Aimé-Adrien Taunay
Aimé-Adrien Taunay foi um artista francês que se mudou ainda jovem para o Brasil. Seu trabalho principal envolveu a ilustração científica, realizada em destacadas viagens de cunho exploratório realizadas no século XIX. Aimé-Adrien era filho de Nicolas-Antoine Taunay, personalidade que participou da Missão Artística Francesa e organizou a fundação da Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro.
Aimé-Adrien pertencia à família francesa Taunay, a qual emigrou para o Brasil, radicando-se em 1816. Na família encontravam-se diversos artistas, com vocações envolvendo a pintura, a escultura e a escrita. Seu pai, que atuou também como seu professor, era Nicolas-Antoine Taunay (1755–1830), francês trazido ao Brasil pela Missão Artística Francesa, distinto pintor de paisagens do Rio de Janeiro e de cenas urbanas do cotidiano carioca. O talento de Adrien para as artes desenvolveu-se por meio do aprendizado com ele, e também por meio de estudos próprios. Aimé-Adrien chegou ao país com 13 anos, acompanhado pelo pai, que na época contava 61 anos, pela mãe e por quatro irmãos. Seu irmão mais novo Félix Émile Taunay tornou-se também pintor, e inclusive professor de pintura de paisagem na Academia Imperial, substituindo o cargo que tivera seu pai. Sua principal atuação profissional vinculou-se com a ilustração científica. Aimé-Adrien exerceu tal função participando de expedições que possuíam objetivos vinculados à ciência. Em 1818, ou seja, com apenas 15 anos, realizou a primeira destas empreitadas. Foi contratado pelo naturalista Louis-Claude de Saulces de Freycinet para ser o ilustrador em uma de suas mais importantes viagens. Este geólogo e geógrafo francês já havia realizado uma expedição científica às terras austrais, nos primeiros anos do século XIX, e em 1817 recebeu a missão de comandar uma nova viagem exploratória, desta vez uma Circum-navegação. Esta jornada foi realizada a bordo da corveta Uranie, durou dois anos e enfrentou, sem perdas em relação à equipagem e aos trabalhos científicos, um naufrágio nas Ilhas Malvinas. Essa missão, apesar de não ser recordada entre as principais da sua categoria, teve êxito em seus objetivos técnicos.
O século XIX foi marcado por diversas expedições navais que buscavam explorar territórios pouco conhecidos. Partiram da Europa e da América diversas embarcações com finalidades científicas, que muitas vezes continham também propósitos militares e políticos. O levantamento e registro de especificidades biológicas, geográficas e sociais das localidades visitadas era essencial para o êxito das viagens. Por esta razão, era essencial que entre a tripulação houvesse ao menos um ilustrador, ou desenhista. Vale lembrar que neste período ainda não havia sido disseminado o uso da fotografia. Além disso, várias expedições, incluindo aquelas nas quais Aimé-Adrien participou, ocorreram ainda antes da primeira fotografia reconhecida, a qual remonta ao ano de 1826. O ilustrador destas expedições, realiza, portanto, um trabalho de cunho científico. Isso pode ser percebido pelos produtos produzidos - muitas das vezes pranchas demonstrando espécies vegetais ou animais, realizadas com precisão, riqueza de detalhes e realismo. Trata-se, evidentemente, de um trabalho artístico, mas imbuído de uma finalidade prática de registro. Há também demonstrações de paisagens, naturais ou urbanas, e de costumes da população - servindo para a recordação e estudo de questões geográficas e antropológicas.
Esta viagem foi programada com o propósito de dar a volta ao mundo, e com isso possibilitar o estudo sobre o formato do globo terrestre, o magnetismo, e questões de meteorologia. Era esperado também que as descobertas da viagem pudessem contribuir para os conhecimentos já existentes sobre a latitude e a longitude. Outro objetivo seria o levantamento dos aspectos naturais e culturais dos locais pelos quais se passasse. Esta tarefa seria possibilitada pelo trabalho de ilustração científica, neste caso desempenhada por Aimé-Adrien, assim como pela coleta de itens para museus. A embarcação selecionada para tal façanha era denominada Uranie e partiu de Toulon, na França, sob o comando de Louis-Claude de Saulces de Freycinet, em 17 de setembro de 1817. Em dezembro a corveta chegou ao Rio de Janeiro e seu comandante contratou Aimé-Adrien para prosseguir junto à tripulação. No dia 30 de janeiro de 1818 a expedição seguiu rumo à África do Sul, dando o primeiro passo rumo a uma volta ao mundo, no sentido oeste-leste. Foram visitados a Austrália, o Timor Leste, as Ilhas Marianas (Mar das Filipinas), as Ilhas Havaianas e outras ilhas do pacífico. A excursão foi fatalmente consumada por um naufrágio ocorrido nas Ilhas Malvinas. Este, felizmente, não deixou mortos nem gerou perda do material produzido durante a viagem.
Afresco retratando o "Triunfo de Baco"
Retornando ao Rio de Janeiro, após o episódio do naufrágio junto ao Uranie, Aimé-Adrien seguiu por um período de estudo, durante o qual podem ser destacadas algumas produções artísticas. Especialmente, o artista se propôs a pintar, diretamente em paredes, uma cena mitológica - o "triunfo de Baco". Tal façanha, que se dá entre os anos de 1820 e 1824, toma lugar na casa de seu pai, localizada nas proximidades da "Cascatinha da Tijuca", também conhecida como "Cascatinha Taunay". Essa casa foi demolida, portanto o afresco não pode mais ser contemplado. Uma vez que já não é possível visualizar a imagem produzida, pode-se compreender o tema, já antes imortalizado por Diego Velázquez, a partir do original produzido por este pintor espanhol, entre 1628 e 1629. Esta obra encontra-se hoje exposta no Museu do Prado.
Produção do caderno de viagem
Ao final do período da pintura deste afresco, Aimé-Adrien realizou uma viagem que lhe rendeu desenhos e um diário. Entre os dias 18 de junho e 03 de julho de 1824 esteve em uma jornada rumo à região do Morro Queimado, onde foi instalada Nova Friburgo, cidade que representa uma das primeiras experiências de colonização estrangeira no centro-sul. É provável que essa "expedição" feita pelo jovem Taunay tenha sido financiada por franceses vinculados ao contexto do estabelecimento da corte portuguesa no Brasil - fato que ocorreu em 1808. Afinal, após tal episódio, foi incentivada a expansão agrícola do Rio de Janeiro capital rumo a esta região, de modo que negociantes e empreendedores franceses estariam buscando aprofundar os conhecimentos sobre as propriedades agrícolas e as produções passíveis de ser implementadas, e as descrições textuais e visuais providenciadas por Aimé-Adrien poderiam auxiliar neste tipo de pesquisa. Complementarmente, esse trabalho de reconhecimento seria útil aos interesses vigentes do ministro dos negócios estrangeiros da França, Chateaubriand. As instruções passadas por este ao Conde de Gestas, representante diplomático francês estabelecido no Rio de Janeiro, referiam-se a uma ampliação da influência francesa, contra as pressões da Grã-Bretanha, buscando também vantagens comerciais nas importações, especialmente de açúcar e café, já que o Brasil competia no mercado internacional com a produção francesa do Caribe. É possível estabelecer esta relação também devido à proximidade entre a "Fazenda Mandioca", pertencente ao Conde de Gestas, a qual funcionava como um centro de reuniões de negociantes e artistas franceses radicados no Rio de Janeiro, e a propriedade da família Taunay, ambas, portanto, instaladas na Tijuca. De modo conectado, o diário de Taunay relata a partida rumo à região serrana logo após um jantar na casa do Conde de Gestas.
Outros ocorridos durante o período em terra
No período em que residiu no Rio de Janeiro, entre 1820 e 1825, Aimé-Adrien também viu seu pai, Nicolas-Antoine Taunay, organizar a fundação da Academia Real de Belas Artes, e posteriormente retornar à França junto com alguns membros da família. Adrien e dois de seus irmãos, contudo, permaneceram na capital brasileira. Um deles, Félix Émile, inclusive iria se destacar, na função de pintor e professor, nesta instituição recém-inaugurada, a qual, em 1826, se torna a Academia Imperial de Belas Artes.
Após ficar cerca de cinco anos em terra, Aimé-Adrien partiu para a segunda jornada em que trabalharia como ilustrador. Agora se tratava de um percurso fluvial, a Expedição Langsdorff, na qual o jovem Taunay adentrou, contando com um pouco mais de idade, mas ainda jovem, em 1825. Semelhantemente aos objetivos da jornada realizada no Uranie, esta missão tinha como proposta o estudo e documentação de paisagens e espécimes naturais, questões geográficas e etnológicas. Segundo a explicação concedida por Langsdorff, os objetivos eram "descobertas científicas, pesquisas geográficas, estatísticas e outras, estudo dos produtos ainda pouco conhecidos no comércio, coleções de todos os reinos da natureza que eu possa coletar e que possam concorrer para o enriquecimento das atuais coleções do Império". A região a ser explorada era o interior do Brasil, incluindo as regiões de Minas Gerais, Mato Grosso e Amazonas. A missão foi chamada também de "viagem fluvial do Tietê ao Amazonas", pois se propôs a realizar este distinto trajeto, o qual tinha no rio Guaporé seu ponto crucial. A região da "fronteira do Guaporé" foi demarcada em meio às negociações do Tratado de Madri, de 1750, dividindo os territórios pertencentes à Espanha daqueles de Portugal. No rio Guaporé as bacias Platina e Amazônica quase se tocam, e foi inclusive neste marcante local que Aimé-Adrien veio a falecer.
Morte de Aimé-Adrien durante a expedição
Aimé-Adrien comunicava-se com seus irmãos via correspondências, e por meio delas pode-se verificar aspectos da viagem, por exemplo a sua falta de organização, o que atribulava o artista. Em carta escrita em 18 de dezembro de 1827, a última que enviou, atestou que "a expedição está tão confusa que impossível é fazer conjecturas sobre seu futuro...". Neste documento demonstrou também a pouca felicidade que sentia e revelou sua personalidade, parecendo até de certo modo prever a fatalidade que viria a ocorrer. Ele finalizou esta derradeira carta escrevendo: "sejam felizes, é o que meu coração vos deseja e não se esqueçam que eu sou infeliz. Meu caráter é melancólico, embora eu mostre exteriormente, uma aparência de alegria". A morte de Aimé-Adrien, em janeiro de 1828, ocorreu em Vila Bela da Santíssima Trindade, em Mato Grosso. Essa cidade, que fora a primeira capital deste Estado, carregara anteriormente o nome de Vila Bela, apenas, e era referenciada como "Vila Bela de Mato Grosso". O motivo do falecimento foi um afogamento no Rio Guaporé, enquanto o artista buscava atravessá-lo a nado. Algumas fontes dizem a travessia ter sido encarada a cavalo. A adversidade foi comunicada à família por meio de uma carta, escrita por Louis Riedel - o mesmo botânico que havia acompanhado Taunay na divisão da expedição em dois grupos. Esta se encontra conservada, e atualmente está em posse do Museu Paulista. Segue um trecho da mesma, a qual atesta o comportamento impetuoso do jovem artista. Riedel relatou detalhadamente o contexto em que está contida a atitude de Aimé-Adrien que levaria a seu falecimento - o retorno do presídio Casalvasco, nas proximidades com a fronteira da Bolívia, que haviam ido visitar - e os procedimentos relativos a seu funeral:
Produção artística de Aimé-Adrien
Langsdorff deixou um testemunho sobre o artista: Durante o período de um pouco mais de um ano em que Aimé-Adrien participou da jornada, ele criou cerca de 230 registros, demonstrando aspectos das populações e da natureza. O ilustrador foi elogiado não só por Langsdorff, sendo caracterizado como um artista extremamente talentoso, capaz de observações rápidas e precisas, especialmente se estava impressionado pelo que via, mas também por seu colega Hercule Florence. Este escreveu que Aimé-Adrien possuía "brilhantes disposições para a pintura", e que "tinha por certo diante de si auspiciosa carreira". Ele relatou seu prematuro falecimento ser uma perda não só à família, mas às belas-artes.
Catalogação das obras e exposições
A catalogação das obras que haviam sido produzidas por Taunay, assim como daquelas deixadas por Rugendas, foi realizada pelo segundo ilustrador da expedição, Hercule Florence. O conjunto das ilustrações, e do restante de material produzido na viagem, são uma contribuição para uma noção mais apurada de toda a diversidade que compõe o vasto território brasileiro. A diretora da filial de São Petersburgo do Arquivo da Academia de Ciências da Rússia, I. V. Túnkina, afirma que: "Segundo Langsdorff, a própria noção de 'Brasil' tem um sentido tão amplo quanto de 'Europa', mas a ciência mundial tinha de percorrer um longo caminho histórico até tomar plena consciência dessa ideia".
Acervos iconográficos são fontes de informações que fundamentam e complementam pesquisas realizadas em inúmeras áreas do conhecimento. A produção imagética de Aimé-Adrien, portanto, pode vir a servir para fundamentar diversos estudos, especialmente nas áreas da arte, da botânica, da geografia e da etnografia. Por se tratar de obras produzidas predominantemente nos contextos das expedições, vale, evidentemente, ter cautela ao se assumir que todos os detalhes retratados sejam verdadeiros, especialmente quando o conteúdo da ilustração for cenas históricas ou paisagens. De qualquer maneira, dentro da categoria de imagens produzidas por viajantes, Aimé-Adrien encontra-se em um grupo dos que persegue a verossimilhança, o que torna sua obra bastante profícua para ser utilizada em pesquisas científicas.


