Purgatório
Purgatório é o estado temporário de purificação das almas daqueles que morrem em estado de Graça, mas ainda não totalmente purificados de seus pecados veniais ou das consequências temporais do pecado. Trata-se de uma realidade espiritual onde essas almas, já salvas, são preparadas para entrar plenamente na visão beatífica, isto é, na comunhão definitiva com Deus no Céu. Uma alusão à existência do Purgatório é encontrada em I Coríntios 3, 12-15, onde São Paulo fala de um processo de purificação pelo fogo, pelo qual a pessoa pode ser salva, como que através do fogo. Outros textos que dão luz a essa doutrina são Lucas 12,42–48, que fala de diferentes graus de castigo para os servos infiéis, e Mateus 5,22–26, onde se menciona que o homem não sairá da prisão até que tenha pago o último centavo.
A tradição católica do Purgatório tem uma história que remonta, antes de Jesus, à crença encontrada no judaísmo de rezar pelos mortos, especula-se que o cristianismo pode ter tomado a sua prática similar. A crença católica do purgatório se baseia, entre outras razões, sobre esta prática da oração pelos mortos. Desde os primeiros tempos, a Igreja honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em seu favor, em especial o sacrifício eucarístico, a fim de que purificados, eles possam chegar à visão beatífica de Deus. Os católicos consideram que o ensino sobre o purgatório faz parte integrante da fé derivada da revelação de Jesus Cristo que foi pregada pelos apóstolos. Definições dogmáticas foram proclamadas pelo Segundo Concílio de Lyon (1274), o Concílio de Florença (1438-1445), e o Concílio de Trento (1545-1563). Alguns biblistas percebem a confirmação do purgatório nas palavras de Jesus em Mateus 5, 25-26: “Põe-te depressa de acordo com o teu adversário, enquanto estás ainda em caminho (da vida) com ele; a fim de que teu adversário não te entregue ao juiz, e o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. Em verdade te digo: Não sairás de lá, enquanto não pagares até o último centavo”.
A Igreja Católica dá o nome de Purgatório à purificação das almas que morrem na graça de Deus e na sua amizade, mas ainda são imperfeitas e portanto precisam ser purificadas. Durante os anos da sua vida conventual, a freira carmelita Maria Anna Lindmayr recebeu inúmeras revelações particulares por parte das almas do purgatório e os seus escritos cedo se consideraram como um importante legado sobre essa matéria para os fiéis da Igreja Católica. Também Maria Simma, uma mística católica austríaca falecida no ano de 2004, relatou ter recebido inúmeras visitas de almas que padeciam no purgatório que a buscavam para pedir orações ou fazer declarações sobre inúmeros temas. Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, passam após a sua morte por uma purificação, afim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu. O purgatório e a purificação final dos eleitos que necessita de piedade Divina, distinta do castigo do inferno. A tradição da Igreja fala de fogo purificador. A Igreja recomenda também as esmolas, as indulgências e obras de penitências em favor dos finados
Segundo a doutrina católica, imediatamente após a morte, uma pessoa sofre o juízo particular em que o destino da alma é especificado. No purgatório, as almas "obtém a santidade necessária para entrar na alegria do céu". Alguns se unem com Deus no Paraíso, e em contrapartida, outros são destinados ao Inferno. O Inferno é a morada de Satanás e de pessoas que morreram em pecado mortal e nunca arrependeram-se sinceramente. É um lugar ou estado da alma em que o condenado não pode se arrepender e assim nunca sairá de lá. Ele há de ser castigado por suas ofensas graves contra Deus eternamente, pois recusa-se a arrepender-se verdadeiramente. No inferno pode haver ''arrependimento'' apenas por causa do sofrimento, mas não por ter ofendido a Deus, então não haveria jamais um arrependimento verdadeiro, sendo assim seria impossível sair do inferno. O Céu ou paraíso é um lugar ou estado da alma, onde as pessoas que esforçaram-se para seguir os mandamentos, fizerem penitência, jejuns, caridade, confissões lícitas e válidas e não morreram em pecado mortal estariam para viver eternamente e gozar de uma felicidade inimaginável.
Pecados e Purgatório
O catolicismo distingue entre dois tipos de pecado, o pecado mortal é uma "grave violação da lei de Deus", que "coloca o homem longe de Deus", e se não for recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, resulta na sua exclusão do Reino de Deus e a punição no inferno. Em contraste, o pecado venial (que significa "pecado perdoável”) "não nos coloca em oposição direta com a vontade e amizade de Deus" e, embora "constitua uma desordem moral", não priva o pecador da amizade com Deus e, consequentemente, da felicidade eterna do céu. De acordo com o catolicismo, o perdão dos pecados e a purificação podem ocorrer durante a vida, por exemplo, no Sacramento do Batismo e no Sacramento da Penitência. No entanto, se esta purificação não é atingida totalmente em vida, os pecados veniais podem ser purificados após a morte. O nome específico dado a esta purificação dos pecados é "purgatório".
Dor e fogo e Purgatório
O Purgatório é uma purificação que envolve um castigo doloroso, associada à ideia de fogo, semelhante ao inferno. Diversos Padres da Igreja consideram 1 Coríntios 3:10-15 como evidência para a existência de um estado intermediário em que as transgressões leves são purificadas, e assim a alma será salva. Santo Agostinho descreve o fogo da purificação como mais doloroso do que qualquer coisa que um homem pode sofrer em vida, e o Papa Gregório I escreveu que deve haver um fogo de purificação para algumas pequenas falhas. Orígenes escreveu sobre o fogo que tem de purificar a alma. Gregório de Níssa também escreveu sobre a purgação pelo fogo. Teólogos interpretaram o fogo tanto como um fogo material, embora de natureza diferente do fogo natural, como uma metáfora para um grande sofrimento espiritual, que atualmente é a visão mais comum. O Catecismo da Igreja Católica fala de um “fogo purificador" e cita a expressão "purgatorius ignis" (fogo purificador) usado pelo Papa Gregório Magno. Ele fala do castigo temporal pelo pecado, mesmo em vida, como uma questão de "sofrimentos e provas de todos os tipos".
Orações pelos mortos e indulgências
A Igreja Católica ensina que o destino dos que estão no purgatório pode ser afetado pelas ações e intercessão dos vivos. Seu ensino se baseia na prática da oração pelos mortos mencionado em II Macabeus 12:42-46, considerada pelos católicos e ortodoxos parte da Sagrada Escritura. Além destes trechos do Antigo Testamento, a Igreja também justifica a doutrina sobre o estado de purificação final da alma na oração que o Apóstolo Paulo fez em favor de um amigo falecido, Onesíforo, nestes termos: Orações para os mortos e indulgências na crença católica diminuem a duração do tempo que os mortos passam no purgatório. O Papa Paulo VI escreveu a indulgência é "(…) uma remissão da pena (…) através da intervenção da Igreja”.
Ensinamentos católicos
O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, publicado pela primeira vez em 2005, é um resumo em forma de diálogo do Catecismo da Igreja Católica. Trata-se de purgatório no seguinte diálogo: 211. Como podemos ajudar a purificação das almas do purgatório? Essas duas perguntas e respostas resumem as informações nas secções 1020-1032 e 1054 do Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992, que também fala do purgatório nas seções 1472 e 1473.
Santos devotos do Purgatório
Nesta lista aparecem alguns santos que defendiam, veneravam ou tinham visões das almas do Purgatório segundo a tradição católica:
Igrejas Católicas de Rito Oriental
As Igrejas Católicas Orientais, ou seja, Igrejas sui iuris de tradição oriental e em comunhão plena com o Papa, divergem um pouco com a Igreja Latina quanto a alguns aspectos da doutrina do Purgatório. As Igrejas orientais católicas de tradição grega geralmente não utilizam o termo “Purgatório”, ainda que concordem que exista uma “purificação final” para as almas destinadas ao céu, e que as orações dos fiéis possam ajudar os falecidos a alcançarem a santificação necessária para ingressarem no Paraíso. Na verdade, nem os membros da Igreja Latina, nem os dessas Igrejas consideram essas diferenças como pontos de disputa, mas as veem como pequenas nuances resultantes de diferentes tradições.
Igreja Ortodoxa
A Igreja Ortodoxa admite um estado intermediário para os crentes após a morte. Ela acredita na destinação ao Céu ou ao Inferno, como indicado na Bíblia, mas que a oração pelos mortos é necessária. Por outro lado, ainda que a oração pelos defuntos seja prática comum entre os ortodoxos, a Arquidiocese Ortodoxa Grega da América assim se posiciona: Assim, o ensinamento ortodoxo é que, todos passam por um juízo particular imediatamente após a morte, de maneira que nem o justo, nem o injusto atinge o estado final de felicidade ou punição antes do último dia, com algumas exceções para as almas extraordinariamente justas, como a Teótoco (Mãe de Deus), que foi arrebatada aos céus pelos anjos.
Há inúmeras linhas doutrinárias protestantes que divergem em questões secundárias, porém nas questões fundamentais do cristianismo as igrejas protestantes (como os metodistas, batistas, assembleianos, presbiterianos, luteranos, quadrangulares etc.), não acreditam na existência do purgatório, por considerarem o livro de II Macabeus (de onde provém o conceito de Purgatório) como deuterocanônico (ou seja, não é divinamente inspirado, mas pertence à segunda classificação de cânones). Os evangélicos também discordam do pagamento de indulgências com base em passagens como Salmos 49:7,8. Além disso, os protestantes acreditam que a santidade deve ser buscada em vida, não podendo o homem ter seu destino mudado após a morte (apesar de que para a doutrina do purgatório, todo aquele que vai para o purgatório já está salvo, ou seja, não há uma mudança de destino). Tanto protestantes como evangélicos acreditam na doutrina da Palavra, que diz:
Igreja Anglicana
A Comunhão Anglicana e muitas igrejas episcopais rejeitam a doutrina do Purgatório, com exceção de alguns anglo-católicos. O artigo XXII dos Trinta e Nove Artigos da Religião afirma que "A doutrina romana relativa ao Purgatório, Indulgências, Veneração e Adoração tanto de imagens como de relíquias, e também à invocação dos Santos, é uma coisa fútil e vãmente inventada, que não se funda em testemunho algum da Escritura, mas ao contrário repugna à Palavra de Deus". No entanto, entre os anglo-católicos, que muitas vezes se identificam fortemente com a teologia e a liturgia católico-romana, há aqueles que aceitam a existência do purgatório. O teólogo anglicano Clive Staples Lewis disse que tinha boas razões para “lançar dúvidas sobre a ‘doutrina romana do Purgatório’, pelo que tinha se tornado: não apenas como um ‘escândalo comercial’, mas também uma imagem dum inferno passageiro, no qual as almas são atormentadas por demônios, cuja presença nos é ‘mais horrível e aflitiva que a própria dor’, e onde o espírito sofre uma tortura indizivelmente dolorosa”. Apesar disso, ele acreditava no Purgatório pormenorizado pelo Beato John Henry Newman, ex-anglicano que, em seu poema “O Sonho de Gerôncio”, sustenta que a religião reclama o Purgatório: processo de purificação que envolve sofrimento.
Igreja Metodista
As Igrejas Metodistas afirmam, em consonância com o artigo 14º dos Vinte e Cinco Artigos de Fé da Igreja Metodista que “A doutrina romana do purgatório (…) é uma invenção fútil, sem base em nenhum testemunho das Escrituras e até repugnante à Palavra de Deus”. John Wesley acreditava que existe “um estado intermediário entre a morte e o juízo final, onde aqueles que rejeitaram Cristo estariam cientes de sua vinda, e os crentes iriam partilhar do "Seio de Abraão" ou Paraíso". O Metodismo não afirma formalmente essa crença, mantendo o silêncio sobre o que está reservado aos homens entre a morte e o juízo final.


