Desastre de Tânger
O Desastre de Tânger de 1437, por vezes conhecido por Cerco de Tânger, refere-se à tentativa de uma força militar portuguesa de capturar a cidade marroquina de Tânger, com a sua subsequente derrota pelos exércitos do sultanato merínida de Marrocos.
A cidadela marroquina de Ceuta, no lado sul do estreito de Gibraltar, havia sido conquistada em 1415 por um ataque surpresa do Reino de Portugal (ver Tomada de Ceuta). Os mouros merínidas tentaram recuperá-la em 1418, mas falharam no intento. O assassinato do sultão merínida em 1420 lançou Marrocos para o caos político e desordem interna nos anos seguintes, dando aos portugueses tempo para reforçar as defesas de Ceuta. Quaisquer que tenham sido os objetivos iniciais, a conquista de Ceuta poucos benefícios trouxe aos portugueses. Os mouros cortariam praticamente todo o abastecimento e comércio com a cidade por via terrestre. Ceuta tornou-se pouco mais do que uma grande, mas vazia, cidade-praça fortificada, com uma guarnição portuguesa onerosa que tinha que ser continuamente reabastecida por via marítima. Não houve campanhas seguintes dos Portugueses no norte de África, de modo que a guarnição defensiva pouco tinha para fazer, para além de gastar do tesouro real. Ocorreram petições na corte no sentido da retirada das tropas e abandonar a cidade.
A proposta de D. Henrique
Em 1416, o rei João I de Portugal nomeou um dos filhos, o infante D. Henrique, duque de Viseu, da responsabilidade de abastecer e manter Ceuta. Como resultado, o infante opôs-se ao abandono da cidade, e em vez disso propôs a expansão das possessões portugueses em Marrocos. Em 1432, o Infante propôs a seu pai João I um ambicioso projeto que lhe permitiria liderar um exército para conquista do sultanato merínida de Marrocos, ou em alternativa conquistar porções de território mais largas no norte. D. João I convocou as cortes, incluindo os restantes filhos - a Ínclita Geração - para conselho. Os irmãos de Henrique, o príncipe D. Duarte, o infante D. Pedro duque de Coimbra, o Infante D. João Duque de Reguengos, e o meio-irmão D. Afonso Conde de Barcelos incluindo os filhos destes, D. Fernando conde de Arraiolos e D. Afonso conde de Ourém, os quais se pronunciaram de forma quase unânime contra a proposta de D. Henrique. Entre os argumentos estavam a falta da quantidade de combatentes necessários e os previsíveis enormes gastos na manutenção de semelhante exército para conquistar um território tão vasto, para além de questionar o propósito e a base legal da guerra em África proposta por D. Henrique. A juntar a isso, as dúvidas subtilmente expressas da vocação de D. Henrique em ser capaz de lidar tal expedição, sendo sugerido se D. Henrique procurava glória militar ou uma cruzada, poderia ir entrar ao serviço do Reino de Castela no sentido de atacar o Reino Nacérida de Granada. (Com efeito, semelhante proposta foi submetida a Castela um mês depois (Julho de 1432) por um emissário português, mas foi rejeitada por Álvaro de Luna , ministro espanhol.
Preparativos
Em Março de 1436, D. Duarte e D. Henrique deram início aos primeiros planos no sentido de conquistar Tânger, Alcácer-Ceguer e Arzila. O exército total seria composto de 14 000 homens - 4 000 a cavalo a 10 000 a pé. (Ou, mais precisamente de acordo com Pina: 3 500 cavaleiros, 500 arqueiros a cavalo, 7 000 soldados a pé, 2 500 arqueiros e 500 auxiliares. Foram então enviados emissários a portos de Inglaterra, Castela, Flandres e norte da Alemanha no sentido de adquirir barcos de transporte e mantimentos suplementares. Em meados de Abril seguinte, o rei D. Duarte convocou as Cortes em Évora no sentido de juntar fundos para a expedição. A proposta foi recebida com ceticismo. Os financiadores manifestaram-se em grande medida contra a expedição. De qualquer das formas, as Cortes votaram a favor de um subsídio modesto, o qual no entanto mesmo assim recebeu contestação.
A Bula Papal
Entretanto, O Infante D. Henrique esteve ocupado em Roma junto do papa no sentido de este manifestar o seu apoio à expedição. Tal veio a ter frutos em Setembro, quando o papa Eugénio IV lançou a bula Rex Regnum abençoando a empresa de Tânger com a qualidade de uma cruzada. No entanto, a bula não foi redigida sem senões. O papa pediu no entanto pareceres jurídicos a respeito da legalidade da guerra de conquista por parte de D. Henrique aos mouros de Marrocos. Os pareceres ficaram prontos entre Agosto e Outubro, dos quais são de destacar os dos juristas bolonheses Antonio Minucci da Pratoveccio e Antonio de Resolis, os quais puseram bastante em dúvida jus belum os princípios da expedição.
Partida
No fim do verão de 1437, após um ano de preparativos, a força expedicionária portuguesa estava finalmente pronta para partir. As tropas que tinham sido reunidas tinham um número inferior ao esperado. Pina relata que apenas 6 000 portugueses ao todo assentaram praça (3 000 cavaleiros, 2 000 infantes e 1 000 arqueiros) - ou seja, um número muito inferior ao de 14 000 que era o desejado. Álvares descreve valores superiores – 7 000 em Lisboa, mais forças provenientes do Porto e Ceuta. De qualquer das formas, o número de tropas reunido era muito inferior ao esperado, em boa medida devido à impopularidade da expedição. Ocorreram também outros problemas semelhantes nas embarcações de transporte. Os barcos de transporte recrutados (na maioria ingleses e bascos) eram muito menos do que os necessário para transportar mesmo este número reduzido de tropas. É relatado que muitos das tropas reunidas (pelo menos um quarto das iniciais) tiveram de ser deixadas em Lisboa. Apesar de todos os constrangimentos, a decisão era de que se devia prosseguir, partindo-se do princípio dos que ficaram para trás seriam eventualmente transportados quando mais embarcações de transporte chegassem.
As defesas de Marrocos
Ao contrário do que sucedera em Ceuta em 1415, os portugueses não dispuseram do elemento de surpresa. A longa e ensurdecedora diplomacia deu as marroquinos, apesar das dissensões políticas internas, tempo suficiente para preparar as defesa das cidades alvo. As fortificações foram melhoradas, guarnições reforçadas e passagens nas montanhas em redor de Ceuta foram fechadas. Preparando-se desde 1436 para o evento a desenrolar-se, o capitão de Ceuta Pedro de Meneses, conde de Vila Real, enviou um destacamento da sua guarnição sob o comando de seu filho Duarte de Meneses para atacar a cidade marroquina de Tetuão (Tétouan), de forma a prevenir que se tornasse uma ameaça para os planos portugueses.
Marcha terrestre a partir de Ceuta
A frota de D. Henrique que partira de Lisboa chegou a Ceuta a 27 de Agosto de 1437, onde foram recebidos pelo capitão e governador D. Pedro de Meneses, conde de Vila Real, enquanto que a frota procedente do Porto chefiada por D. Fernando conde de Arraiolos havia chegado mesmo antes. Foi efetuada uma revisão às tropas e ordens atribuídas. Em vez de esperarem por novos desembarques de reforços que haviam, por motivos diversos, ficado para trás, Henrique estava determinado a prosseguir com as que dispunha. O plano original era provavelmente de seguir pela costa e tomar Alcácer-Ceguer, depois Tânger e finalmente Arzila, por esta ordem. Mas tal intenção foi imediatamente posta de lado. Uma força de reconhecimento enviada para inspecionar a estrada para Alcácer Ceguer encontrou enorme resistência nas passagens de montanha conduzindo à cidade. Como resultado, D. Henrique e o seu concelho de guerra decidiram passar à frente e deixar Alcácer Ceguer para trás, decidindo-se por conduzir a força diretamente para Tânger. O exército foi dividido, uma parte iria embarcado com o Infante D. Fernando, enquanto que o grosso marcharia por terra, sob o comando pessoal de D. Henrique. A coluna do exército que se movimentava por terra foi sujeita a um caminho que contornava as principais formações montanhosas, seguindo primeiro para sul, através das ruínas de Tetuão, e finalmente através das montanhas em direcção a Tânger.
Primeiro ataque português (20 de Setembro)
A 20 de Setembro (de acordo com Ruy de Pina), D. Henrique ordenou finalmente o primeiro ataque à cidade, atacando em cinco pontos as suas muralhas, Henrique liderou pessoalmente um dos grupos de assalto. Mas falhou rapidamente - as escadas de assalto eram poucas, e revelaram-se como demasiado pequenas para atingir o alto das muralhas. Os assaltantes tiveram de se retirar. Ao todo as baixas portuguesas neste primeiro assalto foram de 20 mortos com 500 feridos. A artilharia também mostrou ser demasiado fraca para provocar dano. Ao princípio do assalto, Henrique ordenou que um grande canhão e munições fossem enviados de Ceuta. Levaria pelo menos uma semana antes que chegassem, queimando o escasso tempo precioso que restava.
Primeira resposta marroquina (30 de Setembro)
Logo a seguir ao primeiro, o primeiro exército de defesa mouro chegou a Tânger. Um de 300 cavaleiros portugueses de elite foram enviados para os intercetar, tendo como resultado pesadas baixas. Alguns cinquenta cavaleiros foram mortos, e poucos conseguiram escapar com vida. A morte de vários elementos da nobreza causou grande consternação junto das hostes portuguesas. A 30 de Setembro, um grande exército mouro apareceu nas colinas de Tânger. Os cronistas portugueses, provavelmente com exagero, afirmam que era composto de 10 000 cavaleiros e 90 000 elementos de infantaria. Henrique moveu o seu exército para o lado de uma das colinas, dispondo-se aberto para a batalha, mas os mouros conseguiram manter a sua posição no vale. Após três horas sem quaisquer movimentos, D. Henrique ordenou às suas hostes que atacassem os mouros para forçar a batalha, mas os mouros limitaram-se a retirar para as colinas, de forma de forma a poderem conservar a vantagem do terreno mais elevado. Vendo a sua retirada, D. Henrique ordenou ao seu exército que parasse e regressassem ao acampamento. Durante o dia seguinte (1 de Outubro) os mesmos eventos tiveram lugar, com resultados semelhantes.
Segundo ataque português (5 de Outubro)
Com a moral restaurada, os portugueses decidiram prosseguir com um novo assalto à cidade. As escadas foram melhoradas, e uma nova torre de cerco foi construída com os dois canhões enviados de Ceuta a causar finalmente grandes estragos nas portas e muralhas da cidade. A 5 de Outubro ordenou o segundo assalto. D. Henrique mais uma vez comandou a força de ataque pessoalmente, deixando o resto das tropas sob a liderança do irmão Infante D. Fernando, Fernando Conde de Arraiolos e o Bispo Álvaro de Évora, para defender os flancos e anular as investidas do exército mouro de contra-ataque. Mas o segundo assalto falhou da mesma maneira como o primeiro. Os defensores da cidade dirigiram-se aos pontos críticos, respondendo com pesadas cargas e flechas incendiárias.Os assaltantes portugueses foram impedidos de atingir as cimo das muralhas (apenas uma escada conseguiu tocá-las, a qual foi imediatamente destruída).
Segunda investida de contra-ataque (9 de Outubro)
A 9 de Outubro, Henrique encontrava-se preparando para o terceiro assalto quando recebeu informações de que um novo exército mouro de grandes dimensões - relatado (com óbvio exagero) - de dimensão de 60 000 cavaleiros e 700 000 infantes. O enorme exército era liderado pelo próprio Abu Zacaria Iáia Aluatassi (Lazeraque), vizir do sultão merínida Abdalaque II de Fez (alguns cronistas sugerem que também estaria presente). Os cronistas relatam este exército era composto de "muitos reis" (Fez, Marraquexe, Segelmeça, Velez, etc.). A campanha de defesa de Tânger foi a primeira desde 1419 de um exército marroquino unificado sob uma única causa. O Infante D. Henrique percebeu que os portugueses estavam completamente em desvantagem, e que o cerco estava perdido e o melhor que poderia fazer era planear uma retirada ordenada em direção à frota de desembarque. Todos os marinheiros foi-lhes ordenado que levantassem vela, enquanto o exército estava-se preparando de forma ordenada para defender a retirada da força de assalto de volta para as linhas do campo de cerco. Ao Marechal Coutinho foi-lhe dado o comando da artilharia e ao almirante Almada tomar conta da Infantaria, enquanto D. Henrique trataria da cavalaria.
Saque do acampamento português
Durante a noite, os portugueses que montavam o cerco - agora por sua vez cercados - trataram de reparar e reforçar as defesas do acampamento. No dia seguinte, os mouros lançaram outro assalto ao acampamento, mas foram repelidos após combates duros que duraram vinte e quatro horas. O cronista Frei João Álvares relata que nesta altura, a força expedicionária portuguesa era composta apenas de 3 000 homens, implicando que dos 7 000 iniciais que tinham chegado a Tânger, por volta de 4 000 teriam morrido ou desertado por aquela altura. O acampamento português foi de certeza deixado numa situação desesperada, com apenas um dia ou pouco mais de mantimentos. Quando estes se esgotaram, Henrique decidiu-se por uma operação noturna para romper as linhas mouras de forma a desimpedir o caminho para a praia onde os navios se encontravam fundeados. Mas a operação foi detetada mesmo antes de começar (Pina relata que tal resultou de um ato de traição do próprio capelão de D. Henrique, Martim Vieira, que desertou para o inimigo). Os mouros reforçaram as suas posições guardando os caminhos para a praia, cortando qualquer esperança de escapatória do exército português.
Tréguas e Negociações (12 de Outubro)
O que aconteceu de seguida está envolto em bastante mais polémica. O cronista Ruy de Pina relata que a 12 de Outubro, após terem sofrido muitas baixas, Abu Zacaria decidiu terminar com os assaltos ao acampamento português e decidiu estabelecer comunicação com os defensores portugueses, oferecendo paz em troca da devolução de Ceuta. Mas Frei João Álvares contradiz esta asserção, relatando pelo contrário que foram os portugueses que iniciaram as conversações de paz através de emissários secretos desde o primeiro dia. Álvares relata que esta oferta não causou qualquer reação por parte dos marroquinos em primeiro lugar. É verdade que os assaltos foram suspensos a 11 de Outubro, que por acaso era uma sexta-feira, dia de semana sagrado para os muçulmanos (jumu'ah). Foi apenas durante este interlúdio nas hostilidades que Abu Zacaria terá decidido considerar a oferta portuguesa, com as tréguas a terem início no dia seguinte, Sábado, dia 12 de Outubro.
Tratado de paz (16 e 17 de Outubro)
As conversações foram finalmente concluídas em 16 de Outubro de 1437 e assinadas no dia seguinte (17 de Outubro) pelo Infante D. Henrique e Sale ibne Sale. Os marroquinos permitiriam que o exército português se retirasse por mar com a armada naval de transporte incólume, mas teriam de abandonar todo o armamento, desde artilharia, bagagens, tendas, e cavalos. Ao exército foi permitido que regressasse de mãos vazias, apenas com as roupas que envergavam. Mais importante que o resto, D. Henrique comprometeu-se a devolver Ceuta aos merínidas – e retirar a guarnição portuguesa e libertar todos os prisioneiros marroquinos que ainda estariam na praça-forte. Além disso, teve de concordar com cem anos de paz entre Portugal e Marrocos, nestes incluindo os restantes estados muçulmanos no norte de África.
A versão alternativa dos eventos proposta acima segue a que foi descrita pelo cronista real Ruy de Pina. No entanto, Frei João Álvares, que foi uma testemunha direta dos eventos, coloca as datas e os eventos num calendário algo diferente. Álvares descreve que Tânger foi atacada pelos portugueses logo no primeiro dia em que a força expedicionária chegou à cidade (13 de Setembro) , e que o segundo assalto teve lugar no par de dias seguinte (14 e 15). O primeiro ataque pelo exército de reação mouro teve lugar a 16, seguido por outro no dia seguinte (17), antes que o grosso do exército maior tivesse chegado no vale, e a guarnição moura de Tânger tivesse saído das muralhas em contra-ataque (19 de Setembro). Álvares descreve que o terceiro assalto falhado (para Pina, é o segundo) em Tânger a 20 de Setembro. A chegada do exército de Abu Zacaria e o volte-face na batalha ocorre a 25 de Setembro. O segundo assalto mouro ao acampamento de cerco português tem lugar a 26 de Setembro, e os primeiros emissários são enviados pelos portugueses ao campo dos marroquinos logo a seguir. O assalto de sete horas é atribuído como tendo ocorrido a 28 de Setembro, que coincide com o início das conversações. Mais dois assaltos mouros (1 e 3 de Outubro) são apontados, antes que as tréguas sejam finalmente respeitadas. A conclusão do acordo e a troca de prisioneiros ocorre a 16 de Outubro e a assinatura do tratado a 17.
O Infante D. Henrique não regressou a Lisboa para se apresentar perante o irmão, o rei D. Duarte, preferindo navegar diretamente para Ceuta. D. Henrique atribuiu a D. Fernando de Castro a tarefa de levar os seus exércitos de volta a Portugal e dar a nova do resultado da expedição e da sua derrota. Uma vez em Ceuta, D. Henrique retirou-se dos olhares durante várias semanas, encerrando-se em clausura voluntária – sinal evidente de que sofria de depressão profunda. O novo governador português de Ceuta, Fernando de Noronha, que havia sido apontado como sucessor para suceder ao sogro, o recém-falecido Pedro de Meneses, chegou a Ceuta por volta desta altura. Suponha-se que se possa ter mostrado surpreso em ouvir de que um tratado havia sido assinado que previa a evacuação da guarnição e a devolução da praça-forte africana, ainda mal havia assumido as funções. As notícias da derrota rapidamente chegaram ao país. Ainda um pouco antes disso, algures durante o mês de Setembro, o Infante D. João, condestável de Portugal, havia viajado para a província sul do Algarve para reunir mais tropas e organizar o envio de mais reforços e mantimentos para o irmão em Tânger. Encontrando-se no sul, D. João esteve entre os primeiros portugueses a saber do volte-face em Tânger, e do cerco ao acampamento português. O Infante D. João imediatamente zarpou para África com toda a sua frota, soldados e mantimentos que tinha ao seu dispôr. No entanto, fortes ventos contrários impediram a armada de D. João de atingir as costas de Tânger. Depois, sabendo do fim dos combates e do armistício assinado , D. João mudou de destino e dirigiu-se a caminho de Arzila. Lá, D. João entrou em negociações frenéticos com os representantes de Sale ibne Sale, na esperança de que conseguisse a libertação do seu irmão D. Fernando, mas sem resultados. D. João regressou a Portugal de mãos vazias.
Cortes de Leiria
Indeciso sob o que fazer, o rei D. Duarte convocou Cortes para Leiria em Janeiro de 1438 para conselho a respeito de como proceder. O Infante D. Henrique não compareceu à convocatória, permanecendo em Ceuta. As Cortes de Leiria tiveram abertura a 25 de Janeiro. Antes do seu início, D. Duarte (através de uma porta-voz) culpou abertamente D. Henrique por ter ignorado as instruções militares ordenadas pelo rei para o ataque a Tânger. Mas não havia forma de dar a volta ao facto de que tinha sido o próprio rei a autorizar a expedição, contra o conselho de outras partes, incluindo as próprias Cortes. Uma carta do Infante D. Fernando foi lida nas Cortes. Nela, o Infante perguntava o que estava a acontecer para tardar para que o tratado fosse cumprido por parte de Portugal, expressando o desejo de ser libertado e relembrando de que Ceuta tinha pouca utilidade para Portugal. Uma vez mais, os Infantes D. Pedro e D. João, que se haviam oposto à expedição desde o início, manifestaram perante as Cortes a necessidade do tratado ser ratificado por Portugal e ser imediatamente entregue Ceuta. Os membros do Clero concordaram – embora o arcebispo de Braga acrescentasse de que o aval do Papa devia ser de levar em conta para uma decisão final. A maior parte dos representantes dos concelhos também concordaram, com exceção dos representantes das maiores cidades comerciais como Lisboa, Porto e Lagos, que sentiam que a libertação do Infante cativo era uma recompensa pequena para a importância de Ceuta, e sugeriram de que o tratado devesse ser renegociado. Finalmente, foi a alta nobreza que fez com que a proposta da devolução de Ceuta fosse colocada completamente de lado. Liderados pelo conde de Arraiolos, que havia liderado o séquito dos nobres em Tânger (mas que antes se tinha oposto à expedição), os nobres opuseram-se aos termos do tratado. D. Fernando, Conde de Arraiolos argumentou fervorosamente de que renegar o tratado não era uma desonra, uma vez que tinha sido assinado debaixo de coerção. As Cortes terminaram sem haver uma decisão final a ser tomada.
Missão de Fernando de Castro, 1440–41
O rei D. Duarte morreu em Agosto de 1438 (de peste, ao que afirmaram os seus médicos, de coração destroçado pelo destino sem apelo do seu irmão Infante D. Fernando, dizia o povo). A morte prematura de D. Duarte esteve na origem de um conflito interno em Portugal a respeito da regência do seu jovem filho e sucessor, o novo rei ainda menor D. Afonso V, e os assuntos do reino esquecidos. No final, o conflito foi resolvido a favor do Infante D. Pedro, que se tornou regente finalmente em 1439. O cumprimento do tratado esteve entre as primeiras medidas do novo regente. D. Pedro enviou dois emissários, Martim Távora e Gomes Eanes, a Arzila para negociar as questões da entrega de Ceuta pela libertação do D. Fernando. Teoricamente, D. Fernando era refém de Sale ibne Sale, mesmo tendo em conta que estava preso em Fez, sob custódia de Abu Zacaria. Sale tinha morrido recentemente e o seu irmão (a que as crónicas chama Muley Buquer – Abu Bakr?) sucedeu-lhe como governo de Tânger e Arzila ( o filho de Sale ainda se encontrava prisioneiro dos portugueses). Foi este 'Muley Buquer' que delineou as condições iniciais para a troca – primeiro o governador português Fernando de Noronha teria de ser destituído ( a sua reputação era tal que os marroquinos sentiram que ele faria tudo para se opôr à troca), e apenas após o cumprimento dessa premissa, Muley Buquer faria o pedido a Abu Zacaria de transferir D. Fernando de Fez de volta para Arzila. Como se iria proceder após esta parte no entanto não permanecia claro, mas provavelmente a troca iria ser cumprida.
Morte do Infante D. Fernando
Quaisquer que fossem as esperanças que ainda sobrevivessem para uma solução pacífica, estas terminaram em Março de 1442. De acordo com Álvares, naquele mês, um certo nobre marroquino (identificado por Álvares como Faquyamar, um tutor do príncipe merínida) foi preso pelos homens de Abu Zacaria, por terem sido encontradas na sua posse algumas cartes portuguesas, algumas tendo origem na corte da rainha-mãe D. Leonor de Aragão, onde se delineava um esquema complexo de libertar D. Fernando do seu cativeiro. O nobre marroquino foi brutalmente torturado e executado na presença do próprio D. Fernando, sendo este transferido para uma masmorra isolada e escura em Fez. Não era claro para Abu Zacaria de que os portugueses estivessem realmente interessados em devolver Ceuta, desta forma não restando quaisquer hipóteses a não ser propôr o mais elevado preço de resgate possível. Mas nada disso sucedeu. Após quinze meses de cativeiro e com as condições de vida a degradarem-se ainda mais, D. Fernando acaba por morrer a 5 de Junho de 1443, com 41 anos de idade. Várias dos restantes membros da companhia do malogrado Infante seriam libertados nos anos seguintes, mediante pagamento de resgate, encontrando-se entre eles o próprio Frei João Álvares, cronista presente em todo o cativeiro do Infante.
Portugal
O desastre de Tânger e o cativeiro e subsequente morte do Infante D. Fernando permaneceu durante largos anos na memória colectiva dos portugueses. no entanto de forma pouco consistente. Foi um grande golpe na reputação do Infante D. Henrique enquanto líder militar. No entanto, D. Henrique foi capaz de afastar as culpas da sua pessoa nos eventos encorajando um culto popular da santidade do próprio Infante D. Fernando com um mártir nacional, um 'Infante Santo' ou 'Santo Príncipe' (que na realidade nunca foi sequer beatificado pela Igreja Católica) de que se teria oferecido voluntariamente ao sofrimento e sacrifício pessoal, oferecendo a sua vida pelo destino português de evangelizar África, em vez da realidade de ser uma vítima dos erros decorrentes da pretensões militares e da sucessão de decisões erradas de D. Henrique. Este então encarregou Frei João Álvares, uma vez regressado, para redigir as crónicas da detenção e cativeiro de D. Fernando como peça de hagiografia cristã (embora Álvares não partilhasse da interpretação dos eventos por parte de D. Henrique). No entanto, a interpretação de D. Henrique ganhou adeptos nos anos seguintes, particularmente no que toca à própria reputação do Infante, a qual ascendeu em retrospectiva da glorificação da Era das Descobertas, de forma que as suas culpas na derrota em Tânger pudessem ser esquecidas.
Marrocos
A vitória de Tânger alterou profundamente os destinos políticos, em particular do impopular Abu Zacaria Iáia Aluatassi, vizir do palácio merínida de Fez e regente em nome do sultão merínida Abdalaque II. Celebrado como um herói nacional, foi rápido a tirar partido da vitória e do prestígio que esta lhe concedeu. Qualquer questão relativa à contestação da sua regência foi colocada de lado, e os governadores regionais retornaram aos seus lugares. O caos e desordem das duas décadas anteriores tiverem um fim abrupto, e Marrocos desfrutou de paz no rescaldo da vitória sobre os invasores cristãos. No próprio ano da sua vitória, Abu Zacaria iniciou a construção do mausoléu Zauia Mulei Idris II em Fez, destinado a albergar os restos mortais incorruptíveis do sultão Idris II (que havia fundado o Emirado Idríssida antes em 808). Mas o verdadeiro propósito do monumento foi da celebração do triunfo das hostes de Abu Zacaria em Tânger.
Campanhas seguintes
Qualquer que fosse a atitude do Infante D. Henrique e os méritos objectivos de manter Ceuta, a morte do irmão D. Fernando, cognominado o Infante Santo para servir os seus propósitos, o destino do malogrado infante selou a manutenção da praça-forte em mãos portugueses. Um alto preço foi pago por isso, e a questão de abandonar Ceuta foi completamente posta de parte. De facto, deu inclusive um novo ímpeto ao expansionismo português em Marrocos, no qual agora se mesclava um elemento de represália pelo martírio do Infante Santo. A memória do Infante Santo foi citada pelo rei seu sobrinho Afonso V aquando de uma nova expedição a Tânger em 1458. Acabou sendo desviada no entanto, tendo sido capturada Alcácer-Ceguer no seu lugar. Uma terceira tentativa foi lançada no fim de 1463. Finalmente, à quarta tentativa, Tânger finalmente submeteu-se aos portugueses em Agosto de 1471.


