Bula Régia
Bula Régia foi uma antiga cidade e atualmente é um sítio arqueológico situado no interior noroeste da Tunísia, no local antigamente chamado Hammam-Derradji, 10 km a norte de Jendouba, 52 km a sudoeste de Béja e 167 km a oeste-sudoeste de Tunes.
O sítio situa-se no vale médio do rio Medjerda (antigo Bagradas), uma região designada como "Grandes Planícies" pelos autores antigos, no sopé do Djebel R’bia, que se eleva a 649 metros de altitude e no meio de um rico território cerealífero que suscitou a criação precoce de uma cidade. A sua posição no cruzamento de um eixo leste-oeste, ligando Hipona a Cartago, e outro norte-sul, ligando o Sahel à costa mediterrânica a norte através das montanhas de Kroumirie foi posta em eviência por Yvon Thébert. Para a prosperidade da cidade contribui também substanciamlente a proximidade da cidade Simitthu (atualmente o sítio arqueológico de Chemtou) e das suas ricas pedreira de "mármore númida" (marmor numidicum ou giallo antico). Bula Régia beneficiou da infraestrutura construída para a exportação do mármore colorido de Simitthu, que foi também usada para exportar parte da sua produção cerealífera.
As origens berberes de Bula Régia são provavelmente anteriores à sua cultura púnica. Há numerosas provas de uma ocupação muito antiga espalhadas pelo sítio: uma necrópole megalítica situada a sul do parque arqueológico atual e particularmente bem conservada, túmulos de poço e estelas neo-púnicas. Foi também encontrada cerâmica grega datada do século IV a.C. No século III a.C., a cidade estava sob a influência de Cartago, o que é demonstrado pela existência de inscrições que revelam a presença de culto ao deus Ba'al Hammon e inumação de mortos em vasos funerários de tipo púnico. O museu local conserva elementos de um templo dedicado a Tanit. Um tesouro de moedas cunhadas em Cartago de eletro e de prata datado de c. 230 a.C. foi igualmente descoberto nas escavações da "Casa da Caça". As escavações fazem pensar que a cidade dessa época estava integrada no comércio mediterrânico, devido à diversidade geográfica dos achados arqueológicos.
À exceção dos edifícios mais importantes descobertos durante os estudos arqueológicos do início do século XX, sabe-se muito pouco sobre a planta da antiga cidade. Uma parte importante da cidade continua por escavar e as investigações com carácter mais metódico só se realizaram a partir da segunda metade do século XX. Nada se sabe sobre a cidade púnica, mas a cidade numida de planta ortogonal grego pode ser reconhecida. O processo de romanização proporcionou à cidade monumentos importantes, entre os séculos II e IV d.C., o que traduz a prosperidade da província. Não obstante conhecerem-se alguns elementos dos adereços monumentais, o urbanismo da cidade romana não é conhecido e as escavações realizadas ainda são muito parciais para se ter ideia do conjunto. Apesar disso, é possível perceber que o urbanismo passou mais por uma adaptação ao relevo do que pela aplicação de um esquema urbanístico pré-estabelecido. Há que ter em conta que a existência da antiga cidade deve ter condicionado a implantação dos monumentos, pelo que a planta de Bula Régia não pode ser comparada às fundações coloniais ex nihilo.
Arquitetura privada
Bula Régia é conhecida pelas suas casas residenciais, das quais uma vintena foi escavada, datadas a partir do reino do imperador romano Adriano, embora a maior das obras pareçam datar dos séculos III e IV. Apresentam a particularidade de disporem de um andar subterrâneo, que reproduz numa escala ligeiramente menor o andar do rés de chão. As cozinhas, que necessitavam de um espaço arejado, só se encontram na parte superior. Além de ser um espaço protegido contra o calor e o sol, o andar subterrâneo permitia aumentar o espaço sem ocupar mais área. Foram identificados três tipos andares subterrâneos, os quais se descrevem em seguida. Nas residências mais ricas, como a chamada Casa da Caça, as peças estão distribuídas em dois lados de um pequeno peristilo quadrado que é a fonte central de arejamento e iluminação, sendo este efeito acentuado por aberturas secundárias. Nas casas da África romana não há um átrio, mas sim um pátio a céu aberto como nas casas das almedinas árabes ou em algumas habitações púnicas. A Casa da Caça, que deve o seu nome à principal temática iconográfica dos seus mosaicos, foi construída segundo este tipo.
Edifícios religiosos
Os edifício religiosos da cidade antiga são muito mal conhecidos devido às escavações que se sucederam terem ficado incompletas. Além disso, os numerosos edifícios que poderão ter tido finalidade religiosa estão em muito mau estado para que se possa confirmar a sua função. O templo da trindade capitolina, elemento central de que qualquer cidade romana, está em muito mau estado. Situa-se na parte ocidental do fórum, sobre um pódio, mas só subsiste uma parte das bases das paredes, com 16,4 metros de comprimento por 15,5 de largura e 2.7 de altura. O templo de Apolo possui três santuários juntos, pois a divindade é o deus patrius poliade;[nt 4] com uma grande cela, um pátio com pórticos, mas sem o pódio característico da arquitetura religiosa romana, é considerado como representativo da arquitetura africana.
Edifícios de lazer
O sítio de Bula Régia dispõe de um teatro e de termas notáveis, ambos datados do século III. Foram também identificados vestígios de um anfiteatro, fora do recinto do parque arqueológico, mas estão em muito mau estados. Uma das razões para o desaparecimento do anfiteatro foi a construção da cávea sobre aterros compartimentados, uma técnica usada particularmente em África. O teatro de Bula Régia foi construído durante o reinado de Marco Aurélio e Lúcio Vero (r. 161–169) e depois renovado no século IV. Foi no teatro que em 399 Santo Agostinho teria pronunciado um sermão condenando a propensão dos habitantes da cidade para o lazer e para o teatro, futilidades ás quais os habitantes da cidade vizinha de Simitthu tinham já renunciado em parte.
Edifícios públicos
O fórum de Bula Régia, que ocupa uma área superior a 1 000 m², é rodeado por vários edifícios, alguns deles reconhecidos desde o início do século XX: o capitólio, o templo de Apolo a norte e uma basílica civil a leste. Além disso, foram descobertos vestígios epigráficos de outros elementos tradicionais desses locais das cidades romanas, como rostra ou tribunas para oradores e um tabulário. Também se encontraram elementos da cúria local reutilizados noutras construções. O acesso à praça pública, um espaço fechado e não aberto para as ruas, era feito por duas portas. A praça está rodeada por uma colunata em três dos seus lados. O estado de conservação dos diversos vestígios é medíocre, à exceção dos do templo de Apolo e o lajeado da praça está muito danificado. A basílica civil, cuja configuração visível data do século III, tem três naves de 25 por 6 metros e duas absides. A justiça era administrada por um magistrado local numa delas, com o piso sobrelevado.
Entre os achados arqueológicos no sítio de Bula Régia destacam-se vários mosaicos, alguns conservados in situ e outros no Museu Nacional do Bardo, em Tunes. Esses mosaicos constituem o expoente máximo da arte romana em pavimentos em todo o Norte de África.[carece de fontes?]
Obras in situ
O exemplo mais célebre das obras conservadas in situ encontra-se na "Casa de Anfitrite" e representa uma Vénus marinha e não Anfitrite, uma confusão frequente devido ao nome dado à casa. Os arqueólogos das primeiras escavações identificaram erroneamente a personagem feminina como Anfitrite, esposa de Neptuno, mas na realidade trata-se da representação mais antiga que se conserva de uma Vénus marinha, deusa da fecundidade e da renovação. O uso do motivo tem um fim apotropaico: a presença da majestade e beleza da divindade afastaria o mau-olhado. A deusa representada nua está rodeada de tritões, dois génios estão prestes colocar-lhe uma coroa na cabeça e dois puttos trazem-lhe um espelho e um cofre de joias. Na parte inferior da composição são representados numerosos peixes, cuja presença contribuiu para a primeira interpretação errónea da obra. O mosaico decora o triclínio subterrâneo.
Obras depositadas no museu local
O pequeno Museu de Bula Régia tem apenas duas salas, uma consagrada ao período púnico e númida e a outra ao período romano da cidade. Na primeira sala estão expostas algumas estelas púnicas e neopúnicas com representações do símbolo de Tanit ou representações humanas. Os vestígios de um templo presumivelmente dedicado a Tanit ocupa o centro, em particular um capitel jónico com motivos de um símbolo de Tanit numa das suas faces. Na segunda sala encontram-se caixões funerários esculpidos e a representação de um notável local.
Obras depositadas no Museu do Bardo
O Museu Nacional do Bardo conserva algumas obras mais importantes provenientes do sítio, as quais contribuem para a sua fama, tanto em estatuária como em mosaicos da época romana.[nt 6] As descobertas realizadas em Bula Régia são notáveis e foi demonstrada a existência de vários ateliers de escultores na pequena cidade durante a época imperial O conjunto descoberto durante as escavações do templo de Apolo em 1902–1905 é um elemento emblemático do museu. Estas estátuas destinadas ao culto devem ter sido escondidas numa época tardia. Uma estátua de Apolo citarista datada do século II é a maior delas, com uma altura superior a três metros e com vestígios de policromia. O deus está numa postura lânguida, com o braço direito segurando a cabeça e o braço esquerdo apoiado numa lira. Sobre o instrumento é representado um bárbaro que afia a sua faca com que no mito é usada para punir Mársias, o sátiro que ousou desafiar o deus num concurso de música. Uma estátua do Saturno africano (Ba'al Hammon) coroado e segurando uma cornucópia com 1,92 m de altura encontra-se ao seu lado, síntese da mitologia greco-romana e de elementos locais. Uma estátua de Atena Polias (protetora das cidades) apresenta a deusa numa postura clássica, com um capacete, uma cabeça de Medusa no peito e uma lança.
A areia protegeu as ruínas abandonadas que foram esquecidas até que os primeiros exploradores europeus se interessaram por elas. A menção mais antiga que se conhece desses exploradores piorneiros é de 1853. Estes precursores descreveram alguns elementos que desapareceram depois e cuja identificação e por vezes a localização são problemáticas. As escavações das sepulturas, das basílicas e das termas de Júlia Mêmia começaram nos últimos anos do século XIX. Contudo, as primeiras escavações mais sistemáticas só começaram em 1906, em parte estimuladas pela destruição da entrada monumental da cidade romana devido a trabalhos na via pública. Entre 1909 e 1924, foi levada a cabo uma grande escavação nas grandes termas. O templo de Apolo foi escavado em 1910, enquanto que o fórum foi escavado em entre 1949 e 1952. Em 1955, houve obras que estabilizaram as ruínas das termas, enquanto que algumas ruas foram desenterradas entre 1957 e 1961, permitindo a passagem entre monumentos e dando uma ideia da configuração da antiga cidade. Estes trabalhos foram realizados sem que tenham havido verdadeiras investigações científicas, pois o principal objetivo do jovem estado tunisino era empregar uma parte importante dos desempregados locais.


