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Batalha de Harra

A Batalha de Harra foi travada entre o exército omíada do califa Iázide I (r. 680–683), comandado por Muslim ibne Uqueba, e os defensores de Medina, pertencentes às facções dos ançares e dos muajires, que se haviam rebelado contra o califa. O confronto ocorreu no campo de lava de Harrate Uaquime, nos arredores nordeste de Medina, em 26 de agosto de 683, e durou menos de um dia.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 24/07/2026
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Localização

A batalha ocorreu no campo de lava de Harrate Uaquime, situado na periferia oriental de Medina, no Hejaz, oeste da Arábia. A região recebeu esse nome em referência à fortaleza de Uaquime, pertencente à tribo dos curaizaítas, que habitava a área durante o período pré-islâmico, sendo também conhecida como Harrate Banu Curaiza ou Harrate Zura. O campo de lava integrava o amplo sistema geológico das harras (desertos basálticos), que se estendia desde a região de Haurã, na Síria, até os arredores de Medina. Em razão da notoriedade do confronto, Harrate Uaquime passou a ser designada nas fontes muçulmanas simplesmente como Harra.

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Antecedentes

Sob a liderança do profeta islâmico Maomé, a partir de 622, e dos três primeiros califas — Abu Becre (r. 632–634), Omar (r. 634–644) e Otomão (r. 644–656) —, Medina serviu como capital do Califado Ortodoxo, que, durante o governo de Otomão, passou a controlar um vasto império abrangendo toda a Arábia, a maior parte do Império Sassânida e os territórios bizantinos da Síria e do Egito. A capital foi transferida para Cufa, no Sauade, pelo quarto califa ortodoxo, Ali, primo e genro de Maomé, durante a Primeira Fitna. O rival de Ali pelo califado, Moáuia ibne Abi Sufiane, governador da Síria, saiu vitorioso da guerra civil e, em 661, estabeleceu Damasco como capital do Califado Omíada, por ele fundado.

Oposição política e religiosa a Iázide

A sucessão hereditária de Moáuia por seu filho, Iázide I, em 680, constituiu um acontecimento sem precedentes na história política do islão. A medida provocou forte oposição entre os habitantes de Medina, sobretudo entre os mais destacados líderes muçulmanos do Hejaz. Um deles era Huceine ibne Ali, filho de Ali e neto de Maomé, que deixou Medina para liderar uma revolta no Iraque. Huceine foi morto juntamente com cerca de setenta seguidores na Batalha de Carbala, pelas forças do governador omíada Ubaide Alá ibne Ziade, sendo tradicionalmente atribuído a Iázide o ato de exibir sua cabeça em Damasco. Em 680, Iázide destituiu seu primo Alualide ibne Oteba ibne Abi Sufiane do governo de Medina por não ter impedido Huceine nem o outro importante opositor do regime, Abedalá ibne Zobair, neto de Abu Becre, de deixarem a cidade. Seu sucessor, o omíada Anre ibne Saíde Alasdaque, fracassou tanto em capturar Ibne Zobair, que se refugiara na Caaba, em Meca, quanto em obter dele o juramento de fidelidade a Iázide. Para atacá-lo, mobilizou um contingente de habitantes de Medina alistados no exército, além de numerosos maulas — libertos e clientes muçulmanos não árabes ligados ao clã omíada. Muitos medinenses, contudo, recusaram-se a participar da expedição e chegaram a pagar substitutos para combater em seu lugar.

Queixas econômicas e sociais

Moáuia havia adquirido extensas propriedades agrícolas em Medina pertencentes aos seus habitantes. Essas terras eram conhecidas nas fontes como sawafi, termo normalmente reservado às terras conquistadas que se tornavam propriedade do Estado, mas que, no caso de Medina, designava propriedades incorporadas ao patrimônio pessoal do califa. Segundo relatos preservados pelo historiador Ibne Cutaiba, os habitantes alegavam que Moáuia comprara essas terras por apenas uma centésima parte de seu valor, aproveitando-se da fome e da miséria. Já Iacubi afirmava que elas haviam sido simplesmente confiscadas. Os medinenses consideravam essas aquisições ilegítimas e profundamente prejudiciais aos seus interesses econômicos. Moáuia promoveu projetos de irrigação e cultivo nessas propriedades, obtendo elevados rendimentos com a produção de tâmaras e trigo. Para suprir a necessidade de mão de obra, empregou numerosos maulas, constituídos principalmente por prisioneiros das províncias conquistadas, muitos deles artesãos e trabalhadores especializados. Esses clientes mantinham fidelidade pessoal a Moáuia e, posteriormente, a Iázide. Os maulas ligados aos omíadas eram numerosos em Medina, e as fontes registram repetidos conflitos entre eles e a população local. Ao herdar as propriedades e seus respectivos maulas, Iázide passou a enfrentar as reivindicações dos antigos proprietários, que exigiam a restituição de suas terras. Segundo o historiador Meir Jacob Kister, a revolta de Medina teve origem no conflito entre os proprietários da cidade e os governantes omíadas, considerados usurpadores de seus bens.

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Preparativos

O governador Otomão ibne Maomé ibne Abi Sufiane mostrou-se incapaz de conter a crescente oposição ao domínio omíada em Medina. Segundo o historiador Almadaini, o primeiro ato simbólico da rebelião ocorreu durante uma reunião na mesquita, quando os participantes lançaram ao chão peças de vestuário, como turbantes e sandálias, costume árabe que simbolizava o rompimento de vínculos e, nesse caso, a renúncia ao juramento de fidelidade prestado a Iázide. Já o historiador Abu Miquenafe afirma que o movimento teve início quando os habitantes de Medina prestaram juramento de fidelidade a Abedalá ibne Hanzala. Em seguida, os rebeldes atacaram os omíadas e seus partidários na cidade, cerca de mil pessoas ao todo, obrigando-os a refugiar-se no bairro de Maruane ibne Aláqueme, o mais influente membro do clã. Maruane enviou pedidos urgentes de socorro a Iázide, que respondeu organizando uma expedição para reprimir simultaneamente a revolta de Medina e a rebelião de Abedalá ibne Zobair em Meca. Relatos alternativos preservados por Iacubi e Aluaquidi atribuem o início imediato da crise a disputas envolvendo as propriedades rurais de Iázide nos arredores de Medina. Durante cerca de um mês antes da batalha, diversas tentativas de Ibne Mina, administrador das propriedades do califa, de recolher as colheitas foram impedidas pelos antigos proprietários das terras, sobretudo integrantes do clã ançar Balharite. Otomão ibne Maomé respondeu destacando uma guarda para proteger os trabalhadores encarregados da colheita, mas estes foram confrontados por um grupo de ançares e coraixitas que lhes proibiu o acesso às plantações. Diante da resistência, o governador solicitou auxílio a Iázide, que decidiu enviar uma expedição militar contra os habitantes de Medina. Segundo essas mesmas tradições, os medinenses expulsaram os omíadas da cidade e os apedrejaram em resposta às repreensões do governador por terem impedido os homens do califa de trabalhar nas propriedades.

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Batalha

As negociações entre Muslim ibne Uqueba e os líderes medinenses fracassaram, dando início aos combates. A cavalaria de Medina marchou ao encontro do exército sírio em Harra e talvez tenha chegado até a liteira de Muslim ibne Uqueba, de onde este dirigia inicialmente suas tropas. Diante do ataque, o comandante desmontou de sua liteira, montou a cavalo e passou a participar diretamente da batalha. Os medinenses obtiveram vantagem nos momentos iniciais do confronto, mas acabaram sendo sobrepujados pelas tropas sírias. Entre os mortos encontravam-se diversos chefes dos ançares e dos coraixitas, incluindo Abedalá ibne Hanzala, oito de seus filhos e vários outros membros da elite de Medina. Contingentes de maulas de Medina, comandados pelo maula Iázide ibne Hurmuz, defenderam um extenso trecho da trincheira e conseguiram repelir os ataques sírios, recusando-se a render-se apesar das exigências do inimigo. Segundo os historiadores Uabe ibne Jarir e Açamudi, contudo, a linha defensiva de Medina foi rompida quando integrantes dos Banu Harita desertaram e permitiram que Maruane ibne Aláqueme conduzisse sua cavalaria através do bairro ocupado pela tribo, possibilitando um ataque pela retaguarda contra os defensores posicionados em Alharra. Os coraixitas comandados por Abedalá ibne Muti abandonaram então o campo de batalha e refugiaram-se junto a Abedalá ibne Zobair, em Meca. Segundo Aluaquidi, a batalha terminou em 26 de agosto de 683 e durou menos de um dia.

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Consequências

As fontes apresentam relatos bastante divergentes sobre os acontecimentos que se seguiram à vitória síria. Segundo Abu Miquenafe e Açamudi, Muslim ibne Uqueba concedeu às suas tropas liberdade para saquear Medina durante três dias. As estimativas de vítimas variam entre 180 e 700 integrantes dos ançares e dos coraixitas, além de quatro mil a dez mil outros habitantes da cidade. Açamudi acrescenta que numerosos estupros teriam sido cometidos durante a ocupação e afirma que, em consequência, cerca de mil crianças nasceram dessas violências. Uma tradição diferente, preservada por Auana ibne Aláqueme, descreve uma ocupação mais organizada. Segundo esse relato, Muslim ibne Uqueba convocou os principais habitantes de Medina à Mesquita de Cuba para renovarem o juramento de fidelidade a Iázide e aproveitou a ocasião para executar diversos líderes da oposição, entre eles importantes coraixitas e Maquil ibne Sinane Alasjai. Embora Maquil pertencesse ao mesmo agrupamento tribal dos gatafanitas que Muslim ibne Uqueba e fosse seu amigo próximo, acabou executado por ter rompido com Iázide. Um filho do califa Otomão, pertencente ao clã omíada, teve a barba raspada como punição por suspeita de colaboração com os rebeldes, enquanto Ali ibne Huceine foi tratado com respeito por ordem expressa de Iázide. Uabe ibne Jarir também não menciona qualquer saque de três dias, e Julius Wellhausen considerou pouco provável que esse episódio tenha realmente ocorrido na forma descrita pelas fontes tradicionais. Abu Miquenafe e Auana concordam que, após consolidar o controle sobre Medina, Muslim ibne Uqueba marchou contra Abedalá ibne Zobair em Meca. Contudo, adoeceu durante a campanha e morreu em Almuxalal. Em cumprimento às instruções de Iázide, o comando do exército passou para Huceine ibne Numair Açacuni, que prosseguiu a expedição e iniciou o cerco de Meca em setembro de 683.

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Avaliação

Segundo Meir Jacob Kister, a revolta de Medina carecia de um programa político definido, ao contrário do movimento de Abedalá ibne Zobair, que defendia a convocação de uma xura para decidir a sucessão ao califado. Os medinenses, contudo, pareciam confiantes na vitória em qualquer confronto com os sírios. Ao organizarem a defesa da cidade, recorreram à estratégia empregada por Maomé na Batalha da Trincheira, escavando fossos para impedir a entrada da cavalaria inimiga. Em Harra, porém, dispunham de poucos cavalos e armamentos, como se depreende das informações transmitidas por Maruane ibne Aláqueme a Muslim ibne Uqueba, nas quais também afirmou que os habitantes de Medina não possuíam tradição guerreira e que poucos teriam disposição para combater até o fim. Os sobreviventes entre os chefes medinenses lamentaram a rapidez com que seus homens piedosos foram derrotados em Harra, sobretudo quando comparada à resistência de seis meses sustentada por Ibne Zobair e por seu grupo, numericamente menor, contra o exército sírio em Meca. Kister considera imprudente a libertação dos omíadas cercados, que poderiam ter sido empregados como reféns, e ingênua a crença dos rebeldes de que eles não auxiliariam os sírios nem os convenceriam a prosseguir a campanha.

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Fontes consultadas

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