII, o crescimento da noção de distância temporal, especialmente entre eruditos europeus. É por volta de 1650 que jesuítas, como Dionísio Petávio e Piero Sforza Pallavicino, e bispos, como Jacques Bossuet e Pierre-Daniel Huet, difundem a palavra anacronismo, tanto em latim - anachronicus - como em italiano, francês e inglês. Por sua vez, o surgimento do senso de anacronismo está ligado a figuras de artistas, especialmente italianos, sendo um importante marco na história cultural europeia.
Século XVIII e XIX
O século XVIII é um momento importante para o desenvolvimento do sentimento de anacronismo pois, segundo Reinhart Koselleck, surge a ideia de História enquanto a unificação de histórias particulares, o abandono da percepção do passado como repositório de lições morais e a solidificação da percepção que a pesquisa histórica é realizada e orientada por um sujeito - o historiador - que tem uma subjetividade. Nesse momento, destaca Koselleck, anacronismos cometidos no passado são destacados por autores europeus oitocentistas, como as críticas de Friedrich Schlegel ao quadro A batalha de Alexandre em Isso (1529) de Albrecht Altdorfer. Schlegel, ao contemplar essa pintura cerca de 300 anos depois de sua realização, apontou anacronismos derivados de uma noção de distância temporal alheia ao pintor, que enxergava a Antiguidade Clássica e a sua época como integrantes de um horizonte histórico comum. Assim, Altdorfer usufruiu de elementos de seu tempo para retratar aquele evento ocorrido em um passado distante. Nos seus elementos anacrônicos, o quadro retrata, por exemplo, os soldados de Alexandre, o Grande como soldados lansquenetes da Batalha de Pavia e os persas têm suas vestes muito semelhantes às dos soldados turcos contemporâneos a Altdorfer, que tinham sitiado Viena no mesmo ano. Com isso, o pintor acaba por retratar a batalha de Isso dentro de uma noção de atemporalidade onde o quadro, segundo Koselleck, acaba por representar a luta entre Cristo e Anticristo, mesmo que essas não tenham sido preocupações existentes nesta batalha.
Século XX e XXI
Nos séculos XX e XXI, são os historiadores da arte que lideram a discussão acerca do anacronismo. O desenvolvimento desse conceito tem papel importante dentro da história da arte com discussões capitaneadas por Aby Warburg, Fritz Saxl e Erwin Panofsky. Enquanto Panofsky se destaca por sua diferenciação entre perspectiva histórica e perspectiva pictórica no Renascimento italiano, Saxl concentrou-se no interesse do pintor Andrea Mantegna pela história, assim como sua amizade com o antiquário Frei Feliciano de Verona. Warburg, por sua vez, chamou atenção à representação artística das formas de se vestir ao longo da história. Para o historiador inglês Peter Burke, o reconhecimento das mudanças nas vestimentas ao longo do tempo é o sinal mais claro da existência de uma compreensão de distância histórica.
De forma geral, o termo anacronismo pode estar associado a características negativas ou positivas. Em sua negatividade, ele é um indicador de ausência de consciência histórica e remete ao erro cronológico característico da forma de pensar pré-moderna. Em sua positividade, está ligado à presença da consciência histórica, surgida na Modernidade, que reconhece as múltiplas temporalidades existentes ao longo da história e as diferenças entre elas.
Indicador de ausência
Segundo Peter Burke, o anacronismo pode ser entendido, em um primeiro momento, como a percepção renascentista do distanciamento histórico entre os séculos XV e XVI em contraste a um tempo prévio, a Idade Média, e um passado clássico longínquo, a Idade Antiga. Essa concepção admite que os humanistas foram os primeiros filósofos a pensarem a distância entre as épocas na medida em que caracterizavam a Idade Média como um período negativo, bárbaro e sombrio, enquanto a Idade Antiga, por outro lado, evocaria um período próspero e nostálgico aos modernos. A ideia de que as pessoas anteriores ao renascimento não diferenciavam um tempo passado de seu próprio tempo é reforçada com base nos argumentos dos intelectuais Karl Lamprecht, Erich Auerbach e Gaston Paris de que para os homens medievais o mundo havia sido sempre o mesmo durante toda sua existência.
Marcador de presença
O anacronismo como marcador de presença da percepção de passado se verifica a partir da lógica inversa ao seu sentido como indicador de ausência. Essa dicotomia, conforme Peter Burke, construiu a ideia de que só existiria passado enquanto reconhecimento de alteridade a partir dos humanistas renascentistas.
Anacronismo é um termo cujo significado e aplicação varia de acordo com a compreensão da experiência do tempo. Apesar de ser uma palavra com estrutura morfológica derivada da língua grega, o termo só passou a ter um sentido cronológico a partir do século XVI. O surgimento da noção moderna de anacronismo é situado por Herman Ebeling em De Emendatione Temporum (1583) de Joseph Justus Scaliger, publicado um ano após o estabelecimento do calendário gregoriano e que apontava inúmeros erros de cronologia existentes em fontes antigas. Dentro da ciência histórica, o anacronismo pode identificar o uso de categorias e conceitos do tempo presente para explicar ou entender outras experiências históricas, o pertencimento de um acontecimento, crença ou objeto ao momento histórico que lhe dá contexto, ou ainda a anormalidade de um sujeito que não pertence ao tempo histórico do qual faz parte. Nesse contexto, o anacronismo reside na busca no passado de experiências e conceitos idênticos a atualidade ou em apontar a existência de alguma crença incompatível com determinado período histórico.
Obsolescência e erro de cronologia
A pesquisa histórica frequentemente utiliza de textos de outras épocas e o historiador acaba tendo o papel de voz ao passado. A singularidade da História em relação à produção de anacronismos, portanto, está ligada a dupla temporalidade de seu discurso. A linguagem é uma importante fonte de anacronismos porque permite a criação de palavras para ideias temporalmente marcadas. Tanto a época do historiador quanto a época do objeto, evento ou processo histórico estudado têm sua linguagem própria a ser respeitada, sendo tarefa do historiador escrever um texto que represente e permita apresentar o que não mais existe. O caráter construtivo da história exige do historiador que exerça o seu espírito crítico com o intuito de superar as barreiras da observação e do conhecimento indireto. A busca por semelhanças entre eventos passados e contemporâneos auxilia na compreensão, mas também abre margem para erros, entre eles o anacronismo, que Lucien Febvre chamou de “o maior dos pecados” do historiador.
Criatividade artística
O anacronismo também pode ser um artifício intencional no momento em que o autor lança mão de um olhar que vê a impossibilidade histórica, ao invés de um erro cronológico, de determinado fenômeno. Essa estratégia autoral pode ser vista principalmente nos campos da literatura e da arte, em que integra como elemento fundamental da obra a ser desenvolvida. Na literatura, o recurso da intertextualidade é um anacronismo intencional, assim como a reprodução de um modo de escrita inspirado no passado como forma de fazer emergir uma crítica ao mundo contemporâneo. Na arte, por outro lado, o anacronismo é visto como fruto de uma interação de caráter dialético entre passado e presente. A arte, dentro dessa perspectiva, nasce desse encontro anacrônico, sendo o anacronismo um elemento fomentador de um "sentido existencial proeminente".
Condição existencial
O classicista Glenn W. Most argumenta que o anacronismo é inerente ao ser humano por causa de sua capacidade imaginativa, que o permite ocupar diversas temporalidades de forma simultânea assim como experimentar o tempo em sua forma acelerada ou lenta. Ao possuir a consciência de poder viver em múltiplas temporalidades, o ser humano constrói a noção de tempo, algo imperceptível para os outros animais. Diferentes níveis de distância histórica produzem maiores ou menores graus de percepção em relação ao anacronismo, o que leva a diferentes expressões de percepção do tempo na literatura, nas artes, e na política ao longo da história. Segundo Peter Burke, autores modernos possuem maior percepção de distância histórica do que os humanistas renascentistas. Da mesma forma que, ele argumenta, os humanistas possuíam maior grau de percepção do que seus antecessores da Idade Média.
Ferramenta intelectual
Na primeira metade do século XX, Marc Bloch apontava que o historiador está permeado por sua própria época, sendo o anacronismo um elemento ativo deste profissional já que a única forma de produzir conhecimento histórico sem elementos anacrônicos seria reproduzir exatamente as palavras da fonte estudada, inibindo o historiador de exercer análises. O historiador francês considerava o anacronismo intrínseco ao fazer historiográfico pois constitui a sua historicidade e denuncia em si mesmo a sua localização no tempo. Além disso, Nicole Loraux percebe, a partir de Marc Bloch, que o anacronismo é utilizado como um elemento de tradução, onde se estabelecem, a partir das analogias ou de um vocábulo do presente, abordagens que não foram pensadas pelos sujeitos da época estudada. Assim, ela propõe que é no uso de termos conhecidos no presente e estranhos ao passado que o historiador tem a oportunidade de analisar as transformações históricas ocorridas.
Tabu e acusação profissional
O anacronismo, desde o século XIX, é fortemente criticado no ambiente acadêmico a ponto de se tornar um dos principais pecados que o historiador pode cometer no exercício de seu trabalho. Na virada do século XXI, esse tabu foi reafirmado em diversos contextos sociopolíticos. Nos Estados Unidos, na Austrália, na Colômbia e na Europa Oriental, pesquisadores como Eric Hobsbawm, Lynn Hunt, David R. Oldroyd e Renán Silva Olarte reiteram essa perspectiva como meio de proteger o trabalho historiográfico da instrumentalização política. Em especial, estudiosos feministas, pós-coloniais e marxistas são os mais acusados de anacronismo por utilizarem um conjunto de conceitos alheios ao período que estudam, a exemplo de Dipesh Chakrabarty e Sanjay Subrahmanyam. De qualquer forma, aqueles que defendem a manutenção do anacronismo como um tabu para a investigação histórica argumentam que ele contribui para o estabelecimento de limites e na fiscalização do trabalho historiográfico, ao separar historiadores profissionais dos demais cientistas.
O anacronismo depende da percepção pelo ser humano de um tempo único, que serve de referência para avaliações adequadas tendo em vista o processo de sincronização de diferentes temporalidades. Esse processo de sincronização, permitiu que Joseph Justus Scaliger dividisse o anacronismo em dois tipos de erros de cronologia: o procronismo e o metacronismo. Contudo, desde finais do século XVII, concorreu com essa divisão de Scaliger outra que propunha anacronismo como erro cronológico anterior e paracronismo enquanto erro cronológico posterior. Paracronismo não teve ampla utilização, ao contrário dos outros três marcadores temporais anacronismo, procronismo e metacronismo. Como destacam Achim Landwehr e Tobias Winnerling, entre os séculos XVI e XVIII, anacronismo, procronismo, paracronismo e metacronismo eram utilizados para estabelecer conexões entre o presente e as outras dimensões temporais da vida humana. Essa multiplicidade de palavras para indicar um erro cronológico, é tida pelos autores como indicativo de certa necessidade de precisão analítica no estabelecimento de uma ordem do tempo que refinava o muito genérico "erro contra a cronologia". Os diversos cronismo são postos por Landwehr e Winnerling como um conjunto de marcadores temporais que expressam uma temporalidade particular dentro de uma ordem sacralizada do tempo.
Procronismo
Um procronismo, ou anacronismo "de ontem para hoje", ocorre quando um evento histórico é analisado ou descrito sob uma perspectiva ou ponto de vista anterior ao seu; quando há a utilização de conceitos atuais inadequados para analisar problemas históricos e sociedades passadas; e quando, na leitura de um texto de outro época, sua interpretação é compromete ao atribuir a um termo significado diferente do moderno. O procronismo também pode ser definido como o uso ou a referência, hoje, a objetos e ideais ainda não inventados ou estranhos ao tempo presente ou passado. Um exemplo, nesse sentido, é a representação do consumo de batatas na Europa medieval sendo que elas só poderiam estar disponíveis aos europeus após 1492, pois são originárias da América do Sul.
Metacronismo
Em sua definição mais simples, um metacronismo, ou anacronismo "de hoje para ontem" ocorre quando um evento, texto, processo ou objeto histórico é situado em um contexto ou sob um ponto de vista posterior ao seu, ou quando expressões e termos do passado são utilizados na atualidade, sem considerar eventuais variações históricas em seus significados. Um metacronismo também pode ser definido como o uso de palavras modernas para descrever eventos históricos ou, dentro do contexto presente, o uso de objetos do passado hoje raros ou obsoletos.
Alocronismo
Outra tipo de cronismo, sob uma perspectiva antropológica, é o alocronismo, um conceito criado pelo antropólogo alemão Johannes Fabian, que consiste na prática de estabelecer uma barreira temporal entre nós mesmos e o outro, empurrando o outro simbolicamente para um passado distante do nosso presente. Isso pode ser feito por meio de discursos e práticas que negam a contemporaneidade entre determinado grupo e o outro, ou seja, que negam a possibilidade de compartilharem o mesmo tempo. O alocronismo pode ser usado para perpetuar preconceitos e estereótipos sobre grupos sociais marginalizados, como os povos indígenas. Colocar essas populações como pertencentes a um "passado", mesmo estas estando no presente, negando-as o acesso a tecnologia e descaracterizando estas por utilizarem artefatos tecnológicos é uma forma de difundir o racismo através do alocronismo.


