Anarcocomunismo
Anarcocomunismo é uma vertente do anarquismo que advoga por uma sociedade sem classes, sem Estado e sem propriedade privada dos meios de produção, na qual os frutos do trabalho seriam distribuídos de acordo com as necessidades de cada indivíduo, de acordo com a máxima: "de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades".
O anarcocomunismo, como conceito e modelo, sugere um tipo de sociedade sem Estado, sem classes e sem propriedade privada dos meios de produção. Nessa sociedade, o trabalho seria realizado de acordo com as capacidades de cada indivíduo e seus frutos seriam distribuídos de acordo com as necessidades de cada um — modelo expressado na máxima "de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades". Teoricamente, não existe nenhuma diferença substancial entre a ideia de comunismo defendida pelos anarquistas daquela que é adotada pelo marxismo (exceto nessa questão da existência de um Estado totalitário). Apesar das discordâncias em torno da transição do capitalismo para o comunismo, anarquistas e marxistas compartilham desse mesmo conceito. Os termos "anarquismo comunista" ou "anarcocomunismo" são geralmente usados para se referir aos anarquistas que defendem a ideia de que na sociedade futura os frutos do trabalho devem ser distribuídos de acordo com as necessidades de cada indivíduo. Por vezes, no entanto, tais termos aparecem na literatura acadêmica e militante em contraste com anarcossindicalismo e o sindicalismo revolucionário. Segundo essas interpretações, o anarcocomunismo seria caracterizado pela oposição aos sindicatos e pela adoção de posições insurrecionalistas, contrárias ao anarcossindicalismo e o sindicalismo revolucionário, considerados reformistas. Ainda que em alguns contextos nacionais anarquistas antiorganizacionistas tenham se declarado enquanto anarcocomunistas para marcar sua oposição aos anarcossindicalistas e sindicalistas revolucionários, muitos anarquistas geralmente classificados como anarcocomunistas — entre eles Piotr Kropotkin e Errico Malatesta — defenderam a participação dos anarquistas nos sindicatos, bem como a maioria dos anarcossindicalistas e sindicalistas revolucionários tinham o anarquismo comunista no horizonte de sua luta. Kropotkin promoveu o sindicalismo e acreditava que os sindicatos revolucionários eram "absolutamente necessários", enquanto Malatesta descreveu o sindicato como "o melhor dos meios" para alcançar a transformação social. A anarcossindicalista Federación Obrera Regional Argentina (FORA), por sua vez, recomendava em seu V Congresso a propaganda dos "princípios econômicos e filosóficos do anarquismo comunista".
A história do anarquismo comunista pode ser entendida como a história de um conceito, assumido por diversos anarquistas em contextos distintos. Inicialmente, o movimento anarquista era predominantemente coletivista. O coletivismo se diferenciava do comunismo na medida em que defendia que a distribuição dos frutos do trabalho deveria se dar de acordo com o trabalho realizado. Os primeiros anarquistas interpretaram o comunismo como parte de uma tradição estatista e autoritária, representada por Étienne Cabet, Wilhelm Weitling e Karl Marx. Mikhail Bakunin afirmou ser contrário ao comunismo, pois ele necessariamente levaria à centralização da propriedade coletiva nas mãos de um Estado. O coletivismo, para ele, permitiria que os trabalhadores pudessem usufruir completamente dos frutos de seu trabalho, sem que fossem apropriados por um capitalista ou por um Estado centralizado, permitindo que a organização da sociedade e da propriedade coletiva se desse de baixo para cima, por meio da livre associação. Até meados da década de 1870, a maior parte dos anarquistas abraçaram o coletivismo. O coletivismo, no entanto, implicava algum tipo de sistema de salários baseado na moeda ou em troca de mercadorias, além de algum tipo de diferença de remuneração entre as pessoas. No sistema coletivista, segundo James Guillaume:
A abolição do trabalho assalariado é fundamental para o comunismo anarquista. Com a distribuição da riqueza baseando-se em necessidades autodeterminadas, as pessoas seriam livres para se envolver em qualquer atividade que elas achassem mais gratificante e não mais precisassem se engajar em trabalho para o qual não têm nem o temperamento nem a aptidão. Os comunistas anarquistas argumentam que não há uma maneira válida de medir o valor de todas as contribuições econômicas de uma pessoa porque toda riqueza é um produto coletivo das gerações atuais e anteriores. Por exemplo, não foi possível medir o valor da produção diária de uma fábrica, sem levar em conta a forma como transporte, alimentação, água, abrigo, relaxamento, eficiência da máquina, humor emocional, etc. contribuíram para a produção. Para realmente dar valor econômico numérico a qualquer coisa, uma grande quantidade de externalidades e fatores contribuintes precisariam ser levados em consideração - especialmente o trabalho atual ou passivo contribuindo para a capacidade de utilizar mão-de-obra futura. Como disse Kropotkin: "Não se pode traçar distinção entre o trabalho de cada homem. Medir o trabalho por seus resultados nos leva ao absurdo, dividir e medi-los por horas gastas no trabalho também nos leva ao absurdo. Uma coisa permanece: colocar as necessidades acima das obras e, em primeiro lugar, reconhecer o direito de viver e, mais tarde, o conforto da vida, para todos aqueles que tomam sua participação na produção ... "
A comuna como uma democracia econômica
O anarcocomunismo tem criticado um simples apelo à propriedade dos trabalhadores dos locais de trabalho e sua administração como cooperativas. Embora não seja um problema com a organização, como é uma técnica, uma solução para a visão do anarcosindicalismo como uma teoria, que vê uma economia pós-capitalista por federações de sindicatos industriais. Em vez disso, o anarcocomunismo propõe a sociedade futura organizada territorialmente através de comunas livres (localidades), em vez de industrialmente através de sindicatos de trabalhadores (sindicatos). Cada comuna é percebida como uma unidade político-econômica integrada, eliminando uma distinção entre trabalho e comunidade, além de existir como parte de uma confederação comunal mais ampla composta por outras comunas autônomas, unidas a través de acordos contratuais voluntários. Isso é visto como superando o centrismo econômico de formas mais "trabalhadoras" de socialismo que se concentram apenas não local de trabalho como um site de luta.
Sistema penal
Piotr Kropotkin, realizou trabalhos no qual contribuiu para áreas da criminologia, para ele, as leis não diminuíam o crime, conseguiam apenas evitar o pensamento crítico das pessoas, além de manter o poder e os privilégios na classe dos capitalistas e no Estado. Enquanto a prisão, por mais que fosse reformada, apenas conseguia eliminar as qualidades humanas do indivíduo e tornar o indivíduo menos socializado, mais marginalizado e adaptado à vida criminosa. Portanto, o sistema penal institucionalizado e Estatal deveria ser abolido pela revolução anarquista que formaria uma sociedade igualitária. Sem a defesa da propriedade privada para alguns e a negação do acesso a ela para outros, não se despertaria o egoísmo nas pessoas, a tendência humana do apoio mútuo refloresceria, problemas seriam resolvidos com cooperação, porém o mesmo acredita que com tais aspectos minimizariam os crimes, mas reconhece que ainda poderia ocorrer, então como citado em seu livro "A conquista do pão" propõe uma organização voluntária, formando um tribunal, no qual seriam votadas diretamente as sentenças. Exemplos análogos são encontrados dentro das primitivas tribos humanas, das antigas comunidades rurais e das modernas associações industriais.
Livre associação de comunas em oposição ao Estado-nação
O anarcocomunismo exige uma forma confederal nas relações de ajuda mútua e livre associação entre comunas como alternativa ao centralismo do Estado-nação. Peter Kropotkin sugeriu assim que: "O governo representativo realizou sua missão histórica; deu um golpe mortal ao tribunal; e por seus debates despertou o interesse público em questões públicas. Mas para ver nele, o governo da futura sociedade socialista cometeu um erro grosseiro. Cada fase econômica da vida implica sua própria fase política; e é impossível tocar a própria base da vida econômica atual - propriedade privada - sem uma mudança correspondente nas próprias bases da organização política. A vida já mostra em que direção a mudança será feita. Não aumentando os poderes do Estado, mas ao recorrer à organização gratuita e à federação gratuita em todos os ramos que agora são considerados atributos do Estado."


