Amiano Marcelino
Amiano Marcelino foi um historiador que escreveu durante o fim do Império Romano. Amiano foi militar de alta patente, tendo servido no exército do imperador Juliano. Num mundo onde a religião cristã tinha uma crescente influência e tornou-se em 380, com o Édito de Tessalónica a religião oficial do império, permaneceu pagão, o que se reflete em seu texto na ênfase que dá à religião romana tradicional, no suporte à reforma religiosa pagã de Juliano, e na pouca quantidade de citações sobre os cristãos de sua época. Amiano se via como grego, porém escreveu sua obra sobre a história de Roma em latim, continuando a tradição da historiografia romana- nisso ele é um interessante exemplo da mistura de identidades no fim do mundo antigo.
Praticamente tudo o que se sabe sobre a trajetória pessoal de Amiano Marcelino está na própria obra do autor, o que sabemos de sua vida é em grande parte o que ele deixa transparecer em seu relato. Amiano é personagem de muitos acontecimentos narrados em sua obra, isso porque grande parte dessa obra trata do período contemporâneo ao autor. Amiano Marcelino nasceu por volta de 330 na cidade grega de Antioquia (atual Antáquia, na Turquia), uma das mais importantes cidades do Império Romano naquele período. Em 353, ele integrava um grupo seleto do exército romano, os protetores domésticos (protectores domestici) - isso indica sua origem nobre, pois este era um grupo de alto prestígio social. Nos sete anos seguintes o autor participou de diversas expedições militares sob o comando de Ursicino, general com quem manteve uma relação de verdadeira amizade e afeto. Em 363 integrou a expedição de Juliano contra o Império Sassânida, onde o imperador morreu e depois da qual o autor se retirou do exército.
O título da obra de Amiano é Os Feitos (Res Gestae)[a], originalmente composta por 31 livros que cobriam o período entre a ascensão de Nerva (96) e a morte de Valente (378). Porém, somente os dezoito últimos foram preservados. A obra completa de Amiano abarcava um período de quase trezentos anos da história romana. Porém, algo que chama a atenção é a desproporção em relação à distribuição do conteúdo histórico pelos livros: os treze primeiros, que se perderam, tratavam do ano de 96 ao ano de 353, enquanto que os dezoito livros restantes tratam de um período de apenas vinte e cinco anos (353–378), do reinado de Constâncio II até a Batalha de Adrianópolis. O conteúdo relatado nos livros sobreviventes trata do período contemporâneo ao autor. Uma consequência direta desse fato é que o próprio Amiano é um dos personagens de sua obra: ele conta seus feitos como soldado do exército de Juliano e é por isso que sua obra é tão cheia de minúcias, detalhes e informações.
As fontes
O principal objetivo de Amiano era manter a tradição da escrita da história em Roma, utilizando da história oral e a literatura convencional como base, descrevendo a vida e a decadência dos costumes em Roma, mas ao mesmo tempo mostrando respeito pelo passado glorioso da cidade, focando assim os dois centros; Roma e Constantinopla. Para escrever sua obra, Amiano utilizou principalmente referências da literatura latina. Dedicou atenção especial a Tácito, além de Tito Lívio e Salústio, também cita Cícero em grande parte de seu trabalho. Além deles, podemos citar como base de suas referências, Júlio César, Plínio, o Velho, Sêneca, Virgílio, Horácio e Ovídio. Em relação a Tucídides, por exemplo, utilizou de sua cronologia, dividindo o tempo em verões e invernos. Através de cada um, ele decidiu o método que seguiria em sua obra, o que explica também parte de suas razões para escrever em latim.
A narrativa
A narrativa de Amiano Marcelino apresenta-se bastante rica e cheia de possibilidades de pesquisa e interpretação, não só para a área de história. A concepção da geografia de Amiano formou-se no contexto de uma tradição etnográfica que remonta a Heródoto. Amiano se utiliza de descrições geográficas em longos parágrafos, sendo talvez o historiador antigo mais focado em etnografia depois do próprio Heródoto, a princípio como uma prática de entreter o leitor. A técnica de Amiano em descrever um local, uma região, permite que visualizemos com precisão o espaço descrito. Ele inclui em suas discussões temas diversos como topografia, cidades, recursos naturais, pessoas, animais e plantas, e foca principalmente nas relações entre os seres humanos e o meio ambiente, sempre apontando as cidades, notando principalmente a quantidade delas, sua importância e história. A riqueza de detalhes fornecida por ele permite perceber o quanto seu conhecimento é especializado, dando distâncias exatas entre cidades em uma localização relativa, além de permitir distinguir um lugar de outro.
As digressões
Típico da historiografia antiga, especialmente grega, Amiano não deixa de utilizar numerosas digressões, muitas vezes bastante extensas, que quebram a estrutura formal da história e dão início a uma nova fase da narrativa ou simplesmente entretém o leitor. Ele utilizou de uma estrutura formal que quase sempre segue o mesmo padrão do início até a apresentação final da digressão. As digressões procuram mostrar também o quanto ele seria erudito, demonstrando que mesmo sendo grego e militar, ele atingiu um nível equivalente ao dos autores do passado que pretende imitar. Em uma de suas digressões, por exemplo, Amiano descreve com precisão sobre o funcionamento do ano bissexto, quando foi implementado e como ele afetava o comportamento daquela sociedade.
Resumo dos livros
Além disso, Juliano, meio-irmão de Galo e primo do augusto Constâncio, é nomeado césar na Gália. Os aliados de Silvano são todos assassinados e temos o relato de uma revolta da plebe romana, cujo motivo, vil e insignificante segundo o historiador, coloca ainda mais em evidência a corrupção do caráter romano. Os capítulos finais do livro têm como assunto principal o povo gaulês: são apresentados sua origem, seus costumes e sua terra (descrição física da Gália).
O retrato do imperador Juliano
De uma maneira geral, a narrativa de Amiano sempre utiliza os valores e parâmetros tradicionais romanos, ao mesmo tempo em que ele demonstra um pouco de insatisfação para com eles. Partindo dessa linha de raciocínio, pode-se dizer que o imperador Juliano é o eixo central da obra de Amiano: a tentativa do autor é construir uma imagem heroificada do imperador que possa ser transmitida à posterioridade. Amiano luta contra o tempo, que pode destruir e aniquilar a lembrança dos atos heroicos de Juliano. A construção dessa imagem é consequência do momento em que os personagens viveram: a segunda metade do século IV é um dos períodos mais conturbados da história, pois as estruturas de poder estão mudando e neste contexto Juliano se propõe a manter fiel a uma antiga ordem.
O contexto em que se encontra o Império Romano no fim do século IV está modificado: a expansão territorial até novas províncias gera uma necessidade de controle maior, que leva ao deslocamento para lugares que facilitem o supervisionamento das novas fronteiras, Isso levava à diminuição da importância da cidade de Roma, pois se começava a deslocar o centro de poder para a nova capital, Constantinopla, cidade que desponta entre outras por diversos fatores, principalmente estratégicos e futuramente contribui para a decadência da parte ocidental do império. Além disso, com Constantino houve mudanças profundas, principalmente relacionadas à religião, e a influência cristã foi aumentando na sociedade romana. O cristianismo toma forma e se alastra por todo o território.
Embora pagão, Amiano conviveu com o cristianismo; com uma grande tolerância, descreve diversos aspectos e mais os negativos, como as batalhas para o episcopado em Roma entre o papa Dâmaso I e o antipapa Ursino. Ao contrário de muitos historiadores pagãos, ele não ignorou a Igreja, e parece ter demonstrado algum interesse na fé cristã, tentando manter um equilíbrio entre os antigos costumes e a nova religião. Seu interesse foca principalmente, na questão de ser uma religião monoteísta. Através do relato do imperador Juliano é possível ver essa relação. Ele critica seu herói justamente quando este não tenta ser imparcial em relação aos novos costumes; ao mesmo tempo, o admira por ser aquele que, em um tempo de mudanças, se mantém fiel à antiga ordem. Sua opinião é nítida, ele é um pagão vivendo num mundo em transformação para o cristianismo.


