Fonologia da língua irlandesa
A fonologia da língua irlandesa varia entre seus diversos dialetos, divididos basicamente nas variantes principais de Ulster, Munster e Connacht. Não havendo pronúncia padronizada para o irlandês, um estudo fonológico geral do idioma deve focar-se em pontos comuns a todos dialetos, assim como nas principais diferenças entre os mesmos.
Até o fim do século XIX, debates linguísticos relativos à língua irlandesa focavam ou na gramática prescritiva tradicional do idioma (com questões como a declinação de substantivos, verbos e adjetivos) ou no desenvolvimento fonético histórico desde o protoindo-europeu até o irlandês antigo, através do protocelta. A primeira análise descritiva da fonologia do idioma foi Die araner Mundart. Ein Beitrag zur Erforschung des Westirischen, publicada em 1899 por Franz Nikolaus Finck, que desenvolveu um sistema próprio de transcrição fonética para descrever o dialetos falado pelos idosos das Ilhas de Aran. A isto seguiu-se em 1906 o trabalho de Edmund Quiggin sobre o dialeto de Meenawannia, em Donegal, também em sistema próprio de transcrição. Holger Pedersen, em 1909, publicou um estudo predominantemente histórico, mas também com alguma descrição fonética de dialetos modernos. Alfer Sommerfet publicou a partir de 1922 descrições de diversas variedades, tanto de Ulster como de Munster. O dialeto de Dunquin, na Península de Dingle, foi descrito por Sjoestedt em 1931.
A maioria dos dialetos irlandeses possui as seguintes consoantes, aqui demonstradas pelo Alfabeto Fonético Internacional:
Onglides e offglides
As consoantes largas, quando imediatamente antes de uma vogal anterior, recebem uma aproximante velar ([ɰ]) audível intermediária (chamada onglide), de forma que naoi (/n̪ˠiː/, "nove") e caoi (/kiː/, "modo"), a título de exemplo, são respectivamente pronunciadas [n̪ˠɰiː] e [kɰiː]. Esta semivogal é labializada após consoantes labiais, tornando-se uma aproximante labiovelar ([w]), de forma que buí (/bˠiː/, "amarelo") é pronunciado [bˠwiː]. Semelhantemente, consoantes delgadas recebem uma aproximante palatal intermediária quando imediatamente antes de vogais posteriores, de forma que tiubha (/tʲuː/, "grosso") é pronunciado [tʲjuː]. Quando uma consoante larga segue uma vogal anterior, uma semivogal [ə̯], chamada offglide, é introduzida entre ambas, formando um ditongo, de forma que díol (/dʲiːl̪ˠ/, "vender"), por exemplo, é pronunciado [dʲiːə̯l̪ˠ]. Paralelamente, quando uma consoante delgada segue uma vogal posterior, o onglide [i̯] é acrescentado entre ambas, de forma que áit (/aːtʲ/, "lugar") é pronunciado [aːi̯tʲ], óil (/oːlʲ/, "bebida" no caso genitivo) é [oːi̯lʲ], meabhair (/mʲəuɾʲ/, "entendimento") é [mʲəui̯ɾʲ] e dúinn (/d̪ˠuːn̠ʲ/, "para nós") é [d̪ˠuːi̯n̠ʲ].
Alofonia, redução e distinção
Os fonemas da língua irlandesa permitem algum nível de alofonia e reduções consonantais, a variar em dimensão entre variedades distintas do idioma. Especial relevância deve ser dada aos desenvolvimentos da antiga distinção entre consoantes coronais fortes e suaves do irlandês antigo, que assumiram diferentes contornos em cada dialeto local. /w/ (que pode ser escrito como ⟨bh⟩, ⟨mh⟩, ou ⟨v⟩) tem dois alófonos básicos: a aproximante labiovelar ([w]) e a fricativa labiodental sonora velarizada ([vˠ]). A distribuição destes alófonos varia entre dialetos: em Munster, geralmente se utiliza apenas [vˠ], enquanto em Ulster o uso [w] é geralmente homogêneo. Em Connacht, [w] aparece inicialmente antes de vogais (e.g. bhfuil [wɪlʲ], "é") e [vˠ] em outras posições (e.g. naomh [n̪ˠɰiːə̯vˠ] "santo"; fómhar [ˈfˠuːvˠəɾˠ] "outono"; e bhrostaigh [ˈvˠɾˠɔsˠt̪ˠə], "apressado").
O irlandês exibe alguns efeitos de sândi externos, isto é, mudanças fonológicas entre diferentes palavras, especialmente durante a fala rápida. A forma mais comum de sândi no irlandês é a assimilação, mediante a qual um som muda sua pronúncia para se tornar mais semelhante a outro som adjacente. Um tipo de assimilação ocorre quando uma consoante coronal larga torna-se delgada antes de uma palavra que se inicia com uma consoante delgada e vice-versa. A título de exemplo, compare-se a palavra isolada feall (/fʲal̪ˠ/, enganar) com a expressão d'fheall sé orm ([dʲal̠ʲ ʃə ɔɾˠəmˠ], "aquilo me enganou"). A consoante n também pode assimilar o ponto de articulação de uma consoante posterior, tornando-se labial, palatal ou velar. Por exemplo, compare-se ceann (/can̪ˠ/, "um") com ceann bacach ([camˠ ˈbˠakəx], "um lamentável") e ceann carrach ([caŋ ˈkaɾˠəx], "um encrustado"). Da mesma forma, uma consoante sonora no fim de uma palavra pode se tornar surda quando a próxima palavra começa com uma consoante surda, como na realização [l̪ˠuːpˠ ʃeː] para lúb sé ("ele curvou"), que ensurdece o som final de lúb (/l̪ˠuːbˠ/, "curvar").
Uma palavra irlandesa normalmente tem apenas uma sílaba tônica: a primeira. Algumas palavras, contudo, especialmente advérbios e empréstimos, são exceções, a exemplo de amháin (/əˈwaːnʲ/, "único") e tobac (/tˠəˈbˠak/, "tabaco"). Em Munster, o acento tônico é atraído a uma vogal longa ou ditongo na segunda ou terceira sílaba de uma palavra, como em cailín (/kaˈlʲiːnʲ/, "garota") e achainí (/axəˈnʲiː/, "pedido"). No agora extinto dialeto do leste de Mayo, o tom era atraído não apenas a uma vogal longa ou ditongo à maneira de Munster, mas também a vogais curtas antes de ll, m ou nn finais, quando esta palavra também estaria no fim de uma frase. Capall ("cavalo"), por exemplo, seria pronunciado [kaˈpˠɞl̪ˠ] em isolamento ou no fim de uma frase, mas [ˈkapˠəl̪ˠ] no meio.
Redução vocálica
Em geral, vogais curtas são todas reduzidas ao schwa ([ə]) em sílabas átonas, mas há exceções. Em Munster, se a terceira sílaba de uma palavra é tônica e as duas anteriores são curtas, a primeira das duas recebe um tom secundário, não sendo reduzida, como em spealadóir (/ˌsˠpʲal̪ˠəˈd̪ˠoːɾʲ/, "foiceiro"). Ainda em Munster, uma vogal curta átona não é reduzida se a sílaba seguinte contém uma vogal fechada longa tônica, como em ealaí (/aˈl̪ˠiː/, "arte") e bailiú (/bˠaˈlʲuː/, "reunir"). Em Ulster, vogais longas átonas são encurtadas, mas não reduzidas, como cailín (/ˈkalʲinʲ/, "garota") ou galún (/ˈɡalˠunˠ/, "galão").
Comportamento de /ax/
Em Munster, o acento tônico é atraído à segunda sílaba quando esta é /a/ seguida por /x/, desde que a primeira (e, se houver, a terceira) sílabas contenham vogais curtas, como em bacach (/bˠəˈkax/, "lamentável") e slisneacha (/ʃlʲəˈʃnʲaxə/, batata chips). Se, contudo, uma destas sílabas contém uma vogal longa ou ditongo, o acento é atraído à mesma, e o /a/ é reduzido a /ə/ como esperado, como em éisteacht (/ˈeːʃtʲəxt̪ˠ/, "escuta", "silêncio") e moltachán[nota 2] (/ˌmˠɔl̪ˠhəˈxaːn̪ˠ/, "castrão").
A seguinte tabela mostra algumas frases do dialeto das Ilhas de Aran, como documentado por Franz Nikolaus Flinck.
Por sua proximidade com as outras línguas gaélicas vivas (isto é, o escocês e o manês), o irlandês divide diversas características fonológicas com as mesmas, além de cultivar algumas semelhanças com o hiberno-inglês devido ao intenso contato linguístico ao longo da história dos dois idiomas na Ilha da Irlanda.
Gaélico escocês e manês
Muitos dos processos fonológicos encontrados no irlandês também existem nas outras línguas gaélicas: o escocês e o manês. A título de exemplo, ambas estas línguas contrastam consoantes largas e delgadas, mas apenas em ponto de articulação coronal e dorsal: o escocês e o manês assemelham-se um ao outro e diferenciam-se do irlandês tendo perdido o contraste em consoantes labiais. Ainda, encontros consonantais como /kn̪ˠ, ɡn̪ˠ, mn̪ˠ/ tornaram-se /kɾˠ, ɡɾˠ, mɾˠ/ em escocês e manês. Evidência de manuscritos sugerem que esta metafonia começou a desenvolver-se na Escócia no século XVI e estava largamente estabelecida na mesma e na Ilha de Man entre o fim do século XVII e o início do século XVIII. Alongar ou ditonguizar vogais antes de consoantes fortes também aparece em ambas as línguas.
Hiberno-inglês
A pronúncia da língua nativa irlandesa teve influência significativa em diversos fatores dos dialetos ingleses falados na Ilha da Irlanda, coletivamente conhecidos como hiberno-inglês. Por exemplo, as vogais do hiberno-inglês (com a exceção de /ɔɪ/), ainda que diferentes de dialetos ingleses de outras regiões, correspondam aos fones vocálicos irlandeses. As oclusivas irlandesas [t̪ˠ, d̪ˠ] são realizações comuns dos fonemas ingleses /θ, ð/, geralmente desfricativizados. Ainda, o hiberno-inglês permite o uso de /h/ em contextos permitidos no irlandês, mas proibidos em outros dialetos da língua inglesa, como antes de uma vogal átona (e.g. Haughey /ˈhɑhi/) e no fim de uma palavra (e.g. McGrath /məˈɡɹæh/). Ainda, há epêntese em palavras como film ([ˈfɪləm]) e form ([ˈfɒːɹəm]), o que aconteceria na fonotática do irlandês, mas não no inglês.


