Al-'Awasim
Al-'Awāṣim era um termo árabe utilizado para se referir ao lado muçulmano da zona fronteiriça entre o Império Bizantino e os Califados Omíada e Abássida na Cilícia, no norte da Síria e na Alta Mesopotâmia. Começou a ser utilizado juntamente com a primeira onda das conquistas muçulmanas e durou até o meio do século X, quando a região foi invadida pelos bizantinos. A região abrangia as marcas de vanguarda, uma cadeia de fortalezas conhecidas como al-thughūr e as regiões imediatamente atrás das fronteiras, conhecidas como al-'awāṣim também. Do lado bizantino, o equivalente às marcas muçulmanas eram os distritos conhecidos como clisuras e as guarnições de fronteira chamadas de ácritas.
Já a partir do final da década de 630, após a rápida conquista muçulmana da Síria, uma larga zona, não reivindicada pelos bizantinos e nem pelos árabes e virtualmente deserta (conhecida em árabe por al-Ḍawāḥī, "terras exteriores" e em grego como τὰ ἄκρα, ta akra - "as extremidades"), emergiu entre as duas potências na Cilícia ao longo dos montes Tauro e Anti-Tauro. Tanto o imperador bizantino Heráclio (r. 610–641) quanto o califa bem guiado Omar (r. 634–644) destruíram tudo o que havia na região tentando transformá-la numa barreira efetiva entre seus domínios. Mesmo assim, o objetivo final dos califas permanecia sendo a conquista definitiva do Império Bizantino como eles já tinham feito na Síria, no Egito e no Norte da África, e foi somente depois do fracasso do Segundo Cerco Árabe de Constantinopla em 717-718 que obrigou-os a mudar de plano: embora os raides na Anatólia continuassem, o objetivo de conquista foi abandonado e a região de fronteira começou a adquirir uma forma mais ou menos permanente. Pelos dois séculos seguintes, fortalezas na região podiam mudar constantemente de mãos, mas as linhas gerais da fronteira árabe-bizantina permaneceram essencialmente inalteradas. Por isso, o termo al-thughūr, que inicialmente significava "fissura, abertura" e era o nome de fato das regiões fronteiriças, passou a significar "fronteira" e a ser empregado em frases como "Thughūr al-Islām" ("fronteira do islã") ou "Thughūr al-Rūmīya" ("fronteira com os romanos (Rûm)").
Expedições anuais
Já pelo século IX, as expedições militares árabes contra os bizantinos lançadas a partir da zona de fronteira haviam adquirido um caráter quase ritual e eram minuciosamente organizadas. De acordo com o geógrafo Cudama ibne Jafar, o padrão habitual das incursões árabes incluía uma expedição inicial na primavera (entre 10 de maio e 10 de junho), época de pasto abundante para os cavalos, seguida, após mais ou menos um mês de descanso, por um raide de verão (10 de julho a 8 de setembro), geralmente a principal campanha anual, e, à vezes, por um raide de inverno em fevereiro-março Nas palavras do estudioso Hugh N. Kennedy, "o ṣā’ifa (raide de verão) era tão importante para as funções simbólicas e rituais do califa quanto a organização e a provisão de líderes para a haje (peregrinação) anual para Meca". Tudo isso custava muito dinheiro ao tesouro abássida. Sob Harune Arraxide, a cobrança de imposto no setor da Cilícia coletou 100 mil dinares de ouro, que foram gastos em obras públicas, pagamento de salários, espionagem e outras atividades. Esta soma não inclui o custo das expedições, que geralmente estava entre 200 e 300 mil dinares de ouro. A receita do setor da Mesopotâmia era de aproximadamente 70 mil dinares, a qual se somava entre 120 e 170 mil dinares anuais, também gastos em fortificações e no pagamento do exército.
Emirados independentes
No século IX, o controle abássida sobre o Thughūr evoluiu para um conjunto de emirados semi-independentes, sediados principalmente em Tarso, Melitene e Erzurum. Após 842, com o declínio do poder abássida, eles foram abandonados à própria sorte para se defenderem de um ressurgente Império Bizantino. A Batalha de Lalacão, em 863, eliminou o poder de Melitene, alterando a balança de poder na região e começando a gradual invasão bizantina nas fronteiras árabes. Com o início de um prolongado período de crise no Califado Abássida após 928, o controle muçulmano das cidades fronteiriças passou para os iquíxidas e os hamadânidas. Os bizantinos, comandados por João Curcuas, conquistaram o setor da Mesopotâmia na década de 930 e, embora o emir de Alepo hamadânida, Ceife Adaulá (r. 946–967), tenha conseguido interromper a invasão, sua vitória foi temporária: em 964-965, o imperador Nicéforo II Focas (r. 963–969) capturou o setor da Cilícia e, logo depois, Antioquia, e transformou o Emirado de Alepo num estado vassalo.
O al-thughūr wa-l-'awāṣim mameluco tinha como objetivo defender a Síria dos estados turcos da Ásia Menor e do Cáucaso, incluindo, num estágio avançado, o Império Otomano. Assim como o modelo árabe anterior, o Thughūr estava dividido em duas marcas, a Síria e a Mesopotâmia, e também contava com uma zona na retaguarda ao longo do norte da Síria. Os mamelucos encarregaram a defesa da marca Síria (e da Cilícia) ao beilhique turco vassalo dos ramadanidas, enquanto que o beilhique dos dulcadíridas fazia o mesmo papel no setor mesopotâmio. Para garantir o controle sobre a região fronteiriça e para manter os beilhiques separados e sob controle, os mamelucos também mantinham guarnições em sete importantes locais: Tarso, Aias, Serfendikar, Sis, Darende, Malatia e Tefrique Calcaxandi relata o nome das subdivisões (niyābāt) do Thughūr mameluco assim: oito para o setor sírio (Malatia, Tefrique, Darende, Elbistão, Aias, Tarso e Adana, Serfendikar e Sis) e três para o mesopotâmio (al-Bira, Qal'at Ja'bar e Arrua).


