Adjuvilo
Adjuvilo é uma língua construída classificada como esperantido — isto é, um projeto linguístico derivado do Esperanto —, mais especificamente uma reforma do Ido. Foi concebida com o objetivo de simplificar ainda mais o Ido, eliminando o acusativo morfológico, adotando o plural em -s para substantivos e adjetivos, e abolindo a voz passiva sintética em favor de uma construção analítica. A língua foi publicada em 1.º de agosto de 1910 em Paris pelo esperantista francês Claudius Colas (1884–1914), sob o pseudônimo "Profesoro V. Esperema".
Antecedentes: a Délégation e a cisão Esperanto–Ido
O movimento em favor de uma língua auxiliar internacional ganhou impulso no final do século XIX com a publicação do Esperanto por L. L. Zamenhof em 1887.:p. 107 Em 1901, os filósofos Louis Couturat e Léopold Leau fundaram a Délégation pour l'Adoption d'une Langue Auxiliaire Internationale (DAL), que em outubro de 1907 reuniu uma comissão em Paris para avaliar os projetos existentes. A comissão rejeitou o Esperanto sem reformas e recomendou um projeto anônimo apresentado sob o pseudônimo "Ido", mais tarde revelado como obra de Louis de Beaufront, que havia trabalhado em conjunto com Couturat.:p. 145–150 Esse fato desencadeou uma cisão no movimento esperantista. Segundo a estimativa do historiador Ulrich Lins, cerca de 20% dos principais promotores do Esperanto e apenas 3% a 4% dos esperantistas comuns aderiram ao Ido.
Publicação do Adjuvilo
Em 1.º de agosto de 1910, Claudius Colas — que era na época redator da revista católica esperantista Espero Katolika — assinou a introdução do panfleto L'Adjuvilo : Langue auxiliaire internationale basée sur le maximum d'internationalité, de simplicité et d'harmonie. Système Ido mis au point, editado pela Librairie Internationale Gamber, em Paris. O autor usou o pseudônimo "Profesoro V. Esperema", mas a autoria de Colas é incontestada. No prefácio, Colas critica duramente Couturat e de Beaufront por terem ficado "a meio caminho" na aplicação dos princípios de simplificação e internacionalidade, argumentando que o Ido mantinha complicações desnecessárias, como a voz passiva sintética e as exceções ao acento tônico.:p. 1–10 O projeto do Adjuvilo, ao contrário, propunha uma reforma mais radical, eliminando o acusativo, adotando o plural em -s em vez de -i, e abolindo por completo a flexão verbal de pessoa e número.:p. 21–28 O próprio Colas encerra a introdução com a afirmação de que "cedo ou tarde, a forma do Adjuvilo se imporá ao Ido — isso é certo".:p. iv
Teoria da "sabotagem" do movimento idista
Entre comentadores do movimento das línguas auxiliares, é frequentemente aventada a hipótese de que Colas, sendo um esperantista convicto, teria criado o Adjuvilo com o intuito de semear a discórdia no movimento idista, que na época vivia um período de crescimento. Essa interpretação, no entanto, não encontra respaldo em fontes primárias — o próprio Colas, no panfleto, apresenta o Adjuvilo como uma reforma genuína e urgente do Ido, destinada ao uso efetivo, e não como um projeto de sabotagem.
Claudius Colas (Saint‑Huruge, 29 de novembro de 1884 — Batalha do Marne, 11 de setembro de 1914) foi um esperantista francês, redator da revista Espero Katolika (1908–1911) e cofundador da IKUE em 1910. Morreu aos 29 anos durante a Primeira Batalha do Marne, na Primeira Guerra Mundial, vítima de um ferimento de tiro na cabeça. Além do Adjuvilo, Colas publicou contos em Esperanto, como "Kristnasko" (Natal) e "Epizodo de milito" (1911).
Fonologia e ortografia
O Adjuvilo utiliza as 26 letras do alfabeto latino básico (idêntico ao inglês) e três dígrafos: ch [tʃ], qu [kw]~[kv] e sh [ʃ]. O Ido tinha quatro dígrafos (incluindo gu), que Colas eliminou.:p. 21 As vogais são cinco: /a, e~ɛ, i, o~ɔ, u/, com as médias podendo ser abertas ou fechadas conforme a preferência do falante. As consoantes são /m, n, p, b, t, d, k, ɡ, t͡s, t͡ʃ, f, v, s, z, ʃ, ʒ, h, l, ɾ/, às quais se somam as semivogais /j, w/. Os ditongos /au, eu/ ocorrem apenas em raízes, não através de afixos. O acento tônico recai sempre na penúltima sílaba, sem exceções — ao contrário do Ido, que mantinha exceções em palavras terminadas em -ar, -ir, -or e -al.:p. 25
Pronomes
O pronome vu é usado como forma de cortesia. O reflexivo su/sua só se aplica à terceira pessoa e refere-se ao sujeito da oração.:p. 25–26
Verbos
Os verbos do Adjuvilo não flexionam por pessoa nem por número. Os tempos e modos são marcados por sufixos invariáveis::p. 26–27 Os particípios ativos são -ant (presente), -int (passado) e -ont (futuro); os particípios passivos são -at, -it e -ot. A voz passiva é sempre analítica, formada pelo verbo auxiliar estar seguido do particípio passivo: Essa construção substitui a voz passiva sintética do Ido (que usava o sufixo -es-), que Colas considerava uma complicação desnecessária.:p. 24
Léxico
Colas manteve em grande parte o vocabulário do Ido, mas introduziu algumas modificações morfofonológicas e, em certos casos, restaurou formas esperantistas. Exemplos documentados no panfleto::p. 28–29
Desenvolvimentos contemporâneos (gramática de 2011)
Dentro do pequeno círculo de entusiastas que mantiveram interesse no Adjuvilo no início do século XXI, foram propostas algumas expansões e sistematizações que não constam do panfleto original de Colas. A principal delas é a Gramatiko de Adjuvilo primitiva e per Adjuvilo, compilada em 2011 por Aleshandre Shavyer Kasanova Domingo e disponibilizada nos grupos do Yahoo! Groups, na lista de discussão AUXLANG (Brown University) e no periódico eletrônico Posta Mundi. Embora o autor afirme descrever apenas o Adjuvilo "primitivo", o documento introduz vários elementos novos ou mais detalhados, explicitamente apresentados como sugestões para um "Adjuvilo moderno". Entre as principais expansões estão:
A tabela seguinte, baseada no capítulo III do panfleto de Colas, resume as principais diferenças entre o Adjuvilo e o Ido de 1907::p. 21–30
O Adjuvilo não chegou a ser adotado por qualquer comunidade de falantes e nunca saiu do papel, apesar da intenção declarada de seu autor de que a língua fosse usada efetivamente. No entanto, o projeto foi comentado por alguns interlinguistas da época. O matemático Giuseppe Peano, em sua revista Discussiones (junho de 1910), qualificou o Adjuvilo como "um grande progresso sobre o Ido".:p. 37 O linguista Mario Pei, em One Language for the World (1958), descreve o Adjuvilo como uma das várias tentativas de "aperfeiçoar" o Ido, citando uma frase de exemplo do projeto. O estudioso Albert Léon Guérard, em sua A Short History of the International Language Movement (1922), lista o Adjuvilo entre os projetos de língua auxiliar que examinou rapidamente, datando-o erroneamente de 1906 no apêndice.: Embora sem continuidade prática, o Adjuvilo é por vezes citado em estudos de interlinguística como um exemplo da "mania reformista" que afetou o movimento idista nos seus primeiros anos. Na comunidade conlanger, o projeto desperta interesse sobretudo pela sua proposta de simplificação radical do Ido e pela controversa hipótese de ter sido concebido para sabotar o movimento idista.
Interesse contemporâneo
Apesar de nunca ter reunido uma comunidade organizada, o Adjuvilo despertou ocasional interesse de entusiastas de línguas planejadas no final do século XX e início do século XXI. Entre 1999 e 2011 existiu um grupo de discussão no extinto Yahoo! Groups dedicado ao Adjuvilo, que chegou a reunir cerca de 30 membros e onde eram trocados materiais e mensagens no próprio idioma. O grupo disponibilizava em sua área de arquivos uma gramática compilada por um entusiasta sob o pseudônimo de Aleshandre Shavyer Kasanova Domingo, intitulada Gramatiko de Adjuvilo primitiva e per Adjuvilo, que sistematizava e estendia ligeiramente as regras originais de Colas.
Pai Nosso
O panfleto original de Colas apresenta a seguinte versão do Pai Nosso em Adjuvilo.:p. 27 Segue as versões em português e Ido.
Frase citada por Mario Pei
Mario Pei, em One Language for the World (1958, p. 167), fornece a seguinte frase de exemplo: Un ex meas amikos, qua habitan en Paris kun sua familio, havan multas infantos; quin filios e tri filiinos.
O Adjuvilo não possui código ISO 639-3 atribuído. O identificador BCP 47 privado registrado no ConLang Code Registry para a língua é art-x-adjuvilo.


