Abidarma
Abidarma, ou Abidama, refere-se a textos budistas antigos que oferecem apresentações escolásticas detalhadas do material doutrinário encontrado nos sutras. Além dos textos, o termo também designa o método escolástico em si e o campo de conhecimento que ele explora. Considerado por algumas escolas como a descrição pura da verdade suprema, enquanto os sutras seriam ensinamentos 'convencionais', o Abidarma busca sistematizar e analisar os ensinamentos budistas de forma técnica e aprofundada.
Pontos-chave
- Abidarma são textos budistas antigos que detalham escolasticamente a doutrina dos sutras.
- O termo Abidarma também se refere ao método de estudo e ao campo de conhecimento que ele abrange.
- Algumas tradições o veem como a verdade suprema, em contraste com os sutras, considerados ensinamentos 'convencionais'.
- Estudiosos modernos acreditam que os textos canônicos do Abidarma surgiram após a época do Buda, por volta do século III a.C.
- Abidarma explora a teoria do dhamma, causalidade, temporalidade, renascimento e, em algumas escolas, o atomismo.
O Abidarma é descrito como a 'Doutrina pura e simples', sem ornamentos literários ou narrativas pessoais. Diferente dos sutras, que são mais coloquiais, os textos do Abidarma são técnicos, analíticos e sistemáticos. Escolas como a Teravada e Sarvastivada consideravam o Abidarma a descrição literal da verdade suprema (paramattha sacca) e uma expressão de sabedoria espiritual perfeita, enquanto os sutras eram vistos como ensinamentos 'convencionais' (sammuti) e figurativos, adaptados a pessoas e circunstâncias específicas. Eles acreditavam que o Abidarma foi ensinado pelo próprio Buda a seus discípulos mais eminentes, justificando sua inclusão no cânone escriturístico.
A origem do Abidarma é um tema de debate entre estudiosos modernos e tradições budistas. Enquanto as visões tradicionais o atribuem diretamente ao Buda, a pesquisa acadêmica sugere um desenvolvimento posterior.
Perspectiva Acadêmica Moderna
Estudiosos modernos geralmente concordam que os textos canônicos do Abidarma surgiram após a época do Buda, por volta do século III a.C., e representam o trabalho de budistas posteriores, não as palavras diretas do Buda. Peter Skilling descreve a literatura abidármica como o 'produto final de vários séculos de esforço intelectual'. Os relatos do Vinaia sobre a compilação do cânone budista após a morte do Buda oferecem narrativas conflitantes sobre o status canônico do Abidarma. Enquanto o Mahāsāṅghika Vinaya não menciona um Abidarma separado, outros Vinayas (Mahīśāsaka, Theravāda, Dharmaguptaka e Sarvastivada) indicam a existência de algum tipo de Abidarma a ser aprendido. Analayo sugere que o Mūlasarvāstivāda Vinaya, ao mencionar 'mātṛkās' recitadas por Mahākāśyapa, pode se referir a um estágio inicial do que mais tarde se tornaria o Abidarma, um termo que aparece em sutras como o Mahāgopālaka-sutta para descrever um monge instruído que conhece o Darma, Vinaia e as mātṛkās.
Visões Tradicionais
A tradição Teravada sustenta que o Abidarma não foi uma adição posterior, mas sim ensinado pelo próprio Buda na quarta semana de sua iluminação. É único nesta tradição a crença de que o Abidarma foi ensinado em sua forma completa pelo Buda como um único ensinamento, com a exceção do Kathavatthu, que aborda disputas posteriores. Segundo a tradição, o Buda meditou em uma residência de joias construída por devas e transmitiu os ensinamentos do Abidarma às divindades reunidas no céu de Trāyastriṃśa, incluindo sua falecida mãe Māyā. Diariamente, o Buda resumia esses ensinamentos ao bico Sariputta, que os transmitia aos outros.
O Abidarma busca sistematizar e analisar todos os ensinamentos budistas, expandindo-se para cobrir fundamentos filosóficos e psicológicos que estão implícitos ou ausentes nos sutras. Desenvolveu doutrinas que se tornaram centrais para debates entre as escolas budistas primitivas.
A Teoria do Dhamma
A 'teoria do dhamma' é a base de todo o sistema Abidarma, permeando todas as escolas iniciais. Para os abidarmicas, os 'dhammas' (Pali: dhammas) são os componentes últimos da existência, os constituintes elementares da experiência. Traduzidos como 'fatores', 'características psíquicas', 'fenômenos' ou 'eventos psicofísicos', os dhammas são listados e organizados sistematicamente na literatura abidármica. Eles são vistos como as entidades últimas ou eventos momentâneos que compõem a realidade, com o objetivo de criar uma lista exaustiva de todos os fenômenos possíveis do mundo.
Svabhāva: Natureza Intrínseca
O termo 'svabhāva' (páli: sabhāva), que não aparece nos sutras, era frequentemente usado pelos abidarmicas para explicar o funcionamento causal dos darmas, embora com diferentes interpretações entre as escolas. O Abhidharmakośabhāṣya afirma que 'darma significa 'sustentando', [ou seja], sustentando a natureza intrínseca (svabhāva)'. Comentários teravádins explicam que 'dhammas são assim chamados porque portam suas naturezas intrínsecas, ou porque são suportados por condições causais'. Os darmas também eram considerados distintos uns dos outros por suas características intrínsecas/únicas (svalaksana). O Sarvastivada Mahavibhasa enfatiza a importância de examinar essas características, afirmando que 'Abidarma é [precisamente] a análise do svalaksana e samanya-laksana dos dharmas'.
Causalidade e Originação Dependente
Um projeto fundamental dos abidarmicas era desenvolver uma teoria da causalidade, focando em como os darmas momentâneos se inter-relacionam através de causas e condições. A análise sarvastivada detalhou seis causas (hetu), quatro condições (pratyaya) e cinco efeitos (phala). Para a escola sarvastivada, a 'eficácia causal é o critério central para a realidade/existência (astitva) de um dharma', o que lhes rendeu o nome de escola 'Hetuvada'. Um darma é real porque causa e tem efeitos; sem eficácia causal, não existiria. As seis causas sarvastivadas são: 1. Causa concomitante (sahabhū-hetu), 2. Causa homogênea (sabhāga-hetu), 3. Causa universal (sarvatraga-hetu), 4. Causa recíproca (samprayukta-hetu), 5. Causa determinante (adhipati-hetu), 6. Causa de retribuição (vipāka-hetu).
A Filosofia da Temporalidade
Uma discussão central entre os abidarmicas girava em torno da filosofia do tempo. A tradição sarvastivada defendia a visão de que os darmas existem em todos os três tempos – passado, presente e futuro – daí o nome de sua escola, 'teoria de que tudo existe'. As escolas Sautrântica, Vibhajyavāda e Teravada se opunham a essa visão eternalista, defendendo o presentismo (apenas o momento presente existe). Essa divergência era tão significativa que as escolas budistas do norte da Índia eram frequentemente nomeadas de acordo com sua posição filosófica. Vasubandhu resume: 'Aqueles que sustentam que 'tudo existe' — o passado, o presente e o futuro — pertencem ao Sarvastivada. Aqueles, por outro lado, que sustentam que alguns existem, isto é, o carma presente e passado que não deu frutos, mas não aqueles que deram frutos ou o futuro, são seguidores do Vibhajyaväda.'
Renascimento e Identidade Pessoal
Os abidarmicas buscavam explicar o funcionamento do renascimento e do carma na ausência de um 'eu' que renasce, separado dos cinco agregados. O Patthana, um texto páli, contém a mais antiga referência canônica a uma resposta importante: 'bhavanga', ou 'vida contínua'. Bhavanga, literalmente 'o membro no qual a existência ocorre', é o substrato que mantém a continuidade do indivíduo ao longo da vida. Os sarvastivadins tinham um conceito similar, 'nikayasabhagata'. Este conceito tem paralelos com a doutrina iogachara da consciência-armazém (alayavijnana), que mais tarde foi associada à doutrina da Natureza de Buda.
Atomismo no Abidarma
Alguns abidarmicas, como os sarvastivadins, também desenvolveram uma teoria atômica. No entanto, ao contrário da escola hindu Vaisheshika, os átomos abidármicos (paramannu) não são permanentes, mas momentâneos. O Vaibhasika considerava o átomo a menor unidade analisável da matéria (rupa), um 'átomo conceitual' (prajnapti-paramanu) que, no entanto, correspondia a uma coisa real existente. O Mahabhivasa descreve o paramanu como o 'mais fino (sarva-süksma) de todos os rüpas', que não pode ser cortado, quebrado, penetrado, nem tem partes menores, sendo invisível, inaudível, inodoro e intocável.
O Abidarma Pitaca é a terceira 'cesta' (pitaca) do Tripitaca, o cânone da escola Teravada, composto por sete livros. Além disso, o Khuddaka Nikāya contém três textos do tipo abidama. O Abidarma Pitaca foi transmitido oralmente até o século I a.C., quando foi escrito devido ao risco de perda de partes do cânone por fomes e guerras. No século XX, os livros foram traduzidos para o inglês pela Pali Text Society. A literatura páli pós-canônica inclui comentários e manuais que expandem e esclarecem a análise do Abidarma.
A tradição Abidarma indiana mais influente foi a da escola Sarvastivada Vaibhāṣika, predominante no norte da Índia, Caxemira, Báctria e Gandara. Esta é a tradição estudada no budismo do Leste Asiático e tibetano. Assim como o Abidarma teravada, o Abidarma Pitaca sarvastivada também tem sete textos, mas são obras distintas, embora os Ágamas sarvastivadas sejam muito próximos dos sutras do Suta Pitaca teravada. Frauwallner sugere que ambas as coleções de Abidarma compartilham um 'núcleo antigo', uma lista doutrinária inicial de darmas. A obra canônica central, Jñānaprasthāna ('Fundação do Conhecimento'), de Kātyāyanīputra, serviu de base para o Abhidharma Mahāvibhāṣa Śāstra ('Grande Comentário'), um texto enciclopédico que se tornou a ortodoxia sarvāstivada caxemira sob o Império Cuchana.
Diversas outras tradições de Abidarma existiram, muitas das quais se perderam. O Śāriputra Abhidharma Śāstra, da seita Dharmaguptaka, sobrevive em chinês e em fragmentos sânscritos. Textos pudgalavada, como o Traidharmakasastra, também existem em chinês, defendendo a doutrina da 'pessoa' (pudgala). Muitos sastras do Abidarma descobertos entre os textos budistas gandaranos não têm paralelos em outras línguas, indicando a vasta extensão da literatura abidármica antiga.
O Tattvasiddhi Śāstra ('o tratado que realiza a realidade'), conhecido em chinês como Chéngshílun, é um texto abidarma popular no budismo chinês, contido no cânone budista chinês em dezesseis fascículos. Atribuído a Harivarman, um monge do século III da Índia central, este trabalho pode pertencer à escola Bahuśrutīya mahāsāṃghika ou à escola sautrântica. Paramārtha e Joseph Walser o descrevem como uma combinação de doutrinas Hinaiana e Maaiana. Ian Charles Harris também o caracteriza como uma síntese de Hinaiana e Maaiana, notando sua proximidade com as obras de Madiamaca e Iogachara. O Satyasiddhi Śāstra foi tão influente que deu origem à escola Chéngshí (成實宗) na China, fundada em 412 EC.
Um sistema completo de pensamento Abidarma é elaborado nas obras da tradição maaiana Iogachara, que evoluiu principalmente do Abidarma sarvastivada. Figuras como Asanga, Vasubandhu e Xuanzang desenvolveram este Abidarma iogachara, que discute conceitos não amplamente encontrados no Abidarma não-maaiana, como a teoria das oito consciências (incluindo o ālayavijñāna), as três naturezas (trisvabhāva), mero conhecimento (vijñapti-mātra), a revolução fundamental da base (āśraya-parāvṛtti), a budologia maaiana dos três corpos do Buda, os dez pāramitā e os dez bhūmi. Os textos iogacharas serviram como base para a 'Escola Somente Consciência' do Leste Asiático (Wéishí-zōng).
Textos de Prajñāpāramitā e o Abidarma
Os sutras Prajñāpāramitā e a literatura associada são influenciados pelo Abidarma, utilizando suas categorias (como a teoria do darma) para adotá-las ou criticá-las. Johannes Bronkhorst afirma que o Aṣṭasāhasrikā Prajñāpāramitā 'só faz sentido no contexto histórico do Abidarma'. Edward Conze observa que os sutras Prajñāpāramitā visavam criticar a visão de alguns abidarmicas que consideravam os darmas como reais, e que sutras Prajñāpāramitā posteriores foram expandidos com listas doutrinárias do Abidarma. O Dà zhìdù lùn (O Tratado sobre o Grande Prajñāpāramitā), traduzido por Kumārajīva, contém muito material do Abidarma (principalmente sarvastivada). Embora atribuído a Nagarjuna, estudiosos como Étienne Lamotte questionam essa autoria, sugerindo que o autor foi um monge sarvāstivāda erudito em Abidarma que se tornou maaianista, tornando-o um texto muito influente no budismo do Leste Asiático.


