A Vindication of the Rights of Woman
A Vindication of the Rights of Woman: with Strictures on Political and Moral Subjects é um livro publicado em 1792 da autoria de Mary Wollstonecraft, uma proto-feminista britânica do século XVIII, e uma das primeiras obras de filosofia feminista. Nele, Wollstonecraft responde aos teóricos da educação e política do século XVIII que não acreditam que as mulheres devem ter acesso ao sistema educacional, argumentando que as mulheres devem ter uma educação compatível com a sua posição na sociedade, que as mulheres são essenciais para a nação, porque educam seus filhos e poderiam ser "companheiras racionais" para seus maridos, ao invés de meras esposas. Em lugar de ver as mulheres como enfeites para a sociedade, ou uma propriedade a ser negociada no casamento, Wollstonecraft afirma que elas são seres humanos merecedores dos mesmos direitos fundamentais fornecidos aos homens.
Reivindicação dos Direitos da Mulher foi escrito no pano de fundo da tumultuada Revolução Francesa e os debates que ela gerou na Grã-Bretanha. Em uma animada e às vezes cruel guerra de panfletos, agora conhecido como a Controvérsia da Revolução, comentaristas políticos britânicos abordaram temas que vão desde o governo representativo e os direitos humanos até a separação entre a igreja e o estado; muitas destas questões foram levantadas inicialmente na França. Mary Wollstonecraft entrou pela primeira vez nesta briga em 1790, com Uma Reivindicação dos Direitos dos Homens, uma resposta às Reflexões de Edmund Burke sobre a Revolução na França (1790). Em suas reflexões, Burke criticou a visão de muitos pensadores e escritores britânicos que receberam favoravelmente os primeiros estágios da Revolução Francesa. Enquanto eles viram a revolução como análoga à própria Revolução Gloriosa da Grã-Bretanha em 1688, que havia restringido os poderes da monarquia, Burke argumentou que a analogia histórica adequada era a Guerra Civil Inglesa (1642-1651), na qual Charles I foi executado em 1649. Ele via a Revolução Francesa como a derrubada violenta de um governo legítimo. Em Reflexões, ele argumenta que os cidadãos não têm o direito de se revoltar contra seu governo porque a civilização é o resultado do consenso social e político; suas tradições não podem ser continuamente desafiadas porque o resultado seria a anarquia. Um dos principais argumentos do Direitos dos Homens de Wollstonecraft, publicado seis semanas após Reflexões de Burke, é que os direitos não podem ser baseados na tradição; direitos, ela argumenta, devem ser conferidos porque são razoáveis e justos, independentemente da sua base na tradição.
Ao compor suas obras Wollstonecraft não empregou a argumentação formal ou estilo de prosa lógica que era comum aos escritos filosóficos do século XVIII. Os Direitos da Mulher é um longo ensaio que introduz os seus principais temas nos capítulos de abertura e depois retorna a eles, cada vez a partir de um ponto de vista diferente. Ela também adota um tom híbrido que combina o argumento racional com a retórica fervorosa da sensibilidade. No século XVIII, a sensibilidade era considerada um fenômeno físico, que veio a ser ligado a um conjunto específico de crenças morais. Médicos e anatomistas acreditavam que se as pessoas têm nervos mais sensíveis, mais emocionalmente elas são afetadas por fatores externos. Desde que as mulheres eram vistas como tendo nervos mais aguçados do que os homens, também acreditava-se que as mulheres eram mais emocionais do que os homens. O excesso emocional associado com a sensibilidade também produziu teoricamente uma ética da compaixão: aqueles com sensibilidade poderiam facilmente simpatizar com pessoas em sofrimento. Assim, os historiadores têm creditado o discurso da sensibilidade e aqueles que a promoveram, com o aumento dos esforços humanitários, tais como o movimento para abolir o tráfico de escravos. Mas a sensibilidade também paralisava aqueles que tinham muito dela; o estudioso G. J. Barker-Benfield explica que, "um refinamento inato dos nervos também foi identificável com maior sofrimento, fraqueza, e uma susceptibilidade à desordem".
Educação racional
Um dos argumentos centrais de Wollstonecraft em Direitos da Mulher é que as mulheres devem ser educadas de forma racional para dar-lhes a oportunidade de contribuir para a sociedade. No século XVIII, foi frequentemente assumido por filósofos educacionais e por autores que escreviam o que poderia ser o precursores dos livros de auto-ajuda, que as mulheres eram incapazes de pensamento racional ou abstrato. Mulheres, acreditava-se, eram muito suscetíveis à sensibilidade e frágeis demais para serem capazes de pensar com clareza. Wollstonecraft, juntamente com outras reformadoras, como Catharine Macaulay e Hester Chapone, sustentaram que as mulheres eram capazes de pensamento racional e mereciam ser educadas. Ela argumentou este ponto em seu próprio livro de conduta, Thoughts on the Education of Daughters (1787), em seu livro infantil, Original Stories from Real Life (1788), bem como nos Direitos da Mulher.
Temas feministas
É discutível até que ponto os Direitos da Mulher é um texto feminista, porque as definições do que é feminismo variam e diferentes estudiosos chegam a conclusões diferentes. Wollstonecraft nunca referiu este texto como feminista porque as palavras feminista e feminismo foram inventadas apenas na década de 1890. Além disso, não havia nenhum movimento feminista durante a vida de Wollstonecraft. Na introdução ao seu trabalho seminal sobre o pensamento de Wollstonecraft, Barbara Taylor escreve: Descrever [a filosofia de Wollstonecraft] como feminista é problemático, e eu o faço apenas depois de muita consideração. O rótulo é, naturalmente, anacrônico. . . Tratar o pensamento de Wollstonecraft como uma antecipação dos argumentos feministas do século XIX e XX significa sacrificar ou distorcer alguns dos seus elementos-chave. Entre os principais exemplos disto. . . estão a negligência generalizada sobre suas crenças religiosas e a má interpretação da autora como uma burguesa liberal, que juntos resultaram no deslocamento do seu radicalismo utópico inspirado pela religião para um reformismo secular, partidário de classe, tão estranho para o projeto político de Wollstonecraft como seu sonho de uma época de felicidade universal prometida divinamente é para nós. Ainda mais importante, porém, tem sido a imposição a Wollstonecraft do rótulo de 'heroína individualista da política', totalmente em desacordo com a sua orientação ética para a emancipação das mulheres. A principal ambição de Wollstonecraft para as mulheres era que elas devem atingir a virtude, e foi para este fim que ela procurou sua libertação.
Sensibilidade
Uma das críticas mais contundentes de Wollstonecraft nos Direitos da Mulher, é contra a sensibilidade falsa e excessiva, particularmente nas mulheres. Ela argumenta que as mulheres que sucumbem à sensibilidade são "levadas por cada rajada momentânea de sentimento"; porque estas mulheres estão "presas aos seus sentidos", elas não podem pensar racionalmente. Na verdade, não só elas fazem mal a si mesmas, mas também fazem mal a toda a civilização: em vez de serem as mulheres que podem aperfeiçoar a civilização, são as mulheres que iram destruí-la. Mas a razão e sentimento não são independentes para Wollstonecraft; em vez disto, ela acredita que eles devem funcionar ajudando-se mutuamente. Para Wollstonecraft, como para o importante filósofo do século XVIII, David Hume, as paixões sustentam toda a razão. Este foi um tema a que ela voltaria toda a sua carreira, mas particularmente em seus romances, Mary: A Fiction (1788) e Mary: or, The Wrongs of Woman.
Republicanismo
Claudia Johnson, uma proeminente estudiosa de Wollstonecraft, chamou Direitos da Mulher de "um manifesto republicano". Johnson afirma que Wollstonecraft remete à tradição da Commonwealth do século XVII e tenta restabelecer um ethos republicano. Na versão de Wollstonecraft, haveria papéis masculinos e femininos fortes, mas separados, para os cidadãos. De acordo com Johnson, Wollstonecraft, "denuncia o colapso da própria distinção sexual como a característica principal da sua época, e como consequência grave do próprio sentimentalismo. O problema que prejudica a sociedade, em sua visão, são os homens afeminados". Se os homens se sentem livres para adotar tanto a posição masculina como a posição feminina sentimental, ela argumenta, as mulheres não têm lugar na sociedade. Portanto, Johnson vê Wollstonecraft como crítica, em ambos os Direitos dos Homens e os Direitos da Mulher, da "masculinização da sensibilidade" em obras como as reflexões de Edmund Burke sobre a Revolução Francesa.
Classes
Em muitos aspectos, os Direitos da Mulher é influenciado por uma visão burguesa de mundo, como é o seu antecessor Direitos dos Homens. Wollstonecraft dirige o seu texto para a classe média, que ela chama de "estado mais natural". Ela também elogia frequentemente a modéstia e a operosidade, virtudes que, na época, foram associadas com a classe média. Da sua posição de uma escritora da classe média, argumentando para um ethos de classe média, Wollstonecraft também ataca os ricos, criticando-os com os mesmos argumentos que emprega contra as mulheres. Wollstonecraft ressalta o "falso-refinamento, imoralidade e vaidade" dos ricos, chamando-os de "fracos, seres artificiais, criados acima dos desejos e afetos comuns da sua raça, de forma prematura e não natural que mina o próprio fundamento da virtude, e espalha a corrupção através de toda a massa da sociedade".
Na tentativa de navegar pelas expectativas culturais das escritoras e pelas convenções genéricas do discurso político e filosófico, Wollstonecraft, como ela fez ao longo da sua carreira, constrói uma mistura única de estilos masculinos e femininos nos Direitos da Mulher. Ela utiliza a linguagem filosófica, referindo-se ao seu trabalho como um "tratado" com "argumentos" e "princípios". No entanto, Wollstonecraft também usa um tom pessoal, empregando "eu" e "você", traços e pontos de exclamação, bem como referências autobiográficas, para criar uma voz distintamente feminina no texto. Os Direitos da Mulher hibridiza o seu gênero, entrelaçando elementos da literatura de conduta, ensaio e o romance, gêneros muitas vezes associados às mulheres, enquanto ao mesmo tempo afirma que estes gêneros podem ser utilizados para discutir temas filosóficos, tais como os direitos. Embora Wollstonecraft argumente contra a sensibilidade excessiva, a retórica dos Direitos da Mulher é, por vezes, apaixonada e tenta provocar o leitor. Muitos dos comentários mais emocionais no livro são dirigidos a Rousseau. Por exemplo, depois de extrair uma longa passagem de Emílio (1762), Wollstonecraft afirma sucintamente: "Eu não faria nenhum outro comentário sobre está passagem engenhosa, além de observar que é a filosofia da lascívia". Uma página mais tarde, depois de atacar o plano de Rousseau para a educação feminina, ela escreve: "Devo relaxar fazendo um outro desenho." Estas exclamações concisas são destinadas a chamar o leitor para o seu lado do argumento (presume-se que o leitor concordará com elas). Enquanto Wollstonecraft afirma escrever em um estilo simples para que as suas ideias atinjam o público mais amplo possível, ela na verdade combina a linguagem simples e racional do tratado político com a linguagem poética e apaixonada da sensibilidade para demonstrar que pode-se combinar a racionalidade e a sensibilidade no mesmo indivíduo. Wollstonecraft defende suas posições não só com argumento racional, mas também com a retórica ardente.
Wollstonecraft foi forçada a escrever os Direitos da Mulher às pressas para responder a Talleyrand e aos eventos em curso. Concluído o trabalho, ela escreveu para seu amigo William Roscoe: "Estou insatisfeita comigo mesmo por não ter feito justiça ao assunto — Não suspeite de falsa modéstia - Eu quero dizer, se eu tivesse me permitido dedicar mais tempo eu poderia ter escrito um livro melhor, em todos os sentidos da palavra... Eu pretendo terminar o próximo volume antes de começar a imprimir, pois não é agradável ter o diabo de uma conclusão vindo antes do argumento." Quando Wollstonecraft revisou os Direitos da Mulher para a segunda edição, ela aproveitou a oportunidade não só para corrigir pequenos erros ortográficos e gramaticais, mas também para reforçar as reivindicações feministas de seu argumento. Ela mudou algumas de suas declarações relativas à diferença feminina e masculina para refletir uma maior igualdade entre os sexos.
Quando foi publicado pela primeira vez em 1792, os Direitos da Mulher foi avaliado favoravelmente pela Analytical Review, General Magazine, Literary Magazine, New York Magazine, e a Monthly Review, embora atualmente persista a ideia de que os Direitos da Mulher recebeu críticas hostis. O livro quase imediatamente recebeu uma segunda edição em 1792, várias edições americanas apareceram, e foi traduzido para o francês. Taylor escreve que "foi um sucesso imediato". Além disso, outras escritoras como Mary Hays e Mary Robinson especificamente aludiram ao texto de Wollstonecraft em suas próprias obras. Hays citou os Direitos da Mulher em seu romance Memórias de Emma Courtney (1796) e modelou suas personagens femininas na mulher ideal de Wollstonecraft. Embora as conservadoras, como Hannah More atacassem Wollstonecraft pessoalmente, elas realmente compartilhavam muitos dos seus valores. Como a estudiosa Anne Mellor demonstrou, tanto elas e Wollstonecraft queriam uma sociedade baseada nas "virtudes cristãs da benevolência racional, honestidade, virtude pessoal, o cumprimento do dever social, economia, sobriedade, e trabalho duro". Durante o início da década de 1790, muitas escritoras britânicas estavam envolvidas em um intenso debate sobre a posição das mulheres na sociedade. Por exemplo, a respeitada poeta e ensaísta Anna Laetitia Barbauld e Wollstonecraft brigaram uma com a outra; Barbauld publicou vários poemas que respondem à obra de Wollstonecraft e esta comentou sobre eles em notas de rodapé para os Direitos da Mulher. O trabalho também provocou hostilidade. A intelectual Elizabeth Carter não ficou impressionada com o trabalho. Thomas Taylor, tradutor neoplatonista que detinha senhorio sobre a família Wollstonecraft no final dos anos de 1770, rapidamente escreveu uma sátira chamada Uma defesa dos Direitos dos Brutos: se as mulheres têm direitos, por que não os animais também?.


