Amor
Amor é uma emoção ou sentimento que leva uma pessoa a desejar o bem a outra pessoa ou a uma coisa. O uso do vocábulo, contudo, lhe empresta outros tantos significados, quer comuns, quer conforme a ótica de apreciação, tal como nas religiões, na filosofia e nas ciências humanas. O amor possui um mecanismo biológico que é determinado pelo sistema límbico, centro das emoções, presente somente em mamíferos e talvez também nas aves — a tal ponto que Carl Sagan afirmou que o amor parece ser uma invenção dos mamíferos.
Na concepção vulgar o termo amor encontra variadas significações que devem ser abordadas em sentidos próprios e respectivos, definidos em sentimentos e ações que muitas vezes se fazem impróprios à definição do sentimento, mas que podem ter ou não implicações nas demais percepções, como na filosofia; assim, considera-se o amor como:
Amor e conceitos relacionados
Precursor da química no século XVI, o suíço Paracelso, ligava o amor ao conhecimento: "Quem nada conhece, nada ama. Quem nada pode fazer, nada compreende, nada vale. Mas quem compreende, também ama, observa, vê... Quanto mais conhecimento houver inerente numa coisa, tanto maior o amor". O psicanalista Jacques Lacan relaciona o amor com a verdade, num de seus seminários, dizendo que ambos possuem uma estrutura ficcional e são como que artifícios usados para camuflar enigmas que não podem ser decifrados. O amor, tal como se tem hoje como algo que envolve consenso, escolha e paixão amorosa, não fazia parte do matrimônio até o século XVIII, quando a sexualidade passou a crescer em importância dentro do casamento.
A compreensão dos símbolos que cria sempre fascinou o homem, e por meio da sua análise pode-se então responder sobre a origem de sua própria existência, conhecendo os antigos costumes, as crenças religiosas, a medicina alternativa e a comunicação. Neste sentido, o símbolo surge como algo que vem para elucidar, por analogia, aquilo que ainda está desconhecido ou para antever o que ainda não ocorreu - e não como o disfarce de algo que já se conhece. Os principais símbolos do amor são a maçã, o coração, a flecha (que remete à figura do Cupido), a cruz e, dentre sua mítica, está a crença de que forças mágicas podem vir a controlá-lo, como se verá a seguir:[nota 2]
Maçã
Na mitologia grega a maçã torna-se o pomo da discórdia: a deusa Éris nela inscrevera a dedicatória - "à mais bela" - e lançou no banquete dos deuses entre as deusas. Hera, Afrodite e Atena brigaram pela posse do pomo. Zeus não querendo privilegiar nenhuma deixa a decisão com Páris no episódio conhecido como Julgamento de Páris que é um prelúdio para Guerra de Troia: Afrodite promete a Páris o amor da mais bela das mulheres, Helena de Esparta. Páris escolhe Afrodite como deusa mais bela, ao invés de aceitar o poder prometido por Hera ou a sabedoria prometida por Atena. A moral do conto é que o homem sempre escolhe o amor. Embora haja outros frutos, como a uva ou o figo, que representem a alegoria do pecado original citado na Bíblia, foi a maçã quem, a partir do século XII assumiu o papel principal de representar a transgressão vivida por Adão e Eva, o motivo de sua expulsão do Éden.
Coração
Para Santo Agostinho o coração é o recipiente do amor divino, e o conhecimento deve ser buscado através do amor. É ele o órgão central do corpo humano, estando assim simbolicamente ligado como o centro do homem, e do mundo. O desenho estilizado do coração teria surgido na França para representar um dos naipes do baralho que, originalmente, simbolizaria uma das classes sociais - Choeur, ou clero, que logo se tornou couer, coração; o símbolo universalizou-se e modernamente representa não o órgão em si, mas o amor.
Flecha
No Ocidente, a flecha é o instrumento com que o deus grego do amor, Eros (ou Cupido, na versão latina), alveja os corações das pessoas, fazendo-as se apaixonarem. É assim, por exemplo, que ocorre quando, por capricho, este alveja Apolo fazendo o deus se apaixonar pela ninfa Dafne, enquanto a ela acerta com uma flecha de ponta redonda e de chumbo, capaz de assim torná-la avessa ao sentimento; tem início ali uma perseguição que termina quando a ninfa é transformada num árvore de louro. Como no mito grego, os hindus também possuem a figura de Kama, bastante similar a Eros e, como este, um dos primeiros deuses a nascer; representado com arco e flecha, teria acertado Brama com uma das suas setas fazendo-o apaixonar-se por uma das suas filhas e este, raivoso pelo feito, amaldiçoou-lhe dizendo que morreria por uma das vítimas de suas flechadas - o que efetivamente veio a ocorrer quando atinge Xiva: o deus, perturbado na sua meditação, pune Kama com um raio, reduzindo-o a cinzas.
Poção do amor
A existência de um elixir capaz de infundir no objeto dos desejos o sentimento amoroso é relatada por Horácio, num dos seus Epodos (Epodo V), onde se elabora a poção do amor a partir do fígado de uma criança que as bruxas fizeram morrer lentamente. Ressurge com o mito medieval de Tristão e Isolda, onde o casal que dá nome à história se apaixona após beber a poção por engano, engendrando-se ali um caso de adultério: nas primitivas versões da história o elixir teria efeito temporário, ao passo que nas versões da literatura cortês seu efeito seria duradouro, perene. A versão cavalheiresca do mito dá a conotação do conteúdo trágico que envolve o amor-paixão, servindo portanto de alerta contra esse "mal", que contradiz a propaganda da obediência estrita às leis e códigos morais.
Virginia Woolf declarou que os historiadores tendiam a ignorar as experiências privadas; a despeito disto, Stephen Kern é um historiador que foge a esta máxima, abordando a temática do amor; segundo ele, apesar do sentimento ter uma natureza amorfa, multifacetada e até invisível por vezes, também "tem uma história" - ideias que tomam por base as premissas existencialistas em Heidegger, argumento que o amor no Ocidente é uma experiência mais "autêntica" entre 1847 até 1934 - propondo que os amantes modernos são mais livres e mais auto-reflexivos do que os da era vitoriana.
Antiguidade Clássica
O historiador Will Durant conta que "o amor romântico existia entre os gregos, mas raramente determinava os casamentos". Foi assim que Homero registra que Agamenão e Aquiles tomaram para si Críseis, Briseis e Cassandra movidos por um apelo físico somente. Apesar dos antigos contarem de amores como o de Orfeu por Eurídice, o amor de que geralmente falam é o apetite sexual. É uma exceção, assim, a história narrada por Estesícoro, onde uma donzela morre de amor; entretanto, Teano, esposa de Pitágoras, registrou que amor era "a doença de uma alma saudosa" - uma definição que em tudo se aproxima à visão romântica. Daqueles primórdios a civilização evoluiu para além do mero desejo sobre o objeto amado, fazendo com que sobre ele também pairasse o sentimento da ternura: a poesia passou a ter mais espaço sobre o desejo; Sófocles declara, assim, que "o amor faz o que quer dos deuses" e Eurípedes proclama em várias passagens o poder de Eros.
Idade Média
Will Durant relata que a Idade Média viveu sob uma ética cristã que pregava ter nascido o homem do pecado (em 1150 Graciano dissera em seu Decretum - aceito não-oficialmente pela Igreja - que "Todo ser humano que for concebido pelo coito do homem com a mulher nascerá com o pecado original, ficará sujeito a impiedade e morte e será, portanto, um filho do ódio."). Durant lembra que neste período os casamentos se davam muito cedo, e por motivos patrimoniais; cita o caso de Graça de Soleby, que casou-se aos quatro anos com um nobre que, falecendo, permitiu-lhe novo casamento aos seis anos e novamente aos onze - uniões estas que poderiam ser anuladas pois a idade núbil era de doze anos para a menina e de catorze para os rapazes.
Amor romântico
Durante o romantismo o amor passou a ser o fator essencial da própria vida; nenhum outro período histórico teve o amor tão presente na literatura; o amor, suas angústias - "a paixão sobrepondo a razão, a insatisfação com a vida, o prazer no sofrimento, o arrebatamento da imaginação e o desejo de morte" sempre foram retratados nas artes - contudo, foram incorporados ao cotidiano dos românticos do século XIX. Os românticos constroem um melancólico e nostálgico mundo imaginário, e trazem como principais características um distanciamento da realidade social, experiência da perda e procura pelo que se perdeu; a poesia e o amor se tornam a própria vida.
Compreensão moderna do amor
O século XX assistiu a uma preocupação teórica da compreensão do amor, sob as mais variadas óticas; Denis de Rougemont, ecologista suíço, publica em 1938 seu O Amor e o Ocidente, ganhando diversas traduções, análises, críticas, despertando polêmica. A conselheira sentimental Betty Milan diz que sem o amor não existiria a vida, mas que o assunto nunca é tratado entre os homens, que falam apenas do sexo, ao passo em que o tema é comum entre mulheres - e isto porque elas são "marginalizadas", sendo então o amor é neutralizado na modernidade, em detrimento do prazer sexual; para esta autora, amor é uma paixão. Erich Fromm constrói a seguinte definição: "O amor é uma força ativa no homem; uma força que irrompe pelas paredes que separam o homem de seus semelhantes, que o une aos outros; o amor leva-o a superar o sentimento de isolamento e de separação, permitindo-lhe, porém, ser ele mesmo, reter sua integridade. No amor, ocorre o paradoxo de que dois seres sejam um e, contudo, permaneçam dois."
Era digital, pós-moderna
O mundo atual é fruto de rápidas transformações ocorridas após o final da II Guerra Mundial, que assistiu ao processo de emancipação feminina e seu controle da concepção, tudo isto levando a um estado individual de permanente crise derivada da insegurança diante das novas realidades que rapidamente surgem. Neste contexto, as informações veiculadas pela mídia referem-se muito mais aos casos de violência e sexo do que propriamente ao relacionamento amoroso; por outro lado na propaganda o amor romântico é usado como plano de fundo para se vender de tudo, desde dentifrícios a seguros de vida. Para Zygmunt Bauman vive-se uma era de "amor líquido". Pela internet os relacionamentos virtuais ganharam maior fluidez em comparação aos laços reais (pesados, lentos e confusos), onde sempre há a alternativa de "deletar" uma relação com o simples apertar de uma tecla; isto torna os compromissos irrelevantes, as relações não se fundamentam sobre a honestidade e é pouco provável que se sustentem; assim, se por um lado romper os laços é algo fácil, por outro não reduzem os riscos - apenas os distribuem de modo diferente.
Segundo Roberto Mangabeira Unger "uma experiência religiosa fundada na dinâmica personalista da transcendência e do amor acaba subvertendo os privilégios e as exclusões étnicas, nacionais, culturais e de gênero, mesmo quando parece atribuir a essas distinções significados e valores religiosos." Para ele, no caso da Bíblia por exemplo, há duas raízes "subversivas": a primeira ao transcender o mundo real e a segunda é o impulso de tornar-se o indivíduo disponível aos outros. Nas religiões, para a psicanálise, as pulsões (tendências permanentes, e em geral inconscientes, que dirigem e incitam a atividade do indivíduo) de amor e ódio convivem, muitas vezes levando à prática das ações mais violentas em nome do amor; esta convivência antagônica se faz patente nas religiões mais fundamentalistas. Assim é que, para Bion a religião separa, enquanto a mística une. Num outro sentido, as próprias religiões reconhecem que o "amor puro" está bem próximo da "luxúria".
Hinduísmo
O hinduísmo moderno estabeleceu um culto centrado nas variadas manifestações de Críxena, especialmente em três delas que se tornaram as mais adoradas na Índia e Bangladesh: Rada Madana Moana; Rada Govinda Deva e Rada Gopinataji - sendo destes Madana Moana a divindade que "encanta todos os Cupidos", ou seja, o próprio deus do amor. Segundo os seguidores do filósofo Caitanya (século XVI), Críxena é uma manifestação de Vishnu que demonstra que um deus pode ser visto e adorado como um amante - sendo esta relação com o deus a maior expressão que pode alcançar um devoto de sua vertente do hinduísmo. Na antiga tradição hindu, expressa em vedas como o Bhagavad-gita, o homem deve procurar unir-se à divindade, por caminhos que passam por cada vez mais se libertar das coisas materiais e descobrir as espirituais - dentre elas a prática da caridade; em suma, muitas outras obras propõem os sentimentos passionais, como o impulso sexual, sejam sublimados em sentimentos devocionais.
Judaísmo
O amor tem sua obrigatoriedade definida no Levítico, 19:18 - "Tu não deves tomar vingança, nem conservar ira aos filhos de teu povo - mas deves amar ao seu vizinho (como alguém) a si próprio. Eu sou YHWH!" - Maimônides diz ser este um mitzvá[nota 5] pois, como está escrito, "amar seu próximo (como alguém) a si mesmo" impõe a necessidade de cantar seus louvores, e mostrar preocupação com seu bem-estar financeiro, como faria para o seu próprio bem-estar e como faria para sua própria honra - e qualquer um que se aproveita do seu próximo para se elevar não tem participação na vida futura; em contraposição, Nacmânides pondera que, embora seja um mitzvá, a condição de amar ao próximo como a si mesmo é demais para qualquer ser humano, e já o rabino Aquiba ensinava que "sua vida vem antes da vida de seu amigo"; ele remete ao preceito de amar ao estrangeiro como a si mesmo, também previsto no Levítico (19:33-34), relativizando o ensinamento, para desejar ao próximo todo o bem, sucesso e sabedoria.
Budismo
As três vertentes do budismo (teravada, zen e tibetano) conservam alguns pontos em comum, dentre os quais a visão sobre o amor, como expresso nesta citação do Digha Nikaya: "O ódio nunca poderá acabar com o ódio. O amor pode. Isso é uma lei inalterável". A meditação é um caminho que leva à estima e amor para com todos os seres; o amor não pode se limitar, contudo, a um mero sentimento e sim tornar-se ação de auxílio e oferenda a deus; a compaixão, no budismo, difere da visão cristã - no sentido de que nesta ele é uma forma de afeto, algo que a doutrina de Buda rejeita, e sim num conceito de puro amor cristão, de humanitarismo e doçura.
Cristianismo
O amor ocupa o centro do pensamento de Santo Agostinho, um dos Pais da Igreja; tal como em sua própria vida, ele divide o amor em dois: o amor sensual, "cupiditas", e o amor transcendental, que evolui do primeiro, que é mundano, para o segundo, pleno e divino; o amor, ainda segundo o padre de Hipona, para se manifestar no ser humano é preciso que este possua paixão, desejo e carência. Na obra agostiniana vê-se clara influência dos textos paulinos, especialmente da sua Primeira Epístola aos Coríntios; ali, vê-se o amor (caridade) como a base mesma do ser: "Se não tiver amor, eu nada serei". As ideias de Calvino, segundo Max Weber, romperam com visões tradicionais da Igreja ao colocar valores como o amor acima da terrível justiça divina; segundo Colin Campbell “Essa revolução na crença preparou o caminho para uma revolução ainda maior, representada pelo Romantismo, que rejeitou ao mesmo tempo as doutrinas literal e histórica do Cristianismo, enquanto reteve uma crença tanto na bondade da humanidade como na espiritualidade que ligava a natureza do homem ao mundo natural”.
Islamismo e crenças árabes
Para o Islã o amor está ligado ao ódio: não se pode amar a Deus (Alá) ou aos outros, sem com isto não odiar o mal. O amor humano distingue-se do amor divino, e este deve estar inerente à fé do indivíduo - está de tal forma impregnado na doutrina islâmica que constitui elemento essencial para a sua visão do mundo, nos aspectos teológicos, místicos e éticos. Esta peculiar visão do amor prega que "a fé nada mais é do que o amor pelo amor de Deus, e ódio pelo amor de Deus" e que "foi por amor que Deus criou o mundo". A compreensão da caridade, ou amor ao próximo necessitado, aproxima o Alcorão do Novo Testamento; nas escrituras do Profeta se lê (76: 8 e 9) que "E eles dão comida ao pobre, ao órfão e ao cativo por amor a Ele. [Eles dizem:] Só os alimentamos pelo amor de Deus. Não desejamos de você nem recompensa, nem gratidão", enquanto em Mateus (25: 31-46) se lê que, no dia do Juízo, Deus perguntará a cada um o que fizeram por Ele, e esclarece que estava em cada um que teve sede, e não deram água; estava doente, e não foram visitá-lo.
Outras definições religiosas
Para as religiões de matriz africana no Brasil (Umbanda, Candomblé e outras sincréticas), o amor é um dom que fora dado a Oxum pela divindade criadora de tudo, Olodumarê. No Candomblé cada manifestação da natureza torna-se uma área sob domínio de uma figura dos Orixás, divindades que representam energia mas que, no imaginário social, assume formas humanas e seus gêneros masculino e feminino - de tal forma que Oxum será a deusa das águas doces, dona do amor e da fertilidade, personificada numa mulher de fartos seios, corpo escultural e dócil de caráter. Para a construção sincrética do culto a Oxum ela é geralmente reverenciada como Nossa Senhora da Candelária; a sua comida típica é o ipetê, servido em ritual próprio do candomblé.
A discussão filosófica sobre o tema tem início no questionamento da "natureza do amor", levando-se em conta que o sentimento possua mesmo uma natureza (algo que sofre críticas, ao argumento de que o amor é algo irracional - como tal considerado por não poder receber descrições racionais ou de significado). Quando o termo não possui sinônimos no idioma, isto se resolve recorrendo-se aos termos gregos eros, philia e ágape (ver palavras gregas para o amor).
Eros
É comum referir-se a eros (do grego erasthai) como um amor apaixonado e muitas vezes como sinônimo do desejo sexual (do grego erotikos). Mas em Platão este é o sentimento que procura o belo (Fedro, 249 E) e que é algo que nunca será satisfeito até desaparecer - embora todos devamos almejar uma imagem além daquela que temos, contemplando a beleza em si. Eros, assim, se relaciona com a busca da beleza ideal, da verdade; muitos são os que seguem a ideia platônica de que o amor erótico transcende ao desejo físico que, sendo comum aos animais, é inferior do que algo conduzido pela razão. O conceito de Amor em Platão é definido pela scala amoris, na qual o amante se eleva cada vez mais em degraus mais divinos e próximos da Ideia do Belo.
Philia
Enquanto eros abarca desejo, a philia denota não somente amizade, mas a lealdade à família, à comunidade, ao trabalho, etc. Aristóteles (in: Ética a Nicômaco, Livro VIII) explica que é a ação que o agente pratica visando o bem de outro, ao invés de a si próprio; o filósofo exemplifica (in: Retórica, II 4) que "as coisas que fazem a amizade ser o que é: fazer gentilezas, fazê-las sem ser convidado, e não proclamar o fato de tê-las feito".[nota 7] Aristóteles relaciona coisas que a amizade não comporta, como as brigas, fofocas, personalidade agressiva ou injusta, etc. Assim,a pessoa que melhor será capaz de produzir uma amizade, e portanto o amor, é aquela de caráter bom e digno; o homem racional é o mais feliz e, portanto, é capaz de produzir a melhor forma de amizade que, contudo, é muito rara pois supõe uma amizade entre duas pessoas boas, "iguais em virtude". O pensamento aristotélico reflete as amizades baseadas no prazer ou em algum negócio - ao cabo dos quais a amizade se dissolve, sendo portanto de uma menor qualidade; a forma mais elevada de amor, para este pensador, principia no amor a si mesmo pois, sem uma base egoísta, a pessoa não será capaz de estender simpatia e carinho aos demais. Não é algo voltado ao auto-prazer ou imediatista, mas sim fruto da busca pelo nobre e virtuoso; ele vai além, dizendo que um homem virtuoso merece ser amado pelos que lhe estão abaixo, mas não está obrigado a devolver um amor igual - criando assim um conceito elitista ou perfeccionista; a despeito disto, mister haja uma reciprocidade na amizade e no amor, não necessariamente igual (a exceção seria o amor dos pais, que podem envolver um carinho unilateral).
Ágape
Ágape define o amor de Deus para com os homens, e dos homens para com Deus - sendo extensivo também para o amor fraternal a toda a humanidade; envolve elementos de eros e da philia, na medida em que procura por uma perfeição, uma paixão sem reciprocidade. Este conceito foi ampliado na percepção religiosa judaico-cristã, tal como está prescrito em Deuteronômio (6:5): "Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, e de toda a tua alma e com todas as tuas forças". Agostinho de Hipona é um elo entre as ideias platônicas de eros e o ágape, pois como nele tal amor envolve paixão, admiração e desejos, que estão além dos cuidados e obstáculos terrenos. Tomás de Aquino, por sua vez, prende-se a tradição aristotélica da amizade, definindo Deus como o ser mais racional e, por conseguinte, o mais merecedor de amor, respeito e consideração.
Natureza do amor
Além dos conceitos acima, a filosofia se ocupa de várias noções acerca da natureza do amor; assim, uma visão epistemológica do amor envolve a filosofia da linguagem e teorias das emoções: se for meramente uma condição emocional está no âmbito da inacessibilidade por outra pessoa, a não ser pela expressão em palavras; já os emotivistas ponderam que quando alguém afirma estar amando o enunciado independe de outras declarações: é um enunciado não proposicional, sua verdade está além de qualquer exame. Se o amor não possui uma "natureza" que possa ser identificável, podemos contudo questionar se temos a capacidade intelectual para compreendê-lo: o amor pode ser parcialmente descrito, ou insinuado, numa exposição dialética ou analítica, mas nunca compreendido em si mesmo. Neste sentido o amor está na categoria de conceitos transcendentais, aos quais os mortais mal podem conceber em sua pureza, como dizia Platão; deste filósofo derivam ainda outros pensamentos, como aqueles que defendem o ponto de vista em que o amor pode ser compreendido por algumas pessoas, mas não por outras; novamente se hierarquiza o amor - enquanto uns, iniciados, artistas, filósofos, o compreendem na sua pureza, outros possuem apenas a percepção do amor de desejo físico.
Definições dos filósofos modernos
Em Spinoza tem-se que o amor era o elemento que conduz ao mais elevado grau de conhecimento ou seja, para este filósofo do século XVII, o amor leva o intelecto a Deus: segundo ele há três formas de saber - opinião, fé e conhecimento puro. Apenas neste último se percebe Deus - o conhecimento sobre o todo produz o amor verdadeiro, e este amor inevitavelmente leva a Deus. O amor, ainda, é uma força que determina o estado de felicidade ou de tristeza: "a felicidade ou infelicidade consiste somente numa coisa, a saber, na qualidade do objeto ao qual aderimos pelo amor. Para Nietzsche amor e altruísmo são expressões de fraqueza e autonegação e, portanto, são sinais de degeneração; em seu pensamento a busca pelo amor é típica de escravos que, não podendo lutar por aquilo que querem, tentam consegui-lo por meio do amor.
O pensamento político trata o amor a partir de uma gama variada de perspectivas. Assim é que alguns veem o amor como forma de dominação social (onde um grupo - os homens - domina o outro - as mulheres); esta é uma concepção que se revela atraente para as feministas e os marxistas, que veem as relações sociais (e todas as suas variadas manifestações de cultura, língua, política, instituições) como a refletir estruturas sociais mais profundas que dividem as pessoas (em classes, sexos e raças). A seguir um exemplo do que expressaram sobre o amor algumas das grandes correntes ideológicas:
Anarquismo
Numa carta dirigida ao irmão Paulo (Pavel), em 1845, Bakunin declara: Para o anarquismo o casamento, a relação homem-mulher e a família devem ser dessacralizados; a experiência demonstra que monogamia é algo impossível, assim como a fidelidade; o anarquismo prega o amor livre (veja abaixo), onde o desejo vence as leis e os costumes: a pluralidade de afetos é um fato, pois o desejo obedece a uma ordem natural que antecede e está acima de todo mandamento social estabelecido.
Nazismo
No nazismo, uma ideologia e estado nascidos da mente de um único homem - Adolf Hitler - sua ideologia parece toda ela impregnada de seu próprio complexo de Édipo; ali a Alemanha assume a figura da mãe, ao passo que o povo judeu assume da figura do pai sádico - imagem esta que se patenteia na leitura de seu livro Mein Kampf, e também em declarações e escritos de outros líderes. Em sua obra, corroborando esta visão edipiana, Hitler clama por um "amor incondicional à mãe Alemanha"; isto significava, então, usar de todos os meios para protegê-la de ameaças, seja por um lado conquistando aliados para a sua causa, seja de outro imputando inimigos a serem combatidos; neste sentido, a construção individual da anomalia psicológica de Hitler moldou o estado alemão, numa ótica quase infantil que se aproxima do amor cortês, onde "o caráter é mais importante que o nascimento".
Comunismo, socialismo e marxismo
Para analisar o casamento, Friedrich Engels recorre às sociedades por ele ditas "primitivas", servindo-se especialmente das ideias de Lewis Morgan. Sua premissa, portanto, parte da descrição do que Morgan denominou "casamento sindiásmico", de fácil dissolução; vendo o comunismo como modo originário da vida nos estágios iniciais da evolução humana, Engels propõe que o casamento por interesse foi uma invenção dos gregos, e contrário às formas comunistas verificadas originalmente; a monogamia foi um progresso moral que a sociedade experimentou, naquilo que chamou de "o amor sexual individual moderno, anteriormente desconhecido no mundo." Engels ressalva: "Mas se a monogamia foi, de todas as formas de família conhecidas, a única em que se pôde desenvolver o amor sexual moderno, isso não quer dizer, de modo algum, que ele se tenha desenvolvido de maneira exclusiva, ou ainda preponderante, sob forma de amor mútuo dos cônjuges. A própria natureza da monogamia, solidamente baseada na supremacia do homem, exclui tal possibilidade. Em todas as classes históricas ativas, isto é, em todas as classes dominantes, o matrimônio continuou sendo o que tinha sido desde o matrimônio sindiásmico, coisa de conveniência, arranjada pelos pais. A primeira forma do amor sexual aparecida na história, o amor sexual como paixão, e por certo como paixão possível para qualquer homem (pelo menos das classes dominantes), como paixão que é a forma superior da atração sexual (o que constitui precisamente seu caráter específico), essa primeira forma, o amor cavalheiresco da Idade Média, não foi, de modo algum, amor conjugal. Longe disso, na sua forma clássica, entre os provençais, voga a todo pano para o adultério..."
Positivismo
Ideologia que misturava política e religião preconizada por Auguste Comte no século XIX, o positivismo trazia por lema "o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim"; a visão do amor, contudo, era intimamente ligado à produção de indivíduos comprometidos com o estado e a sociedade nos moldes de suas ideias e não, propriamente, ao sentimento; neste sentido, por exemplo, à mulher cabia o papel de amar e educar os filhos para servir à comunidade, amar os semelhantes e, finalmente, o amor aos superiores - tudo voltado para a manutenção da ordem, em total submissão ao marido e ao estado; de igual forma as crianças deveriam ser educadas para o patriotismo, a moral e o caráter, sendo peça chave o amor à pátria.
Para a sociologia o amor tem interesse na medida em que é um dos motivos para a constituição da família, do casamento; dentre as teorias destaca-se a de Franz Müller-Lyer que indicou como principais motivos para a união matrimonial: a necessidade econômica, o desejo de procriar e o amor - evoluindo estes motivos das sociedades mais primitivas, passando pelas antigas, até a sociedade moderna onde a mais importante razão da união familiar está no amor. Para Stevi Jackson a institucionalização do amor no casamento e sua representação na ficção romântica têm sido o foco de atenção considerável por estudos da sociologia e do feminismo, enquanto o significado cultural do amor como uma emoção tem sido negligenciado. Arlie Russell Hochschild, contudo, é uma das que procuraram consolidar os estudos da sociologia das emoções como um novo campo dentro desta ciência social; para ela o mundo evoluiu com base em dois códigos emocionais - o masculino e o feminino; o primeiro foi dominante e assimilado pelas mulheres que, em contrapartida, encontram os homens ainda a demorar a assimilar as regras do código feminino. Isto resulta numa situação em que as mulheres trabalham, os companheiros também ficam longe de casa e os idosos cuidam de si mesmos ou são entregues a cuidados comerciais: um cenário onde o capitalismo acabou por competir também com a família (especialmente no tradicional papel de mãe e esposa), tornando-a cada vez mais mínima. Neste contexto, o amor acaba sendo diminuído nas relações: a intimidade nos tempos atuais está distante de representar o relacionamento puro e o amor, nas relações entre os gêneros.
Erich Fromm faz uma crítica sobre a percepção de Freud sobre o amor, que para este seria uma mera expressão, ou sublimação, do ato sexual; em sua linha materialista fisiológica, o erro de Freud se aprofunda, segundo ele, ao ver no instinto sexual uma tensão química endógena dolorosa, que busca alívio; o sentimento então, tal qual necessidades fisiológicas como sede ou fome, leva o indivíduo a buscar o alvo do desejo sexual para a remoção dessa tensão incômoda e, enfim, à satisfação sexual, quando o consegue - onde a masturbação seria o ideal dessa saciedade. Embora a importância dada ao sexo por Freud tenha sido objeto de muitas críticas, Fromm assinala que isto foi necessário para a sociedade de 1900, mas já estava superado cinco décadas depois; e que a maior falha do criador da psicanálise foi, ao contrário, não compreender o sexo com a profundidade necessária. Jung dizia que "o amor é como Deus: ambos só se oferecem a seus serviçais mais corajosos."
A visão tradicional é de que o amor não está afeito ao Direito ou aos fatos jurídicos. Numa célebre decisão do Ministro do Superior Tribunal de Justiça brasileiro, Ruy Rosado de Aguiar, este cita uma passagem onde dois grandes nomes da ciência jurídica do século XX se debateram, concluindo: Num claro exemplo do alheamento do amor pelo direito tem-se que as constituições modernas não o citam, com exceção da controversa Constituição da Hungria, promulgada em 2012, em cujo preâmbulo se diz "Nós sustentamos que a família e a nação constituem a base estrutural de nossa coexistência e que os valores fundamentais de coesão consistem na fidelidade, na fé e no amor." Pensamento diverso pode ser encontrado, a exemplo do que defende o jurista Bernardo M. Varjão de Azevêdo para quem a dissociação do amor ao direito decorre da visão predominantemente juspositivista e que, para ele, este sentimento é o fundamento da própria ciência jurídica; há, também, o jurista Luís Alberto Warat, que entende o próprio direito como "expressão do amor".
Algumas peculiaridades culturais sobre o amor:


