Nicolau II da Rússia
Nicolau II, cognominado "São Nicolau, o Portador da Paixão", pela Igreja Ortodoxa Russa, foi o último Imperador e Autocrata de Todas as Rússias, Rei da Polônia, Grão-Duque da Finlândia e Comandante-em-Chefe das Forças Terrestres do Império Russo.
Um choque entre a Rússia e o Japão era quase inevitável na virada do século XX. A expansão russa para leste e o crescimento de colônias e ambições territoriais, assim como o desejado caminho para o sul em direção aos Bálcãs, foram frustrados, o que abriu caminho para o conflito com as próprias ambições territoriais japonesas no continente asiático. A guerra começou em 1904 com um ataque de surpresa à frota russa em Port Arthur, o que incapacitou a marinha russa no leste. A Frota Báltica Russa tentou cruzar o mundo para contrabalançar o poder no leste, mas depois de vários percalços no caminho, foi aniquilada pelos japoneses na Batalha de Tsushima. Em terra, o exército russo foi prejudicado por uma administração ineficiente e pelo problema de se conduzir uma guerra. Enquanto comandantes e suprimentos chegavam de São Petersburgo, combates tomavam lugar nos postos do leste asiático, somente com a ferrovia Transiberiana para transportar suprimentos a lugares distantes. Os seis mil trilhos entre São Petersburgo e Port Arthur tinham somente um caminho, com nenhuma trilha ao redor do lago Baikal, fazendo lentas mobilizações, e transformando a guerra num fiasco logístico. A guerra acabou com as defesas russas com a queda de Porto Arthur em 1905, e acertos das desavenças de ambos os países no Tratado de Portsmouth.
Nascimento e família
Nicolau nasceu em 18 de maio de 1868 (6 de maio no calendário juliano) no Palácio de Alexandre, em Tsarskoye Selo, nos arredores da então capital São Petersburgo. Ele era filho do então grão-duque Alexandre Alexandrovich, futuro czar Alexandre III e de sua esposa, Maria Feodorovna, nascida princesa Dagmar da Dinamarca. Nicolau tinha três irmãos mais novos: Alexandre, Jorge e Miguel e duas irmãs mais novas: Xenia e Olga. Em família, era chamada de Nicky. Seus avós paternos eram o czar Alexandre II e Maria Alexandrovna, nascida princesa Maria de Hesse. Seus avós maternos eram o rei Cristiano IX da Dinamarca e a princesa Luísa de Hesse-Cassel. Do lado materno, Nicolau era sobrinho de vários monarcas, incluindo os reis Jorge I da Grécia e Frederico VIII da Dinamarca, a rainha Alexandra do Reino Unido e a princesa Tira de Hanôver, duquesa de Cumberland e Teviotdale. Nicolau era de ascendência principalmente alemã e dinamarquesa, seu último ancestral etnicamente russo foi a grã-duquesa Ana Petrovna da Rússia (1708-1728), filha de Pedro, o Grande.
Czarevich
Nicolau tornou-se czarevich após o assassinato de seu avô, Alexandre II no dia 13 de março de 1881 e à subsequente ascensão de seu pai, Alexandre III. Por razões de segurança o novo czar e sua família mudaram-se do Palácio de Inverno, em São Petersburgo para sua residência no Palácio de Gatchina fora da cidade. Nicolau e os irmãos foram rigidamente educados, dormiam em duras camas de armar e seus quartos eram pobremente mobiliados, exceto por um ícone religioso da Virgem e Filho rodeado por pérolas e outras gemas. Sua avó Maria Alexandrovna introduziu costumes ingleses dentro da família Romanov: mingau no café-da-manhã, banhos frios e abundante ar fresco. O czarevich foi educado por tutores em línguas (francês, alemão e inglês), geografia, dança e outras matérias. O conselheiro de seu pai e seu antigo tutor Konstantin Pobedonostsev, enfatizava fortemente a absoluta autocracia do czar.
Personalidade
Desde cedo o czar Nicolau demonstrou temperamento tímido e inclinações que o orientavam mais para a vida doméstica. Tinha as maneiras de um aluno de uma escola inglesa de elite. Dançava de forma elegante, era um bom atirador, cavalgava e praticava esportes. Falava francês e alemão e seu inglês era tão bom, que ele poderia ter enganado um professor da Universidade de Oxford, fazendo-se passar por um inglês. Adorava a história e a pompa do exército, e a vida de soldado. O seu pai concedeu-lhe o grau de comandante de um esquadrão de guardas a cavalo e ele foi para Krasnoe Selo, o grande campo militar fora de São Petersburgo usado por regimentos da Guarda Imperial para manobras de verão. Lá, Nicolau participava inteiramente da vida e conversas das salas de jantar, e sua modéstia fê-lo popular entre seus oficiais. Nenhum título significava mais para ele do que o de coronel.
Noivado, casamento e ascensão
Nicolau ficou noivo de Alice de Hesse e Reno em abril de 1894, durante o casamento da prima Vitória Melita de Saxe-Coburgo-Gota com Ernesto Luís, Grão-Duque de Hesse, irmão de Alice. Alice hesitou em aceitar a proposta de casamento devido à exigência de que teria que se converter do luteranismo para a ortodoxia russa e renunciar à sua fé inicial. Na cerimônia de conversão, esse aspecto foi eliminado, tornando fácil para ela se converter com a consciência tranquila. Nicolau e Alice tornaram-se formalmente noivos no dia 8 de abril de 1894. Alice se converteu para a ortodoxia em novembro de 1894 e passou a se chamar Alexandra Feodorovna. Esperando viver mais 20 ou 30 anos, Alexandre não se preocupou em dar ao filho educação política, e consequentemente Nicolau recebeu pouco treinamento para esse dever imperial. Contudo, em meados de 1894 a saúde de Alexandre III inesperadamente declinou rapidamente. Alexandre morreu aos 49 anos em 1894, de doença nos rins. Nicolau, sentindo-se impreparado para os deveres da coroa, perguntou, em lágrimas, ao seu primo: O que será de mim e da Rússia? Eu não estou preparado para ser czar e nunca o quis ser. Não percebo nada dos negócios do governo. Não sei nem sequer como hei de falar com os ministros.
Tragédia de Khodynka
Em 14 de maio de 1896 Nicolau foi coroado como czar na Catedral da Dormição, localizada no interior do Kremlin. Em 18 de maio de 1896 após a coroação, aconteceu uma histeria coletiva, que ficou conhecida como Tragédia de Khodynka. Um banquete comemorativo em comemoração a coroação do Czar, foi preparado para o povo do Campo de Khodynka. Haveria teatros, 150 bufês distribuiriam presentes e 20 pubs foram construídos para a celebração. Na noite de 17 de maio, algumas pessoas ouviram a notícia dos presentes que seriam distribuídos e começaram a chegar antecipadamente. Repentinamente um rumor propagou-se entre a multidão de que não haveria cerveja e presentes para todos. A força policial falhou em manter a ordem. Estima-se que 1 429 pessoas morreram e outras 9 000 a 20 000 ficaram feridas.
Pogroms
A administração de Nicolau publicou propaganda antissemita que encorajou tumultos, resultando nos pogroms de 1903 a 1906. Viacheslav Plehve, o Ministro do Interior, pagou ao jornal de Kishinev "Bessarabets" por material antissemita, e a imprensa, durante a Guerra Russo-Japonesa acusou os judeus de serem uma quinta coluna. Essas acusações encorajaram a erupção de numerosos pogroms, especialmente depois que a Rússia perdeu a guerra. Eles também resultaram da reação do governo à Revolução de 1905.
Em 1981, Nicolau II e a família foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa no Exterior como Neomártires. Em 2000, a Igreja Ortodoxa Russa, dentro da Rússia canonizou a família como Portadores da Paixão. De acordo com a declaração do sínodo de Moscou, eles foram glorificados como santos pelas seguintes razões: Mesmo assim, a canonização de Nicolau foi controversa. A Igreja Ortodoxa Russa no Exterior ficou dividida sobre a questão em 1981, e alguns membros sugeriram que ele era um governante fraco que falhou em impedir a ascensão dos bolcheviques. Um padre salientou que seu martírio na Igreja Ortodoxa Russa não teve nada relacionado com suas ações pessoais, mas sim pelo motivo que foi morto. A igreja dentro da Rússia rejeitou a classificação da família como neomártires por não terem morrido por causa de sua fé. Os líderes religiosos nas duas igrejas também tinham objeções quanto a canonização da família do czar pois sua incompetência levou a uma revolução e ao sofrimento de seu povo, além de ter sido em parte o motivo de seu assassinato, o de sua família e servos. Para seus oponentes, o fato de que Nicolau era um homem gentil, bom marido ou um líder que mostrava genuína preocupação com o povo não o redimia por sua época à frente da Rússia.
Alexandra deu a Nicolau cinco filhos, Olga em 1895, Tatiana em 1897, Maria em 1899 e Anastásia em 1901, e um filho, Alexei em 1904. A mais velha, Olga, era muito parecida com Nicolau. Era inteligente e rápida para captar ideias. Conversando com pessoas que conhecia bem, falava rapidamente, com sinceridade e perspicácia. Lia muito e adorava passear e nadar com o pai. Contava-lhe seus segredos em suas longas caminhadas. Tatiana era a mais sociável e aparecia em mais ocasiões públicas do que as outras. Era chamada "a Governanta" pelos irmãos, porque era ela quem intercedia por eles aos pais. Tatiana era muito próxima da mãe. Era decidida e enérgica e emitia opiniões categóricas. Sentia-se que ela era a filha de um imperador, declarou um oficial da Guarda. A terceira filha, Maria, tinha um grande talento para pintura e desenho. Era considerada a mais amável e simpática das irmãs, o que lhe rendeu o apelido "o anjo da família". Maria flertava com jovens soldados e seus assuntos preferidos eram casamento e filhos. Muitos achavam que ela daria uma esposa excelente para qualquer homem.


