Cássida do Manto
'Cássida do Manto, também conhecida pelo verso inicial Bānat Suʿād, é uma cássida composta pelo poeta Cabe ibne Zuair por ocasião de sua conversão ao islã, em 630. Recitada diante de Maomé como expressão de arrependimento e louvor, a obra recebeu esse nome porque, segundo a tradição islâmica, o Profeta presenteou seu autor com o próprio manto (burda) após ouvir sua declamação. Composta segundo o modelo tradicional da cássida da Jailia, a obra conserva a estrutura e os recursos formais da poesia árabe pré-islâmica, mas os coloca a serviço de um novo contexto religioso. O poema inicia-se com o tradicional nácibe, prossegue com a descrição da montaria e culmina num pedido de perdão dirigido a Maomé, seguido de seu elogio e do elogio dos muajiritas. A crítica moderna tem interpretado a figura de Suade como um símbolo da vida pré-islâmica abandonada pelo poeta ao abraçar o islã. Ao longo dos séculos, a Cássida do Manto tornou-se uma das obras mais influentes da literatura islâmica, dando origem a numerosas edições, comentários, traduções e imitações. Entre estas destaca-se a Cássida do Manto de Albuciri, cuja enorme difusão acabou tornando seu título mais conhecido do que o poema original de Cabe ibne Zuair.
A Cássida do Manto, também conhecida por suas palavras iniciais como Bānat Suʿād, foi composta por Cabe ibne Zuair pouco depois de sua conversão ao islã, em 630. Segundo a tradição, antes de morrer, o poeta Zuair ibne Abi Sulma recomendou aos filhos Cabe e Bujair ibne Zuair que seguissem o profeta Maomé, cuja vinda acreditava estar próxima em razão de um sonho. Os dois partiram em direção a Medina, mas Cabe permaneceu nas proximidades da cidade, enquanto Bujair prosseguiu viagem, encontrou-se com Maomé e abraçou o islã. Ao tomar conhecimento da conversão do irmão, Cabe compôs um poema satírico em que atacava tanto Bujair quanto Maomé. Em consequência, segundo a tradição, Maomé declarou lícito o derramamento de seu sangue. Bujair escreveu então ao irmão informando que alguns poetas haviam sido condenados à morte, mas que aqueles que se arrependiam e compareciam diante do Profeta eram perdoados. Aconselhou-o, por isso, a dirigir-se a Medina e pedir perdão pessoalmente. Cabe seguiu o conselho do irmão e entrou na Mesquita do Profeta durante a oração da alvorada. Com o rosto coberto, aproximou-se de Maomé e perguntou-lhe se aceitaria o arrependimento de Cabe caso este comparecesse para abraçar o islã. Ao receber resposta afirmativa, revelou sua identidade e recitou diante do Profeta a cássida que havia composto em seu louvor. Impressionado com o poema, Maomé retirou seu próprio manto (burda) e o colocou sobre os ombros do poeta. Em memória desse episódio, a composição passou a ser conhecida como Qaṣīdat al-Burda ("Cássida do Manto"), embora também conservasse o título Bānat Suʿād, derivado de seu verso inicial. A tradição posterior atribui grande importância ao manto oferecido por Maomé. Segundo as fontes, ele foi adquirido dos herdeiros de Cabe por Moáuia I (r. 661–680) mediante o pagamento de vinte mil dirrãs e passou a ser conservado pelos califas omíadas e abássidas, que o utilizavam em cerimônias solenes. Algumas tradições afirmam que o manto foi destruído durante a invasão mongol de Baguedade, em 1258, enquanto outras sustentam que ele sobreviveu ao incêndio e corresponde ao manto atualmente preservado no Palácio de Topkapı, em Istambul.
Composta segundo a estrutura tradicional da cássida da Jailia, a Cássida do Manto preserva a organização clássica do gênero, embora adapte seus elementos convencionais a um contexto islâmico. A primeira parte, correspondente ao nácibe (versos 1–14), inicia-se com a célebre expressão Bānat Suʿād ("Suade partiu"), na qual o poeta lamenta a separação da amada e descreve sua beleza em imagens típicas da poesia árabe antiga. Suade é apresentada como uma mulher de voz suave, olhar meigo e olhos realçados pelo colírio, comparada a uma gazela de corpo harmonioso e sorriso de dentes alvos. Contudo, ela também simboliza a amante inconstante, incapaz de cumprir promessas e marcada pela falsidade e pela infidelidade. A segunda parte (versos 15–35) corresponde à descrição da montaria (raḥīl), outro elemento característico da cássida pré-islâmica. Nela, Cabe descreve detalhadamente a camela que o conduz até seu destino, recorrendo às imagens tradicionais do deserto e da viagem. Somente na parte final da composição o poema assume plenamente sua função de panegírico. Os versos dedicados ao elogio de Maomé e dos muajiritas são precedidos por uma declaração de arrependimento (iʿtidhār), na qual o poeta afirma não ter encontrado quem intercedesse por ele, lamenta as acusações dirigidas à sua pessoa e manifesta esperança de obter o perdão do Profeta em vez do castigo.
Desde sua composição, a Cássida do Manto ocupou posição de destaque na literatura islâmica. Segundo a TDV, a afirmação de Almacari de que alguns sábios iniciavam suas reuniões pela recitação do poema evidencia o prestígio alcançado pela obra ao longo dos séculos. O texto foi publicado pela primeira vez no Ocidente por Lette, em Leiden, em 1748, sendo posteriormente incluído no divã de Cabe ibne Zuair na edição comentada de Assucari, publicada por Tadeusz Kowalski, bem como em outras coletâneas de poesia árabe clássica. A cássida exerceu profunda influência sobre a tradição literária árabe. Comentadores, gramáticos e poetas dedicaram-se intensamente à sua interpretação e imitação, produzindo comentários (sharḥ), imitações poéticas (muʿāraḍāt), takhmīs e tashtīr. Entre os principais comentadores figuram Abu Alabás Alaual, Talabe, Issa ibne Abdalazize Aljazuli, Ibne Duraide, Camaladim Alambari, Abu Becre ibne Alambari, Alcatibe Atabrizi, Abdalatife, Ibne Hixame Anaui, Ibne Hija, Ibne Saíde Anas, Daulatabadi, Açuiuti, Ibne Hajar Alhaitami e Ibraim Albajuri. Em língua turca destacam-se os comentários de Abederramão Abdi Paxá, Aiube Sabri Paxá, Amade Muctar Baiafandi, Amade Uscudari e Zeynelabidin Ispartali, enquanto a tradição persa inclui, entre outros, o comentário de Muhammad Najaf Ali Khan.


