Arariboia
Arariboia foi um chefe do povo temiminó, pertencente à etnia tupi, que habitava o litoral brasileiro no século XVI.
Filho do chefe Maracajá-Guaçu, principal chefe dos temiminós, Arariboia foi o líder dos temiminós durante o confronto de temiminós e portugueses contra tamoios e franceses pelo controle da Baía de Guanabara. Depois de seu grupo ser expulso do Rio de Janeiro pelos inimigos indígenas e se mudar para o Espírito Santo, fundou a região de Carapina com a aldeia de São João. Ao ser batizado pelos jesuítas, recebeu o nome cristão de Martim Afonso de Sousa, em homenagem ao donatário da Capitania de São Vicente, Martim Afonso de Sousa. Ao retornarem à Baía de Guanabara juntamente com os portugueses, foram personagens fundamentais na conquista daquele espaço. Ele foi o primeiro a entrar no baluarte inimigo no confronto de 20 de janeiro de 1567, em Uruçumirim, no atual outeiro da Glória. Empunhava uma tocha, com a qual explodiu o paiol de pólvora e abriu caminho para o ataque. Em um episódio com contornos de lenda, Arariboia teria atravessado as águas da baía a nado para liderar a ofensiva. O fato é que, com o seu apoio, a operação portuguesa contra os franceses foi um sucesso, tendo os portugueses obtido assim o controle sobre a Baía de Guanabara.
Em 1556, os temiminós que viviam na ilha de Paranapuã (atual Ilha do Governador), foram expulsos de suas terras pelos seus tradicionais inimigos tamoios. Dentre eles, estava o Arariboia. Eles pediram ajuda aos portugueses e o governador Vasco Fernandes Coutinho, aconselhado pelo padre Luís da Grã, convidou os temininós a seguirem para a Capitania do Espírito Santo, enviando quatro embarcações para a viagem. Ao chegarem às terras capixabas, os temiminós reorganizaram a sua aldeia e foram catequizados pelos jesuítas. Do ponto de vista geopolítico, a Baía de Guanabara era uma região estratégica. O domínio de Portugal sobre ela era essencial para o país controlar a rota rumo ao Oceano Índico, além de impedir possíveis interferências no tráfego das naus portuguesas que passavam pelo litoral brasileiro. No entanto, a esquadra francesa se instalara na baía em 1555, ocupando a ilha de Serigipe (a atual ilha de Villegagnon), onde ergueram o Forte Coligny. Para se contrapor às forças portuguesas, o comandante dos franceses, Nicolas Durand de Villegagnon, firmou uma aliança com os tamoios, que se dispuseram em cerca de 70.000 homens naquela faixa do litoral. O acordo impediu que as forças enviadas de Salvador por Mem de Sá, governador-geral do Brasil, em 1565, conseguissem uma vitória definitiva contra os franceses. Com a unidade da colônia correndo perigo, Mem de Sá mandou vir do reino seu sobrinho Estácio de Sá e o incumbiu de adotar a mesma estratégia dos franceses: arregimentar apoio indígena.
Os descendentes de Arariboia formaram uma importante linhagem de lideranças indígenas, com capital político e econômico durante o período colonial. Dentre seus descendentes figuram:
Violante do Céu Soares de Souza
Violante do Céu Soares de Souza foi uma mulher indígena descendente de Arariboia, casada com Domingos de Araújo. Ela doou as terras para a construção de uma capela em 1652, origem da atual Igreja de São Domingos de Gusmão, localizada em Niterói, na frente do Campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense.
José Luíz de Arariboia Cardoso
José Luís do Nascimento Cardoso fundou a Comissão Glorificadora a Martim Afonso Arariboia, também referida como Devoção a São Lourenço, da qual foi presidente. José Luiz se apresentou como sendo da 12ª geração de descendentes do chefe temiminó Arariboia, o que foi utilizado como justificativa para assinar os trabalhos da Comissão como José Luís de Arariboia Cardoso. Foi arquivista e zelador da Igreja de São Lourenço dos Índios, desempenhando um papel fundamental na organização dos trabalhos da Comissão Glorificadora O feriado de 22 de novembro passou a ser "Dia de Arariboia" na cidade de Niterói a partir da reivindicação de José Luís, tendo se tornado feriado oficial a partir de 1909. Desde 2021, a data não é mais considerada feriado municipal. Outra importante contribuição da Comissão a partir da proposição de José Luiz foi a Transferência da posse da Igreja de São Lourenço dos Índios para a municipalidade de Niterói conforme a Portaria Nº 476, de 13 de junho de 1934, quando José Luíz de Arariboia Cardoso passou a ocupar a posição de arquivista e zelador enquanto funcionário público municipal. Se hoje pensamos em Arariboia como fundador mitológico de Niterói, isso se dá tanto à figura de José Luiz, como dos trabalhos da Comissão Glorificadora, que foi dissolvida em 1915, ainda que não se saiba a razão.
Arariboia é considerado o fundador da cidade de Niterói, e também foi fundamental para a defesa da cidade do Rio de Janeiro, junto a Estácio de Sá durante um ataque as paliçadas aos pés do Pão de Açúcar e futuramente continuou a manter a segurança no local onde hoje se encontra a Praça XV. Arariboia é considerado então um dos fundadores do Rio de Janeiro, como citado pelo jornalista Rafael Freitas da Silva, o que vai de acordo com a citação de Fernão Cardim no busto de Arariboia, em frente à Igreja São Lourenço dos Índios (Niterói), com as frases "Sem elle nunca se tomaria o Rio de Janeiro" e "Capitão Mor índio Martim Affonso de Souza O Ararygboia Fundador da Cidade do Rio de Janeiro 1507 1568 e Nictheroy 1525". Ao longo do tempo, a figura de Arariboia foi resgatada de diversas formas em torno da memória de Niterói. A origem da cidade remonta à concessão de terras ao líder temiminó Arariboia para a defesa das invasões francesas. A aldeia teve sua posse solene em 1573, quando recebeu a denominação de São Lourenço dos Índios. Apenas em 1819 passou a ser chamada de “Nictheroy”, água escondida em tupi-guarani.
Monumentos em homenagem a Arariboia
O Largo Martim Afonso, também conhecido como Largo do Mercado, existiu no centro de Niterói e foi urbanizado em 1911, recebendo o nome de Praça Arariboia. Em junho de 1847, foi inaugurado no local um chafariz com o nome Martim Afonso. Após transferências de local ao longo dos anos, o chafariz foi desmontado em 1953, e suas peças desapareceram. Houve tentativas posteriores de sua reconstrução, mas não foram bem sucedidas. Uma estátua em sua homenagem, erguida em 1965 e de autoria do escultor Dante Croce, pode ser vista na praça, em frente à estação das barcas, também conhecida como Estação Arariboia. Em abril de 2025, o monumento foi realocado a cem metros de distância de seu ponto original, na mesma Avenida Rio Branco. A transferência da obra foi motivada pelas intervenções de revitalização e reurbanização da área central do município. Mesmo após a mudança de local, a estátua mantém os olhos voltados para a Baía de Guanabara, preservando a representação simbólica de proteção à cidade de Niterói. A antiga sede da prefeitura municipal tem o nome de Palácio Arariboia em sua homenagem, edifício construído no local antes ocupado pelo antigo Largo do Pelourinho.
A memória popular
A memória popular é um aspecto importante para a construção histórica de um lugar. Partindo deste princípio, o Laboratório Oral de História e Imagem da Universidade Federal Fluminense (LABHOI-UFF) organizou uma série de pesquisas sobre o bairro São Lourenço, que incluiu registros fotográficos e entrevistas com os moradores.[carece de fontes?] A maior parte das entrevistas foram feitas em 2003 por alunos da graduação em História da UFF. A professora Hebe Mattos, integrante do Laboratório de História Oral e Imagem ministrava aulas de História Oral e a realização dessas entrevistas foi parte do trabalho final da disciplina. A professora Maria Regina Celestino de Almeida, do departamento de História da UFF, também participou das atividades. Os estudantes Lohana Brito de Freitas, Marília Nogueira dos Santos e Tarso Tavares Vicente foram os responsáveis pelas entrevistas de duas irmãs: Maria do Carmo Pinto Rodrigues e Gilda Pinto. Entre as várias histórias sobre a infância e as mudanças no bairro ao longo dos anos, essas mulheres contaram que os moradores locais as reconheciam como as “descendentes” de Arariboia. Segundo as irmãs, a família falava pouco sobre o passado, mas afirmavam que a bisavó delas fazia parte da sétima geração direta de descendentes do Arariboia. Por esse motivo, elas eram reconhecidas pelas pessoas como tendo “sangue de Arariboia". Maria do Carmo conta também que durante as festividades que aconteciam no bairro e na cidade de Niterói, a figura desse indígena era sempre trazida como símbolo fundador desses locais.


