Seriado
Seriados, cinesseriados, filmes em série ou seriados cinematográficos são filmes sequenciais, com um número limitado de episódios curtos, perfazendo no total uma história completa, que eram apresentados nos cinemas da primeira metade do século XX.
Entre 1908 e 1920, o cinema se desenvolveu através dos chamados filmes em série ou seriados, que se tornaram a grande atração das casas de projeção. Essa inovação não era, porém, uma criação do cinema, pois na época, em especial na França, eram populares os fascículos quinzenais com histórias policiais e de aventuras, os quais se espalharam pela Europa. Foi na França, portanto, que o seriado surgiu, com Nick Carter, le roi des détectives, em 1908, baseado nos fascículos do detetive Nick Carter, sob direção de Victorin Jasset, diretor cheio de imaginação que muitas vezes improvisava o roteiro durante as filmagens. Mediante o sucesso da série, várias imitações foram feitas na Europa, tais como Raffles e Sherlock Holmes na Dinamarca, e Nick Carter na Alemanha. Em 1910, foi realizado o seriado Arsène Lupin Contra Sherlock Holmes, drama alemão em 5 capítulos, dirigido por Viggo Larsen e baseado em Arsene Lupin Contre Sherlock Holmes, de Maurice Leblanc.
Cinema mudo
Alguns dos mais famosos seriados estadunidenses do cinema mudo foram The Perils of Pauline, de 1914, e The Exploits of Elaine feitos pela Pathé e estrelados por Pearl White. Outro seriado popular da época, com 119 episódios, foi The Hazards of Helen pela Kalem Studios e estrelando Helen Holmes nos primeiros 48 episódios e Helen Gibson nos demais. Grandes estúdios os produziam, entre eles Vitagraph Studios, Essanay Studios, Warner Bros., Fox, e Universal Studios. Algumas companhias independentes, tais como Mascot Pictures, fizeram seriados de Western. Foram feitos quatro seriados mudos de Tarzan. A Europa também produziu alguns, em especial a França, com Judex e Les Vampires, e a Alemanha com Homonculus.Judex inspirou Ravengar, personagem do seriado franco-americano The Shielding Shadow, produzido pela Pathé e lançado no mesmo ano.
Cinema sonoro
Com o advento do cinema sonoro, a Grande Depressão tornou difícil a sobrevivência das pequenas companhias cinematográficas. A Mascot Pictures e a Universal Pictures foram algumas das poucas que suportaram a transição do cinema mudo para o sonoro. Nos anos 30, algumas companhias independentes tentaram fazer seriados. Em 1937, o grande sucesso da Universal Pictures foi Flash Gordon, e no mesmo ano foi criada a Republic Pictures, que envolveu a absorção da Mascot Pictures, de forma que, em 1937, a produção de seriados estava nas mãos de apenas três companhias: Universal Pictures, Columbia Pictures e Republic Pictures, com a Republic alcançando a liderança na qualidade das produções. Cada companhia fazia quatro ou cinco seriados por ano, entre 12 e 15 episódios cada. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1946, a Universal transferiu sua unidade de seriados e foi renomeada como Universal-International Pictures. A Republic e a Columbia continuaram sua produção, ambas com quatro seriados por ano. A Republic fixou os seriados em 12 capítulos, e a Columbia em 15.
No Brasil
Os seriados alcançaram grande popularidade no Brasil, e a Universal Pictures foi a primeira distribuidora de companhia americana a instalar seu escritório em terras brasileiras. A partir de 1915, com a exibição, em São Paulo, de A rapariga misteriosa (Lucille Love, Girl of Mystery), produção de 1914, sob direção de Francis Ford, houve grande influência do estilo estadunidense de seriados na produção de filmes. A influência desses seriados na produção cinematográfica brasileira torna-se evidente ao analisar os filmes produzidos na época. De acordo com Luciana Araújo, os seriados norte-americanos produzidos entre meados dos anos 1910 e início da década seguinte constituíram um fenômeno de popularidade em diversos países, inclusive no Brasil, onde o entusiasmo pelo gênero se prolongou ao longo da década de 1920, graças às constantes exibições que os filmes continuavam a ter, especialmente nos cinemas de bairro e do interior.
Segundo William C. Cline, de um seriado deveriam constar os seguintes ingredientes: um herói, que defendesse a verdade e a justiça, e com o qual o público se identificasse; um ajudante do herói; uma heroína, “bonita e vulnerável”; um vilão e seus capangas; um prêmio pelo qual todos lutassem, e os perigos, “destrutivamente mortais e inescapáveis”. Ainda segundo Cline, um bom seriado apresentaria um mistério envolvendo o herói ou o vilão, cuja identidade secreta seria revelada apenas no último episódio. Outra característica seria uma relação estreita com as histórias em quadrinhos, com pouco diálogo e muita ação. As cenas de briga eram os “pontos altos dos filmes”, eram filmadas de um plano geral, o sangue era quase inexistente, e o herói saía incólume da briga. Os chapéus eram amarrados nas cabeças por elásticos, para que os dublês não fossem reconhecidos durante a cena, daí o fato de os chapéus nunca caírem.
Diversos clichês eram usados nos seriados, para garantir seu sucesso. Um dos mais comuns era o instante final do episódio, quando muitas vezes o herói ficava à mercê do perigo: à beira de um precipício, atropelado por uma tropa de cavalos, inconsciente dentro de um carro rumo ao abismo, ao lado de um barril de dinamite prestes a explodir, entre outros perigos, numa situação que ficou conhecida no cinema como cliffhanger. Muitos filmes, posteriormente, utilizaram tais clichês para prender a atenção e o interesse do público. Um exemplo é o popular Indiana Jones dos filmes atuais, que utiliza uma série de clichês comuns em seriados antigos.
A. C. Gomes de Mattos destaca os principais mocinhos (ou “daredevils”) dos seriados mudos: Charles Hutchison, Eddie Polo, William Duncan, William Desmond e Joe Bonomo, além de: Ben F. Wilson, Walter Miller, Jack Dougherty, Elmo Lincoln, Art Acord, Cullen Landis e Antonio Moreno. Houve quem se dividisse entre a atuação, a direção e a produção, tais como Francis Ford, George B. Seitz e William Duncan. Walter Miller foi um dos principais atores de seriados da era do cinema mudo, atuou em 248 filmes, e entre eles mais de 20 seriados. O austro-americano Eddie Polo, apelidado de Hercules of the Screen (“Hércules das Telas”), atuou em 77 filmes, entre eles pelo menos 13 seriados. William Duncan, além de ator, foi escritor e diretor de cinema, atuando em 171 filmes, dirigindo 88 e escrevendo 46, dentre eles pelo menos 10 seriados. O irlandês naturalizado estadunidense William Desmond, apelidado The King of the Silent Serials (Rei dos Seriados Silencioso), teve entre os seus 205 filmes vários seriados. Elmo Lincoln, considerado o primeiro Tarzan do cinema, entre seus 80 filmes teve vários seriados. Francis Ford, irmão de John Ford, além de ator, foi diretor e escritor de seriados. O roteirista, diretor e produtor cinematográfico George B. Seitz também atuou em seriados.
Desde o primeiro seriado estadunidense, What Happened to Mary, realizado pelo Edison Studios em 1912, apresentando Mary Fuller no papel de Mary, heroína envolta em várias aventuras, o status feminino de donzela em apuros se tornou um dos clichês da forma serial, contribuindo para aumentar a tensão e a curiosidade diante dos cliffhangers apresentados como recurso essencial na tentativa de prender a atenção do público para o próximo episódio. As heroínas se expunham a diversos perigos e armadilhas, escapando milagrosamente e das formas mais inusitadas, conquistando o público com sua coragem e perseverança no caminho considerado politicamente correto. Destacaram-se, em especial no cinema mudo, algumas estrelas que foram consideradas “rainhas dos seriados”, cujo nome no cartaz do filme era capaz de levar multidões ao cinema.
Um dos elementos mais importantes dos seriados foi a presença dos dublês. Os dublês eram, na verdade, os grandes criadores da emoção dos seriados, no planejamento e execução das cenas e sequências perigosas. No início do cinema, muitos atores e atrizes faziam eles mesmos as cenas perigosas, o que, por diversas vezes, ocasionou lesões e ferimentos graves a ponto de comprometer as filmagens. Helen Holmes, por exemplo, no seriado The Hazards of Helen, de 1914, fez ela mesma muitas de suas cenas. Pearl White, intérprete de seriados como The Perils of Pauline e The Exploits of Elaine, acredita-se que tenha abusado da bebida alcoólica, através dos anos, possivelmente devido às dores crônicas causadas pelos acidentes de filmagens, nas quais ela mesma fazia as cenas perigosas. Na medida em que as estrelas dos filmes se tornaram reconhecidas e, por conseguinte, caras e vitais para as produções, iniciou-se o processo de substituí-los por dublês em cenas consideradas perigosas.
Vários estúdios se tornaram célebres devido ao advento dos seriados, investindo em sua produção e tornando-os especialmente rentáveis frente ao grande sucesso, através de fórmulas simples para prender a atenção do público, tais como o uso do cliffhanger, o maniqueísmo vilão x herói, e a caracterização dos personagens de forma caricata e arquetípica, recursos esses que foram largamente usados por alguns estúdios, e que funcionaram especialmente na era do cinema mudo, mediante o entendimento mais fácil e menos elaborado da trama. Alguns estúdios não alcançaram o sucesso desejado, e fizeram apenas uma investida nos seriados, tais como a Paramount Pictures, em 1917, que distribuiu apenas um seriado, Who is Number One?, um suspense em 15 capítulos, na verdade produzido por uma pequena empresa, a Balboa Amusement Producing Company. A Paramount não tornou a investir em seriados. A Fox Film Corporation, fundada por William Fox em 1915 e que em 1935 se uniria com a Twenty Century Pictures, fundada em 1933, e formaria a 20th Century Fox, lançou apenas dois seriados, em 1920.
Muito do cinema mudo estadunidense foi perdido, e mesmo dos filmes sonoros, a partir de 1927-1950, talvez metade tenha sido perdida. De alguns seriados do início do Século XX apenas restaram fragmentos ou alguns capítulos, preservados em acervos particulares, públicos ou da Library of Congress. Nos anos que precederam o cinema sonoro, estima-se que 80 a 90% dos filmes se perderam, pois na primeira metade do Século XX eram feitos à base de nitrato, que era instável, altamente inflamável, e requeria técnicas de conservação para que não se destruíssem com o tempo. Muitos desses filmes não foram conservados, apenas alguns foram reciclados, e esse fato faz com que a conservação dos filmes encontrados seja uma prioridade entre os historiadores. Embora se saiba que muitos filmes mudos jamais serão recuperados, muitos foram descobertos em arquivos de filme ou coleções particulares. Em 1978, em Dawson City, Yukon, um trator descobriu enterradas bobinas de filme de nitrato durante a escavação de um aterro sanitário. Dawson City fora o fim da linha de distribuição de muitos filmes. Os títulos foram armazenados na biblioteca local até 1929, quando foram usados como aterro em uma piscina. Armazenados durante os anos 50, os filmes acabaram sendo bem preservados. Havia filmes de Pearl White, Harold Lloyd, Douglas Fairbanks e Lon Chaney, Sr. Esses filmes agora estão sob os cuidados da Biblioteca do Congresso.
A influência dos seriados no cinema é indiscutível, não apenas na produção cinematográfica estadunidense, como também mundial, ao longo do século XX, estendendo-se aos tempos atuais. Alguns seriados tiveram transformadas suas características estilísticas e técnicas em um atributo da história do cinema. Um exemplo é o seriado francês Fantômas, realizado entre 1913 e 1914, sob direção de Louis Feuillade, que apresentava o personagem Fantômas, criado por Marcel Allain (1885–1969) e Pierre Souvestre (1874–1914). Fantômas fora criado em 1911 e apareceu em 32 livros escritos em colaboração dos dois autores; após a morte de Souvestre, Allain escreveu mais 11 volumes da série. O seriado Fantômas tem sido considerado um dos modelos inspiradores do seriado estadunidense inicial. Outro seriado mudo francês, Les Vampires, também conhecido como The Mysterious Saga, escrito e dirigido por Louis Feuillade, e que veiculou irregularmente nos cinemas entre 1915 e 1916, tem sido referenciado como tendo criado o gênero de thriller de crime, criando técnicas de suspense cinematográfico, usadas mais tarde por Alfred Hitchcock e Fritz Lang. Ele também é referenciado com inspirador de cineastas experimentais Luis Buñuel, e diretores franceses da New Wave, como Alain Resnais e Georges Franju. Tem sido considerado por alguns como o primeiro exemplo de um filme de gângster. Les Vampires não se refere, na verdade, a seres mitológicos, como seu nome sugere, principalmente enfocando um dos líderes das gangues, Irma Vep (interpretada por Musidora), cujo nome é um anagrama de vampire. Estilisticamente, o filme é feito em forma de pulp fashion, sendo realizado de forma rápida e pouco dispendiosa, com roteiro curto. Apesar de ter sido extremamente impopular na época de seu lançamento, devido a sua má qualidade em comparação com outros filmes e pela sua moralidade duvidosa, Les Vampires alcançou grande sucesso com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, transformando a atriz Musidora em uma estrela do cinema francês. Aos poucos, o filme ganhou a aclamação da crítica e a compreensão, e agora é sem dúvida o trabalho mais conhecido e reverenciado de Feuillade. Les Vampires foi incluído no livro 1001 Movies You Must See Before You Die. Em maio de 2012, seu escore era 7.2 no IMDB e no Rotten Tomatoes ele alcançou uma avaliação de 100%, indicando Fresh.


