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Decomposição em valores singulares

Em álgebra linear, a decomposição em valores singulares ou singular value decomposition (SVD) é a fatoração de uma matriz real ou complexa, com diversas aplicações importantes em processamento de sinais e estatística.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 31/07/2026
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Enunciado do teorema

Suponha-se que M é uma matriz m×n cujas entradas vêm de um corpo de escalares K, que pode ser tanto o corpo de números reais ou o corpo de números complexos. Então existe uma fatorização da forma: M = U Σ V ∗ , {\displaystyle M=U\Sigma V^{*},} onde U é uma matriz unitária m×m sobre K, a matriz Σ é uma matriz diagonal m×n com números reais não-negativos na diagonal, e V*, uma matriz unitária n×n sobre K, denota a transposta conjugada de V. Tal fatorização é chamada de decomposição em valores singulares de M. Os elementos diagonais σ i {\displaystyle \sigma _{i}} de Σ são chamados de valores singulares de M. Uma convenção bastante comum é listar os valores singulares em ordem decrescente. Neste caso, a matriz diagonal Σ é determinada de forma única por M (mas as matrizes U e V não são).

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Interpretações intuitivas

Rotação, escala, rotação

No caso especial porém comum no qual M é apenas uma matriz quadrada m×m com determinante positivo cujas entradas são meros números reais, então U, V*, e Σ são matrizes m×m também de números reais, Σ pode ser vista como uma matriz de escala, e U e V* podem ser vistas como matrizes de rotação. Se as condições supracitadas são satisfeitas, a expressão U Σ V ∗ {\displaystyle U\Sigma V^{*}} pode ser interpretada intuitivamente como uma composição (ou sequência) de três transformações geométricas: uma rotação, uma escala, e outra rotação. A figura acima exemplifica como uma matriz de cisalhamento (shear matrix) pode ser descrita como tal sequência.

Valores singulares como semi-eixos de uma elipse ou elipsoide

Como ilustrado na figura, os valores singulares podem ser interpretados como os semi-eixos de uma elipse em 2D. Este conceito pode ser generalizado para o Espaço euclidiano n-dimensional, com valores singulares de qualquer matriz quadrada nxn sendo vistos como os semi-eixos de um elipsoide n-dimensional. Veja abaixo para maiores detalhes.

U e V são bases ortonormais

Como U e V* são unitárias, as colunas de cada uma formam um conjunto de vetores ortonormais, que podem ser tomados uma base. Pela definição de matriz unitária, o mesmo vale para suas conjugadas transpostas U* e V. Em suma, U, U*, V, e V* são bases ortonormais.

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Exemplo

A decomposição em valores singulares desta matriz é dada por U Σ V ∗ {\displaystyle U\Sigma V^{*}} Note-se que Σ {\displaystyle \Sigma } contém apenas zeros fora da diagonal. Ademais, como as matrizes U {\displaystyle U} e V ∗ {\displaystyle V^{*}} são unitárias, multiplicando-se por suas respectivas conjugadas transpostas gera matrizes identidades, como mostrado a seguir. Nesse caso, como U {\displaystyle U} e V ∗ {\displaystyle V^{*}} são reais, cada uma delas é uma matriz ortogonal. Deve-se notar que esta decomposição em valores singulares em particular não é única. Escolhendo-se V {\displaystyle V} tal que é também uma decomposição válida em valores singulares.

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Valores singulares, vetores singulares e sua relação com a SVD

Um número real não-negativo σ é um valor singular para M se e somente se existem vetores unitários u em Km e v em Kn tal que Os vetores u e v são chamados vetor singular à esquerda e vetor singular à direita para σ, respectivamente. Em qualquer decomposição em valores singulares os elementos diagonais de Σ são iguais aos valores singulares de M. As colunas de U e V são, respectivamente, vetores singulares à esquerda e à direita para os valores singulares correspondentes. Por consequência, o teorema acima implica que: Um valor singular para o qual podemos encontrar dois vetores singulares à esquerda (ou direita) que sejam linearmente independentes é chamado degenerado. Valores singulares não-degenerados têm sempre vetores singulares à esquerda e à direita únicos, a não ser pela multiplicação por um fator de fase único eiφ (para o caso real a não ser pelo sinal). Assim, se todos os valores singulares de M são não-degenerados e não-zero, então sua decomposição em valores singulares é única, a não ser por multiplicação de uma coluna de U por um fator de fase único e a multiplicação simultânea da coluna correspondente de V pelo mesmo fator unitário de fase.

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Aplicações da SVD

Pode-se utilizar a SVD de A {\displaystyle A} para determinar a matriz ortogonal R {\displaystyle R} mais próxima de A {\displaystyle A} . A proximidade é medida pela norma de Frobenius de R − A {\displaystyle R-A} . A solução é o produto U V ∗ {\displaystyle UV^{*}} . Isso confere com a intuição já que uma matriz ortogonal deveria ter a decomposição U I V ∗ {\displaystyle UIV^{*}} onde I {\displaystyle I} é a matriz identidade, de forma que se A = U Σ V ∗ {\displaystyle A=U\Sigma V^{*}} então o produto A = U V ∗ {\displaystyle A=UV^{*}} se reduz a colocar 1's no lugar dos valores singulares. Um problema similar, com aplicações fundamentais em visão computacional, robótica e en:shape analysis, é o Problema de Procrustes Ortogonal (orthogonal Procrustes problem), que consiste em encontrar uma matriz ortogonal R {\displaystyle R} que mapeia A {\displaystyle A} o mais próximo possível de B {\displaystyle B} . Formalmente,

Pseudo-inversa

A decomposição em valores singulares pode ser usada para calcular a pseudoinversa de uma matriz, a qual é útil como uma forma de resolver problemas de mínimos quadrados lineares. De fato, a pseudoinversa da matriz M com decomposição em valores singulares M = U Σ V ∗ {\displaystyle M=U\Sigma V^{*}} é onde Σ+ é a pseudoinversa de Σ, a qual é formada substituindo-se todo elemento diagonal não-nulo por seu inverso e tomando-se a transposta da matriz resultante.

Solução de sistemas lineares homogêneos

Um conjunto de equações lineares homogêneas pode ser escrito como A x = 0 {\displaystyle \mathbf {A} \,\mathbf {x} =\mathbf {0} } para uma matriz A {\displaystyle \mathbf {A} } e vetor x {\displaystyle \mathbf {x} } . Uma situação típica é quando A {\displaystyle \mathbf {A} } é dada e quer-se determinar x {\displaystyle \mathbf {x} } não-nulo que satisfaça a equação. Tal x {\displaystyle \mathbf {x} } pertence ao núcleo de A {\displaystyle \mathbf {A} } e é por vezes chamado de vetor nulo (à direita) de A {\displaystyle \mathbf {A} } . x {\displaystyle \mathbf {x} } pode ser caracterizado como um vetor singular à direita correspondendo a um valor singular de A {\displaystyle \mathbf {A} } que seja zero. Isto significa que se A {\displaystyle \mathbf {A} } é uma matriz quadrada e não tem nenhum valor singular nulo, então a equação tem x {\displaystyle \mathbf {x} } não-nulo como solução. Também significa que se existem vários valores singulares nulos, qualquer combinação linear dos vetores singulares à direita é uma solução válida. Analogamente à definição de um vetor nulo (à direita), um x {\displaystyle \mathbf {x} } não-nulo satisfazendo x ∗ A = 0 {\displaystyle \mathbf {x} ^{*}\,\mathbf {A} =\mathbf {0} } , com x ∗ {\displaystyle \mathbf {x} ^{*}} sendo a transposta conjugada de x {\displaystyle \mathbf {x} } , é chamada de um vetor nulo à esquerda de A {\displaystyle \mathbf {A} } .

Minimização de mínimos quadrados totais

Um problema de mínimos quadrados totais (total least squares) objetiva determinar o vetor x {\displaystyle \mathbf {x} } que minimiza a norma ℓ 2 {\displaystyle \ell ^{2}} de um vetor A x {\displaystyle \mathbf {A} \,\mathbf {x} } sob a restrição ‖ x ‖ = 1 {\displaystyle \|\mathbf {x} \|=1} . Mostra-se que a solução é o vetor singular à direita de A {\displaystyle \mathbf {A} } correspondendo ao menor valor singular.

Imagem, núcleo e posto

Outra aplicação da SVD é que a mesma representa explicitamente a imagem e o núcleo de uma matriz M. Os vetores singulares à direita que correspondem a valores singulares nulos de M geram o núcleo (kernel) de M. Por exemplo, o núcleo é gerado pelas últimas duas colunas de V {\displaystyle V} no exemplo acima. Os valores singulares à esquerda correspondendo aos valores singulares não-nulos de M geram a imagem de M. Assim, o posto de M é igual ao número de valores singulares não-nulos que é igual ao número de elementos não-diagonais em Σ {\displaystyle \Sigma } . Em álgebra linear numérica os valores singulares podem ser usados para determinar o posto efetivo de uma matriz, já que erros de arredondamento podem levar a valores singulares pequenos porém não-nulos numa matriz de posto deficiente.

Aproximação por matriz de baixo posto

Algumas aplicações práticas precisam resolver o problema de se aproximar uma matriz M {\displaystyle M} usando outra matriz M ~ {\displaystyle {\tilde {M}}} de posto r {\displaystyle r} . Para o caso em que a aproximação é baseada na minimização da norma de Frobenius da diferença entre M {\displaystyle M} e M ~ {\displaystyle {\tilde {M}}} sob a restrição de que rank ⁡ ( M ~ ) = r {\displaystyle \operatorname {rank} ({\tilde {M}})=r} , pode-se mostrar que a solução é dada pela SVD de M {\displaystyle M} : onde Σ ~ {\displaystyle {\tilde {\Sigma }}} é a mesma matriz que Σ {\displaystyle \Sigma } a não ser pelo fato de conter os r {\displaystyle r} maiores valores singulares (os outros valores singulares são substituídos por zero). Isso é conhecido como o teorema Eckart–Young, provado por tais autores em 1936 (apesar de ter-se descoberto mais tarde que já era conhecido por outros autores; veja Stewart 1993).

Modelos separáveis

A SVD pode ser vista como a decomposição de uma matriz em uma soma ponderada e ordenada de matrizes separáveis. O termo 'separável' refere-se ao fato de uma matriz A {\displaystyle \mathbf {A} } poder ser escrita como um produto externo de dois vetores A = u ⊗ v {\displaystyle \mathbf {A} =\mathbf {u} \otimes \mathbf {v} } , ou, em coordenadas, A ( i , j ) = u ( i ) v ( j ) {\displaystyle \mathbf {A(i,j)} =\mathbf {u} (i)\mathbf {v} (j)} . Especificamente, a matriz M pode ser decomposta como: Aqui, U i {\displaystyle U_{i}} e V i {\displaystyle V_{i}} são as i-ésimas colunas das matrizes SVD correspondentes, σ i {\displaystyle \sigma _{i}} são os autovalores ordenados, e cada A i {\displaystyle \mathbf {A} _{i}} é separável. A SVD pode ser usada para encontrar a decomposição de um filtro de processamento de imagens em filtros separados verticais e horizontais. Note-se que o número de σ i {\displaystyle \sigma _{i}} 's não-nulos é precisamente o posto da matriz.

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História

A decomposição em valores singulares foi originalmente desenvolvida por geômetras estudando geometria diferencial. Eles desejavam determinar se uma forma bilinear real pode ser tornada igual a uma outra por transformações ortogonais independentes dos dois espaços no qual ela age. Eugenio Beltrami e Camille Jordan descobriram independentemente, em 1873 e 1874, respectivamente, que os valores singulares das formas bilineares, representados por uma matriz, formam um conjunto completo de invariantes para formas bilineares sob substituições ortogonais. James Joseph Sylvester também chegou à decomposição em valores singulares para matrizes quadradas reais em 1889, aparentemente independentemente de Beltrami e Jordan. Sylvester chamou os valores singulares de multiplicadores canônicos da matriz A. O quarto matemático a descobrir a decomposição em valores singulares de forma independente foi Autonne em 1915, que chegou a ela via a decomposição polar (Polar decomposition). A primeira prova da decomposição singular para matrizes retangulares e complexas parece ter sido realizada por Carl Eckart e Gale Young em 1936; eles viam a SVD como uma generalização da transformação de eixo principal para matrizes hermitianas.

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Relação com a decomposição em autovalores (espectral)

A decomposição em valores singulares é bastante geral, já que pode ser aplicada a qualquer matriz m × n , ao passo que a decomposição em autovalores pode apenas ser aplicada para algumas classes de matrizes quadradas. Dada uma SVD de M, como acima, valem as seguintes condições: Os lados direitos dessas relações descrevem a decomposição em autovalor dos lados esquerdos. Sendo assim: No caso especial em que M é uma matriz normal, que por definição deve ser quadrada, o teorema espectral diz que ela pode ser unitariamente diagonalizada usando-se uma base de autovalores, de forma que ela pode ser escrita M = U D U ∗ {\displaystyle M=UDU^{*}} para uma matriz unitária U e uma matriz diagonal D. Quando M é também positiva semi-definida, a decomposição M = U D U ∗ {\displaystyle M=UDU^{*}} é também uma SVD. No entanto, as decomposições em autovalores e em valores singulares diferem para todas outras matrizes M: a decomposição espectral é M = U D U − 1 {\displaystyle M=UDU^{-1}} onde U não é necessariamente unitária e D não é necessariamente positiva semi-definida, enquanto a SVD é M = U Σ V ∗ {\displaystyle M=U\Sigma V^{*}} onde Σ é diagonal postiva semi-definida, e U e V são matrizes unitárias que não são necessariamente relacionadas exceto através de M.

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Fontes consultadas

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